Aula de Português

por André

O poema era Aula de Português, de Carlos Drummond de Andrade, e após a leitura do texto, perguntei ansioso aos meus alunos se eles haviam gostado. As respostas foram quase unânimes: o poema era chato, ruim e difícil de compreender. Pacientemente, expliquei que a beleza ou a qualidade de uma obra de arte não depende necessariamente do nosso gosto pessoal e que muitas vezes não gostávamos das coisas simplesmente por não compreendê-las. Foi então que comecei a analisá-lo estrofe por estrofe, verso por verso, palavra por palavra. Após exaustivas explicações e acompanhar o olhar surpreso de alguns ao desnudar o texto, mostro que o poema nem era tão difícil assim. Eles concordam, mas um aluno, do alto da sua sinceridade, solta do fundo da sala:

– Professor, mas ele continua chato.

O Português, como disse Drummond, são dois; o dos meus alunos por muitas vezes é mistério.

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Crônica de um João

por André

João é nome comum. Talvez porque seja fácil de pronunciar. João. J – o – ã – o. Quatro letras, uma consoante e três vogais. João é nome próprio de quem faz sucesso, há uma incontável lista de homens brilhantes que portam esse mesmo baluarte. O discípulo mais amado, foi nome de presidente também, de escritor famoso. João é nome de anônimo, joão é nome de uma multidão sem rosto. Garrincha costumava chamar os seus desafortunados marcadores de João. Pobres joões!

João é um nome tão importante e ao mesmo tempo tão popular que encabeça algumas expressões pejorativas bastante correntes no português. Dar uma de joão-sem-braço é arrumar uma desculpa esfarrapada pra qualquer situação onde lhe é cobrado um compromisso. Já ser um joão-ninguém é não gozar de qualquer importância perante a sociedade. Ou seja, do universo de mais de 390 mil palavras de que dispomos no português brasileiro, arrisco a dizer que não haja palavra mais importante.

João pode ser uma criança também. E se for criança, encerra todas as contradições listadas acima e mais um caminhão de outras. O celebrado João, hoje, no seu dia, é a criança mais amada dentre uma multidão de joões. Grande João, que mesmo tão pequeno, ocupa uma família inteira atrás das suas artimanhas pra nos final das contas arrumar uma desculpa esfarrapada com seu sorriso de menino travesso. Mas se eras tão ninguém, João, por que cativas todo mundo?

Caminhada

por André

A mão pousada sobre a nuca enquanto andávamos pela rua era uma forma de demonstrar carinho. A mão e a nuca são duas partes do corpo anatomicamente projetadas para dar certo. Dentre outros pares, se pudéssemos extrair um casal para o corpo do homem e da mulher, estariam lá, entrelaçadas, mão e nuca, como as pernas que se aninham na cama nos dias frios de inverno. Quando mãos e dedos se armam em forma de concha, são eles que tomam a iniciativa de puxar e aproximar as bocas – os olhos também são cúmplices, falemos a verdade -, ou de dar um carinho sutil ou ainda de guiar a passos firmes numa caminhada incerta pela cidade.

Assim como castigava, o veranico de maio me brindava com o seu colo caprichosamente coberto por finas alças de uma blusinha preta de algodão. Uma leve marca de biquíni, que lembro bem você não gostava, dividia espaço com as contáveis sardinhas do seu ombro. Onde estávamos? Era o cruzamento da Avenida Presidente Vargas com a Avenida Rio Branco ou das incontáveis vezes que nossos olhos se encontravam? Como crianças que se encantam com um primeiro olhar, descobríamos juntos cada canto da cidade esquecido no dia a dia. Éramos dois, mão e nuca, a vagar entre pernas e braços que se confundiam na tropelia da cidade.

Uma tarde inteira não era suficiente, talvez tampouco uma vida. A verdade é que o tempo e a distância são relativos só quando querem. Explico. Uma tarde quente em uma sala de aula é eterna, o tempo de um beijo numa esquina movimentada também. Ouso dizer que o beijo, ainda que leve poucos segundos, é menos suscetível à brevidade do tempo, pois estará comigo para sempre na memória. E as mãos, que outrora se refugiavam no pescoço, tomaram costas e cintura para, por fim, segurar a cabeça e despedir com um beijo carinhoso na testa. Mesmo que não haja dia seguinte, talvez reste a ansiedade por um reencontro. Estaremos aqui: firmes e obedientes como um folião que espera pelo carnaval para atropelar as tristezas acumuladas no ano.

Crônica das coisas pequenas

por André

Eis uma crônica que quero escrever há bastante tempo, mas a força do comodismo e da falta daquilo que chamo de inspiração sempre me obrigam a adiá-la. Como me sinto no compromisso de encerrar um ciclo – ainda que ele nem tenha existido –, povoo o papel com palavras na esperança que um outro se inicie.

A gente demora muito tempo pra perceber daquilo que a gente gosta. Poderá haver quem leia isso e pense imediatamente numa morena de corpo escultural, cabelos caindo pelo rosto e desenhando uma beleza impecável. Certamente alguém se lembrará da conta bancária apta a realizar qualquer travessura que uma infância pobre tenha lhe negado, talvez da sua casa de praia em Angra dos Reis comprada com o fundo de garantia após 35 anos de serviços prestados ou daqueles momentos que passou ao lado da família num final de semana com feriado prologando. Me vem à memória, assim como me parece intrigante e emblemática, a teoria de que o homem possui duas almas, como Machado de Assis escrevera brilhantemente em O Espelho.

Digo isso porque só agora consigo ter consciência de que a minha alma hoje está nas coisas pequenas. A minha verdadeira paixão não estava naquele vídeo-game que ganhei de Natal aos 12 anos e fez meu pai se encalacrar em prestações, tampouco naquele amor que me deu um último beijo num sábado à noite em um ponto de táxi da Carioca. O amor de hoje é pequeno, não é arrebatador, mas é perene. E isso descobri depois de ficar 24 horas sem experimentar o que ele, sem perceber, me proporciona.

Meu amor hoje é acordar com um grito agudo às 8h da manhã fazendo bagunça pelo corredor.

Meu amor hoje é deixar de assistir ao programa esportivo favorito no dia seguinte à vitória emblemática do seu time para ver um desenho que, chato, passa pelo menos quatro vezes ao dia.

Meu amor hoje é não comer o último pedaço de bolo – meu por direito, já que sou o caçula –, em troca de um beijo interesseiro.

Meu amor hoje é viajar, ficar uns dias foras, mas não aguentar de saudade e ansiedade pra ver uma boca que se abre sem dente para sorrir de felicidade quando te vê.

Meu amor hoje é descobrir depois de 25 anos que o sapo sentindo frio na beira do rio, de camisa verde e só de cueca era eu.

Meu amor hoje nunca esteve tão firme e seguro, mesmo caminhando com passos incertos e ainda desajeitados.

Meu amor hoje atende pelo nome de Maria Clara.

A crônica da mulher bonita

por André

Era uma interrogação em aproximadamente 1,65 de altura. Não que fosse uma dessas mulheres cheias de dúvidas para escolher com que roupa iria a um simples compromisso, mas sim porque homem algum foi capaz de descobrir o que se passava pela sua cabeça ou decifrar qualquer sentimento que a leve expressão facial tentava denunciar à medida que brincava com um copo de suco e olhava debochadamente nos olhos dos presentes.

Era decidida, ao menos. Com um vestido preto e simples – o que talvez denotasse pouca paciência para a escolha da roupa –, chamou a atenção de qualquer um que não estivesse bêbado quando entrou na escondida confeitaria do bairro e sentou-se no terceiro banco à esquerda da máquina registradora.

– Um suco de morango, por favor.

Imaginei que fosse cliente antiga, já que não perguntou ao balconista quais as opções do estabelecimento. Enquanto esperava, roía cuidadosamente o canto da unha para não borrar o batom num tom de rosa bem leve que combinava com a sombra dos olhos. Não se importava com nada. Pouco dava atenção aos olhares ou cochichos dos outros à sua volta, parecia não haver ninguém ali. Era a garota e o seu suco de morango.

Abriu a bolsa, pegou o celular, conferiu uma mensagem e logo em seguida começou a falar com alguém do outro lado da linha. A cada sorriso rouco provocado pela conversa, puxava o canudo já manchado pelo rosa do batom para beber mais um gole do suco ou se punha a enrolar a ponta dos ondulados cabelos castanhos claros que caíam nos ombros marcados pelas sardas que a alça fina do vestido tentava esconder.

Eu a observava fixamente. Cada movimento, cada sílaba pronunciada, cada balançar de cabelo. Pagou a conta e saiu. Deu um pequeno trote segurando o vestido que até o vento tentava levantar e sumiu do meu campo de visão enquanto atravessava a via.

Discretamente levantei e fui até a calçada ver que direção tomara. Tudo em vão. Àquela altura e num piscar de olhos se confundiu com a beleza das ruas de Ipanema.

A viagem científica da alma viciada

por Paula Braz

E esse desejo constante e fixo na busca da origem e causa de tudo pode levar à loucura.

O ego concentrado em si nada vê além.

E seu mal está na sua infinita criatividade processada de forma extremamente peculiar e própria.

Do ser que só se vê saem conclusões formadas, distorcidas no inconsciente,

Chegando à mente pré-fabricadas, aprovadas e corretas.

Presumivelmente exatas.

O porém está no seu vício de fabricação.

E, dessa luneta pessoal, fica o ego achando que é o centro do universo.

Vendo em sua luneta particular, esquece que sozinho não está.

Sua luneta coabita com milhões de outras,

Semelhantes na estrutura, mas em posições diferentes.

Ocupam raios diversos do mesmo centro,

Atestando apenas o que lhe permite o ângulo de seu instrumento.

Passando algumas por décadas a fio sem notar a amiga luneta ao lado.

Culpa de sua matéria-prima,

Do duro revestimento envolto em sua alma.

Uma noite idílica

por André

Abro os olhos bem devagar e esfrego-os com as mãos para desembaçar a visão ainda confusa pela claridade de algum rastro de luz que entra pela janela. Janela fechada e marcada por gotas de chuva que o vento trouxera e caprichosamente pintou no vidro. Fecho os olhos novamente e estico os braços para me espreguiçar. Estico os braços como quem, numa tentativa insana, tenta desesperadamente prolongar o momento.

Abandono a moldura e me viro pra você deitada no sofá. Com um vestido preto que deixava o colo alvo descoberto, segurava uma taça de vinho entre os dedos, como se posasse para um pintor anônimo diante do monumento que lhe renderia a fama eterna por sua obra-prima.

Caminhei pelo chão de madeira até o canto da sala sem falar nada. Só te olhava e prestava atenção em cada detalhe daquela cena para emoldurá-la na memória de forma que o tempo não fosse capaz de esvaí-la em fumaça. Ligo o rádio em busca de alguma estação que fizesse jus ao momento, à espera de uma música que transformasse aquela situação em cena de filme.

Sento aos pés do sofá sem dizer uma palavra sequer. Sento fitando seu rosto e o seu corpo relaxado no sofá. Sento e te admiro até você ficar sem graça, esboçando um leve rubor no rosto, como se não estivesse acostumada a ser observada assim insistentemente. Poderia passar a noite inteira ali em transe, feito a fotografia que vi recentemente de um monge que, em protesto, ateou fogo ao próprio corpo e aguentou passivamente a profusão das chamas que insistiam em atrapalhar a sua concentração. Mas fui interrompido.

Fui interrompido pelos primeiros solos e acordes de um piano que tocava no rádio a minha música favorita. Aliás, não sei nem se aquela é a minha música favorita. Mas para o momento era. Levantei, peguei a taça de sua mão e coloquei na mesa. Fiz um gesto com a mão e te puxei para dançar. Sem graça e talvez sem compreender, você acatou meu pedido gestual e passamos a flutuar sobre o piso de madeira. Unidos, passei a sentir as curvas do seu corpo que até então só me era permitido contemplar. Sentir as curvas e o perfume que vinha do seu cabelo úmido. Eu não sabia dançar. Só queria viver um momento único, uma cena idílica. Fecho os olhos para suspirar profundamente, encosto a cabeça no seu ombro e beijo o seu pescoço. A música acaba e ficamos ali, inertes no meio da sala por um tempo incontável. Eu poderia dormir e nunca mais acordar.

Ao abrir os olhos, tenho a visão novamente tomada pela claridade. Esfrego-os com força e olho ao redor. Só vejo o vazio do meu quarto e o vidro da janela que aprisionava o Sol e deixava transpassar a dura realidade de ter acordado de um belo sonho.

A mulher com o cabelo mais bonito do mundo

por André

Não importa quantos anos passem, aquela cena continuará nítida na memória. Como se, a ferro e fogo, imprimissem uma marca na mente incapaz de ser apagada e tampouco esquecida. Eu não sei quem era aquela mulher, seu nome, idade ou de onde era. Mas aquele encontro ficaria marcado e por muito tempo a expectativa de revê-la me acompanhou.

Era tarde de maio e eu estava na livraria que costumo frequentar. Como de hábito, folheava as novidades literárias espalhadas pelos corredores e seções que o espaço apertado dela me oferecia. Sempre gostei da calma do local e me permitia perder horas ali, que me servia como uma espécie de refúgio de toda correria que a cidade impõe.

Naquele dia chovia torrencialmente e os passantes buscavam um lugar para se abrigar da tempestade. Acostumado à presença silenciosa dos livros, me senti incomodado com o burburinho das pessoas atrapalhando a minha atenta tentativa de leitura. Profanavam meu templo e o meu ritual semanal. Para fugir das pessoas que falavam insistentemente, procurei as fileiras mais afastadas da porta até achar alguma coisa que realmente prendesse minha atenção.

Folheava um livro qualquer até ouvir o irritante barulho do que parecia ser um salto martelando o piso de madeira. Fixei os olhos nas páginas sem ler nada. Apenas queria escapar daquele ambiente caótico que se formara por conta da chuva. Senti que a mulher parou ao meu lado, mas não fiz questão de olhar. Resolvi, então, colocar o livro na prateleira e sair dali.

Ao virar o corpo para me dirigir até o corredor seguinte, me deparei com a mulher que ficaria marcada na minha memória até hoje. A mulher com o cabelo mais bonito do mundo. Não me recordo quanto tempo fiquei parado admirando aquelas melenas castanhas. Cinco, seis, dez minutos? Não saberia dizer, mas acabei me dando conta da situação e fui para outra prateleira observá-la sem que pudesse ser notado.

Meu olhar atônito acompanhava atento cada movimento que os fios faziam em cada movimento dela na sua procura por livros nas prateleiras mais altas. Eu fui testemunha ocular da mulher que levava a poesia cativa nos cabelos. E a partir daquele momento e daquele dia, levaria minha atenção, minha razão e durante um bom tempo meus pensamentos. Diante de tal situação, o que fazer? Eu não sabia, mas olhar já não me bastava mais. Eu queria sentir, cheirar, tocar…

Resolvi dar a volta e chegar mais perto para, quem sabe, sentir o cheiro ou esbarrar nela. Os corredores são apertados, eu teria uma desculpa. Eu era um alucinado e mendigava qualquer migalha que a circunstância pudesse me oferecer.

Não consegui. Ao me aproximar, por capricho do destino ou maldade dela, a vi colocar o livro cuidadosamente na prateleira e se dirigir para a saída. Fiquei sem reação. Não era possível que aquela seria a última vez. Poderia ter saído da livraria e ido atrás dela, mas a sua partida me deixou tão sem reação como quando a avistei.

Fui até onde ela estava e busquei o livro que lia. Peguei-o e passei página por página, tateava folha por folha e era como se tocasse aqueles cabelos. Aproximei as páginas do nariz e procurei sentir o seu cheiro. Hoje até acho que o que sentia era o cheiro de novo do livro, mas na época e até hoje consigo recobrar, sentia perfeitamente aquele perfume. O cabelo mais cheiroso do mundo.

Eu precisava guardar aquela prova, aquele documento. Me dirigi rapidamente até o balcão e resolvi comprá-lo. Aquela relíquia seria minha. Atordoado corri para casa com o livro nas mãos protegendo-o da chuva que já deixara de cair com violência. Sentado na cama, era um lunático. Cheirava-o insistemente procurando sentir naquelas páginas algo que me recobrasse aquela sensação única que vivi naquela tarde. Não me importava de quem era o livro ou o que nele continha. Importava era a sensação que ele me despertava.

Passei o resto da tarde e boa parte da noite naquele ritual até pegar no sono. Na manhã seguinte repeti tudo novamente até resolver ir para livraria à tarde tentar reencontrá-la. O local me despertava lembranças e os livros eram testemunhas que gritavam a minha angústia. Passei muito tempo repetindo essa rotina em vão. Foi então que percebi que aquilo fora obra do acaso e que me restava apenas me conformar.

Aquela mulher levaria não mais apenas a poesia cativa nos cabelos como eu já intuíra. A partir de então levaria também o meu lembrar…

Nua lua encoberta

por Paula Braz

Por mim, seguia nua por aí.
Sem pestanejar.

Mas o mundo é muito pudico…
Não suportaria me ver
De corpo e alma totalmente nus.

A família me censuraria com frases de efeito puritanas,
E olhares de maldição.
A religião me condenaria ao inferno eterno,
Enquanto rezasse por minha pobre alma pecaminosa.
A sociedade já teria me levado para a fogueira das hipocrisias

Desde o primeiro momento,
Queimando minhas vergonhas
Aos urros famintos de justiça.

Mas, sozinha, na mente e nos sonhos,
Despida permaneço
Para os olhos mais sensíveis
E as almas mais humanas.

A CIDADE ESTÁ EM LAMAS

por Paula Braz

Transporte recomendável? Sem dúvidas, o barco!

Que cidade maravilhosa, cidade imperiosa, cidade toda dengosa nada!

Isso aqui tá mais para cidade enlameada, cidade desastrada, cidade despreparada, cidade da enxurrada.

 

Num passeio de barco público,

Vou observando, vou vendo, vou enxergando.

Observo o estado das coisas, de pessoas e de água.

Vejo água, terra e lama.

Enxergo calamidade, destruição, mortes e falhas graves na estrutura.

Pouco preparo, muitas conseqüências.

 

Solidariedade? Ah, sim!

Boa vontade existe, e compaixão também,

Mas elas sequer conseguem chegar ao seu destino final.

São interceptadas, desviadas,

Se perdem no tempo e espaço,

 

Nas mãos sujas da corrupção,

Guiadas por mentes psicopatas,

Corações sem escrúpulos

E sangue de barata, morta.

Teu asco não chega nem perto dos homens poderosos.

 

Poder que atira e tira,

Manda e comanda,

Paga e vende

Ou mata e morre.

 

Ou tudo ao mesmo tempo.

Não necessariamente nessa ordem.

Certamente numa ordem interna

Que transforma a vida numa desordem certa.

 

É, Rio de Janeiro, será mesmo carnaval o ano inteiro?

Cidade do samba, do futebol e das caipirinhas.

Mas, já estamos em maio,caro meu.

Não te preocupes com isso!

Junho tem copa do mundo e outubro eleições.

E a caipirinha, essa tá sempre ai, quando quiser, é só pedir!

 

2010, o ano que nunca existiu.

Pois assim é mais fácil esquecer o que tentam me esconder.

Pode resisitir, mas o Haiti é aqui!

 

 

Um brinde

por André Cruz

Eu queria escrever algo leve sobre um assunto profundo. Algo que tratasse com agudeza essas superficialidades da vida.

Não consigo. Nada mais tem importância pra mim. Aliás, a única coisa que me importa é esse lastro de olho diesel que você deixou nas minhas veias. É o tormento da sua volta que faz meu coração palpitar.

Acordo afobado todos os dias. Acordo, pego o celular e em vão procuro uma ligação sua.

Já pensei em trocar de número infinitas vezes para esse tormento passar, mas não consigo. Desisto por falta de coragem, por medo de perder uma desesperada tentativa de reconciliação sua pedindo desculpas pelo tempo perdido ou uma daquelas mensagens apaixonadas que trocávamos.

Tudo mentira. Aposto que você diz isso pro primeiro cara que te paga uma bebida na rua e te leva pra cama.

É como se eu esperasse uma Parusia. Virei um crente maldito. Te defendo fanaticamente perto dos que ousam falar de você.

– Ela te deixou! Não merece o seu sofrimento!

Foda-se! Só estou carregando a minha cruz.

Há poucos dias foi o nosso aniversário de namoro. Peguei aquela foto que tiramos juntos numa Polaroid em um dos nossos primeiros encontros. A foto já estava perdendo a cor e a nitidez. Já o que eu sentia…

Tormenta! E a minha nau já não tinha mais comandante e nem rumo.

Tomei um banho, me arrumei e saí. Fui naquele restaurante em que a gente se conheceu. Sentei à mesma mesa e pedi ao garçom o nosso mesmo prato.

– E pra beber, senhor?
– Uísque.

Um brinde a sua covardia!

Sete anos!

Levei esse tempo todo pra descobrir que você não prestava, que era uma merda na cama e que só me fez mal.

Sete anos pra descobrir que eu te amo, que nenhuma mulher vai te substituir e que você merece toda filha da putagem do mundo até voltar pra mim.

Sem sentido

por Paula Braz

Você acha engraçada a decadência humana?

Pois eu não.

Acho triste, perversa, cruel e fria.

Na verdade, me embrulha o estômago, me arde o peito, me dilacera a alma.

Transforma o meu espírito em um bando de caquinhos de vidro

Que a cada movimento do corpo fazem perfurar lentamente o meu âmago.

Fico pensando que esse Deus tão bom e justo deve ser

Cego

Surdo

E mudo.

Falência múltipla.

Porque ele não enxerga a miséria que nos rodeia,

Não ouve os gritos dos desesperados

E nem sequer profere qualquer palavra de consolo

Que, ao menos, amenize essa falta de pão, teto, amor e dignidade…

Que a cada dia nos dai hoje.

Carta de(s)amor

por André Cruz

Você se foi há muito tempo. Desde então eu fico aqui, te esperando sentado no mesmo lugar da última vez que nos vimos. Sete anos, sete anos de vida jogados fora. Talvez fosse melhor termos terminado tudo ou até mesmo eu ter descoberto alguma traição. Assim não ficaria com essa sensação de incompletude, esperando um fim que não vai acontecer. Não chove e nem faz Sol. O dia é cinza, amargo, abafado, incômodo.

Quando você partiu sem dar notícias, eu ainda te procurei por muito tempo nas esquinas. Procurava o teu olhar perdido em algum vislumbre. Em meio a tanta confusão da cidade, via o teu vestido sacodido pelo vento, seguia seu cheiro e voltava pro mesmo lugar. Pra sarjeta. Sentado respirando a fumaça dos carros que passavam jogando a água da poça no meu rosto.

Como pode fazer isso?

Acho até que o cheiro que sentia era o teu cheiro podre que vinha do bueiro. Virei parte do cenário cinza da cidade. Um poste, uma lata de lixo, um papelzinho de propaganda no chão sujo da rua.

Antes eu só te amava. Agora eu também te odeio.

Já quis até que você morresse, mas seria pouco! Você precisa sofrer. Como eu, perder sete anos da sua vida. Sofrendo, quem sabe até você fique no mesmo lugar que eu estou hoje. Quem sabe assim até nos encontremos na mesma vala.

Quem sabe assim você até leia esse desabafo de(s)amor.

“Adeus, minha ilusão de um instante! Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.”

Dia de consulta

por André Cruz

Hoje acordei cedo. Era dia de consulta no pediatra. Não que eu esteja em idade para tal ou precisando de médico, mas prometi a mim mesmo que acompanharia minha sobrinha ao médico e assim poderia rever o senhor que cuidou da minha saúde durante 15 longos anos.

Confesso que fiquei ansioso. Na espera de ver a reação dele ao me reencontrar. Será que me reconheceria?

A sala de espera de uma clínica de pediatria é um show a parte. Pude me ver em todas as crianças que ali estavam aguardando a sua vez.

Desde as mais pequenas até as maiores.

Do consultório, vinha um choro estrondoso. É impressionante como esse choro é imponente. Capaz de aterrorizar todas as pequenas que estão do outro lado da porta aguardando a sua vez. Qualquer sinal de bagunça é interrompido e o melhor lugar para se proteger são os braços da mãe.

“Que monstro existe lá dentro?”, talvez se perguntassem.

A verdade é que eles ouviam aquilo e choravam calados por dentro. Choravam pelos olhos, mas sem derramar lágrimas. Como eu muitas vezes fiz e ainda faço.

Passei, então, a reparar nos quadros que enfeitavam as paredes. Todos eles se mantinham intactos. Fotos de crianças, de personagens do Sítio, enfim. Fiz um passeio pelos meus 7 anos, quando ia todas as quartas para tomar vacina antialérgica.

Maria Clara, chamou o doutor.

E lá fui eu.

A consulta nem era mais dela, era minha.

Surpresa minha, mas o senhor José me reconheceu.

– Não mudou nada. Tirando a barba, ainda tem o mesmo rosto.

Bondade a dele, que, pra ser sincero, nem reconheci direito.

Conversamos durante bons quinze minutos. Findo o bate-papo e a consulta, me despedi do doutor. Esperei pelo pirulito caramelado do Zorro que sempre ganhei quando terminava uma, mas já era tarde.

Já cresci e o choro desconhecido não me assusta mais. Menos ainda o medo de uma vacina. Meus problemas agora são outros e o pediatra não pode me consultar e menos ainda resolver. Infelizmente

Papo de mulher

por André

Como de costume em todas as terças, subi a Barão da Torre em direção à Vinícius de Moraes para beber no bar da esquina. Era como um ritual anti-stress no meio da semana após um cansativo dia de trabalho.

Chegando lá, Elírio já estava numa mesa bem no centro. O lugar não estava cheio. Eram oito horas da noite e apenas alguns casais e amigos se escondiam atrás das tulipas de chopp.

– Fala, meu jovem. – Me cumprimentou Elírio ainda com a barba suja de espuma da cerveja.

Ele era aproximadamente 15 anos mais velho que eu. Solteiro convicto. Segundo o mesmo, enquanto eu desmamava e começava a vestir cuecas, ele já desfraldava as calcinhas das donzelas. Eu só ria e concordava, afinal era verdade.

Conversávamos, como habitualmente, sobre futebol. Até que uma mulher no canto do bar, perto da máquina de música, me chamou a atenção. Era bonita e usava uma saia que não sei descrever bem. Tinha a cintura alta e subia dois palmos do joelho. Dançava e me pareceu vulgar.

– Olha que safada, Elírio. – Disse esperando a concordância do amigo.
– Onde?
– Ali, cara. Tá cego?
– Puta por quê, garoto?.
– Olha as roupas dela, cara. Olha como dança.

– Garoto, já disse Hamlet: Há mais putas travestidas de meninas santas do que supõe imaginar a nossa vã filosofia. – Concluiu gargalhando.

Elírio se levantou, foi até o balcão e acendeu mais um cigarro. Era fumante ocasional. Quando voltou, disse:

– Não é isso que vai fazer dela vadia, meu jovem. Aquela deve ser uma mulher resolvida. Fica e dá para quem quiser. Com ela não tem historinha. O mal das mulheres modernas é justamente fazer o que os homens fazem e cobrar da gente um comportamento que elas mesmas não têm. Aquilo é um homem de saia, portanto honesta.

Diante disso só consegui rir, mas sem concordar. Elírio e suas catastróficas filosofias. Dei uma olhada randômica no ambiente e vi um casal sorrindo. A moça era linda. Parecia também ter saído do expediente e trajava uma roupa social.

– Olha que gata. Perfeitinha. – Disse.
– Tá maluco, cara? Uma puta! Não sabe que é? É a Lurdinha.
– Hum… é mesmo. Já está saindo com outro.

Lurdinha era uma vizinha de prédio e há menos de duas semanas estava toda chorosa porque terminara com o noivo, que foi estudar na França. Bola fora!

– Como tu vai confiar numa mulher daquelas, garoto? Ela mesma me disse que ia sentir muita falta do noivo, que não vivia sem ele e todas aquelas histórias que as mulheres contam para posar de vítimas. Vida que segue? Claro, mas o luto dela durou pouco.

Agora me responda: quem é mais puta? Lurdinha ou a loirinha que está dançando? A outra, pelo menos, não engana ninguém.

– Olha aquele cara ali no balcão. Que música ele te lembra?

No balcão do bar havia um cara de meia idade. Com o olhar vagante, levava o cigarro até a boca, tragava e logo em seguida dava uma golada no copo de uísque. Parecia perdido.

Por trás de um homem triste há sempre uma…

– Perfeito! Chico Buarque. Ainda foi melhor que eu, garoto. Eu havia pensado em Black. Esse cara é a personificação da música do Pearl Jam. Enfim, um babaca. – Me interrompeu enquanto cantava.

– Ele está guardando o luto que a Lurdinha não guardou. – Eu disse.
– Aprende rápido, garoto!
– O papo está bom, Elírio, mas eu preciso partir.
– Beleza, meu bom. Até terça que vem.

Peguei minha carteira, deixei alguns trocados e me despedi. Já passava das onze horas e quarta-feira é dia de luta.
Assim que saí do bar meu telefone tocou. Olhei para o nome. Era minha noiva. Guardei o telefone no bolso e não atendi. Hoje não, melhor dormir para não pensar.

Segundo tempo

por André

Lembro-me como se fosse hoje. Era uma quarta-feira, uma quarta-feira especial.

O Flamengo, time do coração, tinha uma partida decisiva pela Copa Libertadores e eu não perderia aquele jogo por nada.

À época havia conhecido uma mulher e ela me convidara para sair justamente naquele dia. Já havíamos saído outras vezes, mas ela insistiu em me rever na decisiva quarta-feira.

Passei o final de semana inteiro pensando em desculpas a dar, mas nenhuma seria suficiente. Nenhuma seria plausível.

Chega a quarta-feira e acuado, me encontro com a coitada. Minha cabeça estava em um só lugar, no jogo.

O time estava bem e eu estava animado praquele jogo.

Amigos e futebol primeiro. Mulheres depois!

Já agoniado com a situação, inventei uma desculpa e logo fui embora pra casa. Correndo. Perder mais um segundo seria perder o jogo inteiro.

