A mulher com o cabelo mais bonito do mundo

por André

Não importa quantos anos passem, aquela cena continuará nítida na memória. Como se, a ferro e fogo, imprimissem uma marca na mente incapaz de ser apagada e tampouco esquecida. Eu não sei quem era aquela mulher, seu nome, idade ou de onde era. Mas aquele encontro ficaria marcado e por muito tempo a expectativa de revê-la me acompanhou.

Era tarde de maio e eu estava na livraria que costumo frequentar. Como de hábito, folheava as novidades literárias espalhadas pelos corredores e seções que o espaço apertado dela me oferecia. Sempre gostei da calma do local e me permitia perder horas ali, que me servia como uma espécie de refúgio de toda correria que a cidade impõe.

Naquele dia chovia torrencialmente e os passantes buscavam um lugar para se abrigar da tempestade. Acostumado à presença silenciosa dos livros, me senti incomodado com o burburinho das pessoas atrapalhando a minha atenta tentativa de leitura. Profanavam meu templo e o meu ritual semanal. Para fugir das pessoas que falavam insistentemente, procurei as fileiras mais afastadas da porta até achar alguma coisa que realmente prendesse minha atenção.

Folheava um livro qualquer até ouvir o irritante barulho do que parecia ser um salto martelando o piso de madeira. Fixei os olhos nas páginas sem ler nada. Apenas queria escapar daquele ambiente caótico que se formara por conta da chuva. Senti que a mulher parou ao meu lado, mas não fiz questão de olhar. Resolvi, então, colocar o livro na prateleira e sair dali.

Ao virar o corpo para me dirigir até o corredor seguinte, me deparei com a mulher que ficaria marcada na minha memória até hoje. A mulher com o cabelo mais bonito do mundo. Não me recordo quanto tempo fiquei parado admirando aquelas melenas castanhas. Cinco, seis, dez minutos? Não saberia dizer, mas acabei me dando conta da situação e fui para outra prateleira observá-la sem que pudesse ser notado.

Meu olhar atônito acompanhava atento cada movimento que os fios faziam em cada movimento dela na sua procura por livros nas prateleiras mais altas. Eu fui testemunha ocular da mulher que levava a poesia cativa nos cabelos. E a partir daquele momento e daquele dia, levaria minha atenção, minha razão e durante um bom tempo meus pensamentos. Diante de tal situação, o que fazer? Eu não sabia, mas olhar já não me bastava mais. Eu queria sentir, cheirar, tocar…

Resolvi dar a volta e chegar mais perto para, quem sabe, sentir o cheiro ou esbarrar nela. Os corredores são apertados, eu teria uma desculpa. Eu era um alucinado e mendigava qualquer migalha que a circunstância pudesse me oferecer.

Não consegui. Ao me aproximar, por capricho do destino ou maldade dela, a vi colocar o livro cuidadosamente na prateleira e se dirigir para a saída. Fiquei sem reação. Não era possível que aquela seria a última vez. Poderia ter saído da livraria e ido atrás dela, mas a sua partida me deixou tão sem reação como quando a avistei.

Fui até onde ela estava e busquei o livro que lia. Peguei-o e passei página por página, tateava folha por folha e era como se tocasse aqueles cabelos. Aproximei as páginas do nariz e procurei sentir o seu cheiro. Hoje até acho que o que sentia era o cheiro de novo do livro, mas na época e até hoje consigo recobrar, sentia perfeitamente aquele perfume. O cabelo mais cheiroso do mundo.

Eu precisava guardar aquela prova, aquele documento. Me dirigi rapidamente até o balcão e resolvi comprá-lo. Aquela relíquia seria minha. Atordoado corri para casa com o livro nas mãos protegendo-o da chuva que já deixara de cair com violência. Sentado na cama, era um lunático. Cheirava-o insistemente procurando sentir naquelas páginas algo que me recobrasse aquela sensação única que vivi naquela tarde. Não me importava de quem era o livro ou o que nele continha. Importava era a sensação que ele me despertava.

Passei o resto da tarde e boa parte da noite naquele ritual até pegar no sono. Na manhã seguinte repeti tudo novamente até resolver ir para livraria à tarde tentar reencontrá-la. O local me despertava lembranças e os livros eram testemunhas que gritavam a minha angústia. Passei muito tempo repetindo essa rotina em vão. Foi então que percebi que aquilo fora obra do acaso e que me restava apenas me conformar.

Aquela mulher levaria não mais apenas a poesia cativa nos cabelos como eu já intuíra. A partir de então levaria também o meu lembrar…

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17 comments so far

  1. on

    “Como esses primitivos que carregam por toda parte o maxilar inferior de seus mortos, assim te levo comigo, tarde de maio…” Drummond

    o texto não ficou lá como eu esperava, mas já estou há tanto tempo sem postar que preferi publicá-lo logo. ;)

  2. Luiz Pedro on

    Essas obsessões que mulheres aleatorias nos provocam é perturbador. Me sinto culpado, quase um tarado, quando penso nessas loucuras de querer a qualquer custo cheirar ou tocar uma mulher, mesmo que seja esbarrando. É meio que uma tentativa de sentir que há realidade naquilo tudo e que não se trata de nenhuma alucinação ou manifestação do sobrenatural.

  3. on

    e se a gente for parar pra pensar, só encostar parece uma coisa tão idiota. Só que na hora faz todo o sentido e acaba sendo imprescindível pra completar a sensação da experiência.

  4. Karen on

    Adorei o texto, Dé!!!!! Vc sempre escrevendo tão bem… =) Incrível como consigo vivenciar as situações que vc descreve. Parabéns! Beijos!!!

  5. Ellen on

    Dé não preciso nem dizer que adorei seu texto né?! Faço minhas as palavras da Karen, parece que somos os personagens de seus textos. Parabéns amigo!

  6. Fernanda on

    O texto é maravilhoso.
    Para muitos seria algo tão “anormal” alguém escrever sobre uma situação que envolvesse cabelo de uma forma tão apaixonante.
    Lembrei de alguns fatos que aconteceram comigo…

  7. on

    ah, Fernanda. Agora diga pra gente que fatos foram esses, se não for muito inconveniente de minha parte. Fiquei curioso. rs
    :P

    • Fernanda on

      Hhahahha curioso!
      Então já admirei coisas tão “comuns” ou até “estranhas”,mas fico um pouco contrangida para dizer. :)

      • on

        tudo bem, tudo bem. Vou ficar com aquilo que a gente, normalmente, tem de melhor: a imaginação. ;)

  8. Fernanda on

    Hhahahahha.
    Me senti uma bruxa agora.

    • on

      e olha que nem foi a minha intenção. Isso aí já é por conta da sua imaginação. Aguardo sua leitura no texto seguinte que já publiquei. ;)

  9. diana on

    o cabelo e bonito mas amulhe pareçe, uma bruxa diana 11 anos,sao paulo

  10. dislaine on

    o cabelo e bonito,mas o meu e melho,dis 13 anos

  11. Melissa on

    Faltou dizer o nome da Mulher

    • on

      ah, mas o nome faz parte do mistério. Isso é trabalho da imaginação. rs

  12. Carolina on

    que lindo

  13. lara on

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk o que


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