Naturalmente e sem esforço, o Flamengo ganhou, mas eu perdi. Ela nunca mais me ligou. Pudera, são escolhas que a gente faz. Eu aceitei a condição e paguei o preço.

Hoje, uma quarta-feira também especial, o Flamengo tem outro jogo decisivo pela Copa Libertadores.

O filme da minha vida parece ter retornado, mas de um modo diferente.

O time nem anda tão bem e não tenho mulheres para dispensar de um casual encontro.

O jogo virou.

Segundo tempo.

E o placar?

Espero o apito final!

Intervalo

por André

Os dicionários definem por intervalo um espaço de tempo entre dois momentos, duas épocas ou uma interrupção passageira.

Que eles estejam certos!

A semana começou como qualquer outra: chata.

Começou corrida, sem vontade de começar. Paradoxalmente preguiçosa.

Apesar de a segunda e a terça serem carrancudas, ao longe podíamos ver a iminência de um grande bem. Um feriado. Pausa pra ser feliz, em meio a tantas tristezas.

A quarta começou linda. Não podia ser diferente! Feriado. Sol a pino, praia, cerveja, churrasco e futebol. Alegria!

Nem tudo é perfeito. A quarta foi curta e logo vinha a quinta. Dia de trabalho.

O dia começou chato. Com o gosto amargo da ressaca na boca. Começou cedo e cinza. O céu chorava gotinhas de tristeza. Correria novamente. Infeliz. Se o dia começou cinza, a noite teve algumas fagulhas de luz no céu. Por mais negra que fosse a noite e por mais que as nuvens tentassem encobrir, as estrelas mostravam que ainda há alguma esperança. A esperança de um dia melhor.

E chega a sexta. Feriado. Dia de ser feliz. Dia de namorar. Dia de sair.

Dia de viver. De sexta a domingo será eterno.

Semana boa é semana com feriado.

Outro assim só em outubro. 6 meses! Demorarão 1 ano!

Enquanto isso, nesse intervalo, a gente vai levando… brincando e se enganando de ser feliz.

João e Maria

por André

João tinha onze anos e morava no subúrbio, onde todas as casas são iguais, mas as pessoas são diferentes. Se as paredes têm a mesma cor de tijolo sem pintura, as pessoas são diversificadas. Cores e histórias diferentes.

Maria tinha nove anos. Morava na parte alta da cidade, onde todas as pessoas são chatamente iguais. Frequentava boas escolas e aos finais de semana ia para a casa de sua avó, que ficava no subúrbio.

Devido à proximidade entre a casa de João e da avó de Maria, quis o destino que os dois se encontrassem.

O amor foi natural e instantâneo. Não esse amor romântico, marcado por miséria e dor. Mas um amor sublime, um amor de criança.

Todos os finais de semana se encontravam para brincar no quintal da casa de João. Montavam uma cabana de sofás velhos com cobertores não usados e estava feita a casa dos dois. Como eram felizes.

As bonecas de Maria eram as suas filhas e João, com as ferramentas do seu pai, era aquele que chegava cansado do trabalho.

Maria, atenciosa, preparava a comida do menino com suas panelas miúdas e delicadas, enquanto João dava atenção às suas filhas.

Repetindo essa rotina todos os finais de semana, os dois brincavam. Até que numa manhã de sábado chuvoso, a menina apareceu. Mal começaram a brincar e os pais dela foram buscá-la. De tão apressada que saiu, só levou as bonecas. Um lenço que servira de fralda para as pequenas acabou por ficar no meio do caminho.

João, pacientemente, pegou a lembrança, guardou no bolso e correu para desenhar um Sol no quintal de casa. Pouco demorou até aparecer um arco-íris no céu, sinalizando o final da chuva. E o menino continuou aguardando o seu par, mas sem sucesso.

Aquela fora uma manhã contraditoriamente muito triste.

Passaram-se duas, três, quatro semanas e nada de Maria. Até que João criou coragem e perguntou à sua mãe pela menina. Foi então que ela disse que a menina não viria mais. O motivo de suas constantes visitas, sua avó, havia falecido.

Como poderia a sua companheira dos finais de semana ter sumido sem avisá-lo? Ficou na sua lembrança aquele último olhar. Um olhar apressado, como quem quisesse dizer algo. João só tinha o pequeno lenço com flores azuis de lembrança da sua querida.

Passaram-se os anos e a menina, que já teria virado moça, não apareceu.

O rapaz ainda lembrava da sua pequena. Será que ela ainda pensa em mim?

Aos 26 anos João recém arrumara um emprego de garçom em um barzinho movimentado lá pelas bandas do centro da cidade.

Numa sexta-feira de tempo pouco amistoso, ele tomou a sua condução para o trabalho e chegou atrasado. Sexta-feira é dia de movimento e naquela ocasião havia uma comemoração dos estudantes de Medicina que haviam acabado de concluir a residência.

Bronca do patrão!

Bar cheio, menos um garçom seria prejuízo na certa.

Atrapalhado por seu primeiro dia de grande movimento no bar, João não dava conta de todas as mesas. Atrasava os pedidos e por vezes até esquecia.

Bronca do patrão!

Caminhando para servir a mesa dos estudantes, o rapaz avista uma menina. Avista a sua Maria. Morram de inveja os anos, mas ela continuava intacta. Linda e intacta. Ainda era a sua menina. Apenas tinha ganhado idade e experiência.

Ele ficou atônito, chocado. Hesitou em servir a mesa e virou para voltar ao balcão ou sair correndo. Desajeitado, esbarra e derruba tudo. Todos olham, inclusive ela.

Bronca do patrão!

Nada mais disso importava. Ele havia encontrado o seu grande amor. Mas o que falaria para ela?

Não estudei, não arrumei um bom emprego, não casei, não tive filhos… sou um garçom.

Não, não e não.

Com muita força de vontade e virando o rosto para não ser conhecido, João serve a mesa de Maria. Eis que a menina lhe pede a conta.

Ele congela.

Ao entregar a conta e receber o dinheiro do pagamento, Maria saca da mão uma nota e lhe dá. Gorjeta. João não aceita de imediato, mas Maria fala que o garçom lhe servia muito bem, se levanta e vai embora.

Um misto de felicidade e tristeza tomam conta de João. Felicidade pela menina não reconhecê-lo, tristeza por ela não reconhecê-lo.

Naquela noite João fora mandado embora.

A volta para casa não poderia ser pior. A chuva castigava o seu bairro.

Ao chegar em casa, a primeira coisa que o menino fez, foi correr para a sua gaveta e pegar o lenço de Maria. Que saudade!

Sentado à mesa e contando as gorjetas que recebera, João se depara com a nota de Maria.

Nota rabiscada com o nome da menina e o seu telefone.

Aquela foi uma noite contraditoriamente muito feliz!

Inefável

por André

Parecia estar num túnel e a escuridão só era interrompida por alguns pontos de luz que passavam pela janela. Uma campainha distante parecia anunciar a próxima estação do metrô: Cinelândia.

Biblioteca Nacional e Teatro Municipal

Desci do vagão cheio de si e tomei a escadaria em direção à Rio Branco. Marcara em frente ao Museu Nacional de Belas Artes um encontro.

Ao sair da estação, aproveitei um descuido dos carros, que deixaram a pista vazia, e atravessei a larga avenida. Era só andar mais alguns metros e o encontro aconteceria.

A praça e as ruas estavam movimentadas. Pareciam não entender que o sábado foi feito para o descanso. Como típica tarde do Rio de Janeiro, estava quente. Suava pelo calor e pela ansiedade.

Chegando ao Museu, não notei a sua presença. Certamente estava atrasada. Certamente seria compensado pelo resultado do atraso.

Passados alguns minutos, ela desponta de uma esquina ensolarada. O Sol, egoísta, tentou escondê-la da minha visão e ofuscou-a por alguns segundos. Foi só colocar a mão na frente dos olhos e perceber que o astro havia se tornado uma espécie de passarela, ele iluminava a sua estrada e dava um brilho especial aos seus cabelos.

O museu estava com uma exposição sobre esculturas egípcias e aquele seria o único dia. Trocamos um acanhado beijo e entramos. Não nos falamos. Parecia haver uma trava natural de primeiro encontro.

Caminhamos em direção à entrada e passamos a observar as peças em exposição. Não trocamos uma palavra.

Por vezes eu retardava o andar só para observá-la. Como era linda. Cabelos compridos e um andar tímido. Não trocamos uma palavra.

Saímos da exposição e passamos a andar pelas ruas do centro da cidade. A Biblioteca Nacional, invejosa resmungava por nem todos os seus livros poderem explicar aquela beleza.

I-ne-fá-vel!

As ruas, antes agitadas, pareciam ter parado. Atravessar as pistas já não era tarefa tão difícil. A cidade parou para vê-la e eu também.

Bobo e atônito observava o seu jeito de olhar os grandes prédios. Por vezes me aproximava um pouco e encostava minha mão na sua. Parecia o menino e a primeira namorada. Não trocamos uma palavra.

O Teatro Municipal, palco de grandes peças, observava entusiasmado aquela bailarina que parecia voar no tablado da Cinelândia. Não trocamos uma palavra.

Não parecia haver motivo para que não nos falássemos. Não falava porque não conseguia. Não falava porque não podia. Parecia haver uma barreira invisível que impedia a nossa comunicação. As palavras de amor eram faladas com os olhos. Sabíamos do sentimento um do outro, mas não trocamos uma palavra.

Tomamos um táxi em direção à Lapa e decidimos parar na Pizzaria Guanabara. Agora o calor não castigava somente a mim. As divindades também sofrem com ele. Ingênuo não tirou a sua beleza. Apenas realçou. Não trocamos uma palavra.

O relógio já marcava quase dezoito horas e então resolvemos ir para a estação final do nosso encontro. Indo para a Cinelândia, local do ponto de partida, o sino da Catedral Metropolitana anunciava a despedida. Um beijo e um abraço apertado foram suficientes. Não trocamos uma palavra.

Desci a escadaria do metrô e novamente a escuridão tomou conta dos meus olhos. Abro-os e ouço:

Acorda! Acorda para a vida. Está sonhando? Hoje é segunda-feira. Hora de trabalhar.

Crucifica-o

por André

Crucifica-o! Alguém precisava ser sacrificado. Que não sejamos nós.

Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, por que não desces da cruz?

Crucifica-o! A semente precisa morrer pra germinar.

Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, ressuscitarás. Ao segundo, ao terceiro, ao quinto.

Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, os dias ou os anos não terão importância.

Futuro do Pretérito

por André

– Você é muito cética. Precisa desenhar, pintar, imaginar a sua vida. Do que adianta ganhar uma tela branca, se não quer rabiscá-la?

Ela, misturando risadas de descrença e palavras, retrucava beijando-o:

– Você é muito bobo, precisa parar de ler essas histórias.

– Bobo e apaixonado. O homem é da grandeza do seu sonho, se me permite parafrasear Pessoa.

Se conheciam há tanto tempo que o tempo nem mais importava. Os dez anos juntos tinham o mesmo vigor que três meses de namoro. Podiam citar a vida um do outro de trás para frente.

Monotonia?

Cada vez que se encontravam era como um evento único. Parecia a saudade acumulada de anos.

Se existisse algum livro com exemplos de amor e felicidade, certamente na definição apareceria a foto dos dois, juntos.

Se me permite dar o meu pitaco, ele nem era grande coisa. Mas ela via no seu homem aquilo que sempre procurou. Alguém que pudesse fazê-la feliz. Se ela pensasse em outro homem, certamente era para compará-lo ao seu e chegar à conclusão da felicidade de sua escolha.

Eu disse escolha? Não. A escolha permite troca e no amor não existe troca.

Pode a mãe amar o filho no próprio ventre e ao descobrir que o rebento tem algum problema substituí-lo?

Pode a mãe substituir o amor pelo filho que morre por outro amor?

Se você acha que sim, certamente desconhece o amor.

Ele era o melhor para ela porque era ele. Porque o amava.

E quanto a ela? Seria injusto eu, sabedor de todas as coisas, falar dela.
Nos termos infantis dele, porém engraçados, ela era a arte final do seu quadrinho. Ele se sentia o super-herói da história e via nela a mocinha a quem proteger.

Ingênuo, achava que ele a protegia do mundo. Pobre criatura indefesa. Não vê que a sua força vem dela.

Ela era o melhor para ele porque era ela. Porque a amava.

Não havia por que ter medo. Não existiam vilões nas suas história. Sim, história no singular, porque a deles era singular, única.

O único vilão na história de qualquer homem é o seu próprio destino.
Quis ele que ambos se perdessem. Sem briga e nem choro, somente com dor. E quando o amor dói, é porque valeu a pena.

Mas ainda que essa força supostamente insuperável tentasse separá-los, ambos sabiam que poderiam vencê-la e isso dependeria somente deles.

O homem é do tamanho do seu sonho.

O quadro pintado e emoldurado não pode ser apagado.

A arte final do desenho não pode se converter em rascunho novamente.

O destino só tem grandeza perante as escolhas, perante as horas, os dias.

O destino não manda nos anos. O destino não manda no tempo, o destino não manda no amor…

Pra ficarem juntos novamente deveria ser questão de tempo. Talvez meses, talvez anos, talvez décadas.

Certamente os anos passariam como séculos, mas o encontro será inevitável.

O destino não mais existirá.
Hoje faço com meu braço o meu viver…

Conta-gotas

Não sabia que as coisas aconteceriam dessa forma. No começo, acreditei que o tempo transcorreria de maneira muito mais imperceptível, e os dias não pareceriam tão comuns; achava que as lembranças me viriam à mente de quando em quando, mas não poderia imaginar que ocupariam meus pensamentos mesmo em sonho. Agora, vejo que não há nada mais fascinante que o imprevisível…

Hoje, me parece que os minutos se arrastam, enquanto os contabilizo, um a um, na ânsia de excluir mais um dia da contagem de tempo que me levará até onde quero estar. Estranho, e me vejo confusa, ao perceber que a saudade, ao invés de reduzir o que sentia, foi capaz de revelar um sentimento de dimensão muito maior do que o que se pensava existir.

Fosse possível, não hesitaria em correr o máximo que conseguisse até chegar ao seu lado. Fosse possível, há muito já teria chegado, e o hoje, talvez, fosse diferente. Assim fosse, talvez a certeza de nós reduziria o medo das consequências de termos nos lançado na menos convencional da mais clichê das histórias. Mas nos lançamos, e eis o resultado: uma saudade sem fim, uma imensurável ausência e um aparentemente fortalecido, mas há muito já descoberto e a cada minuto alimentado, amor.

Pelo que, apenas por essa incontrolável falta de você, e por essa arrebatadora vontade de estar aí, permaneço contando os minutos.

Só que pra mim não! Geração multifásica.

A vida até pode parecer o que não é, só que pra mim não.

O palhaço até contorce seu nariz quando não agrada a sua platéia, porém não pra mim.

O sábio até finge que sabe quando a sabedoria lhe sabota, mesmo assim seus olhos entregam.

Talvez até o mestre dos espertos tente me enganar em mais uma de suas lorotas, no entanto eu capto sua dissimulação em frações de segundos-luz.

Pode até ser que sua cara de inocente me comova, mas me enganar, jamais.

Nenhuma camuflagem passa por mim despercebida.

Quem sabe eu até te faça pensar que acredito no que me diz, só que meus olhos de águia trabalham com meus ouvidos de morcego.

E juntos ensinam minha mente infantil que nada nem ninguém, por mais perspicaz e profissional que pareça, passará impune ao meu radar penta volt.

De 5 sentidos aguçados e capacidade ilimitada.

Meu rico olhar mendigo…

Recentemente li da crônica esportiva uma batida máxima do futebol:

“O medo de perder tira a vontade de ganhar”

Essa frase me perseguiu durante semanas. O que isso, afinal, tinha a ver comigo? Tudo!
Como disse em outros posts, eu era um menino tímido. Imagino até que isso tenha se perdido com o tempo. Aprendi a disfarçá-la com uma risonha cara de pau. Mas a verdade é que a minha timidez – o medo de perder – me privou de ganhar muitas coisas.

A que me recordo para escrever, foi quando tinha lá pros meus doze ou treze anos. Naquela época eu ainda vivia protegido pela redoma dos meus medos. Lembro-me que era apaixonado por uma menina que estudava na turma ao lado. Após o recreio as turmas se enfileiravam na quadra da escola para seguir cada uma para suas respectivas salas.

Ah… aquele era o meu momento de contemplação. Eu ia para o colégio apenas para vê-la na fila do intervalo.

Ela era linda.

Tinha um rosto angelical, delineado pelo corte de seus cabelos louros. Mas aquele não era um louro qualquer. Era um louro cor de aurora que cegava meus olhos e enrubescia a minha face, os outros cabelos eram simplesmente amarelos perto do dela.

Quando se é tímido, é preferível que a sua amada não saiba do seu amor. Ainda que isso te torture eternamente, amar escondido é melhor do que não poder amar.

Com o passar dos dias, comecei a perceber que ela olhava insistentemente para a minha fila. Procurava, bobo, motivos e direções para os olhares. Tinha amigos muito mais bonitos e certamente eu não era o agraciado da vez. Passei semanas procurando motivos, até que as evidencias me seguraram pelo braço e me chacoalharam.

– Sim! Ela estava olhando pra mim!

Quando se é bobo, tímido e, sobretudo, se tem treze anos não se sabe o que fazer.

Quando ela era um amor platônico, o meu sonho era que esse amor um dia fosse correspondido. Só que aquele amor saiu do mundo das ideias e tomou contornos de realidade. Uma realidade palpável e, por isso, assustadora. O amor que seria a minha redenção, acabou por tornar-se o motivo da minha condenação. Por não saber o que fazer, um simples olhar dela fazia com que eu desmoronasse na minha timidez.

Até que os dias foram se passando, os olhares foram cada vez mais intensos e com a proximidade do fim do ano, chegava ao fim o meu amor platônico correspondido. A minha vergonha dava saltos de alegria, enquanto o meu coração atrofiava.

É bem provável que essa história ainda aconteça com meninos de treze anos e até mesmo com caras de vinte e três.

Só que agora o meu problema não é mais a timidez ou querer alguma coisa e nunca tê-la, mas, sim, o medo de perdê-la.


Bolero Blues
Chico Buarque

Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe,muito longe
De existir
Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão, bolero blues
Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si
Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinícius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo
-tarde demais
Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí

Ainda sobre os homens….

Quando completei quinze anos ouvi em alto e bom som:

– Espero que voce tenha aproveitado, porque depois dos quinze passa rápido.

Foi só eu acordar no dia seguinte para descobrir que já tinha a maior idade e aos poucos fui descobrindo que só se e feliz de verdade até os dezoito anos.

“A vida são deveres que nós
trouxemos pra fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, passaram-se 50 anos![…]”

Digo isso porque, se fomos compensados com uma infância sem privações, é na idade adulta que as preocupações aparecem.

Como não fomos treinados, parecem ter todo o peso do mundo. Seremos o Atlas da mitologia contemporânea.

Ainda que a mulher tenha que enfrentar todos esses problemas, a ela não cabe o poder da decisão. Elas têm o dom de gerar, nós o de dar fim. E pra exemplificar, é só lembrar de uma simples compra de um vestido. Se o companheiro não fizer a escolha – a pedido da mulher, claro – e não der um fim na compra, não serão as horas e tampouco o poder de decisão da mulher que se encarregarão.

Estude, trabalhe, case. Seja um bom funcionário, um bom marido, um bom pai. Ainda que a sua vontade seja de voltar a ser aquela criança dos dozes anos, aquela que só brincava.

A saudosa criança que talvez ainda viva na sexagenária alma do meu pai sempre me fala:

– Na próxima encarnação, quero voltar filho.

Portanto, mulheres, não reclamem das nossas atitudes infantis. É só o menino querendo brincar…

Pare de buscar

Quando parei de buscar sentir tais sentimentos que tanto procurava,
Finalmente consegui encontrá-los.
Ou seriam eles que teriam me encontrado?!

E, de repente, vi-me feliz.
Algo irradiante, e ao mesmo tempo enérgico e energizante, tomou conta de mim,
Se apossou de todo o meu ser.

E fiquei feliz!
Não porque algo de extraordinário tivesse acontecido na minha, muitas vezes, rotineira, vida,
Mas fiquei feliz porque me descobri viva!
E isso me bastou!

Nada melhor do que estar viva para que, então, possa alcançar todos aqueles “nobres sentimentos”, que tanto ouvimos falar nos contos de fadas.

Passamos, gastamos tempo em busca de coisas grandiosas, sentimentos escaldantes, que, de tão preocupados que estamos em achá-los, acabamos por perdê-los.

Essa tal mania de grandeza do ser – humano que o faz esquecer, apesar de estar careca de saber, que as grandes coisas se materializam nas “pequenas”.

No sorriso.
No abraço.
Na flor.

No gesto singelo.
No olhar afetuoso.
Na palavra de esperança.

Na conchinha.
No beijo estalado.
Nas coisas belas da vida, que, muitas vezes, passam despercebidas na correria, pelos olhos ávidos de grandeza.

Sobre os homens…

Já que se foi falado sobre as mulheres em textos anteriores, nada mais justo do que falar sobre os homens como compensação. Dividirei esse post em outros e por ora, falerei sobre a infância.

Antes de tudo, devo salientar que nós homens não nascemos. Entramos em campo. Não se pode precisar a origem dessa nossa paixão pelo futebol, mas sabe-se que ela começa na barriga – que, coincidentemente, tem o formato semelhante ao de uma bola.
Mal começa a se formar o feto e o pai já conjectura o nosso time.

E os presentes? Passam pela roupinha com o escudo do time do nosso [?] coração até a bola de futebol, que desde pequenos somos doutrinados a chutar.

Talvez isso tudo faça parte de um enredo que somos obrigados a seguir.

Infeliz é você, irmã, que cumpre todas as tarefas domésticas, enquanto nos estamos sendo preparados para nos tornarmos homens. Ainda que esse caminho não seja tão penoso quanto seu. Mas a colheita, que é obrigatória para ambos, parece-nos mais ingrata.

Interessante é reparar, também, como nós homens sabemos aproveitar a infância. Sim, sabemos porque vivemos a melhor idade com toda intensidade possível. Alguns de nós até esquecem que essa época tem prazo de duração.

Nas mulheres batem os doze anos e elas logo pensam em namorar.

Nós?

Nos agrada muito mais, nessa idade, a companhia de bolas, vídeo-games, amigos, pipas, piques…

Tapados ou não – culpem os hormônios de vocês -, só depois de um tempo é que despertamos a nossa sexualidade. E é quando toda brincadeira implica em namorar.

Aos 15 nós não sabemos por que as meninas da nossa idade só gostam dos caras de 18. Aos 18 as interessantes serão as de vinte. Bobos somos joguete do amor e do descaso das mulheres mais velhas.

Escrevendo que se vive…

Não planejo nada, escrevo por fruição.
Talvez você se sinta assim, mas sabe aquela sensação de querer fazer alguma coisa, estar angustiado e não conseguir? Senti-a e ainda sinto com freqüência. Há semanas não tenho uma boa ideia para escrever um bom texto. E o pior de tudo é que escrevo histórias verdadeiras, e por isso tenho a nítida impressão de que as coisas só existem ou passam a existir depois que as escrevo.
Já pensei em escrever sobre minhas alegrias, mas seria tão clichê quanto escrever sobre as minhas tristezas que, proporcionalmente, são maiores do que as primeiras.
Já pensei em escrever sobre meus amores platônicos inatingíveis e inalcançáveis, mas ainda assim seria escrever sobre a tristeza e certamente isso me daria um trabalho hercúleo.
Pensei até em escrever sobre um sábado com os amigos, mas sou egoísta e isso eu não compartilho com ninguém.
Acho que escrever está se tornando pouco pra mim e eu não devo me conformar apenas com isso.
Preciso viver com a mesma intensidade que escrevo.

Adeus da Partida

Não fala.
Guarda as palavras para uma época em que tenhamos mais tempo.

Agora, só olha,
E sente a minha pele aos poucos aproximar-se da sua,
Entrelaçando-me em seu corpo como se quisesse dele ser parte.

Percebe a respiração ofegante e o bater acelerado do coração:
É muito além do que ansiedade por saber que é o último momento.

Vê que os olhos lacrimejam,
O corpo enfraquece,
A alma sente dor.

Através da janela, nota que desabo sobre os bancos
Para ver que parte, e não sei se volta.

Recorda, ao que vai, o que somos,
E percebe que, ao fim e ao cabo,
Descobriu-se o amor.

Aconchego

Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
e me ninar…

Essa dualidade com que as mulheres exercem algumas coisas na vida às vezes chega a ser fascinante. Não estou me metendo agora a puxar saco das mulheres, não é isso. Apenas acho interessante a relação que nós homens temos com o aconchego feminino.

Ainda acho que no quesito companheirismo, cumplicidade, coleguismo nós somos imbatíveis. Não existe amizade feminina que se equipare à amizade masculina.

Dois amigos são eternamente amigos. Duas amigas são possíveis futuras rivais.

Mas quando o assunto é aconchego não há homem que seja capaz dá-lo tão bem quanto uma mulher. É claro que vocês também precisam disso, mas eu sou homem, escrevo coisas de homem e, sobretudo, na ótica do homem.

Quando estamos doentes não há hospital tão sofisticado quanto o colo de nossa mãe. Não há outro lugar no mundo em que gostaríamos de estar. Infelizmente as obrigações e as imposições da vida acabam por nos afastar desse regaço confortador. E se me permite abranger um pouco da minha loucura e até fazer uma confissão, volta e meia, quando estou doente, me pego pedindo para que minha mãe venha dormir comigo.

Fora o colo materno, existe o colo da mulher enquanto companheira. Não como amiga, mas como alguém com que você divide a sua vida. Colo da mulher, colo de mulher… não é colo pra mulher. A relação é diferente, as pessoas são diferentes, mas aconchego é o mesmo, os colos são análogos.

Me nina, menina, me nina, menina, me nina, menina…

Sobre as mulheres

Nos meus eternos questionamentos cheguei à seguinte conclusão:

Há três tipos de mulher: as santas, as putas e as que transitam entre a clareza da primeira e a obscuridade da segunda.

Não, mulher, não pare de ler achando que é pretensão minha tipificar você nesses três tipos. No final, me entenderá e talvez até me dê razão.

Pra exemplificar esses três tipos, eis que recorro a três célebres personagens femininas da Literatura: Madalena, Dona Flor e Capitu.

Madalena, de São Bernardo, é de uma raridade ímpar. Exemplo de mulher quase perfeita – até porque a perfeição é reservada, única e exclusivamente, para as nossas mães. A personagem de Graciliano é culta, altruísta, fiel, trabalhadora, enfim. Reúne uma gama de qualidades que, para nós homens, são infindáveis defeitos. Não somos merecedores do amor e nem capazes de amar essas mulheres. E isso faz com que elas suicidem o próprio sentimento.

Pro leitor desavisado, Dona Flor não tinha nada de puta. Usei-a como exemplo do segundo tipo para classificar a mulher que, se fosse possível, nos trairia até com os mortos. Somos meros joguetes dos seus devaneios. O pior de tudo isso é que gostamos. O saudoso poeta Mário Quintana escreveu que o mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem. Somos engaiolados por elas e cruel e aparentemente nos sentimos bem. Falsa ilusão. Como disse o queridinho de vocês, Chico Buarque: Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. E atrás dessa mulher, mil homens sempre tão gentis.

Já o terceiro modo é o que me parece mais comum. Mesclam elementos do primeiro e do segundo tipo. Capitu talvez seja a que melhor retrate essa mistura entre Madalena e Dona Flor, até que se prove o contrário. Não se pode afirmar sobre o seu caráter ou sobre suas atitudes até que flagremos um trejeito de Madalena ou Dona Flor. No entanto, isso não quer dizer que sejam confiáveis.

Como você pode ver, mulher, somos reféns. Reféns de nós mesmos e de nossa eterna dúvida. Essa eterna dúvida que ainda não conseguimos responder.

E se me permitem ir mais além, talvez estivesse enganado. Essa Quimera tem muito mais do que três cabeças. Chamá-las de vilãs ou heroínas seria puro reducionismo romântico. Quem sabe se vocês, assim como nós, só façam agir de acordo com cada situação. Reféns daquilo que nós julgamos achar que conseguimos esconder… os próprios sentimentos.

O Vermelho e o Negro

O apito do trem anunciava a morte. O trem passou pela estação da vida daquelas pessoas, em sua maioria negros, e tingiu de vermelho sangue a paixão daqueles torcedores.

O trem que levou a vida, trouxe lágrimas. O Maracanã não era nada se comparado ao choro que acompanhava o som da corneta do músico da Charanga.

O apito do arrebatamento tinha o mesmo som triste da música do instrumento e das palavras do trovador.

Flamengo até [depois de] morrer…

*Meu pai conta a história de que ao descer na antiga estação Derby, atual Maracanã, torcedores que andavam pela linha foram atropelados por um trem. Entre eles, um menino de aproximadamente 10 anos. Morto e enrolado numa bandeira do Flamengo. Antes do início do jogo o locutor do estádio pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da tragédia. Então ergueu-se o corneteiro da Charanga do Jaime e entoou uma marcha fúnebre. Corria o ano de 1968.

E o 11º mandamento dizia: Não prejudicai o próximo em seu bel prazer ou interesse

Se tua pólvora não queimasse uma vida; tua ambição não esvaziasse um estômago; tua falta de educação não poluísse o chão e o ar; a falsa crença não se aproveitasse da ignorância e carência alheias para fazer seu ‘pé de meia’; o país não fosse feito de analfabetos funcionais e miseráveis; tua esperteza não dobrasse a minha carga horária de trabalho…

Aí então, não me importaria com o baseado “inocente” que você fuma; os milhares de dólares que guardas na cueca; com o lixo que joga nas ruas e o combustível queimado; a religião hipócrita que propagas aos quatro ventos; com o desvio de verbas da educação e saúde diretamente para os cofres na Suíça; não me importaria com o “jeitinho malandro de ser” que você leva a vida.

Mas, infelizmente, é problema meu SIM! Sou obrigada a viver (e conviver) com você, dividir ar, chão, teto, cultura e política, mesmo você não tendo NOÇÃO do que significa “senso de coletividade”, não entendendo que o ser – humano é um animal, sim, mas um animal com polegares e um cérebro altamente desenvolvido, que, normalmente, se contenta em ficar atrofiado em 5% do seu potencial, graças a você… Aí sim, ANIMAL IRRACIONAL!

R.I.P.

Aviso aos navegantes: no Brasil, é proibido viver. Sem espanto, a verdade é essa mesmo que se lê. Você, que já não pode sair de casa quando tem vontade, para ir ao lugar que deseja, agora também não pode mais beber, nem fumar seu cigarro. Mas não se preocupe: carros, bebidas e cigarros continuam sendo vendidos livremente, no local mais perto de você, sem qualquer restrição.

Tudo e qualquer coisa em prol de um suposto bem coletivo que se almeja. A lógica é a simples, somos todos responsáveis pela coletividade, e por ela devemos abrir mão de nossos reprováveis desejos mundanos e superficiais. Nós, que temos nossa liberdade cada vez mais restringida por uma violência urbana induzida, provocada e prevista – a tal ponto que já se impregnou em nossa rotina diária –, passamos, também, a não poder desfrutar de determinados prazeres da vida, que há até pouco tempo eram perfeitamente aceitáveis.

O povo é presumidamente irresponsável e mal-educado. Essa é a premissa de que se parte quando se assevera que a única solução aos acidentes de trânsito por embriaguez é proibir a ingestão de qualquer mínima dose de álcool a quem vá dirigir, afinal, a irresponsabilidade que contamina o povo impede que os motoristas limitem seu consumo de álcool a uma quantidade que não lhes tire a percepção necessária à direção. São todos uns irresponsáveis; logo, estão todos proibidos de ingerir sequer um chopp. Eternos adolescentes!

Sim, o número de acidentes foi significativamente reduzido. Não poderia ser diferente, uma vez que a fiscalização cresceu na mesma proporção – até onde me recordo, antes dessa nova imposição não havia esse frisson de blitzes que hoje existe. Qualquer raciocínio lógico chega à conclusão de que quanto mais blitzes existirem à caça de quem não esteja em condições de dirigir, menor será o número de acidentes. Simples assim.

A novidade do momento é a proibição do fumo em locais públicos fechados. Concordo plenamente que o cigarro é incômodo ao extremo, até mesmo para os fumantes, e que fumar em locais fechados é realmente desagradável. Não há dúvidas, assim como é certo que o cigarro é a porta de entrada de inúmeros problemas de saúde. Quem fuma sabe disso e aceita o risco.

O único problema ocorre quando o que é desagradável se torna proibido em uma sociedade na qual é plena a liberdade de escolha dos lugares que frequentar, e onde quem deseja construir um negócio pode muito bem definir o público que pretende aceitar em seu estabelecimento – vide as casas de swing, um bom exemplo dado por um conhecido meu, fumante inveterado e revoltado com a nova lei do Estado do Rio.

Ou seja: os empresários tem o direito de permitir a entrada de fumantes em seus estabelecimentos, as pessoas tem a liberdade de escolher se desejam ou não frequentá-los, mas, mesmo assim, tome proibição. Mas não vamos proibir a indústria do tabaco, afinal, o lobby político que ela é capaz de iniciar é bem mais forte do que qualquer reivindicação popular.

Estaria mentindo se declarasse que não bebo, mas praticamente não dirijo e consigo muito bem viver sem cigarros. Difícil é, isso sim, viver submetido a lógicas pequenas e desrespeitosas à liberdade individual, pela qual já muito se sacrificou: pouco a pouco, vão sendo assassinados os cidadãos.

Uma colher de chá

Já disse o ditado:

A oportunidade e o cavalo encilhado só passam na nossa frente uma vez.

Quando pequeno não era o moleque mais arteiro do mundo e tampouco o mais comportado: era criança e, posto que criança, fazia coisas de criança.

Isso me rendeu castigos por boa parte da infância.

Um dia sem sair de casa, uma semana sem brincar, um bimestre sem video game. Certo é que não escapava sequer por 7 dias sem uma punição. Talvez se contabilizasse a quantidade de dias que fiquei de castigo, ultrapassaria a quantidade de que tenho de vida.

No entanto, contrariando o ditado gaúcho, pra tudo nessa vida – ou quase tudo – existe uma concessão, uma segunda chance.

Lembro da minha primeira. Veio amarga, sob roupagem diferente.

Meu pai e disse:

– Dessa vez vou te dar uma colher de chá.

Por não saber do que se tratava, neguei. Mas sem saber que a segunda chance, de ruim não tinha nada. Como disse Drummond, o verdadeiro sentido das palavras não está no dicionário; está na vida, no uso que delas fazemos

E é assim que a vida faz. Nos oferece colheres de chá todos os dias. Talvez, não da forma como queremos, não da forma de palavra de dicionário, mas em cada situação que podemos fazer uso no cotidiano.

Quis custodiet ipsos custodes?

A lágrima que cai do rosto da criança indefesa é a mesma lágrima que cai do rosto do homem que chora calado.

O medo da criança que teme o escuro é o mesmo medo do homem que teme sozinho.

A mãe afaga a criança que chora e o pai protege a criança que teme.

O homem afaga a mãe que chora enquanto protege o pai que teme.

Só me diga uma coisa:

“Quem guardará o guardião?”

Desiludido na esperança

Meu coração se apossou da desilusão
Desiludido, permanece ativo
À procura do amor – fervor

Mas teme ser dilacerado
Desprezado e esquecido
Como outrora
Ou seria, outroras?!

Coração carente
Guardando todo o seu amor
Pronto para explodir

Já apaixonado
Antes do nascer da paixão
Esperando um outro coraçãozinho perdido

Nesse caos
Chamado mundo
Chamado vida
Chamado normalidade

E, então, poderá viver flutuante
Apenas dos sentidos
Somente na alegria

Na inocência de um amor verdadeiro
Carpe diem do amor
Sem melhor estar.

Até Breve

Já sinto a dor do parto, mas tenho que partir. Partir desta pra melhor. Não farei um discurso de despedida, porque não faz o menor sentido isso. Todavia, achei de bom grado me despedir de todos aqueles ociosos que leram meus rascunhos do que a ciência chama de uma escrita neo-faço-o-que-eu-quero…

Foi legal…e um dia o Luiz me convidará novamente pra eu voltar a escrever aqui. hahaha…

Beijos e Abraços

Eu confesso!

Devo confessar, adoro uma discórdia – ou, para ser mais popular, um barraco. Adoro, e não tenho vergonha de dizer que às vezes sinto até um alívio quando alguém que merece escuta umas verdades ou ganha umas cicatrizes como resultado de muito bem dados tabefes. Essa história toda de buscarmos a conciliação e tratarmos uns aos outros de forma dócil é bonita, bastante “Era de Aquário”, mas não se aplica fora de situações razoáveis, evidentemente. Afinal, é justo esse suposto dever moral de incorporar todo esse espírito “paz e amor” mesmo quando você foi obrigado a ouvir ou aturar poucas e boas? Santificado seja aquele que responder que sim, porque esse sacrifício é digno de canonização!

Levar desaforo para casa pode ser conveniente em determinadas situações, mas quando surge aquele descontrole que chega a elevar a temperatura do corpo, é inteiramente válido revidar – com os devidos limites, claro –, por quê não? Ora, a natureza dos homens é conflituosa, deixá-la de lado é justificável apenas por algum bem maior do que a honra individual, como a paz coletiva ou algo de similar transcendência.

Justamente em virtude dessa visão certamente não-convencional e talvez moralmente questionável para alguns, me deliciei nesta semana: briga feia na novela das oito, discussão acalorada no Senado Federal (sobre a qual, por sorte de quem lê, desisti de escrever)…atire a primeira pedra quem não teve a atenção nem um pouco despertada em alguma dessas situações. Quem tem coragem?

Aí mora a “sementinha do mal”: lá no fundo, você também é barraqueiro!

Às vezes

Uma vez, fui aquele que se entregou de corpo, alma, sangue e mente a uma mulher. Fui tudo o que ela quis e ela pôde, com toda a força do verbo, fazer de mim o que à sua cabeça ocorresse. Cheguei a elevá-la ao posto de santa, onde eu, mero devoto, subjetivei e abdiquei a minhas trivialidades em função de sua satisfação total.Quando no fim, como em muitos outros fins, a dita cuja não merecia. Uma vez.

Duas vezes cri que eu não serviria ao Exército. Meu pai me garantiu, em duas ocasiões distintas, que um capitão amigo dele faria com que meu cabelo Black Power se mantivesse intacto após as três apresentações em Triagem. Dito e nada feito. Uma semana depois, já marchava com desenvoltura e acordar às 4h30min já não era mais problema. Literalmente, “ah, meu pai…” nessas duas vezes.

Três vezes minha mãe foi chamada na minha religiosa escola, Santa Rosa de Lima, durante minha 6ª série. Puts!, eu era O caos. Minha professora de Matemática à época, a irreverente Lêda, me levou à capela do colégio algumas vezes com o intuito de exorcisar-me. Aqui, não minto: frustrada, trocou-me de turma. Lembro bem da expressão facial de minha mãe quando, na derradeira visita à sala da diretora, ouviu: “Carla, querida, não sei bem como dizer, mas esse menino é o Anticristo”. Tadinha de mamãe. A constrangi nas três vezes.

Quatro vezes dezessete, conta a Álgebra, dá sessenta e oito. Mas minha avó, ao partir, deixou à Terra o que nem esse número em anos é capaz de tremular. Beirando a idade da soma inicial, Elizabeth partiu. Nem sessenta e oito anos de vida, vinte ao meu lado, à época, são capazes de suprir dois anos de imenso vazio. Daí, concluo que Matemática -desculpe-me, cara Lêda – não é uma ciência exata. Pra mim, quatro vezes dezessete é dois, porque não quero ter de esperar sessenta e seis anos pra sofrer mais do que já sofri nesse biênio. Esta semana corre à data de dois anos após a morte de minha avó. E já estremeci mais de quatro vezes.

Cinco vezes. Ah! “Eu sou Flamengo de coração! Eu sou do time que é pentacampeão!”. Não há glória maior na minha vida do que fazer parte da Nação. Mengão, meu parceiro. Sempre que me flagro triste, recorro a ele – seus vídeos, fotos, tributos e façanhas sempre me alegram em tempos revoltos. E nada precisa fazer, nem vencer é necessário. Minh’alma pra sempre efervescerá ao timbre da odisséia rubro-negra, ganhando ou perdendo. Te amo, meu Flamengo! Te amo! Te amo! Te amo e te amo! Cinco vezes!

Recordar é, sim, viver. Mas o inverso não se faz verdade. E nenhuma, nenhuma vez mesmo, fui tão sincero ao proferir os seguintes dizeres: dá gosto ver a vida só às vezes!

Bons Tempos

Reuniam-se sempre aos Domingos. Aos meus olhos, aquilo era de uma grandiosidade tamanha. Não faltava nada e nem ninguém. Brincadeiras, bolo, pastel, almoço, doces. Avós, pais, tios, primos, sobrinhos, amigos…

Se eu não conseguia expressar tudo o que sentia naqueles momentos por meio de palavras e nem de gestos, me bastava sorrir. Sorria, sorria com os olhos e isso era o suficiente pra saberem. Meu coração doía de tanta felicidade.

Mas os bons tempos acabam, quando a verdade aparece. A felicidade, por vezes, é inimiga da verdade.

Não se reúnem mais. Hoje, aos meus olhos, aquilo era de uma falsidade tamanha. Faltava a verdade, faltavam os verdadeiros sentimentos. Intrigas, fofocas, mentiras, ostentação. Já não há mais avós, não vejo meus tios, nem primos. Me restaram os pais e os amigos. Se não consigo, hoje, expressar tudo o que sinto por meio de palavras, meus olhos novamente serão meu espelho. Meu espelho de dentro.

Sinto saudade do que não vivi e de quem não conheci. E saudade também não tem tradução. Hoje tenho o coração doendo de tanta saudade.

Sinto muito (homenagem às vítimas do voo Air France 447)

Sinto muito por vocês que se foram, sem nem terem pedido.

E por vocês que ficaram, sem saber o que pensar.

Faltam-me palavras que lhe façam sentido.

Sei que nada que escutares fará essa tristeza passar.

 

É triste te ter ontem e hoje saber que nunca mais o verei.

É triste não! É terrível, é trágico, é amedrontador.

Diga, agora, como ficarei

Se, nisso tudo, só o que sinto é a dor?!

 

Não sei o que lhe dizer.

Nem o que fazer.

Quando chegaste pra mim,

Já anunciastes teu fim.

 

No princípio de tudo, onde o nada passou a ser minha rotina.

O que fazer se seus beijos não mais farão parte da minha sina?!

Eu não pedi pra nascer.

E você não pediu pra morrer.

 

Tudo que vivemos ficará guardado

No lado esquerdo do peito destroçado.

Com essa faca de gume afiado.

Rompeste a esperança que tinha no ar de te ver ao meu lado.

Cara ou Coroa

Pasta, carteira, chave do carro, telefone, tudo em dia. Entro no elevador e aperto o botão do primeiro andar. Logo na parede eu me olho no espelho do elevador e confiro o nó da gravata. Fez o nó francês, já para causar uma boa impressão. O terno é novo, comprado ontem. A calça, muito bem passada, combina com os sapatos novos de couro italiano. Coisa fina. Tudo ia se encaminhando conforme as expectativas. Aquela era a última de uma série de entrevistas. Esperava por aquele emprego há bastante tempo. Era a chance de ouro, mal podia imaginar. Sentia que em alguns instantes, tudo iria mudar E não deu outra. O elevador parou no meio do caminho. Ficou enguiçado entre o sétimo e o oitavo andar. O porteiro informou que o conserto só viria em algumas horas. Apreensão, nervosismo, desespero, raiva, angústia, tristeza: todos os sentimentos se revezavam naquele momento. Mas um deles se destacou: a curiosidade. Dentro do elevador, parado entre os dois andares, não havia apenas um futuro empresário de sucesso, mas também uma jovem criança. E aquele momento, para ela, não poderia ser melhor. Hoje ela faria prova de ciências. No entanto, o elevador parado significa para ela não apenas o adiamento do inadiável, mas também a conquista de mais algumas horas de Playstation naquele dia, já que não chegaria na escola a tempo. Azar de uns, sorte de outros.

Leilão da virgindade

Após um período curto de férias (inclusive aqui do blog, que aproveitei para postar algumas músicas antigas que eu tinha escrito na época em que achava tolamente que pegava mulher se escrevesse para elas) volto à atividade para comentar de uma situação bastante inusitada, mas que ultimamente já está se tornando rotineira em nossos noticiários. Da última vez que vi, se tratava de uma equatoriana de 28 anos que estava leiloando sua virgindade para pagar o tratamento de saúda da mãe. Há qualquer coisa de errado nisso., senão vejamos: um tratamento de saúde é caro, assim como os estudos na faculdade (caso de uma americana de 23 anos que leiloou sua virgindade nos EUA), assim como qualquer outra justificativa que leve alguma garota a leiloar sua virgindade. Contudo, é de se ponderar que uma virgem de 28 anos não deve ser uma beldade, nenhuma modelo internacional. Aliás, todas as proprietárias de hímens intocáveis que eu li, até então, eram uns grandes barros, e me instiga saber quem são os malucos que resolvem pagar uma baba para comer uma mulher deste nível. De repente, o Markinhos comeria. Há mais. Pode ser que o fulano que resolveu fazer esta caridade seja um altruísta, de espírito generoso e esteja visando apenas ao tratamento de saúde da mãe da pobre equatoriana. Só que se ele for tão bonzinho assim, ele pode simplesmente doar o dinheiro, sem precisar guerrear com o dragão. Resumo da ópera: é algo que eu não entendo. Uma horrorosa guardou sua virgindade até os 28 anos, ou 23 ou 25 ou qualquer idade parecida, para ter uma adversidade e logo leiloá-la por um preço absurdo, como se tivesse leiloando uma obra de Picasso. Bom, Picasso do cara que pagar a fortuna exigida pra encarar uma bosta dessas.

Bom dia por quê?

Detesto gente muito feliz.

Me irritam profundamente aquelas pessoas que parecem transbordar felicidade todos os minutos de todos os dias, desde sempre. Logo que tenho o desprazer de achar-me com um desses tipos, sinto uma incontrolável vontade de fugir imediatamente, e discretamente investigo as saídas de emergência mais próximas – aí incluída qualquer pessoa que esteja oportunamente por perto e da qual eu possa me valer a partir do levantamento de algum assunto aleatório.

Exemplares dessa agonizante situação não são raros. Chegam a você parecendo meros seres humanos razoavelmente bem-humorados, que estão passando por excelente momento, e você, simpático e acolhedor, imagina serem pessoas de ótima convivência. Até o instante em que você percebe que a fase de extrema felicidade simplesmente não tem fim.

Aí, não tem mais jeito: ature-o ou deixe-o. Cada encontro se transforma em um fantástico evento, com risadas ilimitadas e abraços acalorados e empolgação para um evento qualquer e extremo contentamento por qualquer simples fato, enquanto que, para você, cada segundo é sofrível eternidade, ao ponto de sentir enorme aflição e implorar pela exposição de um problema, uma reclamação, ou apenas um olhar um pouco mais preocupado. Não significa desejar mal aos outros, longe disso, significa buscar algum sinal de vida humana dentro daquele protótipo de personagem de comédia romântica. Também não é sinal, e logo tranquilizo o leitor, de rabugem, pessimismo ou tendências suicidas – ou assassinas, apesar dos sinais de incontrolável repúdio.

O que torna insuportáveis pessoas assim são duas coisas: o exagero e a ilusão. Afinal, convenhamos, na vida real ninguém consegue ser tão radiante durante tanto tempo. É justamente isso que nos faz razoavelmente toleráveis e, em conseqüência, evita um número ainda maior de conflitos ainda mais trágicos do que os já existentes.

O mundo de verdade é repleto de surpresas, sobressaltos, obstáculos, desilusões, palavrões em último volume, vontades repentinas de pular pela janela; aquele que não vive isso – ou para isso fecha os olhos -, não vive: existe. Finge viver.

Contigo

Espero que o presente não piore.
Vou tratar de saber-te e cuidar-me;
Farei com que a minh’alma desarme
Os espinhos do passado, a priori.

Se a tristeza já não causa-me alarme,
Quero mesmo que tua vida melhore.
Peço até para morrer nesse folclore
Cujo medo de perder-te é teu charme.

Junto a ti, poesia não é escrita!
Meu amor me inebria e sempre irrita
Os olhos dos que nutrem mero ódio.

Que a vontade de ter-te seja aquela
Da ansiedade d’uma boa novela
Onde chora-se ao último episódio.

No mesmo lugar

Não quero dizer
que não vale a pena arriscar.
Só não quero mais insistir
em ser insistente.

Não quero perder
tudo que lutei pra ganhar.
Apostando no teu olhar novamente.

E esperar
por quem não quer vir pra mim.
Levantar e cair para sempre.
Rodando
e permanecendo no mesmo lugar.

***

Gravei essa música com uns amigos em casa. Entre eles, Wellington Rodrigues e Octávio Augusto.
Sei que ninguém vai pedir, mas caso alguém queira, só deixar o e-mail. 🙂

FREEDOM (ou adaptação de “Demorei muito pra te encontrar”)

Demorei muito pra me libertar
Agora eu quero só viver!
Sem repressão, sem medo de ser!
O importante é ser feliz!

Como demorei para enxergar
Que a pessoa mais importante sou eu!
É o meu corpo, minha mente, meu ser!
Ninguém tem que me prender!

Ser o que sou sem medo de ser.
Reprimida por você!
Não entendia porquê sentia assim.
Liberdade existe, sim!

Nem venha me amarrar
Porque nunca mais vou suportar.
Me anular e me desrespeitar.
Essa Paula não dá mais.

Sem economia de emoção.
Sem medo do prazer.
Vou abrir o meu coração
Pra todos que quiserem ver.

Não quero rótulos,
Não quero leis.
A minha lei é ser feliz!

Então nem venha me reprimir
Que dessa vez não vou permitir!

Demorou para a coragem vir
Mas agora ela vai ficar!
Não vou ignorar os meus pensamentos,
Meus desejos,
Meus pressentimentos…

Uma nova pessoa ressurgindo
Após do inferno sair.

Não tenho que me justificar
Não sou robô
Nem sou você!

Viena

Eu havia acabado de chegar. A aula já tinha começado há alguns minutos e na sala restaram apenas os lugares mais distantes do quadro. De longe, pouco enxergava. Com sono, pouco me concentrava. Cansado, pouco entendia. Enfim, era um péssimo dia para ir à aula. Mas lá estava eu, não sei o porquê. Pensei que não precisava estar ali naquele momento.

– Então, para calcularmos a compatibilidade do sistema, devemos verificar a sua nulidade do conjunto de equações através do posto da matriz dos coeficientes e o seu número de incógnitas…

Incógnita era a minha presença na aula. Pensei que poderia estar tranqüilo correndo na praia, ouvindo música, jogando uma altinha e bebendo mate com dois dedos de limão. Depois de matar a sede correria em direção ao mar e…

– O conjunto solução obtido pela eliminação Gaussiana forma uma base vetorial com n graus de liberdade…

Liberdade, eu precisava muito disso. Apesar de ninguém estar me segurando, me sentia preso dentro da sala de aula. Precisava sair de lá, da sala, da faculdade, da cidade, do país! Esquecer tudo e virar hippie em algum país afora. Iria me dedicar à música e viver de gorjetas obtidas tocando violão no metrô de Nova Iorque. Ou me apresentar como músico especializado em Bossa Nova e tocar em cervejarias em Viena. Ou então…

– Através da obtenção dos autovalores do operador linear, será possível identificar os possíveis autovetores que formarão uma base da matriz diagonal que será utilizada nas demais transformações lineares.

Nesse momento me levantei. Não havia nem 15 minutos que eu estava fisicamente na aula, mas decidi ir embora. Arrumei minhas coisas e guardei tudo na mochila, me levantei e fui. O professor, ao me ver passar, parou a aula, olhou para mim e disse:

-Você mal chegou e já vai embora? Assim não vou poder te dar presença

– Professor, não me leve a mal, mas agora eu estou indo à praia. Quem sabe, se eu tiver sorte, semana que vem estarei em alguma cervejaria em Viena. Caso não nos vejamos mais, seja feliz com as matrizes.

Um Passo à Frente (Sessão Música Parte 4 – e última)

Um Passo à Frente

Se a gente não se cuida G-C
Quem irá cuidar da gente? G-Am
Se os costumes não mudam G-C
Porque é que a gente mente? G-Am
A vida com a faca na mão F-E

Se a gente não se cuida

Quem irá cuidar da gente?

Se os costumes não mudam

Porque é que a gente mente?

A vida com a faca na mão

Sem coração ela segue

Pedindo perdão estou entregue

Sem sonhos, cuidados e desejos,

Eu nem penso mais nos seus beijos

E mesmo sem ver, sem saber,

Eu te tenho à luz pra acender

Ao topo do mundo, na filosofia dos burros,

Quem te deu moral pra fugir?

Desfilas com pose elegante, modelo,

Morre tentando quebrar o gelo

Assim implacável, chora na escuridão,

Entregado ao amor de um qualquer

Às pressas você me corrompe sem medo

Mas nunca serei igual antes

O justo fim de dois fiéis amantes

Só me diga a desventura que foi viver

Sem rumo, sem motivos pra querer,

A cada fim, um espaço.

Viva a luz da apelação emocional

Salve a saúde mental do erro irracional

Num mísero passo.

Novamente, o interstício

Assisto imóvel a sua partida, que de tão certa e irremediável parece irreal. Mergulho nas lembranças que permanecem vivas em minha mente e revivo os olhares carregados de sentimento, as palavras desajeitadas à procura de sentido, os delicados toques repletos de malícia.

Recordo também os inúmeros obstáculos e as incertezas sempre atordoantes, que vez ou outra ou por algumas vezes desaguaram em inflexíveis discussões, após as quais percebia de maneira ainda mais determinante a intensidade do sentimento que nos unia. Reflito: retiraria qualquer das palavras proferidas, submetida ao risco de, ao final, arrepender-me de omitir emoções?

Afasto-me dessas memórias – o momento não é apropriado a reerguer discórdias. Sinto novamente a explosão de felicidade comum aos instantes mais simplórios, ao notar que, de tudo, permanece avassalador o que nos trouxe até aqui. Me pergunto, à essa altura, se algum dos minutos de que desfrutamos poderia ter sido melhor aproveitado. Não há dúvidas de que sim, desde que presentes diversos fatores que à época eram desconhecidos. Qualquer mínima alteração, no entanto, impediria que nos tornássemos o que hoje somos, com as impressões que atualmente temos e as lições que acumulamos.

Chegou a hora de mostrar maturidade, segurança e independência. Sinto sangrar-me o coração e o cair de uma lágrima inaugural, enquanto vejo que se vai, em travessia pelo oceano.

E inicio nova espera.

Marcha Fúnebre

Não agüento mais ir à praia e ver a orla tomada por pessoas vestidas de branco e munidas de cartazes desfilando suas almas penosas. “Justiça! Justiça! Justiça!”. Ok, também concordo que deve haver. Trago na pele, inclusive, tinta que se alia a isso. Mas, convenhamos, que transitar com os olhos embargados de cimento e lágrima não é e nunca será a melhor forma de extirpar a violência.

Como dizia meu antigo professor de Geografia, segundo ele, parafraseando Jack, o Estripador: vamos por partes. Por que, em nome de Deus, as autoridades de segurança trabalhariam com mais afinco após uma manifestação contra a morte de uma criança? Essas pessoas que os passeantes julgam como corruptívies não chorariam nem se fosse com os filhos delas, então, não há razão aparente para apelar pro emocional das mesmas. Em 7 de fevereiro de 2007, morre o menino João Hélio, vítima da barbárie à qual já fomos apresentados. Nesses dois anos e meio, o número de mortes por bala perdida, latrocínio etc diminuiu drasticamente ou, pelo menos, reduziu? Uma coisa é a classe dos siderúrgicos ir protestar por aumento salarial. E, no fim, quase sempre conseguem o objetivo da ação. Afinal, quando mexe com dinheiro, fodeu.  Aí, o buraco é lá no topo. Mas quando fazem passeata para reivindicar justiça sobre uma vida que se foi, o peso do apelo é nulo. Corriqueiro adágio é pensar que a união faz a força. No caso exposto, apenas gera ilusão. Uma frase batida, mas que conclui-se desoladamente, é a que o dinheiro tá valendo, literalmente, mais que a vida.

As manifestações são muito úteis para embolar o trânsito na cidade.

Das Hierodulas

Os letreiros vermelhos de neon que piscavam desordenadamente podiam ser convidativos, mas me lembraram os escritos narrados por Dante na sua Divina Comédia.

“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”

Estava lá, não porque queria, mas porque me faltava coragem. Entrar já não era mais mera opção, nem força do acaso. Era obra do embalo. A decisão em conjunto tomada, por mim calada, por mim consentida, por mim omitida.
Dentro, eu não teria mais escolha.

No Inferno, a música que guiava a minha passagem não vinha da lira de Orfeu e tampouco acalmava o Cérbero. Apenas o instigava.
Só vivendo o inferno para se saber que o mesmo não é marcado por terríveis castigos ou por eternas dores. Se para os cristãos o Inferno é a ausência de Deus, meu inferno era a ausência de mim mesmo.

Quem havia me roubado de mim?

Se a imagem mítica do inferno é representada pelo horror, meu inferno era repleto de uma beleza suja e prazerosa, uma beleza epicúrea. Os demônios não castigavam, mas cantavam odes ao prazer. Convidativos vendiam um amor barato e descartável.
Um amor vencido.
Eu, taciturno, novamente calei, consenti, omiti.

Embriagado e sonolento por uma coragem artificial, pelo canto das sereias do mar de solidão.
Eu vivi a eternidade e vos garanto: Não valeu a pena.

Tal como Orfeu, só me resta agora tomar o caminho de volta. Sem ter uma Eurídice, sem olhar para trás.

Vida a um

Sou só eu
Minha caneta
A folha
E minha mente.

Nós todos somos um.

A solidão.
Que não é meu cigarro
Mas é meu ar.

Por vezes, rarefeito,
Se o coração acelera,
Se as mãos suam
Ou o corpo se arrepia.

Então encontro seu ar.
E fazemos de nossa solidão particular
Um encontro
De corpos e almas.

E suor
E desejo
E mãos
E saliva
E boca
E pescoço
E gozo.

E, por um momento, esqueço que estou só.
Nasci só.
Vivo só.
E morrerei só.

Mas enquanto esse ciclo não se finda
Vago pelas ruas
À procura de uma outra
Solitária alma.

E só.

alma solitária 2

Invasão

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

Levantei da cama assustado. Estava ouvindo um forte barulho no vidro do quarto. Cheguei a pensar que crianças estavam tentando estilhaçar a janela do meu quarto jogando pedras, mas logo me dei conta de que isso era quase impossível, pois moro no oitavo andar. Mal humorado, me levantei para verificar o que era tal barulho na janela. Para minha surpresa, era um pássaro. Eu não fazia a menor idéia do que ele estava fazendo do lado de fora da minha janela, pendurado na grade. Tampouco por que estava bicando o vidro da janela intermitentemente. Pensei que ele poderia estar com fome. Não tenho linhaça em casa, mas tenho algumas frutas. Busquei um pedaço de maçã que estava na geladeira e fui dar para o pássaro. Quando eu abri a janela, ele voou. Acho que assustei o pássaro. Guardei a maçã e voltei a dormir.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

Pus a mão na cabeça e me protegi! Com certeza era bala perdida. Tentei me proteger com o travesseiro da guerra entre traficantes e policiais que acabava com a minha tranqüilidade. Aos poucos, fui reconhecendo o barulho e pensei: será novamente o pássaro? Abri a cortina e lá estava ele, de novo, por algum motivo bicando a janela do meu quarto. Ao cogitar abrir a janela, ele bateu as asas e se foi. Era a segunda manhã seguida que isso acontecia. Eu já estava ficando com raiva do MALDITO PÁSSARO FILHO DA PUTA que perturbou o meu sono. Precisava fazer alguma coisa.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

A essa altura, eu não me incomodava mais. Tentei assustar o pássaro, prendê-lo em uma gaiola, envenená-lo, mas nada funcionou. Então, passei a dormir nestes últimos meses na sala. Maldito pássaro filho da puta.

Te Espero (Sessão Música Parte 3)

Te Espero

Esse é o começo de uma nova sensação
Talvez você não queira ter tamanha emoção
Se tranque no seu quarto se esconda no porão C#-G#-F#
É a hora que o rei não escapa do peão
Te espero em meia hora lá fora E-F#-C#
Pra gente resolver
Espero que você seja sincera
Da mesma forma que eu vou ser
Se você mentir pelo menos seja justa
Não queira ser feliz as minhas custas
E seja humilde pra reconhecer F#-B-A-G#-C#
Que nossas brigas faziam bem pra você
Se hoje parto sem certeza de voltar
É porque farto já estou de te amar C#-G#-F#
O mundo me apresenta coisas novas
Que são provas pra adiante te mostrar
Te espero em um segundo
Mas no fundo não torço por você
A sua partida só de ida
Me fez entender E-F#-C#
Que uma frase mal dita
É um grito de apuros
Cobrando as dívidas
Que o amor deixou com juros
A máquina de fazer silêncio quebrou nosso pacto
Causando impacto F#-B-F#-(A-G#)-C#
Ficando a mágoa
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa C#-G#-F#
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa
Brotando do cacto sem água

Esse é o começo de uma nova sensação

Talvez você não queira ter tamanha emoção

Se tranque no seu quarto se esconda no porão

É a hora que o rei não escapa do peão

Te espero em meia hora lá fora

Pra gente resolver

Espero que você seja sincera

Da mesma forma que eu vou ser

Se você mentir pelo menos seja justa

Não queira ser feliz a minha custa

E seja humilde pra reconhecer

Que nossas brigas faziam bem pra você

Se hoje parto sem certeza de voltar

É porque farto já estou de te amar

O mundo me apresenta coisas novas

Que são provas pra adiante te mostrar

Te espero em um segundo

Mas no fundo não torço por você

A sua partida só de ida

Me fez entender

Que uma frase mal dita

É um grito de apuros

Cobrando as dívidas

Que o amor deixou com juros

A máquina de fazer silêncio quebrou nosso pacto

Causando impacto

Ficando a mágoa

Brotando do cacto sem água

Brotando do amor essa mágoa

Brotando do cacto sem água

Brotando do amor essa mágoa

Brotando do cacto sem água

Utópicas efemeridades

Dos acontecimentos daquela tarde, pouco ainda consigo lembrar. Não importa, na verdade: o que fez valer o dia aconteceu quando estávamos apenas os dois, longe de qualquer pessoa conhecida, e quando a tarde já cedia lugar ao anoitecer.

Procurávamos oportunidades para ficarmos juntos. Para tanto, se pudéssemos, relegávamos a segundo plano compromissos previamente acertados, ou ao menos tentávamos abandoná-los o mais cedo possível, em busca de tempo dedicado exclusivamente a nós. Foi a solução que se apresentou naquele domingo.

Saímos sem nos despedir, para evitar comentários e especulações. O que faríamos e para onde iríamos interessava somente a nós, e a mais ninguém. Rapidamente entramos no carro e partimos, sem rumo – e sem qualquer vontade de fixar algum. Queríamos exatamente aquilo, nada além: um instante especialmente nosso.

E o tivemos. Seduziu-nos o fim da tarde; encostamos em um lugar qualquer da orla e imediatamente retiramos os sapatos, para sentir fixando em nossos pés os gelados grãos de areia. Desabamos sobre o imenso carpete natural que formavam, nos sentando de forma que seus braços envolviam quase todo o meu corpo, e eu apaguei de minha mente tudo o que havia à nossa volta. Lembro que nada, ou muito pouco, falamos.

Sucumbimos à hipnótica força do pôr-do-sol, que nos tornava meros figurantes de um espetáculo de cores sem igual. Por alguns minutos senti apenas seus braços, que me envolviam e afastavam do mundo que nos esperava quando aquele instante tivesse fim; sua descansada respiração, na contramão dos acelerados batimentos de seu coração; o vento frio da noite que estreava; os grãos gelados de areia em nossos pés.

Ali permanecemos, por um curto período de tempo, que mais pareceu uma eternidade, pela força com que se manifestaram nossos sentimentos e impressões. E era justamente essa intensidade, presente em cada segundo de nossos mais ligeiros encontros, que, como que por mágica, compensava o abandono de todos os compromissos, pessoas e obrigações da vida real, completamente ignoradas para que ficássemos juntos.

Elizabeth

Ah, minha querida e amável senhora!
Por que sobes tão depressa, hein?!
Estou atordoado. ‘Vem’, vó, ‘vem’!
‘Vem’ que pra ti a morte não tem hora!

Deixe isso pra lá! Pare de demora!
Todos podem esperar, exceto quem
Te ama, te sente e te quer bem
Como eu, a mãe e a prole agora!

O céu há de receber-te, é certeza.
A chama que levou-te, já não acesa,
Escondeu o amor que não se repete:

Amor de neto que sempre existiu,
Amor da cria que, há pouco, viu
Deixares a Terra, oh, Elizabeth!

Obs: soneto dedicado à minha avó, falecida no dia 3 de agosto de 2007, num incêndio causado por seu cigarro dentro de sua própria casa. Escrevi este soneto algumas horas após ocorrido, depois de arrombar a porta e tentar salvá-la – vê-la inconsciente no chão – e desmaiar no corredor a metros de seu corpo. Bombeiros me tiraram com vida. Fui o único a sair vivo do apartamento onde, hoje, moro.

As três feridas narcísicas

Três grandes acontecimentos marcaram o ego humano de tal forma que foram considerados as três feridas narcísicas da humanidade.

O primeiro grande golpe veio com Copérnico, quando o mesmo afirmou não sermos o centro do Universo. Éramos meros coadjuvantes que brincavam no carrossel do Sol.

Se não estávamos no papel principal da peça universal, nos restava ainda gozar da condição de filhos de Deus. Mas Darwin, ao descobrir o evolucionismo, nos legou a condição de mero produto do acaso. Não somos seres especialmente criados, mas apenas resultado da evolução natural dos seres.

A despeito disso tudo, quisemos reivindicar, como última esperança, a racionalidade exclusiva da nossa espécie. E então, Freud nos deu o derradeiro golpe que nos faz sangrar até hoje. Não somos sequer senhores de nós mesmos. A consciência é a menor parcela de nossa vida psíquica.

Tal qual o homem, a nossa vida – de modo individual – a cada momento sofre feridas que abalam a nossa estrutura e nos fazem repensar o que somos e o que queremos a cada instante.

Lembro-me que a primeira ferida narcísica que sofri foi aos 7 anos. Quando pequeno, pensava ser o meu pai o homem mais alto do mundo. Por ele e por meio de sua altura aspirava às coisas do alto. Foi quando conheci outro maior do que ele…

Restava ainda a condição de super-herói inerente a todo pai. Foi quando aos 13, vi meu pai chorar pela primeira vez. O homem inatingível também sentia medo, também sentida dor, também chorava. O super-herói tinha lá as suas fraquezas.

Depois de feito homem, nada mais poderia me abalar, pensei. Foi aí que me bateu à porta a morte. Nada e nem nínguém é eterno. Mesmo as pessoas mais queridas têm prazo definido de estada na Terra. Eis a ferida que sangra até hoje. Eis a ferida que nunca vai cicatrizar.

E você? Quais as suas feridas?

Uma acumulação de pequenos grandes momentos

escorrendo areia mão

Não há, no mundo, momento mais importante do que esse, agora.
Passou.
Viver no futuro e esquecer o momento.
Perde-se, não volta mais.

E perdeu foi vida.

Porque a vida tá aqui,
Em todo, e, especialmente, cada momento transpirando emoções.
Emoções únicas.

Cada momento é único.

Carpe Diem não é coisa dos vadios.
É privilégio dos sábios.
De um ser vivo, consciente da efemeridade de sua existência.
Que procura absorver dela os momentos.

Assim, vive,
E não, somente, existe!

 

Brincando

Pedrinho mal podia acreditar. Ele ganhou de presente de aniversário de seu tio mais velho um cachorro. Não era um simples cachorro, mas um cachorro adestrado, desses que disputa competições. Só pelo nome, ele já se mostrava imponente: Sagaz.

Sagaz tem inúmeros prêmios em modalidades que ninguém fazia idéia do que fosse, mas os troféus acompanhavam o canino no embrulho do presente. Os cuidados com o cachorro eram de primeiro mundo, tal como a sua ração, importada do Canadá.

Os olhos de Pedrinho brilhavam, mal podia esperar para brincar com o cão. Correu até o quarto, buscou uma bolinha de tênis velha dentro do armário e foi para a rua brincar com cachorro. Conduzindo-o pela coleira, Pedrinho não conseguia esconder a ansiedade para ir brincar com o seu novo presente na praça perto de casa. Já havia contado aos amigos a novidade.

Ao chegar à praça, soltou o Sagaz, pegou a bolinha de tênis no bolso e a arremessou o mais longe possível, quase a perdendo de vista. Em seguida, disse:

 – Pega Sagaz!

O cachorro sequer se moveu para ver o que Pedrinho havia arremessado. Pedrinho não entendeu o que havia dado de errado. Foi buscar a bolinha. Enquanto isso, pensava no que poderia ter dado de errado. Concluiu que ele deveria ter mostrado a bolinha de tênis ao cachorro. Assim, ao retornar chamou o cachorro e disse:

 – Aqui, Sagaz, olha a bolinha, olha! Agora pega, Sagaz!

Outro longo arremesso, dessa vez na direção do campo aberto, para que o Sagaz pudesse observar onde a bolinha cairia. Ao menos, o cachorro acompanhou a trajetória da bolinha. Após ela cair no chão, ficou olhando para a cara do Pedrinho. E Pedrinho? Bem, mais uma vez, foi buscar a bolinha. Enquanto analisava o que havia dado errado, pensou que talvez devesse colocar a bola perto do focinho do cachorro para que ele pudesse cheirá-la. Aí, então, o cachorro reconheceria o percurso pelo rastro do cheiro da bolinha e a buscaria. Assim, não deu outra:

 – Sagaz, cheira a bolinha, cheira! Isso amigão! Agora, pega!!!

Dessa vez, até o Pedrinho perdeu de vista o arremesso. Sagaz, então, se moveu. Estava de pé, passou a ficar deitado no chão. Pedrinho ficou irritado. Decidiu ir para casa, já que o cachorro não queria brincar. Enquanto pegava a coleira, Sagaz correu desesperadamente. Minutos depois, retornava ele, para o alívio de Pedrinho que disse:

 – Vamos embora, agora, seu cachorro preguiçoso. Só quer ficar deitado aí no chão e quando é hora de ir embora, some. Na hora de buscar a bolinha, fica parado que nem uma estátua. Você não serve pra nada, mesmo…

Pedrinho pôs a coleira no Sagaz e foi para casa. Ao chegar em casa, soltou Sagaz e foi para o quarto. Curiosamente, encontrou a bolinha de tênis em cima de sua cama.

Que seja pra sempre (Sessão Música Parte 2)

Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Manuela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.

Que seja pra sempre
Essa noite eu sonhei com você
Pensei em tantas coisas
Tentei te agradar
Mas eu percebi que não saí do lugar
Eu espero que seja o melhor
Que nós sejamos felizes
Faremos disso um fato
Que isso não seja mais um drama barato
Pra te encontrar e te contar
O quanto foi difícil achar
Alguém que enfim pudesse amar
E desculpar meus erros que são seus também
Ria como no primeiro dia
Me mostre toda sua alegria
Ao ver que eu sou quem você queria
Faça da minha vida uma avenida pro céu
Me acompanhe nessa minha vida
Essa fase de artista
Se não for pra sempre dessa vez
Talvez eu desista
Mas te carregarei comigo
Como a melhor das lembranças
O nosso canto ao telefone
O nosso amor de criança
Agora quando eu voltar a sonhar
Tentarei dizer o que sinto
De repente não ficar mudo
Já que pra essa prova eu não sei como eu estudo
Ora menina, só tem você por aqui,
Então deixe-me te ver sorrir
Me encare com seus olhos perfeitos
Diga que eu sou suspeito para falar deles
Agora sim estamos fortalecidos
Diante do seu poder
Discussões nos manterão unidos
Você sempre sabe o que deve fazer
Pode contar sempre comigo
Deixa eu te olhar enquanto anda
Decida a hora de partir
Aqui você é quem manda

Que seja pra sempre

Essa noite eu sonhei com você

Pensei em tantas coisas

Tentei te agradar

Mas eu percebi que não saí do lugar

Eu espero que seja o melhor

Que nós sejamos felizes

Faremos disso um fato

Que isso não seja mais um drama barato

Pra te encontrar e te contar

O quanto foi difícil achar

Alguém que enfim pudesse amar

E desculpar meus erros que são seus também

Ria como no primeiro dia

Me mostre toda sua alegria

Ao ver que eu sou quem você queria

Faça da minha vida uma avenida pro céu

Me acompanhe nessa minha vida

Essa fase de artista

Se não for pra sempre dessa vez

Talvez eu desista

Mas te carregarei comigo

Como a melhor das lembranças

O nosso canto ao telefone

O nosso amor de criança

Agora quando eu voltar a sonhar

Tentarei dizer o que sinto

De repente não ficar mudo

Já que pra essa prova eu não sei como eu estudo

Ora menina, só tem você por aqui,

Então deixe-me te ver sorrir

Me encare com seus olhos perfeitos

Diga que eu sou suspeito para falar deles

Agora sim estamos fortalecidos

Diante do seu poder

Discussões nos manterão unidos

Você sempre sabe o que deve fazer

Pode contar sempre comigo

Deixa eu te olhar enquanto anda

Decida a hora de partir

Aqui você é quem manda

Com o perdão da malfadada palavra

A falta de inspiração é um dos maiores problemas com o qual se depara um auto-intitulado escritor, amador ou profissional. Confesso que, na minha humilde condição de rabiscadora de palavras muitas vezes sem sentido, constantemente me acho certeiramente atingida por esse mal. Hoje, por exemplo.

Todo o silencioso ritual que culmina em um texto razoavelmente suportável, fruto de pequenas impressões ou sentimentos acumulados durante certo período, parece não ter gerado qualquer resultado produtivo que pudesse ocupar algum minuto do tempo daqueles que ainda não perceberam que, no fundo, nada mais faço do que inventar historinhas fantasiosas com generosas pitadas de desabafo.

Mas a falta de inspiração, e isso afirmo sem qualquer receio de estar equivocada, não significa necessariamente a ausência de algo sobre o que escrever. Pessoalmente, quase sempre deriva de uma overdose de sensações incongruentes, provocadoras de tamanha confusão a ponto de me impossibilitarem que as reduza a palavras, tão certas e definidas. É a situação em que me encontro. Creio estar poupando os leitores que ainda me restam de escritos muito mais desinteressantes do que essa infeliz confissão.

Garanto, no entanto, que a organização desse turbilhão de emoções que bloqueia uma escrita minimamente inteligível há de vir, e, aí sim, espero que seja capaz de produzir uma ou outra frase carregada de sentidos. Bem distante de um sincero e quase intragável mea culpa.

Centro do Universo

Se encaro a face tua e deposito
Mais esperança e ímpar cumplicidade,
Deveras, não espero atrocidade
Que cometes de modo só e esquisito.

Aguardo que, quando teus olhos fito,
Veja mais que teu amor: veja a verdade
Que é ofuscada pela tua maldade
Onde a dor de te amar é só o que grito.

Preferes ter co’outrem à lua etérea
A ter comigo a mais valsa venérea;
Queres cobrar sem conceder. Desista!

O que vale-me agora é o que almejo!
Sem volúpias, cego e neste ensejo,
A justiça há de vestir-te, Egoísta!

Amar, verbo transitivo

O cogumelo de fumaça, para alguns críticos, marca o fim de uma era de ideologias bem definidas e abre as cortinas para o início de um tempo sem verdades absolutas: a Pós-modernidade.

Um sociólogo polonês chamado Zygmunt Bauman define por líquidas as relações humanas da atualidade. Líquidas porque efêmeras. Ao tentarmos tocá-las se esvaem, escorrem como líquido nas mãos. O próprio amor, sentimento intocável e infalível da moral cristã, já tem seu prazo de validade.

Dura enquanto não dá defeito.

Dura enquanto durar a nossa paciência.

Dura enquanto não encontramos outro melhor.

Trocamos de amor, como trocamos de celular. E é óbvio que para alguns, a frequência com que se troca de amor é bem maior.

O próprio autor é exemplo vivo de liquidez e efemeridade nas relações. Enquanto digita o texto da Quinta-Feira Santa no celular, se apaixona por cada mulher bonita que entra no metrô, um amor a cada estação. Amores que duram por duas ou três estações. Eternos amores de um dia só.

– Que loira linda! [próxima estação: Maracanã]

Acabou o amor.

Canudos

Guerra feia
Guerra burra
Guerra estúpida.

Guerra quente
Guerra do ódio
Odiosa guerra.

Matar para viver
Viver para matar
Pra morrer.

Derramar seu sangue
Sangue de seu filho
Ou de seu amigo.

O que é isso? -1 vivo +1 morto -1 vivo +1 morto
Deus há de salvar
Sua alma no céu.
E será que há salvação
Pra este monte de carne podre?!
Moinho de mortos.

Feridos
Fedidos
Fudidos

Quantos + poderão vir? +1, 10, 20, 30, 500, 500 mil? 3 milhões? Todos?

Fome
Sujeira
Suor e
Sede.

Abençoai minha alma
Porque meu corpo alcançou o limite.

Insensatez

Afaste-se da cabeça dos homens.
Estes, que arrancam-lhes as cabeças na vitória.

Ó glória
Ó mérito
Vencemos!

Matamos
E morremos
Cada vez que o estouro dispara.

Uma bala. Uma pessoa.
Uma desgraça. Uma família.

Perdoai-me, senhor, pela ingnorância e instinto animal que me possuíram.
E, para que lutávamos mesmo?!

Detalhe…

Para agora e na hora que vierem os mortos...
Amém!
canudos

Dedicação

     

Celso Gomes era um professor universitário muito bem conceituado. Com artigos publicados em revistas acadêmicas do país e do exterior, gozava de muito prestígio entre professores e alunos. Devido ao seu grande prestígio no meio acadêmico, as poucas vagas disponíveis para as suas aulas tornavam-se extremamente disputadas pelos alunos. Seus artigos eram referência obrigatória para qualquer publicação. Suas palavras eram sinônimas de sabedoria, interpretadas como uma verdade absoluta.

     

Era final período, os alunos precisavam realizar a última avaliação do curso. Muitos, então, se dedicaram ao máximo para realizar um bom trabalho, pois o enxergava como uma possível tese acompanhada de uma carta de recomendação para uma universidade estrangeira, além do prestígio pessoal de ter trabalhado junto ao professor Gomes. E eu era um deles.

     

Depois de pronto é que percebi o quanto aquele trabalho havia consumido muito do meu tempo. Meses de dedicação e leitura sobre o tema nas principais revistas do Brasil e do exterior. Realizei uma resenha de praticamente tudo o que já foi publicado antes. Depois, fiz inúmeros testes e simulações matemáticas nos computadores do laboratório de análises. Equações, fórmulas, hipóteses, teorias, conseqüências, resultados e, enfim, conclusões. Era um trabalho muito bem feito. Resumo e Abstract no início, índice de siglas, figuras e tabelas, bibliografia. Os gráficos eram renderizados, todos em 3D. Talvez fosse o melhor trabalho já realizado na minha vida. Cheguei a sentir orgulho de mim mesmo, pois acreditava que aquele trabalho poderia ser o meu passaporte para o doutorado no exterior! Afinal, tamanha dedicação deveria valer alguma coisa.

     

Enfim, chega então o tão aguardado dia da entrega dos trabalhos. Muitos alunos haviam aguardado ansiosamente por esse momento, principalmente eu! Alguns reliam os slides que logo iriam apresentar, outros se apressavam em corrigir alguns poucos detalhes da apresentação, mas ninguém ficava parado. Eu havia me preparado bem para a apresentação na noite anterior, pois costumo ficar nervoso e esquecer detalhes importantes em apresentação de trabalhos. Mas hoje, com certeza vou apresentar um grande trabalho.

     

Assim, às 10:00 da manhã, a secretária do professor aparece na sala de aula e nos passa o seguinte recado:

     

– Bom dia, alunos. O professor me ligou ontem de noite e me disse que iria antecipar as férias dele em uma semana para poder participar de um congresso na Europa no final do mês. Assim, estão todos automaticamente aprovados, não precisam entregar os trabalhos. Boas férias!

Paralela (Sessão Música Parte 1)

Paralela

As palavras entaladas atravessadas na goela
A verdade já de tarde tão covarde se esfarela
Se ela soubesse o meu nome como eu sei o nome dela
Um presente que não se toca como retas paralelas
Paralela Paralela Paralela Para:Lela
Não houve um só momento
Em que meu pensamento, afastou-se de ti…
Não houve um só dia
Em que eu não queria te fazer sorrir
Não houve um só segundo
Em que o mundo não parou pra te aplaudir
E eu sou o cara mais feliz
Desde quando te conheci ->
Foi bom saber que não fui só eu
Quem sentiu saudades
Mas eu não sou seu irmão
Eu quero mais que a sua amizade
Eu devo estar ficando maluco
Com o passar da idade
Mas quero que saiba que te amo mais
Que minha própria liberdade
É por isso que minha vida é paralela a sua
E se encontrar é cair em contradição
Enquanto o homem pensa em tocar a lua
Eu só quero tocar seu coração
Para guardar dentro de mim
Sua imagem tão bela
Paralela Paralela Paralela Para:LelaHouve um

Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Letícia, que eu chamava de Lela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.

Paralela

As palavras entaladas atravessadas na goela

A verdade já de tarde tão covarde se esfarela

Se ela soubesse o meu nome como eu sei o nome dela

Um presente que não se toca como retas paralelas

Paralela Paralela Paralela Para:Lela

Não houve um só momento

Em que meu pensamento, afastou-se de ti…

Não houve um só dia

Em que eu não queria te fazer sorrir

Não houve um só segundo

Em que o mundo não parou pra te aplaudir

E eu sou o cara mais feliz do mundo

Desde quando te conheci

Foi bom saber que não fui só eu

Quem sentiu saudades

Mas eu não sou seu irmão

Eu quero mais que a sua amizade

Eu devo estar ficando maluco

Com o passar da idade

Mas quero que saiba que te amo mais

Que minha própria liberdade

É por isso que minha vida é paralela a sua

E se encontrar é cair em contradição

É por essas e outras que não ouço meu coração

É por acaso que não tenho qualquer oposição

Ambição ou coisa assim

Mas é pra guardar dentro de mim

Sua imagem tão bela

Paralela Paralela Paralela Para:Lela

Saudade

Aperta.

Dói, bem no fundo da alma.
E como curar quando não há solução?
Nem ao menos um paliativo…
 
Dá-me ao menos outra dor!
Que seja mesmo física, em última hipótese…
Talvez distraio enquanto a assisto.

Esqueço o que é,
Como foi,
O que será doravante.

E, quando não mais recordar,
Então voltarei em segundo à realidade.
Sentirei o frio, o terror, vacilante.

Com as cores assim desbotadas,
De cada dia nada mais esperarei
Senão o retorno ao que sempre era.

De tudo, se impossível ao final,
Resta ainda a derradeira opção:
Seguir em frente, largar a espera.

Recomeçar, e ainda que incerta,
Abandonar o cultivo da dor:
Viver sem acreditar em ilusão.

E, quando menos imaginar,
Virá a tua face – de novo.
Oscilo, desconcerto, ressentida.

Mas, como posse tua perdida,
A ti me devolvo.

Soldado Temilton, o arboriglota – Histórias do quartel

Eu era do 3º pelotão, de um total de 4, cada um com 50 soldados e a comando de um tenente e dois sargentos auxiliares. O tenente do meu pelotão era o Barbosa. Tenente Barbosa contava com o auxílio do Sargento Alexandre e do Sargento Santiago. Como todo pelotão tem um soldado que se destaca por seus anormais modos e costumes, o meu não podia ficar fora de tal regra. Já lhes apresentei ao Soldado de Moura, não já? Pois bem. Meu grupamento fora premiado: além dessa raridade de militar, fomos contemplados com a existência do soldado 258. O fabuloso, o extraordinário, o excepcional Temilton!

***

Soldado Temilton, logo à primeira vista, destacou-se: na segunda semana de aquartelamento, quando ainda éramos recrutas, assistíamos a aulas que tratavam de assuntos militares. Aprendíamos hinos, tínhamos instrução armada, noções de primeiros-socorros etc. Um dia, durante uma instrução de Ordem Unida (onde aprendíamos e aperfeiçoávamos técnicas de apresentação militar e de comandos como marchar), o Sargento Santiago nos ensinava a forma correta de apresentação. Ao ouvir seu nome ser chamado pelo sargento, o recruta deveria levantar-se na posição de Sentido, prestar continência, e falar seu número, nome de guerra e pelotão, nesta ordem.

– Soldado 214, Tomé Félix, 3º pelotão!, respondeu, corretamente, o Tomé.
– Muito bom, soldado. Padrão, disse o Sgt. Santiago.
– Soldado 243, Ramon, 3º pelotão!
– Bom, Ramon. Muito bom, elogiou o comandante.
Eis que o sargento aponta para Temilton.
– Soldado Temilton, 258!, brada o soldado.

– O Sr. é surdo, Sr. Temilton? Hein?! É surdo?! Você não tá ouvindo seus companheiros, não, é? De novo!, irritou-se o Sargento Santiago e fez menção pra que Temilton se sentasse e se apresentasse novamente.

Temilton sentou-se e recordou de como seus companheiros tinham se apresentado outrora. Desesperado, levantou-se.
– Temilton, soldado do 3º pelotão, 243!

– O Sr. tá de sacanagem, seu bisonho? Seu nome agora é Ramon?, vociferou o Sargento.
– Não, Sr., gaguejou Temilton.
– Então, por que o Sr. tá se apresentando com o número dele?
– Não sei…, disse, sinceramente, o cabisbaixo soldado.
– Anda, seu monstro! De novo!

E Temilton voltou a sentar-se, aguardando, trêmulo, pelo novo momento. Passados alguns segundos de profunda respiração do Sargento, sua voz de comando fez-se grave aos ouvidos deTemilton, fazendo-o saltar do chão qual grilo.

– Hum…É…Soldado! Dito isso, Temilton sentou-se e pôs o rosto entre as pernas dobradas envoltas pelos braços junto ao peito.
Foi uma explosão de risos na sala de instrução.

– Temilton, vem cá!, disse o Sargento Santiago, querendo controlar a raiva, mas visivelmente falhando na tentativa.

Com os olhos marejados pela vergonha, o recruta obedeceu de pronto. O sargento, então, deixou o militar em evidência, de pé à frente de todo o terceiro pelotão, onde ele encarava a tropa como se fosse um capitão desarmado prestes a enfrentar um exército de lendários espartanos.
– Paes Leme, me diz: o quê que eu faço com essa raro?
– O senhor é quem decide, respondi.

– Alguém aqui é contra Deus?, indagou em voz alta o sargento. Não houve resposta.

– Porque eu acho que Ele não teve amor quando botou esse bisonho na Terra, não. Temilton, o Sr. sabe o que o Sr. vai fazer agora? Tá vendo aquela árvore lá no pátio, perto do infinito? Então. O Sr. vai lá se apresentar pra ela até ela falar que tá bom. Entendido, seu mocorongo?

– Sim, Sr. Sargento!, disse Temilton, aliviado por não ter de mergulhar na Baía de Guanabara fardado e bradando “Temilton não é nome de gente!”, como já tinha feita outras inúmeras vezes.
***
– Soldado 233, Sant’anna, 3º pelotão!

– Tá bom, Sr. Sant’anna, mas pode melhorar. Quero ver vibrando!
A instrução prosseguiu tranqüila por mais cerca de uma hora, a ponto de ninguém mais se dar conta da ausência do Temilton. Agora, entoávamos, em uníssono, a Canção da Infantaria:
– “És a nobre Infantaria
Das armas, a rainha!
Por ti, daria
A vida minha!
És a glória prometida
Nos campos de batalha!
Estar contigo!
Ante o inimigo!
Pelo fogo da metralha!

És a eterna majestade
Das linhas combatentes!
És a entidade
Dos mais valentes!
Quando o toque da vitória
Marcar nossa alegria,
Eu cantarei!
Eu gritarei!
És a nobre Infantaria!”

A porta se abriu no momento e que seguíamos para a segunda parte da canção.
– Permissão para entrar no recinto, Sargento?!
– Tem permissão, seu monstro. O que o Senhor tá fazendo aqui, Temilton?!
– Eu ouvi, respondeu o soldado.
– O quê, seu bisonho?
– A árvore respondeu.

Gargalhadas estrondosas deram lugar ao uníssono que outrora reinava na sala de instrução. Eu, por exemplo, me escorei na parede para não ir ao chão.

– Temilton, pelo amor de Deus, o que o Sr. disse?, respondeu, incrédulo, o Sargento Santiago.
– Ué, Sargento. O Sr. disse pra voltar só quando a árvore respondesse? Então.

– Calma aí. O Sr. tá me dizendo, Sr. Temilton, que a árvore falou com o Sr.?!
– Sim, respondeu o soldado 258.
– Então vamos lá embaixo agora que eu quero ouvir isso!

Descemos todos ao encalço do Sargento. Ao pé da tal árvore, nos posicionamos, ainda com deboche. Temilton pôs-se à frente e apresentou-se:
– Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
Perfeito. Mas o Sargento não deu-se por satisfeito:
– Tá, Soldado. Muito bom. Mas cadê a porra da voz da árvore?!
– Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!, repetiu Temilton, exemplarmente.
– Tá, Temilton. Tá! Eu quero ouvir a árvore!

Apenas eram escutadas as vozes do Temilton e do Sargento Santiago. Equanto aguardávamos uma resposta desconcertante do soldado, o silêncio era o palhaço preso na caixa de surpresa prestes a ser aberta.
– Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
– Fiu!, ouviu-se um assobio.
– Aí, não falei?! Viu? O Sr. viu?! A árvore respondeu!
– Ah, eu não acredito!, respondeu, irado, o Sargento Santiago.

– Nem eu, Sargento! Nem eu! A Natureza é mesmo maravilhosa! Cada um se comunica do seu jeito, né?! Deus é grande…, vislumbrou Temilton.

– Ô, seu monstro! Isso é o passarinho ali no galho! Pelo amor de Deus! Puta que pariu! Temilton, na boa, vai pra água, vai. Não tem almoço pro Sr. hoje, não.

Não é possível. O Sr. não existe. Pelo amor de Deus…, disse o Sargento com raiva e pêsame.

– Mas, é que… Eu vou ter de falar que Temilton não é nome de gente?!, perguntou o soldado.
– Não, seu raro. Quando o Sr. mergulhar, eu quero ouvir: “Eu sou o Temilton e falo com árvores!”. Entendido?
– Sim, Sr.
***

Após risadas compartilhadas entre nós, soldados, e o Sargento Santiago – no único momento onde ele permitiu essa relação -, o comandante disse em voz alta:
– Só falta ele voltar dizendo que flertou com a Pequena Sereia!

Festina Lente

Era pontual. Às 17h começou a se arrumar para um encontro que só aconteceria às 19h30. Nada podia dar errado. Passou sua calça e a blusa sistematicamente, tomou banho, fez a barba e às 18h30 estava pronto para sair de casa. O bar ficava a poucas quadras de onde morava. Também era indeciso e levou o tempo da descida do 7° andar até a porta do edifício para escolher como iria.

Táxi, pensou.

 Lhe pouparia lenço. Já bastava o suor da insegurança e da ansiedade.

Também era tímido. Ao longo do caminho rememorava frases prontas que lia em livros ou ouvia em filmes – a timidez, como toda maldição, provê bênçãos. Tinha uma inteligência e uma memória louvável. Só ele sabia o quanto havia sido difícil conseguir aquele encontro. Quase naufragou na sua própria timidez.

Às 19h00 chegou ao bar e a sua primeira atitude foi olhar o relógio. A pontualidade, apesar de uma qualidade, reside num grande defeito: a ansiedade.

Às 19h15 já imaginou um possível atraso e nas possíveis desculpas que ele mesmo dava para si.

Um drink, por favor.

A bebida é como coragem líquida. Só ela é capaz de tornar o tímido num descontraído e sedutor, tal qual os personagens dos romances que lia e o oposto do Dom Quixote que era.

19h25 e a hora teima em demorar a passar.

19h30

Até 19h35 não pode ser considerado atraso.

Cada minuto sozinho é eterno.

19h40

Deve ter perdido o ônibus do horário.

19h50

O ônibus quebrou.

20h00

Todos os ônibus da cidade quebraram.

20h30

Não vem mais.

O que ele havia feito de errado?

Hamlet observara a Horácio que existiam mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. Nada mais importava, não queria saber motivos ou causas. Toda a sua timidez, sua pontualidade e sua insegurança naufragavam agora no fundo de um drink.

Mais um, por favor. Hoje eu não tenho hora pra chegar.

No fundo da sua alma

Se eu me esforço um pouco, minha sensibilidade aguça e posso enxergar dentro de você, dele ou de qualquer um que passe pela minha vista. Olho no fundo dos seus olhos e vejo tudo o que está sentindo. Posso até arriscar o que está pensando.

Junto aos seus olhos, todo o conjunto te entrega: sua boca, suas expressões, suas rugas e seus gestos, a posição do seu corpo. Sua relação interior com o mundo exterior. 2 mundos. 2 diferentes mundos em constante convivência, muitas vezes, desarmônica.

No fundo da sua alma, eu posso ver uma bela menininha num belo dia de sol, alegre e saltitante, uma menina cheia de sonhos, cheia de amor e alegria, cheia de espontaneidade. Uma menina pura, inocente e inexperiente.

Seus olhos brilham como o sol daquela manhã. São tão esplêndidos e ternos quanto a luz que aquecia os corações gelados.

De repente, seu olhar cai, e vejo que aquela pequena menina cresceu, ela agora tem peito, bunda e um jeito de Lolita. Sinto a sensualidade no ar, sinto o cheiro de sexo transpirando em cada passo seu.

Ela só pensa NAQUILO. Também pudera! Seus hormônios estão à flor da pele, sua respiração constantemente ofegante, mal pode se conter. Vejo tua boca me chamar.

Mas quando fixo um pouco além meu olhar, parece que uma sombra me cobre por inteiro. Fico cega, sem sentidos e sem rumo. O que aconteceu? Quem fechou as cortinas? Não enxergo nada, tudo o que vejo é escuridão. Tudo o que sinto é solidão. Tudo o que vejo me apavora.

Também pudera. Só vejo nada. Meus olhos me iludiram, levaram minhas esperanças, meus sonhos, minhas alegrias, meu gozo. O que sobrou de mim?

Devolvam-me, olhos traíras, o que a mim pertence! Não pense em me negar. Não lubridie a minha inteligência. Os olhos a mim pertencem. Com eles faço o que bem entender!

Posso ver as rugas aumentando. Aquelas velhas rugas. Fruto da preocupação, do medo, do desespero, da infelicidade. Aquela bela menina virou uma velha rancorosa.

Não deixe que os seus olhos fechem de vez.

Amizades

Leblon, 9 da manhã. Era uma manhã de domingo. Ia andando buscar o meu jornal de domingo na banca mais próxima de casa. Chinelo, bermuda, camisa amassada. Carregava meio sem jeito um punhado de moedas que me serviriam para comprar o jornal de domingo e o cigarrinho da manhã. Enquanto caminhava, observava a paisagem. Ciclistas passando, pássaros cantando, crianças brincando, opa! Não acreditei no que estava vendo em um primeiro momento. Era um carro importado. Mas não era um simples carro, era uma autêntica máquina italiana! Aquele modelo sequer existia no país, sua venda era permitida apenas para colecionadores. Potência, design, conforto, tecnologia, enfim, era O Carro. Ele havia parado na minha frente. Eu aproveitei aquele momento curto para dedicar o primeiro trago do dia à minha admiração sobre aquela que seria uma das novas maravilhas do mundo contemporâneo. A combinação entre o metal da carroceria e a luz solar criava o espelho mais nítido que eu já havia visto. Podia ver meu rosto ainda sonolento no reflexo do vidro. Podia. Naquele momento o vidrou do carro foi abaixando e a minha imagem foi dando lugar a uma outra imagem divina no banco do carona. Ainda mais divina que a imagem do próprio veículo. Era uma mulher. Um espetáculo de mulher. Uma morena relativamente alta. Deveria ter 1,80 m. Seu cabelo era ondulado. A pele, morena. Seus seios não eram grandes, tampouco pequenos. Pareciam ser do tamanho ideal: do tamanho da palma da mão. O rosto era fino, de traços fortes. O nariz, pequeno, e os lábios, grandes. Os olhos verdes contrastavam com a pele morena. Enquanto vivia um sonho, uma voz serena, mas convicta, me alçava novamente à realidade:

– Com licença, senhor. Seguindo por essa rua eu chego à Barra da Tijuca, certo?

– Não, minha senhora. Por esse caminho vocês retornam à Lagoa.

– Então como fazemos? – ela perguntou novamente.

Aproveitei a ocasião para me aproximar dos enviados de Deus. Afinal, não poderia abusar da sorte, desastrado que sou. Então, me aproximei do veículo para passar as instruções corretas, quando olhei para o motorista. Ele olhou para mim e disse:

 – Fábio?! Lembra de mim, o César Augusto?

– Perdão, senhor. Deve ser algum engano.

– Ah, então me desculpe. É que você é muito parecido com um amigo meu que estudou comigo.

– Ok, tudo bem. Não há problemas. Faça o seguinte. Seguindo por esse caminho mesmo vocês chegam na Barra.

– Mas esse caminho não era o da Lagoa?

– É sim, mas serve também.

– Ah, ok, amigo! Muito obrigado!

– De nada!

Naquela oportunidade, era a única coisa que eu poderia fazer. Os mandei para o lugar errado. Afinal, eu odeio o César Augusto.

No ponto

Deixo preparado, no ponto. Esqueço que deixei coordenadamente maquinado. Tenho um objetivo, olhar fixo, sigo adiante. Mal sei o que me espera, mas está tudo pronto e diversos motivos me impedem de modificar. A ansiedade por vezes me devora, sou engolido pelo caos, mas não ouso ameaçar a precisão da ocasião pela qual me envolvi e me deixei ser levado em intervalos periódicos, de razões inexplicáveis, entretanto sempre com um sentido intrínseco que me fez, em algum momento, supor a perfeita intuição da certeza. É a precisão, acho que já falei. Me falta, todavia deixo no ponto. Sei que não acerto, mas continuo tentando. Parece uma fábula de contraditórios aleatórios matizado pelo erro crasso de estarmos sempre corrigindo o que já estava no ponto. Eu não me atrevo. Somente mudo de idéia, quando sei que estou migrando para o lado perfeito do raciocínio, do contrário fico no erro que imaginei primeiro. Como se tivesse uma quota implícita para acertar, duas e olhe lá. Tudo graças à pressão da necessidade de termos uma questão resolvida, ainda que sem o menor preparo para decidirmos acerca do que parece ser a correta decisão. E não é correto renegar esta pressão, afinal quem se contenta com uma série de erros alheios ou próprios? Até onde eu saiba, a exatidão é unidade de medida, moeda de troca, determinante de capacidade, dentre outras riquezas. Aonde eu estarei quando minha precisão disparar, eu não sei, mas, pelo sim pelo não, eu já deixei no ponto.

Ruína em prosa

Tentei escrever um poema.

Sujeito às regras da erudita língua portuguesa, vitrine de rítmicos verbos e luxuosa estrutura, rascunhei repetidamente palavras de profundo significado em sua essência, visando conferir melodia às construções melancólicas que rabiscava em crescente frustração.

Forrado por inúmeros bolos de papel amassado, o chão do pequeno quarto servia de único suporte ao peso de toda a decepção contida em cada um dos ensaios fracassados. As costas já me doíam, o sono investia em minhas pálpebras, a vista começava a apelar por descanso, e eu tentava escrever um poema.

Era madrugada e apenas alguns carros contaminavam a paisagem em que eu buscava refugiar a mente, esperando por um clique de inspiração, a partir da concentração no que havia além dos limites da janela. O espaçado e quase imperceptível barulho que faziam os veículos, entretanto, se unia aos gigantes ruídos produzidos pelos menores movimentos, que seriam facilmente ignorados em qualquer outro horário. Eu, inserida naquele mar de fracassos, insistia na ideia de escrever um poema.

A impaciência aos poucos superava a obsessão, e não tardou a desistência. Não bastava o esforço ou a vontade, nada se refletia nas finas folhas do bloco de papel, tendo bastado os imprestáveis ensaios até ali concretizados, adicionais frustrações à enorme coleção.

Assim desisti de escrever um poema.

És

Um amor,
Uma vida,
Uma mulher,
Uma ferida,

Uma perfeição,
Uma superação,
Uma alegria,
Uma energia,

Uma loucura,
Uma gostosura,
Uma fé,
Minha futura mulher,

Uma doença,
Uma crença,
Uma beldade,
Morro de saudade,

Uma fonte,
Minha fonte.

Meu eu,
Meu seu,
Seu meu,
Nosso nosso!

Seu nome

Não me leve a mal se te trato mal
É que teu nome me dá calafrios
Seu nome é só um nome como tantos nomes assim
Mas pra mim não é seu nome
E sim a lembrança
Uma triste esperança sem fim
Que insiste em perturbar.
Ai como dói falar
Uma imagem que castiga os sentidos
Não é seu nome que me maltrata, não é você
Eu bem sei…
Você por você não é nada.
Não é forte nem fraco, não tem nem forma
Nem cordão.
Você por você é vazio, é buraco
Espaço qualquer.
Multidão.
Mas seu nome… Seu nome é de toda imensidão!
E preenche meu íntimo com força
E torce tudo aqui.
Como se pensasse que ando sedada
E que nada vou sentir.
Seu nome é infeliz pra mim.
É a saudade que virou do avesso
Quando não se coloca nem preço
Pra se torturar.
Seu nome é ferida quando não quer fechar.
Mas eu sei…
Que é só um nome.
Como tantos outros na vida existirão
E o seu nome que é só um nome
Não me partiu o coração.
Eu sei… não foi seu nome.
Não foi você.
Mas mesmo assim não dá.
Ninguém com esse nome merece ficar.
Em mim seu nome é fim.
E estou recomeçando…

Sinapse do Amor

amorr

(Ao som da cachoeira, nenhum outro referencial)

Meu amor é puro e inteiro
Sem truques ou destreza
Ele corre pelo meu sangue
Bombeado do coração
Para todo o corpo

E por isso,
Tudo em mim
Reflete você
Meus órgãos
Meus sentidos
Meus movimentos

Cada sinapse
É feita de você
Para você

Porque não há outro caminho
É o destino da minha existência.

Escolha

Era manhã de uma terça-feira. O barulho que vinha da janela já indicava uma terça-feira bastante chuvosa. O celular tocava mais alto, já pela terceira vez. O despertador fazia a mesa vibrar. Logo a sua música favorita se tornaria na mais desagradável de todo o dia.  Enquanto decidia se estenderia ou não a soneca por mais dez minutos, avaliava se valia a pena chegar muito atrasado, ao invés de apenas atrasado. Mas naquela ocasião, não valia. Olhou rapidamente para a janela, que confirmava com a fraca claridade que o dia realmente havia começado. Ao se levantar, ouviu:

– Amor, aonde você vai?
– Tenho que ir.

– Você não pode ficar mais um pouquinho? – ela perguntou enquanto acariciava as suas mãos.
– Hoje não, querida. Infelizmente…
– Ah, amor… queria que você ficasse mais tempo aqui…

– Eu também queria ficar mais tempo, mas infelizmente hoje não dá. Tenho uma reunião marcada com a diretoria, tenho que apresentar o relatório mensal.
– OK, amor… mas quando você voltar, você vai me pagar em dobro.
– Pode ter certeza, minha linda.

Ele se arrumou, mas dessa vez não teve os cuidados habituais. Logo desceu do prédio. Não foi de carro, tomou um taxi. O destino era o aeroporto. Lá encontraria Helena, sua amante. O destino era Natal-RN. Três dias em “reunião”. Depois voltaria para casa e encontraria sua mulher, conforme o plano. Porém, dessa vez, ela não estava mais lá. Havia apenas um recado na cama. Ela fez a sua escolha.

Amor para ninguém

Certos sentimentos nos pegam desprevinidos. É o que acontece com o que por esses dias tomou conta da minha cabeça. Sentimento bom. Não tenho dúvidas, é amor. Não há sentimento melhor que este, amor correspondido. Complexamente retribuído, e ascendente. Não há nada que eu possa comentar sobre este estado de espírito que alguém já não tenha dito anteriormente e com brilhantismo inenarrável. Pelo menos o Chico Buarque jamais deixou passar em branco a variação de humor perante uma situação tão peculiar. E aí pensariam, “está namorando”. Prevendo este indissociável falta de idiossincrasia, já se faz presente o manifesto do “NÃO”. Sonoro não. O amor nem sempre é por alguém, nem por algo concreto e definido. Em certos momentos da nossa passagem pela Terra, podemos notar que o amor pode ser por ninguém. Parece, de fato, uma loucura pensar que um sentimento majoritariamente retribuível possa ser exercido solitariamente. Mas pode. Vejam que incrível. Trata-se de uma paixão de tamanha grandeza, que pode ser para algo que não seja direcionável, nem mensurável, e muito menos explicável. Não há como entender, somente sentir. É o que eu sinto no momento. Sinto que amo, mas amo ninguém. De repente Freud me explicasse, se fosse meu amigo.

Ultraje a Bilac

Como quisesse livre ser, deixando as paragens natais, partiu: caminho livre à frente. Velhas lembranças, persistentes problemas, incômoda vida; tudo esquecido à medida em que as paisagens marginais deixavam de ser familiares e, pouco a pouco, eram substituídas por novo cenário. Era hora de seguir adiante.

Estranhas pessoas, gigantes desafios e a vastidão de um mundo diferente pelo qual percorreu e no qual viveu, tão intensamente como nunca antes havia. A renovação dos votos do compromisso com a vontade de seguir tornou aprazível o que antes destruía, transformou angústia em tranquilidade e revirou o desgosto pelo hoje e o desalento do amanhã. Mas hoje, em falta do aconchego da mesmice, chora lembrando o antes vivido.

E logo, o olhar volvendo compungido, pede que volte o lar abandonado à inquietude que lhe consome, e que agora lhe faz desejar o calor da sóbria tranquilidade ao longe. Pelo que respira, pensa e vive, desde que a saudade é presente.

Assim por largo tempo andei perdido: felicidade desmesurada a volta ao mesmo, na ânsia do recomeço do velho – cálido, confortável e agasalhador.

Soneto à Transformação

N’alma ingrata que geraste em véu ligeiro,
Sou mais solto, mais sangrento, e balbucio
Umas preces, minha dama, e em terno cio
Sou capaz de deflagrar-te: sou faceiro.

De algum modo, se me pego por inteiro
Foragido a perecer, já renuncio
A este cargo de domínio, e num cicio
Auxílio teu conclamo ao travesseiro.

Pelas vidas várias que me forneceste,
Serei sempre grato a ti, Rainha, e neste
Carrossel de amor quero sempre estar!

Dando voltas nas curvas do teu destino
Onde há um ano renasceu o menino
Que se afoga e vive no teu peito-mar!

Obs: soneto dedicado a um ano de união à minha namorada.

Compreensão

Quem ama – ama
Ama muito sem pensar
Quem ama se doa
Quem ama se dá
Quem ama aceita
Renuncia e ama
Quem ama solta
Permite entrar

E não há um mundo
Que seja capaz
De tirar um amor
Quando este está
Para aquele que ama
A porta é aberta
É ferida na certa
E alívio no ar

Quem ama não pede
Apenas entende

Aquilo que tem, cada um dá.

Reflexões na calada da noite.

E essa angústia que me corta a garganta há de me consumir até que saia vomitada na cara de quem quer que seja. Um  nó por tudo que não foi dito, por tudo sonhado que não foi realizado, por tudo que não passou de uma ilusão ou por  tudo que ainda está para ser.

O rock expurga tudo aquilo em mim que fica retido, raivosamente retido nesse cotidiano de falsas morais, aparências e hipocrisia. O rock é o meu eu – autêntico, o meu eu – destemido, o meu eu – ousado.

Se feliz ou triste, sei que assim sou, e insisto em viver nessa tragicomédia chamada `livro da vida`, que tantas vezes me dói, mas muitas outras me arranca sorrisos das mais escandalosas óperas.

Rebelde de nascença. Não tente segurar uma alma livre, a rebeldia está no sangue e não na cara. Não se engane, meu caro. As aparências enganam. Muitas vezes é preciso chocar para ser ouvido, para ser visto, para ser COMPREENDIDO. Abra os olhos. O ser humano necessita de aprovação, de compreensão, necessita ser visto. Veja.

E se escrevo é porque necessito mostrar em palavras o que pulsa no peito, o que não me é concedido dizer em voz. Culpa da timidez. Culpa do medo. Culpa minha, só minha. E para reverter minha culpa, rabisco folhas e folhas em branco, até que não sobre um só espaço sem um risco de sentimento.

Minha liberdade é meu bem mais precioso, é ela quem me diz o que fazer com meu corpo, que me permite tudo, que me faz ser eu. Se encurralada a sinto, sou como um pássaro que teve suas asas cortadas. É preciso voar por aí. Jogue-se.

Em corpo de mulher, essas teclas que por anos tocaram a sinfonia da minha vida. Inevitável. Impossível não amá-las, não tê – las como parte de meu corpo. A mulher que tocada suave e firmemente se transforma num belo movimento de tantas sinfonias…

Deixe-me aqui só, quieta no meu canto. Hoje não quero falar. Nua, linda, sendo eu, numa tempestade de beleza e tristeza.

Toda aberta para ti. De corpo e alma, e coração na mão. Da minha maior abertura, nasce meu maior medo. Danço nua para ser livre. Que meus pés alcancem o infinito do céu. Um beijo na perna para provar que era ela.

Essa louca trança de sentimentos e amor. São tantas as melodias que inspiram a minha alma. Da minha boca sai a música que colore os meus passos. Misturam-se cores, amor, notas e viagens. Toque aquela música que beija o meu corpo, mas me deixe livre pra voar, preciso de cores, som e ar.

Meu estado natural de ser… Meu eu-interior; meu eu-lírico; meu eu-sátiro; meu eu-alter ego. Loucura? Loucura é aceitar a ‘normalidade’; loucura é viver sem aventura; loucura é ser previsível; loucura é não usar o coração; loucura é aceitar o ‘estado natural das coisas’; loucura é não se indignar ao ver uma criança na rua; loucura é cooptar com a pobreza, com a miséria, com a maldade, com a doença; loucura é ver o errado e nada fazer; loucura é não ter ambição em melhorar; loucura é viver no tédio; loucura é viver sozinho; loucura é não se amar, é não amar ao próximo; loucura é não ter caráter; loucura é praticar a corrupção cotidianamente; loucura é jogar lixo na rua; loucura é molestar crianças; loucura é maltratar idosos; loucura é se achar no direito de restringir a liberdade de outro ser humano; loucura é a cadeia brasileira; loucura é encher a cara e atropelar pedestre; loucura é poluir o meio-ambiente; loucura é ser infeliz. Isso pra mim é loucura… O resto é escolha, é seu, é único, e por isso, belo.

Ciclos

– Então, eu acho que é isso. Acabou.

Era o fim de um relacionamento de 8 anos. As lágrimas no rosto traduziam a tristeza daquele momento. Afinal, eles foram muito felizes durante muito tempo. Festas, jantares, viagens, sorrisos, risadas, abraços, beijos, nada mais ocorria. A novidade foi trocada pela rotina e os elogios pela educação. O desejo não era mais vontade. A excitação virou sonho e o sonho acabou.

Porém, apesar de tanto tempo, eles ainda eram jovens. Havia caminhos diferentes para uma nova vida. Novas atividades, novas amizades, novas paixões. A vida continuaria enquanto a triste lembrança seria aos poucos substituída por outras novas, mas não menos interessantes. Novas fotos substituiam aquelas do porta-retrato. Logo, já havia um novo álbum de fotos montado. Tudo era novo. Exceto os desejos. Esses sim, ainda eram antigos.

As novas piadas não tinham tanta graça. As piadas sem graça não tinham graça nenhuma. As fotos eram formais. Os sorrisos não eram espontâneos. Os beijos, sem sincronia. O abraço não encaixava com o corpo. Os corpos não se encaixavam. A vida não era a mesma. Eles eram felizes, mas não sabiam.

– Vamos voltar?

– E se não der certo? Talvez essa não seja a melhor saída para nós.
– Vamos tentar de novo.

– Já tentamos de novo, inúmeras vezes… e cada vez que voltamos, terminamos mais tristes.
– Mas ainda estamos tristes.
– É porque ainda não acabou.

Agora acabou. Era o fim.

Língua solta

Não fazia nem idéia de como seria ruim saber daquele segredo. Infelizmente, não são todos os assuntos do mundo que você pode se comprometer a mantê-los em absoluto sigilo. O problema é que geralmente nos comprometemos a ficarmos de bico calado antes de saber do que se trata a fofoca, e daquela vez não foi diferente. Matheus não gostava de segredinhos, pois não aturava olhares enviesados para sua pessoa, caso vazassem informações. Pois é. José foi traído. Aquele amor de pessoa que era sua mulher, acima de qualquer suspeita Quem diria? Ficou sabendo por acaso, mesmo, até desconfiou de carocha na hora. Logo em seguida veio a intimidação: “Se falares, te mato”! Fulminante. Matheus tinha uma informação valiosa em seu poder, sem saber como me aproveitá-la, e o pior, se deixasse escapulir por descuido estava arruinada sua confiança entre a turma. O declarante foi convicto no que dissera, não titubeou e nem deixou margem para outras interpretações. Era aquilo mesmo. A mulher de José que, outrora, lhe jurara amores eternos, agora era promíscua. O fura-olho não era desconhecido, era da galera também, e com a cara mais lavada possível sequer pronunciava-se acerca do casal. Não que o instigasse contar abertamente os problemas conjugais de cada um, expondo ao ridículo publicamente alguém conhecido e bem-quisto. Na verdade, o que lhe preocupava era o fato de ser espontâneo e suas opiniões saírem como água, sem um filtro, uma censura. Batata, não deu outra. Reunião de conhecidos na mesa do bar, cerveja aqui, caipirinha acolá e saiu, na lata. Melhor solteiro do que CORNO. Todos ao redor sabiam, mas simularam uma cara de surpresa que quase o convenceu do espanto coletivo. O que é a amizade pós-moderna. Fascinante. O escroto mais uma vez foi Matheus, mesmo não querendo saber, mesmo não se aproveitando da história, e mesmo sendo o cara que por bem ou por mal expôs o problema ao real prejudicado. Mas há quem prefira a tese de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.

Revolução

Eu levava uma vidinha bastante normal, sem muita emoção e definitivamente sem qualquer adrenalina, e gostava disso. Diversamente do que muitas pessoas sentem, não me fazia falta o surgimento de alguém surpreendente ou de um momento revolucionário: minha rotina me bastava. Me tranquilizava descansar minha cabeça no travesseiro ao final do dia com a certeza do que aconteceria no dia seguinte. Até aquela noite.

Olhava para o relógio e me preparava para despedir-me do amigo que comemorava seu aniversário, afinal, àquela hora eu já havia atingido meu objetivo de comparecer à comemoração e parabenizar o rapaz. Meus planos eram os mesmos de sempre; eu desceria até a rua principal e pegaria um táxi até minha casa, onde, após tomar um banho bem quente e mergulhar em meu pijama de flanela, desfrutaria de mais uma noite de sono profundo.

Direcionei meu corpo por entre as pequenas aglomerações de pessoas, buscando o rapaz orgulhoso de si – vai entender essa felicidade toda apenas pelo fato de ter dado mais um passo no caminho até a velhice… -, mas o resumido espaço do local impedia uma movimentação ágil. Como não aguentava mais ficar naquele lugar, comecei a me utilizar da má-educação e parei de pedir licença e de andar educadamente; naquele cenário, as pessoas não percebiam a diferença entre um empurrão mais forte e um mero tapinha no ombro. Quando já estava desistindo e pensando se valeria mais a pena continuar o pequeno e tortuoso trajeto ou voltar ao ponto de partida para simplesmente ir para casa, todos os meus planos para aquela noite foram embora. Eu o vi pela primeira vez.

Confesso que nenhum de nós dois estava sóbrio o suficiente para responder de forma plena por suas atitudes, muito menos por seus pensamentos, nos instantes que sucederam. Minhas impressões desse momento, alerto, estão contaminadas pelo efeito do álcool misturado àquele sentimento novo que todos, menos eu, gostavam de sentir. Olhei para aquele homem e tive vontade de esquecer onde estávamos e que fazíamos, mais ainda quem estava ao nosso redor, e até ele chegar da maneira mais rápida, para acabar de vez com aquela ansiedade à qual eu não estava nem um pouco habituada.

Ele chegou até mim primeiro, quando duvido ter conseguido elaborar uma frase inteligível para a banal pergunta que me havia feito:

– Tudo bem? Você está sozinha?

Não consigo me lembrar da íntegra do diálogo e nem mesmo de alguma parte significativa dele, apenas me recordo de como cada porção do meu corpo tremia em ritmos diferentes e descompassados e de como eu tentava disfarçar esse nervosismo, receosa de que parecesse uma menina adolescente no lance precedente ao seu primeiro beijo. Acho que não consegui, e suspeito que isso tenha conferido a ele a segurança necessária a que fizesse a proposta de me deixar em casa, depois de uma conversa em que soubemos apenas os principais dados da vida um do outro: solteiros, bem-empregados, inteligentes e grandes amigos do aniversariante do dia.

Eu, pela primeira vez em muitos anos, simplesmente não pensei. Sabendo que ali quebrava toda a programação rotineira que tanto me agradava todos os dias, sucumbi ao desconhecido sentimento que surgia e deixei que ele me conduzisse até minha casa. Deixei também, mais tarde, que aquele olhar penetrante que me fulminava desde o segundo em que o avistei me convencesse a propor que ele subisse.

Não houve constrangimento algum. Parecia que nos conhecíamos há anos e sabíamos exatamente o que deveríamos fazer, mas, ao mesmo tempo, não sabíamos o que esperar. Optei por parar de pensar mais uma vez. E dormi, naquela noite, certa de que a partir daquele dia abandonaria toda a minha até então segura rotina.

Nota zero pra mim – Desventuras no Alasca

Eu contava 16 anos e ela, no mínimo, 60. Tudo começou em uma fila de supermercado no Alasca. Não, não se trata de uma intensa e linda história de amor. Estou falando de um crime. Vou explicar, mas tenha calma: é uma história um tanto quanto triste (pra mim) e hilária (pra você).

Estava eu no Wal-Mart da Child’s Road com meus humildes dez dólares pra comprar o mais novo cd do Ja Rule. À seção de cd’s, procurei pelo tal disco até achá-lo na última prateleira, a mais próxima do chão. Para alcançá-lo, tive que inclinar-me à frente e, infelizmente, deixar à mostra minhas partes posteriores carnudas e globosas (é, leitor, tive que deixar a bunda pro alto mesmo). Meu maior desejo no momento era tirar logo aquele cd dali, mas ele tinha, para a minha infelicidade, emperrado nas armações de ferro da prateleira. Minha agonia só aumentava. Eu voltava a ficar de pé e depois me inclinava de novo para tentar pegar aquilo que, em breve, me pertenceria. Alternava para, obviamente, não passar mais tempo em posição tão constragedora, próxima àquela que, segundo boatos, Napoleão perdeu a guerra. Minhas tentativas, que se repetiram periodicamente quatro vezes, foram frustradas. Quase desistindo e pedindo ajuda a um funcionário da loja, resolvi tentar mais uma vez: inclinei o tronco à frente e expus, mais uma vez, meu ‘popozão’. Dessa vez, demorei mais tempo, porque acreditei que, determinado do jeito que eu estava, o Ja Rule não tardaria a estar sob meu poder. Foi quando, para o meu total desespero, vi se aproximar de mim um ser do sexo masculino (não digo homem porque tenho lá minhas dúvidas quanto à opção sexual daquela pessoa). Entrei em pânico: não poderia abandonar minha busca àquela altura do campeonato quando eu já tinha tirado praticamente todo o cd da prateleira e erguer-me eretamente para encarar aquele ser nos olhos com o olhar mais másculo que eu seria capaz de produzir. Resolvi, então, apressar-me na missão antes que aquele que eu pré-julguei como homossexual se aproximasse de mim e viesse a…! Prefiro não dizer. Já me sinto invadido (física e mentalmente) só de pensar em pensar tão impuras coisas. Bom, o que aconteceu foi o seguinte: o cara parou atrás de mim num ponto cego meu onde eu não conseguia ver seu rosto, ou seja, não sabia para onde ele estava olhando. Eu vi, alucinadamente e em câmera lenta, a mão dele adejar o ar e aproximar-se do meu patrimônio traseiro. Que susto! Suas falanges  passaram direto, mostrando-me, com o indicador, uma outra cópia do cd que se encontrava em local de bem mais fácil acesso do que esse que me submetera a essa napoleônica posição. Agradeci, peguei o disco na prateleira sugerida por aquele que usava uma camisa com a gravura de um arco-íris e fui para a fila pagar pelo tão almejado objeto.

A fila não estava muito grande. No máximo, 4 pessoas na minha frente. Estava tudo tranqüilo, se excluirmos o fato de uma senhora na minha frente olhar, de minuto em minuto, pra minha cara e, quando percebia que eu a encarava de volta, tornava a virar-se pra frente num susto. Ela fez isso algumas vezes e eu, obviamente, estranhava, mas não falava nada: ainda estava atordoado diante do risco que corri minutos antes na prateleira. A idosa devia ter uns 60 anos e usava um pano na cabeça, uma saia longa, sapatos de gafieira e uma blusa de seda larga e estampada. A certo momento, não me contive: ela olhou pra minha cara e eu disse, em alto e bom inglês: “que foi?”. Sim, pareci grosseiro, mas aqueles olhares cheios de rugas já estavam fazendo com que meus nervos dessem nós. “Nada, não”, respondeu ela. “É que você se parece muito com meu filho, mas ele morreu já faz tempo…”, e, com o semblante triste, abaixou a cabeça. Senti todo o peso do mundo nas minhas costas por ter falado de forma tão mal educada com aquela pobre senhora. Minha vontade era de que ela pudesse me bater pra eu criar vergonha na cara. Ela prosseguiu: “será que quando eu for embora, você pode falar ‘tchau, mãe’ pra mim?”. Eu, capaz de tudo pra me redimir com ela naquele momento, disse que sim com o sorriso mais afetado que eu pude mostrar. A mulher tinha o aspecto de uma santa, era imaculada ao meu ver. Tão frágil, pequena e velha, que agradá-la seria algo prazeroso. Pelo que percebi, ela era uma senhora solitária que não tinha felicidade há anos. Felicitá-la seria muito gratificante. Pois bem. Nota zero pra minha ingenuidade. A coroa passou pelo caixa, pôs suas compras nas mãos, virou pra trás e acenou. Eu disse: “tchau, mãe”, e ela, com sincero sorriso na face, acenou com fervor. Me senti puro, alvo. Andei pra frente, cumprimentei o moço do caixa e ofereci-lhe o cd. “É dez dólares, né?”. “Não, oitenta.” E, com um olhar de completa incompreensão na face, interroguei-o: “oitenta?”. E ele, para a completa destruição da minha alma e intelecto, respondeu: “é. sua mãe disse que você ia pagar pelas compras dela”. “Tá maluco? Ela não é a minha mãe, não! Peraí!”. Disse isso a plenos pulmões e saí correndo em direção à senhora que, há 5 segundos, acabava de passar pela porta da saída. Foi então que o fato ainda mais extraordinário aconteceu: não satisfeita em me aplicar esse golpe, a velha corria pra cacete! Eu estava a uma distância de uns dez metros, inicialmente. Quando cheguei à porta do estabelecimento, correndo muito – e olha que não sou nem um pouco lento -, ela já tinha ampliado a vantagem para algo em torno de quarenta metros! Corri, corri, corri atrás daquela coroa maldita… e ela só se distanciava. Eu ia correndo e pensando num jeito daquela, desculpe o termo, filha-da-puta correr mais do que eu. Eis que ela entra no carro e leva consigo muito mais do que meu dinheiro: ela levou minha ‘carioquice’. Como eu, carioca da gema, saio do Rio de Janeiro e vou tomar um golpe aplicado por uma velha no Alasca? Cabisbaixo, segui andando em direção ao Wal-Mart. Àquela hora, percebi que o alarme do supermercado estava soando, pois o cd ainda estava na minha mão. Eu estava no meio do estacionamento. Pensei: “eu não posso voltar. Não tenho dinheiro pra pagar por isso”. Pelo menos meu objetivo já estava cumprido, uma vez que o Ja Rule já estava comigo. Dei meia-volta e apressei-me a correr antes que os seguranças do local viessem procurar pelo crioulo baderneiro que estava roubando a loja e querendo bater numa pobre, indefesa e branca senhora.

Caminhando, minutos depois, revivi meus momentos no Wal-Mart: o perrengue pra tirar o cd da prateleira; o semi-assédio sexual daquele ser; o inacreditável golpe da velhinha. Desolado, concluí: “tô no Alasca, tô (a)lascado!”

Ela e o gigante

Ninguém sabia o quanto era grande
Ninguém suspeitava
Ninguém suspeitou
Até o dia que aquele gigante
Aquele gigante do sonho acordou

Ela pequena e aquele gigante
Ela gigante ela chorou
Ninguém suspeitava que era tão grande
Ela e o gigante
O gigante que amou

E o amor era lindo… todo de cor
Colorido de tela com cheiro e sabor
Ela pintava todo o gigante
Que triste ganhava e dava sua dor

A dor do gigante, o gigante de dor
Que ela pequena no peito guardou
E amor colorido que era tão grande
Hoje são telas que ela deixou.

Ensaiando a cegueira da alma

olho cego 

Todos os dias ensaiamos a nossa cegueira.

A cada vez que um clarão toma conta da vista e não vemos.

Não vemos a pobreza, a miséria, não vemos a fome, o abandono e nem a doença.

E, quando na escuridão, nos damos conta de que, agora, o olfato começa a falhar.

Não sentimos mais nada.

Não sentimos o fedor da tristeza, não sentimos dó, nem sequer sentimos a poeira que entra por nossos pulmões.

E como é de se esperar numa falência múltipla, começamos a perder, agora, a audição.

E não mais ouvimos os gritos de desespero, os choros infantis não mais chegam aos ouvidos.

Agora, abafados, tampados, surdos.

Não mais o gosto amargo da morte afeta nosso paladar, porque ele, como os outros sentidos, não existe mais.

Não sentimos o gosto de sangue na boca.

Comemos frutas estragadas porque tanto faz.

Não vemos o estrago, não sentimos o gosto ruim e nem sentimos a textura podre, porque o tato não mais nos pertence.

Tocamos na ferida e nada sentimos, então, continuamos a empurrá-la até que se estourem todas as bolhas de sangue.

Mas pouco nos importa, não vemos o sofredor, muito menos escutamos seus gritos de agonia.

Nada mais nos toca.

Nada mais toca nossa alma, que perdeu todos os sentidos.

Perdeu sua forma.

Perdeu-se no inferno astral.

E lá ficou presa.

Para sempre.

Protegida pelos muros que ela mesma construiu.

Intocáveis.

Informação

Ana Carolina Strauss-Kahn é uma médica bem-sucedida. Dona de uma das principais clínicas médicas da cidade do Rio de Janeiro, ela tem o perfil da mulher moderna. Pós-graduada em Berkeley, é a principal referência em seu meio profissional. Vive sempre bem informada e se recusa a depender de ajuda de qualquer pessoa para qualquer tarefa. Ana Carolina queria mostrar que poderia superar qualquer pessoa em suas tarefas, principalmente os homens.

Assim, decidiu levar por conta-própria o seu carro no mecânico. O carro possuía apenas duas semanas de uso. Ainda com cheiro de novo, o banco do carro tinha o saco plástico que o protege o estofado. Ela havia percebido um barulho estranho no interior do veículo que começou a incomodá-la desde o final da tarde de sábado, quando voltava de uma viagem rápida de Búzios. Então, ela decidiu procurar um mecânico para verificar o problema.

Sem ajuda de ninguém, apenas com algumas poucas referências do Google, levou o carro ao mecânico mais próximo de seu trabalho na hora do almoço. A oficina mecânica se situava na Tijuca, a poucos minutos da Praça da Bandeira. Após alguns sinais de trânsito, ela encontrou a rua que procurava sem dificuldades. Bastava agora achar a oficina. Esse era o problema. Oficinas, ela contou ao menos uma dúzia, todas enfileiradas uma ao lado da outra. Após conferir o número da oficina correta em seu BlackBerry, ela estacionou o carro ao lado da sua referência.

Ao abrir a porta, estranha o comportamento das pessoas ao redor. Todos olhavam paralisados para ela. Afinal, por aquelas bandas não se via carro como aquele. E nem mulheres como aquela. A conjugação dos dois foi um choque para a rua toda.

O mecânico da oficina, atento ao fato se apresenta:

– Boa tarde, senhora. Posso Ajudá-la?

– Boa tarde, senhor. Meu carro está com um barulho estranho no motor, mas não sei bem do que é, gostaria que você tentasse descobrir o que é esse barulho.

O mecânico mal ouve o barulho e logo diz:

– Olha minha senhora. Com esse barulho, vou ter que mandar fazer uma revisão em toda a suspensão, e dar uma olhada também nos pivôs que sustentam a roda, pois se eles quebrarem a roda sai. Aí, minha senhora, é um perigo…  

Ela se assusta de início. Não imaginava que um carro novo já tivesse tantos problemas. Mas, logo veio a desconfiança. Achava que estavam passando a perna nela. Então, ela pergunta:

– E quanto você acha que vai sair isso?

– Olha, minha senhora… eu ainda não sei, pois também vou ter que dar uma esticada nas correias, passar parafina na vela e verificar o rolamento do alternador. Depois vou limpar o motor com descarbonizador e, se precisar, trocar o óleo. Vou dar uma regulagem nas válvulas e verificar os freios. Deixa eu pegar a calculadora para fazer as contas, mas não deve ser menos de 3 mil reais.

Após ouvir o valor, ela achou que poderia estar sendo enganada. Estava praticamente decidida a sair dali e procurar outro lugar. Enquanto ela decidia o que fazer, o mecânico foi buscar a calculadora na gaveta de baixo de sua mesa. Em seu movimento, sentiu uma leve dor nas costas que o obrigou a fazer uma cara feia. Então, ela disse:

– Você está com dor nas costas?

– Estou, mas é algo passageiro… já estou tomando remédio, logo ela vai passar.

– Bom… eu conheço pacientes que sofreram de dores terríveis por causa de doenças da coluna, reumatismos, artrite. E se você não estiver tomando a medicação correta, você vai ter efeitos colaterais gravíssimos como torcicolo, dorsalgias, lombalgias e doenças da coluna cervical. Você poderá sentir para sempre a dor de uma contusão muscular, distensão ou mesmo estiramento. Contraturas, rigidez articular, entorses e limitação dos movimentos da coluna serão constantes na sua vida. Mas se você quiser, eu posso encomendar o remédio correto para você.

O mecânico olhou para ela assustado. Achava que poderia ser um problema relativo ao esforço físico repetitivo feito ao longo da sua vida no seu trabalho de mecânico. Então, ele perguntou:

Você é médica, senhora?

– Sou sim – respondeu ela.

– Então, o que a senhora acha que eu devo fazer?

– Vamos fazer um trato: você dá um jeito no meu carro que eu vou receitar um tratamento para você. Enquanto você resolve o problema, eu vou comprar o seu medicamento.

Prontamente, ele aceitou. Achou melhor não desconfiar do trabalho sério de uma médica. Já ela, deixou o carro com o mecânico, foi à esquina, comprou alguns comprimidos anti-inflamatórios, e os colocou dentro de um pequeno vasilhame, também comprado na farmácia. Esperou 40 minutos, entregou os remédios a ele e pegou o carro. Sem mais ruídos. Achou que fez um grande negócio. Ele também.

Não há amanhã

Não me agrada esse espírito de equipe que rege a presente geração. Não quero pensar no meu próximo, também não exijo que pensem em mim. Sou egoísta e sozinho e não poupo água visando ao bem estar dos meus bisnetos. Seis da matina, um frio caralho e eu tenho que tomar banho quente rápido, para que tenha água em 2300? Ah, me desculpe, mas não. Usar produtos reciclados ou recicláveis de pior qualidade pela satisfação de estar contribuindo para um futuro sustentável no ano de sabe-deus-quando? Também não. Não há sentimento coletivo que me faça privar de certos prazeres da vida em troca de uma incerteza condicional que eu nem sei se existirá um dia. Não posso com isso, é demais. A todo momento nos deparamos com impasses e nos questionamos se fizemos o certo ou o errado, e como se já não bastasse as inúmeras possibilidades reais de risco que assumimos quando escolhemos um determinado lado, ainda temos que pensar em como será o dia em que meu neto vai ser avô. Ah não. Quero viver e aproveitar o planeta que é um só, assim como a minha vida. Não me venha com restrições de conciência social, que o último lutador altruísta morreu de aids. É cruel pensar que estamos sozinhos, mas é ilusão pensar que não estamos. Não há decepção quando não há espera por algum ato alheio. Portanto, não me apego e não confio em ninguém. E não concordo com quem se diz preocupado com o futuro do planeta. Ninguém dos que lerão este texto deixará de respirar porque a amazônia é devastada. Que se foda o macaquinho amarelo do pantanal que vai deixar de existir. Tá com pena leva pra casa. O que se faz com um macaquinho escroto desses? Ninguém tá nem aí se matam esses animais para fazem um campão de plantação de maconha. Animalzinho de cu é rola, e SUIPA é o caralho. Um bando de animal doente e fedorento que na China teriam uma utilidade alimentar muito mais bem aproveitada. UFA! Meu eu-lírico histérico e mal educado se manifestou. Já posso ir reciclar o lixo aqui de casa e apagar a luz do corredor pra evitar o gasto.

Fraternidade

Meu irmão nasceu lindo. Era uma criança que exibia por aí todas as características que qualquer mãe desejaria que seu filho possuísse: olhinhos enormes, de cor clara indefinida; cabelos sedosos em que se formavam caracóis perfeitamente delineados; nariz torneado; lábios de contorno imaculável, tão rosados quanto as faces. Nas palavras da minha avó, Deus deveria estar bem-humorado no momento em que resolveu criar o Théo.

Eu, por outro lado, nada tinha de especial. Nasci munido de um par de olhos de formato e cor bastante comuns, cabelos secos e crespos e um nariz que, digamos, atraía a atenção das pessoas pela, digamos, ausência de proporcionalidade. Deus deveria estar puto quando resolveu me criar.

As pessoas só tinham olhos para o Théo, que, paparicado e elogiado incansavelmente, adorava isso. E eu, um menino completamente dentro da média – até mesmo um pouco abaixo dela –, buscava atrair a atenção geral fazendo todas as travessuras necessárias a tanto, com o que transformei a vida de meus pais em um verdadeiro purgatório durante toda a minha infância. A ele, eram atribuídos adjetivos como “lindo” e “anjinho”, e nossos pais eram constantemente parabenizados pela formosura da criança; a mim cabia, na melhor das hipóteses, a qualidade de “gracinha”, acompanhada de um sorriso amarelo e olhares de repreensão em virtude do meu comportamento.

Assim crescemos até a adolescência, época em que o trauma poderia ter sido bem pior, se eu ainda não estivesse habituado a não ser o preferido de nem mesmo uma pessoa que nos conhecesse. Nesse período, já havia abandonado as travessuras infantis por considerá-las sem efeito, mas meu irmão permanecia lindo, simpático, educado, comportado e, agora, excelente aluno. Seu boletim escolar era sempre o extremo oposto do meu, e mesmo não integrando qualquer das turminhas mais populares do colégio, o Théo tinha um sucesso invejável com as meninas. Suas várias namoradas eram sempre muito mais bonitas do que minhas poucas companhias femininas; às vezes eu sentia até que minha família controlava algum constrangimento em solidariedade às minhas namoradinhas, quando estávamos todos reunidos.

O Théo cursou uma excelente faculdade de Direito e se graduou com louvor, tendo sido aprovado quase que instantaneamente em um dos concursos públicos mais concorridos da área, e hoje é um jovem rapaz muito bem-sucedido. Eu, depois de duas tentativas, consegui cursar História em uma instituição não muito conceituada, e ocupo o pouco tempo livre que me resta calculando como pagar todas as contas com o parco somatório dos salários pagos pelos três colégios em que leciono. Estou casado há cinco anos com a última das três namoradas que tive.

Nunca entendi porque o Théo ainda não casou, sendo tão bom partido e tendo desfilado com uma enorme quantidade de meninas, tão deslumbrantes e com tantas qualidades quanto ele. Não estou entendendo, também, porque na noite da última sexta-feira, no restaurante onde eu e minha esposa gastamos algumas economias para comemorar nosso aniversário de casamento, ele estava acompanhado de uma garrafa de vinho português e de um rapaz muito simpático, de quem carinhosamente segurava a mão sobre a mesa na qual se posicionava uma delicada vela.

Aliteração Criminosa

Pragas presas para polir.
Pedaços pisados, pratos, pinos;
Pressa pútrida, podres pepinos
Proezas, pilhérias podem punir.

Pesadas pegadas, pagode político.
Pacatas putas, prazeres praianos;
Preço pequeno; por podres panos,
Padeça, procure, peão paralítico!

Poetas piratas, possíveis prisões.
Prosa, pândega, patuscada: pó;
Pragas polidas para prender!

Pretos, porcos pilham – porões.
Práticas punidas, pobre pataxó;
Prole provida: pornográfico prazer!

Explique-se

Detesto redação!
Detesto regras, parágrafos
Padrão!
Detesto ser ditado
Usado, manipulado
Prefiro até ficar calado
Com medo
Não.
Reprovação!
Detesto ter que ser…
Ou ter que ter
Que seja! Que não seja!
Que saco a exclamação.
Por quanto me equilibro
Nesse jogo ainda vibro
Até um dia vou partir
Detesto cálculos
Só posso rir.
Velho, jovem, criança
Homem e mulher
O que é que você quer?
 Sabe… Não me importa.
Minha mente mal suporta
Qualquer frase, qualquer voz
Tudo vale bem veloz
Certo?
O que vale é o reto.
Tem que ser correto.
E pronto.
Vamos descartar.
O importante é comentar.
Não é pessoa
É só papel.
Basta só rasgar.
 
Desculpa
Mas não pra mim.
Não sou assim.

Antes mal acompanhado de dor, do que só de amor.

coração

Entre a razão e a emoção.

Não tem perdão,
Eu sei.
Porque por mais benevolente que possa ser a razão,
O coração não pensa.

Ele só sente.

E ele sente o que ele é estimulado a sentir.
Se ele é ferido, ele simplesmente sangra.

Independente da razão.

Porque ele não tem olhos,
Não tem boca,
Nem ouvidos.
Ele não tem olfato,
E nem tato.

Mas ele sente.
Ele somente sente!

E sentir dói!
Sempre dói!
Uma hora, doerá…

E por mais que a razão queira perdoar
(e insista nisso),
O coração só sente
(e não quer dialogar com a razão)!

Ele sangra se sente dor
E aquece se sente amor!

Sabe-se lá porquê,
Depois de um dia quente,
Formam-se bolhas de amor.

E bolhas sempre estouram!
Se não sozinhas, com a ajuda de alguém!
E depois que se abrem,
As bolhas sangram e dóem.
Ardem, pinicam e incomodam.

E, então…
Um longo período gelado as adormece, fechando-as.
Porém, elas se eternizam marcadas.

Como uma tatuagem.

Na superfície de um órgão tão frágil,
Tão sensível.
E, paradoxalmente, tão mal-tratado!

E depois querem nos convencer de que o homem não gosta de sofrer.
A dor está no homem.
O homem nasceu com a dor.
E viver sem ela seria como assumir-se só.

E sozinho ninguém quer ficar.

Então, carrega tua dor de estimação
No lado mais vazio do peito.
E quando a solidão bater,
Cultive-a.

Ao menos, só não estarás.

Crença vacilante (melhor conceito de dúvida que encontrei no dicionário)

Quando eu estava no início da vida, bem no início, me falaram que ter dúvidas é saudável. O fundamento desta tese era alicerçado numa premissa que, quanto mais se questiona, mais se procura saber, e num silogismo banal, chegaríamos a melhor das conclusões, que seria: quanto mais se procura saber, mais se sabe. Devo dizer que ainda não sou atrevido o bastante para contrariar este provérbio rifão. Me falta atitude e capacidade, por enquanto. Todavia, demonstro aos poucos minha insurgência em face deste adágio que classifico como “consolo” para nós, humanos, limitados. Tenho muitas dúvidas, e apesar de procurar purgá-las, não encontro respostas satisfatórias, ficando na mesma, senão quando não dou um passo atrás e volto à estaca negativa. É bem verdade que já se foi o tempo de questionar a existência de Deus, de onde vim e para onde irei (pelo menos o meu). Mas não me refiro a estas complexas divagações próprias de uma mente perturbada, que invadiria “campus” universitários com intuito de celebrar uma chacina qualquer. Na verdade, estou me referindo a questões infinitamente mais singelas. O “Por que?”, o “Qua?”, o “Que?”, o “Quanto?” jamais me deixaram saciar minha vontade de simplesmente aceitar a existência de qualquer coisa. E digo mais. Não que estas respostas fariam grandes diferenças na minha vida, pelo contrário, na maioria das vezes são perguntas que me faço pelo puro prazer da indagação descomedida. O que me deixa menos insatisfeito é saber que não sou o único a questionar um algo de um todo. Posso exemplificar uma dúvida que tenho, para tornar concreta a situação interrogatória na qual constantemente eu me encontro. Se me fosse perguntado qual seria o mal do século, eu não sei o que responderia. Não de primeira, sem alguns instantes de reflexão. Do homossexualismo à rinite, passariam pela minha massa cinzenta uma penca de mazelas que se fossem utilizadas como resposta jamais me constrangeria, por se tratar de algum absurdo. Por que as pessoas tem gostos musicais diversos? Por que tem times de futebol diversos? Como alguém pode não gostar de futebol? Como alguém pode achar interessante ver BBB? Como alguém pode não achar a Maria Sharapova bonita? Por que se convencionou que pra cima liga e pra baixo desliga? Por que a torneira direita é quente e a esquerda é fria? Por que o mundo não é todo feito de convenções? Por que preferem a teoria à prática? Whatever. São infinitas crenças vacilantes que me fazem correr atrás de sabedoria, e ainda que essas buscas não sejam frutuosas, eu ainda sou incapaz de discordar da idéia de que quanto mais dúvidas se tem, mais sabedoria se tem.

Querido diário

Certas coisas se revestem de tamanha simplicidade que ficamos com medo de acreditar que são de verdade. Que são possíveis. Talvez por receio de depositar demasiada confiança em algo que, por parecer descomplicado, pode dar errado, e, nesse momento, entrar na realidade e ver que nem tudo é como gostaríamos que fosse. Aliás, quase tudo é bem diferente do que idealizamos.

O fato é que temos reservas quando nos deparamos com coisas simples. Buscamos complicá-las, sob a justificativa de que quanto mais complicadas, maiores as chances de que dêem certo; procuramos pequenos obstáculos em cada etapa, em cada situação essencialmente simplória, iludidos de que ultrapassar barreiras garante alguma certeza de vitória, de que devemos ter segurança para tentar algo além do que vem sendo vivido. Questiono, não poucas vezes, se as grandes transformações do homem se verificam depois de muita ponderação e do intenso emprego da razoabilidade, e quase sempre chego à conclusão de que elas são resultado do mero impulso, da explosão de sentimento e de vontade.

O medo da incerteza paralisa. Impede de viver. Pode parecer conversa de livro de auto-ajuda – e é -, mas é a verdade, nua e crua. O abandono da falsa certeza de que há coisas eternas e pessoas insubstituíveis dói, frustra, aterroriza, e essa é a vida fora dos contos de fada: sujeita a dores, frustrações e medo. Ignorá-la, definitivamente, não é a solução adequada, sob pena de dar início a uma vida fantasiosa, verdadeira fábula, que se torna intragável sem maior esforço.

Sabemos quando chega a hora de ultrapassar as barreiras; sentimos a exata ocasião, de alguma forma que as restrições da linguagem não permitem descrever à perfeição, mas que somos capazes de identificar precisamente. Dar as costas a essa capacidade não significa que a sensação desaparecerá; ao contrário, proporciona o impulso necessário a que produza uma tormenta ainda mais intensa, sendo apenas uma atitude propulsora de um verdadeiro atraso de vida.

Arriscar, sim. Talvez diretamente ao encontro da felicidade, possivelmente rumo a uma nova frustração. E por que não? Em último caso, algo de produtivo sempre poderá ser extraído da dor: no mínimo, ela resulta em escritos sem sentido, porém francamente sinceros, sobre a folha de um velho caderno escolar reutilizado.

de Moura, o imortal – Histórias do quartel

Foi na época em que meu primeiro nome era soldado quando conheci de Moura. Ele, um militar recém-incorporado ao Exército assim como eu naquele tempo, era um recruta de bem curiosos traços peculiares: em apenas dois meses de aquartelamento, o dito cujo já havia posto terra nos ouvidos com o intuito de protegê-los do estrondo dos tiros de fuzil e costumava banhar-se à fragrância de aloé puro, sem o uso de água, convicto de que desta forma, segundo crença chinesa, estaria imune a todo e qualquer tipo de mal terrestre. Porém, o fato mais inesperado da leviana saga do meu amigo soldado em meses militares ainda estava por vir.
***

Durante uma sessão de instrução sobre fuzis, estávamos sentados no chão de uma sala ampla com janelas grandes e esteiras com nossos armamentos no segundo andar do Palácio Duque de Caxias. Todos os soldados, salvo algumas exceções, estavam excitadíssimos com a singular oportunindade de aprender a desmontar e montar seus fuzis com notável agilidade de manejo do armamento. O instrutor, o Tenente Ferreira, haveria de se lembrar pra sempre da tarde em que quase matou um recruta, acidentalmente.
***

Ainda não éramos soldados efetivados. Todos nós, que, juntos, contávamos duzentos, éramos estranhos à arte centenar de armar e desarmar nossa “namorada”, como assim nos obrigava a chamar nosso fuzil o Tenente Ferreira, um oficial que impunha respeito e fazia muitos de nós passar a noite só piscando. De Moura, com sua capacidade esplêndida de obedecer todas as ordens e aterrorizado pela imagem do tenente, mal podia fitá-lo que já queria satisfazê-lo antes que o mesmo proferisse uma palavra sequer. A instrução teve seu início após o cessar de um conversa entre o Tenente Ferreira e o Capitão Estrela.
– “Todo mundo põe o fuzil na posição vertical, com a chapa da soleira pra baixo, e senta de frente pra ele”, ordenou o tenente. “Presta atenção porque eu só vou explicar uma vez, seu bando de bisonho!”.

Todos o olhavam. Os cinqüenta que estavam na sala, uma vez que fomos divididos em quatro grupos devido à capacidade espacial da mesma, prestavam bastante atenção às instruções do Tenente Ferreira. De Moura, temendo seu constante esquecimento repentino, era o que mais se esforçava para armazenar todas as informações dadas durante quase 15 minutos. Periodicamente, notava-se a mão dele adejando o ar para questionar e esclarecer suas dúvidas. Era o único.
– “Essa peça é pra que mesmo, senhor?”, perguntou de Moura.

– “Ah!, seu bisonho! Acabei de falar! É pra armazenar os gases que propulsionam o projéctil! O obturador de cilindro de gases é uma peça que requer cuidados: quando a gente tira ela, a mola do êmbolo impulsiona ela pra fora e arremessa ela longe. Então, cuidado pra não deixar ela voar e quebrar. Se o obturador cair, cai junto!”.
Após essa afirmação, que era uma espécie de bordão no quartel (como “se o fuzil cair, cai junto!”), algumas risadas abafadas foram ouvidas.
***

O obturador de cilindro de gases localiza-se próximo ao cano do fuzil e é apontado para frente. Na posição vertical na qual encontrava-se o FAL – Fuzil Automático Leve que, diga-se de passagem, de leve só tem o nome -, qualquer descuido com a peça poderia fazer com que ela fosse lançada verticalmente para longe. Assim sendo, após explicar as funções dos demais compartimentos do fuzil e de montar e desmontar lentamente para que todos entendessem o processo, o Tenente Ferreira nos informou que era a nossa vez. Nervoso, como todos os outros estavam, comecei a desmontar quando o Tenente disse “Valendo!”. O objetivo inical era desmontar e montar o FAL em menos de um minuto . Todos estávamos concentradíssimos na nossa tarefa e o esforço mútuo nos remetia a um estado de transe, um devaneio, como se o fuzil fosse mesmo a nossa namorada, tendo em vista o zelo que tínhamos para com o mesmo. De Moura, sentado ao meu lado na última fileira logo abaixo da janela, estava igualmente compenetrado, com a sua língua à vista sendo prensada pelos dentes. Pereira, na outra ponta, já apresentava sinais de desespero. R. Morais, ao centro, parecia tranqüilo e começava a montagem, com sua notável habilidade com o armamento. Eu, não portador dessa faculdade, alucinava-me vendo todos os outros em ação enquanto esforçava-me para tirar o retém do ferrolho que insistia em prender na culatra. Quando, por fim, consegui tirar a maldita peça, vi, numa questão de segundos, uma peça voar ao meu lado. Um momento mágico, salvo a tragédia que o sucederia. O obturador de cilindro de gases do fuzil do de Moura quicou no parapeito da janela e caiu para o lado de fora da sala. Algumas pessoas notaram quando De Moura se levantou, ciente do seu destino. Sem entender, o Tenente Ferreira o chamou, em voz baixa. De Moura ignorou o chamado e fitou-me. Vi em seus olhos a inocência de um garoto e a coragem de um guerreiro que sabia a hora de enfrentar a morte. Incrédulo, o tenente chamou-o de novo. “De Moura!”. De moura olhou para a janela, deu dois passos largos rapidamente em direção à mesma e mergulhou de cabeça, passando por cima do parapeito. “De Moura!”, gritou o perplexo Tenente Ferreira, sem acreditar no que acabara de presenciar. Eu, atônito assim como todos os outros soldados, levantei para ir ver o que tinha acontecido com o De Moura, mas o tenente me advertiu. “Mandei levantar, porra?!”. Nos sentamos. O Tenente Ferreira debruçou-se sobre o peitoril da janela e soltou um “Caralho!” tão sonoro que nos fez reféns do medo da morte do nosso amigo. O tentente deixou o Sargento Santiago tomando conta do pelotão e pôs-se aceleradamente porta afora.
***

Permanecemos sentados, apreensivos. Uns já esboçavam lágrimas, ao passo que outros, indignação, afinal, de Moura havia se atirado pela janela seguindo as ordens do tenente. Algumas vozes eram ouvidas, mas nada de extraordinário. Parecia que eu tinha sido abruptamente interrompido de um pesadelo e este se tornara realidade. Nunca imaginaria uma atitude tão insensata como a vivida há minutos antes. Nunca ousaria pensar em presenciar um suicídio desta forma. Inconformado, abstraí a situação e embarquei numa viagem sem rumo, as pálpebras fechando. A cena se repetiu: de Moura jogava-se pela janela em busca do obturador de cilindro de gases. Abri os olhos, interrompido pelo ranger da porta que se abria. Por ela, inexplicavelmente, entrava um pálido Tenente Ferreira e um intacto Soldado de Moura. Aturdido pela visão, não sabia o que dizer. Aliás, assim como os demais, não tinha o que dizer. O que iria falar? “Então você tá vivo, de Moura?!” ou “Você não morreu?”? O silêncio falou por si só. O tentente voltou ao seu lugar original, à frente do grupamento. de Moura também voltou à sua posição outrora ocupada, ao meu lado. Boquiaberto, fitei-o nos olhos enquanto sentava-se. Espantado, como se ele tivesse visto outrem indo embora pela janela, me perguntou o motivo de eu o olhar tanto e com tanto pavor. Permaneci mudo.

– “Por que você tá me olhando com essa cara?”, perguntou de Moura. “Tá maluco? Parece que nunca me viu! Eu, hein!”.
– “De Moura, como?”, finalmente falei.

– “Ah, sim! Fui pegar a peça, ué. Aqui ela, ó! Desgraçada quase me matou!”. E encerrando o assunto com um sorriso sincero, me mostrou o obturador de cilindro de gases.
***
Após o episódio, num outro dia qualquer enquanto eu descascava batatas, de Moura me chamou:
– “Paes Leme, chega aqui.”
– “Fala, de Moura.”
– “Lembra do dia da instrução com o FAL?”, disse ele, envergonhado.
– “Como eu vou me esquecer disso?”

– “Você sabe que foi um acidente, né? Poderia ter acontecido com qualquer um, ué! Se põe no meu lugar! Sacanagem vocês ficarem me zoando por isso!”
Abismado, abobalhado, aparvalhado e puto, eu disse:
– “Você é muito estranho, moleque.”

Esboço

Eu sou rosa sou verde vermelho

Sou branco e preto

Amarelo e azul

Sou roxo, lilás, sou marrom

Sou laranja e sou batom

Sou saia e unhas pintadas

Sou cafona e desbocada

Pequena flor

Delicada.

Que pinta e cospe e chora

Que cobre esconde adora

Sou assim.

Um esboço de mim.

Sou sua filha

Capoeira.

Sou sim mandingueira.

Perdão.

Mas o batuque não sai da minha mão.

E eu gosto.

Do cheiro da vela da cor

Toda brincadeira de ator

Que resisto

Insisto

Que não cabe na minha mão

Sou gota lua e coração

Madrugada.

Eu já nasci apaixonada

E em cada passo de tinta

Escorre estampada

O quanto eu amo

E como amo

O simples fato

de sentir.

 .

Confesso: eu pequei!

pecado

Abracei-me em minha cama e de lá só sai quando expulsa por Morpheus.
Bom dia, Belphegor!

O sol na janela iluminava o meu quarto, e quando me deparei com o reflexo, não foi narciso que vi.
Num salto assustado, peguei minha carteira, mas no caminho da salvação, encontrei aquela velha rameira!
Maldita desocupada! Só sol, ferro e mar!
Praguejei e segui.
Salve Leviatã!

Agora, volto a sorrir: pele de uma índia, cabelos de uma japonesa e colorido de uma americana!
Moça globalizada!
Um abraço para Lucifer!

Nas ruas, indigentes no papelão manchavam minha presença esbelta.
Guardo o dinheiro, viro a cara e sigo com Olhos Cegos de um gigante.
Bem-vindo, Mammon!

Mas que bela notícia!
Pizza e coca-cola.
Encho minha pança (e a deles também).
E faço uma oração à Belzebu!

Nada poderia estragar minha alegria!
Não fosse esse caos nas ruas.
PQP-um gesto, um palavrão e Satã!

Mas nada me abala (por muito tempo…)!
Champagne, lingerie e massagem.
E me deleito nos braços de Asmodeus!

Terá essa alma salvação?!
Difícil…

 Amém!

O Efeito Dinâmico das Cotas Sociais

Mãe, Pai! Passei no vestibular!!!

Os pais abraçaram orgulhosos o pequeno Joãozinho! O pai logo correu para o quarto para abrir a garrafa de whisky que ele ganhara certa vez do seu chefe de brinde no Natal. Já o sorriso da mãe estampava o rosto e atravessava as duas orelhas. Ela já se imagina contando a novidade para as amigas do salão de beleza em que trabalha. Afinal, nenhum deles jamais havia sonhado entrar em uma universidade, uma vez que apenas a mãe terminou o ensino médio e o pai abandonou os estudos para poder trabalhar e sustentar os custos do nascimento do primeiro de três filhos do casal. Apesar de sempre desejarem um bom futuro aos seus filhos, jamais cogitaram que seus filhos fossem cursar uma universidade. Parecia um sonho para eles.

Joãozinho tem 18 anos, é morador do Méier e terminou o terceiro ano no CIEP próximo ao sambódromo. Ele havia decidido fazer a prova do ENEM apenas por fazer e obteve apenas um resultado modesto garantido pela boa nota na redação, nada extraordinário. Porém, ele foi beneficiado pela política de cotas universitárias, que lhe proporcionou uma bolsa de estudos do PROUNI. Ele deverá cursar uma universidade privada no próximo ano e receberá uma pequena ajuda de custo para transporte e xerox. Vai cursar informática.

Para cursar a faculdade, João terá dificuldades, já que terá de conciliar seu emprego na Lan House próxima à Praça da Bandeira com o horário da aula. Porém, maior dificuldade ainda será a de aprender o que não aprendeu. O seu ensino médio foi marcado pelas poucas aulas, ausência de professores e baixa qualidade de educação, além da ausência de valiações periódicas recorrentes. Terá que estudar muitose quiser se formar. Mesmo que o faça, talvez não seja suficiente. Talvez seja.

João é de alguma forma relativamente qualificado. Muitos outros sequer conseguiram entrar. Muitos mesmo. João sabe muito pouco. Mas muitos não sabem absolutamente nada. João não teve uma base educacional mínima necessária para ingressar no curso superior, mas vai cursá-lo. Talvez o termine. Mas para isso, terá que contar agora mais com esforço próprio do que com ajuda de terceiros. Principalmente com o esforço próprio. Até porquê já teve “muita” ajuda de terceiros, se forem comparadas as suas oportunidades com as que seus pais tiveram. Ele perceberá que está muito à frente deles, graças ao “empurrãozinho” do governo.

Certamente ele não será o melhor aluno da faculdade, nem mesmo de sua turma. Será candidato a aluno de mais baixo desempenho da faculdade e favorito a encabeçar as estatísticas de evasão escolar. Mas se o Joãozinho se formar, será então merecido, apesar de ser a sua obrigação. Só dependia dele e ele fez por onde. Ainda, ele terá chegado a um patamar no qual ninguém da sua família jamais chegou.

Agora Joãozinho se forma e consegue um emprego. Ele trabalha no setor de processamento de dados em uma média empresa que presta serviços a uma afiliada da Petrobrás. É um trabalho técnico, burocrático e sem grandes desafios. Vez ou outra faz hora extra, o que o faz chegar atrasado em seu curso preparatório para o concurso de técnico da Eletrobrás. Tem planos mais ambiciosos e uma qualidade de vida inquestionavelmente superior à de seus pais.

Então fica a pergunta: se Joãozinho tiver filhos, eles serão também alvos da política de cotas para universidades? 

Brincadeira de mau gosto

Tratava-se de uma criatura aparentemente inabalável, que reunia a figura paterna e materna em um só corpo castigado, apesar de belo. Maria era uma mulher forte, e não poderia ser diferente com um nome desses. Fazia jus às alcunhas de brava e guerreira, e tudo de graça, sem pensar em reconhecimento, muito menos em favores que se compensassem. Era uma boa vontade livre que jamais existira, e de acordo com minhas singelas convicções, entendo ser pouco provável que haverá outra igual. Parecia que só sucumbiria aos efeitos naturais da vida, e seu ordinário perecimento. Era só impressão. Havia algo maior que não perdoaria o organismo daquela senhora septuagenária. E quem diria, o causador deste desastre emocional seria a pessoa que mais a queria bem, e a recíproca ultrapassa as barreiras da veracidade. Um ser humano que sequer poderia se entender por gente e ter pleno raciocínio do que faria, com tamanha ousadia, e desdém total. Foi uma brincadeira de mau gosto. Uma ligação anônima noticiando o falecimento de um ente querido, muito querido. Com o tom do saudoso Gil Gomes, do “Aqui e Agora”. Naquela noite, bem como nas três ou quatro madrugadas subseqüentes, a moça forte e valente se esgueirava em prantos infinitos e, outrossim, mal sabia o infeliz criador do trote, que D. Maria encontrava-se em petição de miséria, refugiada no seu quarto, que mais bem definido seria pela palavra “canto”. Observar aquela fortaleza desmoronando foi a cena mais cruel e trágica que um fúfio, apedeuta, sacripantas daquela natureza poderia sentir no âmago de suas obsoletas cretinices. Tamanha frivolidade fez com que um incidente, de autoria digna de um acéfalo, se tornasse um marco da valoração sentimental que se pode estipular entre a aberração infantil, da fase precoce de nossas vidas, e o respeito pela noção, principalmente diante de princípios tão comezinhos de civilidade familiar. Foi um susto, apenas um susto, que serviu de lição. É o que eu espero.

Como andar de bicicleta

Me lembro de acordar pela manhã sem medo do que poderia acontecer ao longo do dia, e de me levantar com toda a disposição intrínseca a uma criança. Naquele dia, havia deixado devidamente preparado tudo o que iríamos precisar; meus tênis e roupas já haviam sido escolhidos, os sanduíches de queijo haviam sido preparados por minha mãe na noite anterior e estavam na geladeira ao lado da garrafa de suco de morango, e – o principal! – os pneus da bicicleta haviam sido avaliados e aprovados pelo frentista do posto de gasolina que desde sempre existiu à esquina da rua.

Meus pais ainda não estavam despertos. Assim que percebi que meu pai roncava profundamente e minha mãe não ameaçava qualquer movimento voluntário, voei sobre os dois e comecei a saltar sobre a cama, ao que meu pai acordou com um último ronco mais profundo e minha mãe apenas se deu ao trabalho de jogar as pernas para fora da cama.

Em vinte minutos estavam prontos, menos por disposição própria e mais por minha inquietação e insistência. Então, lá fomos os três em direção ao parque que ficava a poucas quadras de minha casa, e que propositalmente dispunha de largas pistas asfaltadas ora utilizadas como ciclovias, ora feitas de pistas de corrida. As rodas de apoio da diminuta bicicleta cor-de-rosa tinham sido extraídas por meu pai antes de deixarmos o apartamento, e ali estava eu, diante de minha ornamentada bicicleta, já sem qualquer suporte técnico, depositando toda a minha incalculável empolgação na inexplicável confiança de que não, eu não cairia.

Pulei ansiosamente na garupa, encostei meus pés nos pedais. Senti o empurrão gentilmente provido por meu pai e, sem dar importância para aquele frio na barriga que buscava dominar todo o resto do meu corpo, mirei em um ponto fixo mais adiante e segui em frente. Descobri que o segredo para o equilíbrio era não desviar daquele ponto, e esquecer todas as sensações sobre as quais poderia se espalhar minha concentração; apontava especificamente para lá e apenas me permitia sentir o vento que batia em meu rosto e fazia meus cabelos voarem. O que experimentei ao alcançar o fim do percurso que eu mesma havia definido foi indescritível, sem possível comparação a qualquer combinação de sentimentos.

Essa manhã invade, hoje, meus pensamentos, e eu me pergunto onde foi parar toda aquela empolgação anterior ao desafio tido por impossível? Em que momento abandonei a avassaladora coragem de enfrentar o desconhecido e esquecer a preocupação com as prováveis conseqüências? Quando esgotei a confiança na minha própria capacidade de ir além?

Parece que ainda tenho muito a aprender comigo mesma.

Corações Errantes

Cantes aos deuses tua cólera! Cantes
De forma que não lhes reste suspeita!
Cantes! Exponhas a fúria da desfeita
Que fizeste teu amor em teu peito antes!

Cantes alto! Faças cordas vibrantes!
Mostres o que teu corpo não aceita:
Ser aliciado para esta seita
Onde sagram-se os corações errantes!

Ponhas um fim ao que te seduziu!
Faças jus ao que tua alma viu
Ser maléfico desde o início!

Não mais deixes o teu peito revolto
A vagar sem direção e envolto
Na mantilha desse disforme vício!

Descongelando

...

Acabou. Aqui dentro.
Não quero mais. Eu quero mais. Eu quero brilho de mim pra mim pros lados.
Quero começo e enredo. Não quero fim.
Acabou. Você é fim. Dentro de mim não mora mais.
Não mora mais saudade, não dói mais seu nome.
Mora apenas a lembrança. Sem trança, sem água.
Lembrança de lembrar.
Sem esperança, sem esperar.
Acabou.
Hoje você acabou em mim.
Se acabou. Finalmente. Muito bem. Conseguiu.
Não quero mais. Não te quero mais.Eu quero mais.
Pra mim.

No more fears

bela adormecida

A bela e a beleza dela num luar tão nobre e fulgaz, iluminada a sua áurea, libertai tua alma.
Eu não temo.
Eu não temo a falta de beleza exterior.
Porque a minha beleza interior é maior.
É maior do que qualquer par de olhos azuis, lábios carnudos e corpo perfeito.
Ela, sim, é uma beleza real.
Naturalmente bela.
Não precisa se enfeitar.
Ela simplesmente é.
E essa beleza
Invisível aos olhos nus
Tem suas formas e trejeitos de se mostrar.
E sempre que ela vem
Não tem pra ninguém.
Ela acaba com qualquer beleza meia-tijela
Qualquer beleza padrão comprada…
Beleza silicone, beleza bisturi, beleza bronzeamento, beleza plastificada.
Que não sabe que, no fundo, não conhece o significado real da beleza.
Beleza na superfície, você compra na drogaria.
Beleza real você deixa brotar.
E quando isso ocorre, é como uma tempestade avassaladora.
Abala qualquer pilar feito de areia.
Nem tente comparar.
Gaste o tempo na sua procura.
E um dia poderá esquecer dessa beleza fordista idealizada pelos outdoors e pelas meninas que assistem aos comerciais de cerveja.
Não se deixe levar.
Quem bebe cerveja a rodo, não tem barriga tanquinho nem bunda lisinha.
Acorda e vai buscar tua beleza.
Tua real beleza.
É tempo de deixá-la.
Esse eterno karma que lhe persegue.
Deixe-o.
E sinta-se livre para ser bela.
Bela acordada.
Adormece tua máscara.
“Amanhã tudo volta ao normal”.
E a Cinderela virará abóbora.
Teu príncipe, um sapo-verde.
Saberás, então, enxergar tua beleza por detrás desta corcunda de Notre Dame?
Ao menos, tente, bela princesa!!

Risco e Recompensa

A teoria econômica é fundamentada na avaliação feita pelos agentes econômicos entre o risco e a recompensa de cada decisão tomada. Como é de se esperar, para se obter maiores recompensas é necessários correr maiores riscos. Qualquer que seja a decisão que um indivíduo toma, ele sempre espera ficar em uma posição melhor do que a que ele atualmente está. Aliás, ele espera. Mas ele jamais terá certeza de que vai ficar, pois ele não é capaz de prever o futuro. Assim, ele avalia os riscos, as recompensas e toma a sua decisão.

Desse modo, a experiência de vida que o indivíduo carrega acaba servindo como suporte para formar as suas expectativas sobre um futuro próximo, porém incerto. Para qualquer situação, ele sempre lembrará do seu passado e com base nele tomará a melhor decisão para o seu futuro.

Entretanto, o indivíduo não é capaz de avaliar as conseqüências, riscos e recompensas de uma novidade, de uma surpresa em sua vida. Em um ambiente completamente novo, não há passado para orientar as suas decisões. Diante a tantas mudanças, é difícil tomar uma decisão com tão pouco conhecimento sobre o caminho a ser trilhado. Logo, não há um comportamento esperado por ele para essa situação inédita. Neste caso, só resta uma coisa a se fazer: ALL IN!

Gestos Modestos

Pequenos gestos fazem toda a diferença. Ai de quem negar essa verdade absoluta. Principalmente, se comentar algo parecido com “guerras são grandes atos e fazem a diferença”, ou qualquer exemplo escroto que o valha. Está atestando sua total incompatibilidade com a dinâmica da vida, sendo ela um complexo de pequenos atos. Não se trata de algo que esteja sob nosso controle, nem que possamos escolher. Já há um movimento preordenado ou não de pequenas “algumas coisas” que se agigantam em função de uma idéia em movimento, para tudo que se possa imaginar. Talvez por isso não saibamos explicar muitas coisas. Tentamos ver o superficial, na ilusão de que a resposta para tudo se encontra no amontoado de consequências sobre as quais fixam-se nossos olhares. Tudo tem um começo. E raras das vezes tal início se dá de forma a chamar nossa atenção por seu tamanho ou intensidade. Embriões costumam ser, de fato, desprezíveis. Mas como prestar atenção em tudo que é pequeno com a perspectiva de que aquilo poderá eventualmente se tornar algo de proporções inimagináveis? Seria humanamente impossível exigir a integração de tudo que acontece ao nosso redor com a verdadeira causa de resultados expressivos que o mundo nos proporciona. Devemos enraizar nossas atitudes, no sentido de torná-las supremas desde o seu nascedouro. Não acho que o contrário seja a banalização dos nossos ascenos irrisórios, principalmente se ponderarmos e entendermos que somos limitados e não podemos prever nada além de um palmo do nosso nariz. O que no meu caso, já é bastante coisa. Ora, se então valorarmos com mais cautela as nuances de uma pequena idéia, poderemos ter um panorama mais influente do que se tornará com o desenvolver da cadeia lógica que está entrelaçada imediatamente com o fato precedente. É a famigerada bola de neve. De repente, os provérbios que tentam dizer isso não são contundentes o bastante para provocar em nosso âmago uma profunda reflexão acerca dos nossos gestos pioneiros. Isso se reflete diretamente na total falta de consequência que geram quando poderiam ser evitadas as primeiras atitudes. Dar o primeiro passo pode não ser o mais importante, mas é de igual relevância cotejado com os demais. Demos todos, portanto, nossos primeiros passos.

Equilíbrio à ausência

Bati a porta e fui andando a passos firmes, descontando todo o ódio que tentei trancafiar no apartamento sobre o velho assoalho que se mantinha firme ao longo de décadas no terceiro andar daquele antigo prédio. Era uma manhã de domingo que, chuvosa e sem-graça, insistia em passar a impressão de que, na verdade, era a segunda-feira de uma daquelas semanas que prometem ser insuportáveis.

Mas ainda era domingo. Por sorte, como que premeditadamente, a chave do carro havia sido deixada sobre a arca herdada das gerações anteriores, que ocupava boa parte de um dos cantos da sala do pequeno apartamento há poucos meses redecorado. A chave pendia de um urso de pelúcia multicolorido de exageradas dimensões para um chaveiro normal, no qual se penduraram algumas peças de metal que marcavam incessantemente o ritmo do furioso caminhar.

Não havia mais o que conversar. As palavras proferidas até ali já tinham sido capazes de apagar boa parte dos momentos uma vez inesquecíveis que vivemos. Abri a porta da garagem, depois de um hercúleo esforço para não chorar novamente, resistência que, mais uma vez, foi inteiramente inútil. Via, ali, pra mim, a rua se abrindo, bastante molhada pela fina chuva que ainda incomodava os moradores menos preguiçosos, frequentadores matinais das muitas bancas de jornal e das algumas padarias que se alastravam pelos quarteirões mais próximos. Acelerei, sem saber que sentido tomar e, muito menos, meu destino final. Minha única vontade era ir embora dali, e com isso afrouxar o arame que vinha apertando meu coração nos últimos tempos.

Ainda me doíam as mágoas provocadas pelo que foi dito nas inúmeras brigas anteriores. Latejavam, derrotando qualquer possibilidade de esquecê-las. Me obrigavam a pisar no acelerador com toda a força, e eu trocava de marcha com tamanha dificuldade que o carro emitia barulhos irreconhecíveis a um bom motorista. Já não bastava o amor nem a vontade de fazer dar certo, não mais era suficiente querer estar junto, pois estar junto, ultimamente, significava estar longe; olhar nos olhos parecia uma tortura sem fim – talvez pelo medo de assim perceber que a melhor solução era, simplesmente, não achar solução. Ir embora.

Foi assim que, em uma chuvosa manhã de domingo, admitimos a nossa última discussão. Bati a porta. Peguei o carro e acelerei, para qualquer lugar ou para lugar nenhum, deixando tudo para trás. Alguns quilômetros depois, a chuva parecia dar trégua, e as nuvens iam clareando e se separando umas das outras. O sol ainda não aparecia, mas os sinais de que o tempo iria melhorar aumentavam a cada minuto. Resolvi parar o carro, ir até o bar mais vazio às margens da estrada e pedir uma água – há muito beber uns goles de água não era tão prazeroso. E vi o sol se pôr.

Um ato selvagem – Desventuras no Alasca

O cursor do Word piscava à sua frente. O jovem estudante de Jornalismo, com 20 verões vividos, não sabia como imprimir ao papel a sensação exata da cena presenciada por ele  quatro anos antes. Martírio eterno, pensava Marcos. Seu cérebro se atrofiava em imagens contundentes e sem fim – Jô Soares, Jornal da Globo, Bradesco, Assolan…a TV se pronunciava às suas costas, dando-lhe palavras suficientes para que ele se abstraísse da missão de relatar o crime em questão. Eis que, de súbito, as cenas surgiram em sua frente, ordenadamente e em forma de palavras, fazendo com que o rapaz esfolasse seus dedos ao atacar o teclado.

“Dois mil e três, mês que não recordo, dia irrelevante. A manhã mais clara do Alasca acabara de raiar, às 8h45. Marcos, brasileiro estudante de intercâmbio, contava 16 anos e se dirigia para a terceira aula do dia na Ninilchik High School. Ninilchik, uma cidadezinha ao sul de Anchorage, principal centro referencial do Alasca, tinha 400 habitantes. Marcos  se destacava não só por ser o único negro na região, mas também por usar uma camisa com um nome de um animal, com listras vermelhas e pretas dispostas horizontalmente. Por motivo óbvio, o seu time, Flamengo, virara motivo de chacota entre os demais alunos que, em alto e bom inglês, diziam pelos corredores da escola com seus sotaques acentuados “ei, flamingo!”, posto que o encontro das letras “e” e “n” soavam como “i” e “n”. Enfim. Marcos, ao contrário do nome do seu time, era bem respeitado e popular na cidade onde todos se conheciam e todos queriam conhecê-lo. Um brasileiro no Alasca? Em Ninilchik? Atípico.

O dia irrelevante correu tranqüilo paro o garoto. Como de costume, ele ficou até mais tarde vendo seu “irmão” Adam, de 14 anos, treinar luta. Adam era irmão de Molly, filho de Jerry e Susie Byrne – eram a família que se dispusera, com todo carinho e afeto tal para com um filho/irmão, a hospedar Marcos. Às 16h30, ele foi beber água e, no caminho, viu as cheerleaders praticando no ginásio da escola. Distraiu-se por mais tempo do que pensara: ao ver a última perna ser erguida à altura da cabeça, olhou para o relógio e surpreendeu-se vendo o ponteiro menor na casa cinco. Saiu em disparada pelo corredor em direção ao salão de luta, mas já não havia ninguém lá. Pela janela, procurando Adam, viu o ônibus amarelo da Ninilchik High School sair. Já estava escuro e quase não havia iluminação no trajeto de volta para seu lar na cidade onde só existiam casas. Pôs-se, então, a encarar o frio de vinte e sete graus Celsius negativos e virou à direita, depois à esquerda, até chegar ao pé da ladeira, onde só se via a luz da lavanderia quase sumindo no horizonte formado pelo pico da rua. O frio gelava-lhe as juntas. Martírio eterno, pensava Marcos. Mesmo sem lata d’água na cabeça, subir a ladeira com neve na venta era ralação. Ele foi subindo, subindo, subindo a ladeira sem fim. No meio do caminho, de repente, ouviu um barulho vindo de perto. Olhou para os lados, mas nada viu além do que pudesse ver com as pálpebras cerradas. O barulho se repetiu. Assombrado, Marcos não sabia o que fazer. Tentou apertar o passo, mas uma sombra irrompeu da escuridão, tapando a fraca luz proveniente da lavanderia. Ficou parado, sem luz, sem visão, sem esperanças, na verdade. O vulto lhe atacou . Marcos não voltou pra casa no dia irrelevante.

O enigma sobre o que atacou o rapaz permaneceu por alguns dias. Marcos não soube explicar o que havia lhe abordado, uma vez que ficara completamente sem visão no momento. Só sentiu duas mãos muito pesadas empurrarem seu peito e uma pisada forte na perna. Todos da cidade ficaram mobilizados com o fato ocorrido. Até onde se sabia, Marcos não tinha nenhuma inimizade em Ninilchik. Algumas pequenas investigações eram feitas no local onde o rapaz fora encontrado pelo motorista do ônibus da escola, no dia seguinte ao irrelevante, estirado no chão gélido da ladeira, sem a mochila. Fora conduzido direto para casa após ser achado. O xerife local, Mr. Wolf, apresentou-se a Marcos durante o intervalo das aulas. Colheu algumas informações e jurou encontrar o responsável pelo primeiro ato de violência em 13 anos na pequena cidade de Ninilchik.

O mistério resolveu-se no domingo seguinte ao ataque. Voltando da igreja com a família, o garoto viu um alce andando na rua. Para sua infelicidade e completa vergonha, Marcos notou, pendurado na boca do animal, um pedaço de papel que reconheceu na hora, devido à forma: era uma folha do seu bloco de anotações no formato do escudo do Flamengo.”

Prisão domiciliar

Não aguento mais
Não aguento essas paredes brancas sem vida sem cor
Não aguento esse silêncio, essa educação
Não quero não
Quero poder subir pular gritar
Quero correr
Sorrir falar
Palavrão
Ou um não
Eu quero ar
Só um suspiro
Uma canção
Quero comunicação
A minha educação
A sua não.
Quero dançar livre
Quando quiser
E beber o sabor de ser mulher
Andar na corda bamba até o equilíbrio chegar
Saber que dependeu de mim aquele lugar
Crescer.
Até virar gigante… Tocar o céu
Tirar todos os sonhos do papel
Subir no palco da vida
Sem pedir aplausos
Mas respeitar o respeito
Conquistar o direito
E olhar os olhos de quem tanto amei.
E sentir que nenhuma mágoa eu levei
Viver por inteiro com a casa no mundo
E saber que tudo valeu cada segundo.

Assim… Com as asas no ar…
Assim. Como o passarinho.

O que é, o que é?

Não custa nada, só faz bem, é de graça, não tem porquê economizar.

Não gasta, não envelhece e nem suja.

Quanto mais se dá, mais se tem.

E não é preciso muito esforço para tê-lo.

Basta dar, que ele volta.

Basta se abrir para ele, que ele vem até você.

Ele não é ingrato, ele não é mesquinho, ele não economiza.

Chega de migalhas!

Ele vem quentinho e recheado.

Ele é gostoso e faz bem.

Ele é bom, ele quer o bem.

Ele é puro, ele não necessita de nada.

Só dele mesmo.

Ele é auto-suficiente.

Ele não precisa de justificativa, nem de razão.

Ele é.

Pura e simplesmente.

E essa é a graça toda.

Ele ser de graça.

Não pede troco nem promissória.

Ele é inteiro e completo.

Tudo que ele precisa é de um espaço.

De um peito aberto.

De uma chance para acontecer.

Ele só precisa das portas abertas.

E mais nada.

Ele… É o amor!

O Papel da Imprensa

Imprensa e Democracia estão intimamente associadas. Este é o chavão dos jornalistas. Afinal, a própria Constituição garante a livre expressão da atividade de comunicação. Após a abertura política no Brasil, jamais se questionou o papel da imprensa no país. Ela não permite o seu questionamento. Quando se tenta, afirma-se que questionar a imprensa é como questionar a democracia, um ato de censura.

Porém, desde que a Constituição Cidadã foi promulgada há mais de 20 anos, inúmeros problemas sociais que deveriam ter sido resolvidos há muito tempo ainda não o foram. Pobreza, desigualdades regionais e violência, apenas para citar alguns poucos. Logo, ou a Democracia não funciona ou a imprensa não funciona (ou ambos). Quem são os responsáveis pelo insucesso (fracasso)? A imprensa diz que são os políticos, responsáveis pela gestão pública no país.

Assim, questiono: qual é o papel da imprensa?

Como instrumento da democracia, a imprensa tem o papel de informar à sociedade o que ocorre no país.

Mas como uma empresa privada, seu objetivo é o lucro através da venda de informação para quem a compra.

Logo, a imprensa é eficiente apenas economicamente, pois consegue lucrar e o seu business se sustenta ao longo do tempo. Caso contrário, já teria falido e fechado as portas. Já como instrumento da democracia, ela não tem sido eficiente, pois os mesmos problemas sociais persistem há mais de 20 anos.

Não se consegue trazer à opinião pública informações de modo a pressionar a sociedade brasileira a cobrar as mudanças esperadas. Mas quem sempre comprou informação continua comprando. Parece satisfeito com o produto que compra. Parece satisfeito com a sociedade em que vive.

Só confio no livro

Não confio no que me dizem. Só no que leio. Estar escrito pra mim é uma verdade que supre qualquer desconfiança barata. Escrever é uma responsabilidade e uma pressão que os fracos não aguentam. Por isso, não tenho dúvidas quanto à veracidade de algum escrito. Exceto os malucos, daqueles que rasgam dinheiro, não vejo como uma pessoa pode atribuir a si uma função que não seja capaz de desempenhá-la, e a troco de nada, pelo simples fato de exercer a milenar arte da escrita. Se eu escrever alguma coisa bêbado, no dia seguinte eu retifico se me convier, ao contrário do que acontece nas mesas de bar onde proferimos expressões destruidoras de lares. Se eu escrever e ficar ruim, eu apago e escrevo novamente. Impossível fazer isso com a fala. Pra escrever eu tenho tempo pra pensar, eu tenho fontes pra procurar,eu tenho momentos de inspiração e fraqueza. Na dicção eu simplesmente me aproveito da prerrogativa de nascer com o dom da fala. Para falar eu posso me valer de sinais e gestos, e não preciso, além de tudo, me preocupar com pontuações, acentos e outras questões gramaticais. Na escrita eu me envolvo em um compromisso que custará a minha reputação, se não sair da forma que eu pretendo. Muito mais difícil, se fazer entender pelo texto, mas quando isso acontece, não tenho dúvidas que a recompensa é maior, é um prazer. O livro sempre é melhor que o filme. O livro sempre é melhor do que a aula. O livro move o país. O livro pode ser lido a qualquer momento, e desde sempre. Imagina como deveria ser a voz de Machado de Assis. O livro é silencioso e não atrapalha quem não gosta da sua leitura. É um instrument conveniente que te torna mais forte. Há quem, igual a mim, prefira malhar o cérebro do que o braço ou o abdome. O livro te traz benefícios que poderão ser usados para sempre. Assim, acho que consigo justificar minha devoção pelo texto, pelo livro, pela escrita e formas de comunicações através de símbolos. Tenho a pretensão de muitos: um dia conseguir me eternizar com algum livro interessante, e poderei, então, ser lembrado daqui a seis, sete gerações. Por enquanto, vou apenas exercitando minha limitada capacidade de escrever neste aconchegante blog.

De volta à natureza humana

A fidelidade é um assunto permeado de tabus e ideais de moral que, é bem verdade, podem contaminar qualquer conclusão teoricamente imparcial quando o que está em jogo é a possibilidade de traição. Sempre que me deparo com a mais inocente consideração a respeito dos relacionamentos modernos e a relativização da fidelidade, e as causas que acabam por conduzir a isso, procuro mergulhar numa reflexão livre de qualquer preconceito para conseguir entender minimamente esse – novo? – universo. Afinal, a moral doutrinada desde os primeiros anos de vida logo nos mostra que a atitude mais leal a ser tomada quando sentimos, além da vontade, a necessidade de estar com outra pessoa que não aquela com a qual estamos, é, simplesmente, não mentir. É abrir o jogo, cartas na mesa; é se expor mesmo, dar a cara a tapa, se sujeitar a repreensões pelo fato de ter se deixado levar por um qualquer…por óbvio, isso não é confortável. Ao contrário, o mais reconfortante é evitar o desgaste de um embate que pode nem mesmo vir a existir, bastando para isso uma pequena quantia de boas mentiras e alguma sorte, o suficiente para viver uma ou outra aventura fora de um relacionamento estável. Falta coragem para deixar para trás a certeza e investir na dúvida, o que, convenhamos, é natural a todo ser humano. Mas será que a covardia pode superar a lealdade quando o assunto é traição? O amor pode não ser eterno; a paixão, definitivamente não é. Não é apenas por amor que um relacionamento sobrevive. Ele ultrapassa essa barreira, e envolve sentimentos bem mais profundos e muito menos egoístas do que aquele que achamos ser amor. No entanto, a maioria das pessoas, sem perceber, sacrifica tudo isso em prol de um prazer muitas vezes momentâneo e vazio, que na hora, muitas vezes, não parece momentâneo e vazio. Mas que quase sempre é, e apesar de fingirmos que ignoramos isso, sabemos muito bem no que estamos nos envolvendo. Porém, temos medo dos efeitos das nossas próprias decisões, que alguns colocam em prática de maneira oculta justamente com o intuito de evitar os estragos e afastar a frustração de perceber que não, não são as fortalezas morais que os ensinaram a ser; e que não, não se importam com o que os outros, com quem tem uma vida em comum, podem vir a sentir. E que são humanos, e, quase sempre, covardes. E é isso que, cedo ou tarde, parciais ou não, acabamos por concluir.

Fogo ao Falaz

Grito, sim! Motivos já não me pecam!
Cólera presa em olhos de rubor!
Abomino quem, na vida, é ator
E os que n’outros corações defecam!

Roda, Mundo! Roda, pois que não secam
As dores da mentira em esplendor
Que vertem no meu rosto com sabor
De justiça! Vida e rancor não brecam!

Deixai, Senhor, fluir todo meu ódio,
Posto que, à frente, brindarei no pódio
Reservado aos homens de Palavra!

Lúcifer, permitas que injustos entrem
Em teu reino de Trevas, e os que mentem,
Tostes-lhes os ossos em rica lava!

Aos dezesseis

Ela acordou, foi para a escola, entrou na sala de aula, sentou. Olhava o quadro, a matéria estava correndo. O caderno ainda na mochila, nada na mesa a não ser suas mãos. Olhava os lados, não agüentava os mesmos rostos, as mesmas vozes, nenhum amigo.  Nenhum objetivo, nenhuma atenção especial, todos iguais. Começou a dedilhar na mesa, queria fazer alguma coisa, uma música, um poema, uma mágica que a tirasse de lá. Olhou o teto, as paredes, um pequeno crucifixo em cima do quadro negro. Fixou os olhos num ponto. Será que ele vem? Será que vou gostar? Isso já perdeu a graça! O tempo é feroz… Come tudo que vê, não deixa nada… Será? Eram idéias que a cercavam, pensamentos que a tomavam de tudo a mais que estava ali. Resolveu pegar o caderno. Passou o dia todo assim. Disfarçava sorrisos ou entrava em assuntos bobos para que a hora chegasse mais depressa. Acabou! Hora de ir embora, hora de voltar pra casa. Mas, hoje, ela sabia que não iria voltar. Não sem antes encontrá-lo e perder seus medos.

Foi descendo a rua. Sabia que o encontraria no meio do caminho. E se não gostar? E se ele virou um chato, se ele estiver feio? E se for alto demais, sensível demais ou cansativo demais? E se quiser ir embora e não souber como? E se ele quiser beijá-la?!

Não, isso ele não iria fazer… Querer não é fazer. Tranqüilizou-se. Por instantes ficou ansiosa para encontrá-lo logo. E se ele não estiver no meio do caminho? Continuou a andar. Seu coração estava disparado, frio na barriga, apertava as alças da mochila, andava em passos retos e pequenos. Que maluquice! Depois de tanto tempo! Parecia coisa de filme, novela mexicana em “O reencontro”. Ai, quanta bobeira! Continuou a andar. Aquele era o tipo de coisa que não acontecia todo dia, ou que simplesmente não acontecia. Só em filme bem piegas. Ela não queria ser piegas. Riu de si mesma, olhando para baixo, balançando a cabeça. Levantou os olhos e viu… Abaixou rápido de novo! Que criancice! Levantou os olhos e sorriu, continuou a andar até onde ele estava. Parado, encostado no muro da rua, bem no meio do caminho, esperando por ela, com um sorriso, olhando pra baixo, rindo de si mesmo, tentando se distrair.

Onde eu estava com a cabeça?!

Quando resolvi ir para a faculdade, em plena segunda-feira?!

Quando achei melhor assistir aula à noite na terça-feira?!

Quando enchi a cara, numa habitual quarta-feira?!

Quando, quinta, não reservei tempo nem para respirar?!

Quando, sexta, fiquei em casa vendo TV?!

Onde estava com a cabeça no fim de semana, que quando pisquei os olhos, já era segunda de novo?!

Onde estava com a cabeça quando nasci, quando minha mãe me concebeu e me deixou estar aqui, viva, perdendo a cabeça por esses dias?!

Como consigo fazer com que minha cabeça se perca tanto se ela está no mesmo lugar em que sempre esteve?!

Como o fixo pode ser instável?!

Eu não sei.

Não sei nem o que estou escrevendo.

Pra falar a verdade, pouca coisa sei.

E isso me deixa desesperada.

Então, eu perco a cabeça para ver se, um dia, alguém irá achá-la.

Numa folha, num movimento, num texto, ou, simplesmente, numa esquina de bar qualquer.

Eu queria ser um pássaro.

Porque, assim, minha cabeça voaria por onde ela quisesse.

Com as próprias asas.

Mas nasci humana, então tenho que, diariamente, conviver com essa frustração de querer voar, mas não conseguir levantar vôo.

De ter pernas no lugar de asas.

De querer achar uma cabeça que nunca se perdeu.

Ser humano, tão inteligente, mas tão burro.

Ser paradoxal.

Começa no princípio da vida.

Que besteira de geração!

Que besteira de tradição!

Que besteira de genética!

Pra que gerar uma vida que morre a cada instante?!

Quanto mais vida, menos vida.

Passa hora, passa dia.

E o que fazemos?

Pra que (m) fazemos?

Que vida é essa em que não se pode, nem ao menos, ser quem é , fazer o que se quer, nesse lapso de vida que ainda nos resta?!

Agora, menos ainda…

E ainda menos…

Acabou.

Passou.

Viver.

Morrer.

Sempre paradoxo.

Sempre contraditório.

Sempre opostos.

Nunca sempre.

Fico muda, calada.

Quero falar, não consigo.

Quero dançar, não tem palco.

Quero cantar, não tem microfone.

Quero amar, não tenho coragem.

Esse silêncio todo me angustia, me leva à loucura, me revolta.

Me dá uma vontade de sair gritando, de falar nesse silencioso ônibus.

Ouço todos os dias o que sonho, mas a estrada que pego me leva para o caminho da razão, e não da emoção.

Eu gosto dos dois.

Pra mim, os dois são essenciais, imprescindíveis e insubstituíveis.

Completam-se, necessitam um do outro, se ajudam.

Mas minhas veias pedem coração.

Minhas artérias pulsam no ritmo do estímulo carnal.

Sou mais emoção do que razão.

Necessito ser.

Mesmo se escondo, não sai daqui.

Vive aqui.

Bate aqui.

E morre aqui.

É tudo tão simples, mas tão complexo.

Na prática, a teoria é outra.

No fundo, é tudo muito claro.

Para o subconsciente, tudo é cabal.

Mas a consciência quer sempre mascarar, quer sempre confundir, distorcer essa realidade tão bem traçada, que vive dentro de cada ser.

Humano, ou não.

Pra que ser humano e matar a si mesmo?

Na guerra, na escola, no trabalho ou na vida, mata e  morre

SEMPRE – que se reprime.

– Que se faz acreditar numa mentira.

– Que se deixa de dar amor.

– Que se cobra perfeição.

– Que se chateia.

– Que se quer mais do que se consegue ter.

– Que se insatisfaz.

– Que não se contenta.

– Que se humilha.

– Que se inferioriza.

– Que se acha melhor.

– Que tem certeza que é melhor.

– Que tem certeza.

– Que tem, e não é.

– Que sempre.

– Sempre.

Vida, Liberdade e Sociedade: a questão do aborto

Cedo ou tarde, muitas pessoas têm filhos. Algumas delas passam boa parte da vida planejando como será sua vida a partir de então. Com apenas 10 anos de idade as meninas já sabem quantos eles serão, o sexo de cada um e o nome deles. Os homens só querem escolher o time que eles vão torcer e não escondem o desejo de que sejam “pegadores” na escola, mesmo que o pai não tenha sido propriamente um. E também esperam que a mulher não ponha um nome esdrúxulo em seus filhos. Pedro Thiago, por exemplo.

Ter filhos é uma necessidade biológica do ser humano, bem como a nutrição. A primeira necessidade é a de perpetuação da espécie enquanto a segunda indica a necessidade dos indivíduos prolongarem sua existência. E a gravidez é um dos principais indicativos de que a perpetuação da espécie humana está para acontecer.

Quando a gravidez é proposital, não há maiores conseqüências, pois a gravidez foi fruto do planejamento familiar. Houve um preparo psicológico da mãe/pai para poder receber um filho e também o preparo de uma estrutura que permita garantir à criança boas condições de crescimento e desenvolvimento.

Entretanto, a gravidez pode ocorrer acidentalmente, e não da forma como foi desejada. Qual a diferença? Se quando a gravidez é planejada a criança tem a melhor estrutura possível para o seu crescimento, quando a gravidez é acidental a sua estrutura não será a melhor possível. Assim, a qualidade de vida da criança não será a desejada pela mãe.

E quais as conseqüências nesse caso? Elas podem ser muito pequenas, quase imperceptíveis. Mas isso apenas quando as condições sócio-econômicas da família forem favoráveis. Caso contrário, pode ocorrer o amadurecimento precoce de uma mãe jovem, até mesmo com o seu abandono escolar, um grande impacto financeiro para a família e baixa assistência à criança recém-nascida.

Em alguns casos, tais conseqüências podem afetar o desenvolvimento da criança e o problema, que antes era familiar, tornar-se social. Imagine o caso de uma mãe cujo filho não foi reconhecido pelo seu pai. Então, o impacto financeiro é tamanho que essa mãe se vê forçada a abandonar seus estudos para sustentar seu filho. Ainda há o agravamento de que sem escolaridade, o seu salário é menor. Seu filho cresce sem a companhia do pai, que não o reconheceu, e da mãe, que trabalha para poder sustentar a família. Se o futuro dessa criança for a marginalidade, o problema deixa de ser familiar e passa a ser social. É claro que o exemplo não é a regra geral, mas é um caso bastante freqüente na atualidade.

Assim, a interrupção da gravidez passa a ser uma possibilidade dentro das opções da mãe. Não pela sua preocupação social, mas também pela sua preocupação com as condições de vida dada ao seu filho, por vezes, bastante diferente das de seus sonhos de infância. Porém, muitas vezes se questiona o direito da criança à vida, já que ela não pode se defender. Ainda, desde os tempos de Freud já se observava que a interrupção pode causar problemas psicológicos à mãe.

Certamente, até antes do ato sexual não há vida. Certamente também, há vida após o parto da criança. Logo, pode-se concluir que a vida começa em algum momento entre o ato sexual e o parto. Assim, resta a questão: quando exatamente começa a vida?

Há quem diga que seja no momento da fecundação. Mas o fato de haver fecundação não quer dizer que a mulher, autônoma sobre o seu corpo, está preparada para ser mãe. Logo, não há preparo para haver vida. Assim, a definição de vida pode ser também psicológica, além de biológica. Se a mãe não estiver preparada para ser mãe e as mudanças sobre o seu corpo comuns na gravidez não a convenceram do contrário, a interrupção, sim, pode ser uma opção real. Um bem para ela, seu filho e para a sociedade.

Nada como uma japonesa de óculos…

Eu podia jurar que não conseguiria ser capaz de trair minha mulher, e olha que me mantive firme nesta crença por muitos anos. Foram bons tempos em que se evocavam princípios basilares de um caráter exemplar. Era a mulher mais perfeita de todas, pelo menos em minha opinião. Era japonesa, usava óculos, bochechuda, com os pés muito bem feitos, vinte e poucos anos, apesar de ser quase fechado, seu olhar era fulminante e instigava minha obsoleta existência monogâmica. Por muitos dias eu me pus a pensar o que me fazia sucumbir a este charme exótico (este foi o adjetivo que meus amigos utilizaram para resumir sua feiúra – nada como ter grandes amigos para te apoiar independente do tamanho e do momento da sua aventura). Cheguei a conclusão de que o desafio que me impulsionava era o simples prazer da traição, banditismo puro. Fiquei, por muitos anos, retraído num mundo melancólico, cuja fidelidade se tornou o ponto nevrálgico da minha agonia. Já não sabia explicar o porquê de trocar a minha esposa de traços primorosos por uma oriental uns oito quilos acima do normal, e a verdade é que, apesar de tentar forçosamente, não consigo até hoje achar a plausibilidade desta conduta adúltera. Isto seria só mais um deslize que cometi durante anos de matrimônio. Talvez o pior, por ter traído não somente a minha parceira afetiva-sexual, mas também por ter deixado me enganar que eu estava imune às tentações das garotas que me circundavam. Ocorre que o pior não foi a traição, e sim a vontade desembestada que me deu de conhecer novas pessoas durante a tarde, e ao calar da noite chegar com o sorriso mais amarelo possível para dar um beijo de “eu te amo” na minha mulher. O que foi um desvio de conduta eventual acabou se tornando um vício. E da japonesa bochechuda até a ruiva australiana, foram muitas que desvirtuaram minha lealdade abstrata. Eu que era uma autoridade respeitada por mim mesmo, já me sentia um filho da puta da pior qualidade. Mas era maior do que eu. Já disse que era um vício. Se não conseguia sentir a felicidade plena fingindo uma fidelidade cretina e medíocre, muito menos, me confortava saber que enquanto uma pessoa me esperava em casa eu fingia reuniões para comer as mais diferentes espécies de mulher que me apareciam bêbada e drogada em qualquer festa. Era uma sensação que passou a me corroer e confundir minha sanidade conjugal. No final das contas, como não poderia ser diferente, cabeças rolaram. Figurativamente, é claro. Aos poucos foi ficando cada vez mais claro meu desinteresse pelo tesão do casamento. Todas as mentiras vieram à tona. O matrimônio terminou e com ele o fetiche pela traição, a vontade de substituir o bom pelo mau sem justificativa razoável.Foi então que me perguntei: Valeu a pena ter feito tudo isso? A resposta é inevitavelmente positiva. Ao contrário do que pode pretender a sociedade, o ser humano é obrigatoriamente poligâmico e carente, e se um dia quiser tentar a sorte, se limitando ao acaso do casamento, terminará de uma forma ou de outra aprisionado em sentimentos negativos. Nosso instinto não nos deixa mentir.

Está tudo acabado, foi o que ela me disse. E eu acho justo que seja assim.

Morango com champanhe

A situação, vista de um modo geral, era um dos clichês mais antigos de que se tem notícia. Relacionamentos ocultos entre pessoas de diferentes níveis de hierarquia no ambiente de trabalho, afinal, já são corriqueiros a ponto de não terem a capacidade de permanecer por muito tempo no elenco geral de fofocas, qualquer que seja o lugar de que estejamos falando.

Ele, no entanto, se negava a entender aquilo como mais um exemplo de passatempo montado durante o expediente, apesar de tudo para isso indicar. Vamos e venhamos, ele era mais novo, mais inexperiente; ela, por sua vez, era uma mulher já na casa dos 30 anos, quase 40, muito bem-sucedida e casada há pouco menos de uma década – e assim parecia muito feliz. Ah, e linda. Mas não fisicamente; longe disso, sua aparência dificilmente era assunto nas mesas de chopp, nos dias em que os homens se reuniam para assistir os jogos do Flamengo no botequim à esquina do prédio da empresa e falar dos atributos das mulheres. Ela era linda no conjunto, e como só ele enxergava todo o conjunto, era o único a inclinar o pescoço quando ela passava, perfumada e impecavelmente alinhada em um tailleur feito sob encomenda.

Em que ponto, então, essa história se distanciava do clichê, qual a característica que a tornava diferente? Ele gostava dela. Às vezes, chegava até mesmo à conclusão de que a amava, uma vez que não sabia muito bem como era isso, pois seus infantis namoros iniciavam-se na madrugada bêbada de uma boate e não chegavam a durar mais de um semestre. Todas as vezes que seu telefone tocava e ele era chamado à sala dela, o caminho era uma eternidade, enquanto ele sentia algo próximo de uma mistura de nervosismo, ansiedade, inquietação, animação e expectativa. E, ao entrar no gabinete, permeado por dezenas de livros distribuídos alfabeticamente em uma estante de madeira escura, minuciosamente organizado, exceto pela muda de roupa pendurada atrás da porta, e sempre com um leve aroma de morango com champanhe no ar, ele só era capaz de reparar naquela figura poderosa que tinha os olhos fixos na tela do laptop. Para sua decepção, a sequência posterior era sempre a mesma; ele entrava, recebia uma pilha de papéis para analisar e algumas instruções sobre o que fazer com eles, saía da sala ainda transtornado pelo cheiro de morango com champanhe que insistia em permanecer nas suas narinas ao longo de todo o dia, executava as tarefas, entregava o resultado final e recebia um “muito obrigada” e, algumas vezes, um seco elogio. Todas essas etapas para ele se resumiam em um período no qual incessantemente só pensava nela e naquele cheiro que não parava de sentir.

E assim se passaram alguns anos, enquanto ela ficava cada vez mais bem-sucedida e ele se revoltava com a crescente covardia que o impedia de tomar uma atitude que o fizesse ter aquela mulher para si algum dia. Se considerava um fraco, um moleque, incapaz de arriscar ouvir uma negativa após importunar uma mulher tão admirável com um assunto de tamanha insignificância como aquela paixão platonicamente desenvolvida.

Não conseguindo pensar em outra coisa senão aquele aroma que lhe perseguia, decidiu ir tomar um vinho em um restaurante do bairro depois do expediente e, esvaziada uma garrafa do malbec chileno que havia escolhido sem qualquer critério, resolveu tomar uma atitude definitiva. Era um homem, afinal de contas, e deveria agir como tal. Pagou a conta, vestiu o paletó, lavou o rosto e foi andando a passos largos até o edifício onde ficava a empresa; àquela hora, ela ainda deveria estar trabalhando, como de costume. Passou pela portaria como um furacão, acordando o sonolento e assustado funcionário da guarita, entrou no elevador parado no térreo e apertou o botão que indicava o vigésimo primeiro andar. A única luz ainda acesa iluminava aquela sala que ele bem conhecia; não parou, abriu a porta. Fechou.

Ela, com a camisa de linho parcialmente aberta e o penteado desfeito, sentada sobre a mesa antes organizada, agarrada a um de seus companheiros de trabalho, presença certa nos dias de transmissão dos jogos do Flamengo no botequim e um dos maiores enaltecedores das formas físicas de todas as demais mulheres da empresa. A última coisa que conseguiu identificar foi um delicado pacote rosa aberto sobre a mesa, caído, com um hidratante corporal de morango com champanhe já quase ao chão.

Que Missa do Galo, que nada!

Pude sim entender a conversação que tive com uma coroa, em 2004, quando eu tinha dezessete anos e ela, trinta. Maria era a tia do Thiago, meu amigo de infância, e, também, a dona da casa onde nós íamos passar os próximos quatro dias, em Tiradentes. Maria, ou D. Maria, como inicialmente a chamei, transmitia a límpida impressão de uma santa, posto que cedera a casa e seus aposentos, sem parcimônia, a mim e a Thiago, pondo-se sempre à disposição e demonstrando um alto grau de solicitude. Me senti envergonhado logo à primeira vista: assim que cheguei, Maria se prontificou a preparar-nos um lanche e, após a refeição e lhe desejar uma boa noite, encontrei meu quarto de hóspede divinamente arrumado com um bilhete contendo os seguintes dizeres: “Meu quarto é o último do corredor. Qualquer coisa que precisar, não hesite em bater à porta. Maria.”.

O evento em questão seria o Axé Tiradentes, onde aconteceriam diversos shows de axé (micareta, sabe?) no centro da cidade histórica de Minas Gerais. As atividades iniciar-se-iam naquela mesma noite, contando com a presença de uma banda, até o momento desconhecida, chamada Babado Novo. A previsão para o início do show era à meia-noite e eu e Thiago já estávamos contando as horas: lembro que, logo após ler o bilhete de Maria, olhei para o relógio e apertei duas vezes o botão da esquerda para checar o cronômetro regressivo e ver que só faltavam duas horas, quarenta e três minutos e vinte, dezenove, dezoito segundos. Deixei minha mala num canto, encostei a porta e larguei-me sobre a macia cama do quarto de hospédes.  E já estava na terceira música do show, todos indo ao delírio ao som do axé. Thiago já estava sem camisa, se confundindo com uma menina de uns poucos anos, talvez quinze. Eu pulava e junto vinha todo o saculejo da massa formada por pretos, pardos, mulatos, brancos, gays, lésbicas e todos as outras opções sexuais da modernidade. O palco estava meio distante, mas os telões não me deixavam escapar nenhum detalhe daquelas pernas grossas da cantora. A imagem ia subindo e a saia parecia encurtar. Disseram que ela já tinha parido dois, mas com aquela barriga era difícil de acreditar. A câmera subiu mais um pouco e deixou à vista a imagem de seios fartos, lindos. Agora, víamos o queixo e o rosto era reveleado. Num susto, percebo Maria com o microfone na mão e Thiago ao pé da cama me sacudindo pra me acordar.

– Acorda, maluco! Bora tomar um café pra agüentar a noite inteira! Troca de roupa logo, anda! Só não faça barulho, porque minha tia já tá dormindo.

Não tive como me levantar e não ficar com aquela visão da tia do Thiago na cabeça.

Ele fora descendo na frente, pude ouvir seus passos pelo ranger dos degraus. Olhei novamente o relógio e apertei o mesmo botão da esquerda, duas vezes: faltavam duas horas, trinta e quatro minutos e cinqüenta e cinco, cinqüenta e quatro, cinqüenta e três segundos. Não acreditava. Só tinham se passado oito minutos? Naquele instante passei a achar que era possível morrer de ansiedade. Abri minha mala e tirei de lá a roupa que eu já havia escolhido para a ocasião havia meses: uma bermuda jeans, minha cueca preta da sorte e meus tênis nike. A camisa era o abadá, obviamente. Mas eu não ia me vestir sem antes tomar um bom banho. Precisava, no entanto, de uma toalha. Thiago me dissera que não precisava levar nada que não fossem vestes ou material de higiene pessoal. Desci para chamá-lo, mas foi só descer alguns degraus que o avistei na porta de casa conversando com uma menina de uns poucos anos. Preferi não incomodá-lo:se bem conheço Thiago, era capaz de brigar comigo se eu atrapalhasse uma conversa dele com uma garota. Voltei pra minha cama e já sabia da única opção que me restara. E essa opção estava no último quarto do corredor. Caminhei até a porta do santuário de Maria (sim, santuário! Já não disse que era uma santa?) e ergui a mão à frente, pronto para dar leves batidas na madeira escura que me separava dela. Hesitei, porém. Eu sabia que ela dissera que não havia problema em bater à sua porta, mas achei abuso. Pensei no que fazer. Bom, ela não tinha ido se deitar há muito tempo. Resolvi bater bem de leve, mas antes ensaiei na parede ao lado. Foram duas batidas bem sutis e me vi pronto para a prova final. Cerrei os punhos, pus a mão à frente e eu estava quase dando socos no alvo rosto de Maria.

– Boa noite, Maria, eu disse, como quem fora apanhado em flagrante.
– Boa noite, Marcos. Você tá precisando de alguma coisa?
– É, eu ia chamar a senhora, mas pensei que talvez pudesse acordá-la e…
– Ah, Marcos! Que bobagem! Achei que você entenderia a minha letra. E eu não sou nenhuma senhora! O que você quer de mim?
“Para falar a verdade, só um beijo de boa noite, por ora”, pensei eu.
– É que eu quero tomar um banho mas eu não tenho toalha. Será que você poderia me emprestar uma?
– Claro, claro! Como pude me esquecer? Venha. As toalhas ficam lá embaixo.

Fui seguindo Maria até a dispensa. Eu não havia reparado em sua roupa até o momento: ela vestia uma camisola amarela bem simples, parecendo um vestido de pano. Estava muito bonita. Media algo em torno de 1,60m, 1,65m e seu peso era bastante proporcional à sua altura; tinha cabelos bem longos e ondulados que quase lhe tocavam a cintura; seus olhos eram compridos e castanhos; os lábios grossos e bem desenhados. Era muito bonita.
– Esta serve? Ou você não gosta da cor laranja?
– Tá ótima, Maria. Obrigado.
– Você aceita um café?
– Seu sobrinho tinha me oferecido isso, mas se eu for depender dele, durmo esperando.

Lá foi Maria pra cozinha. Enquanto fazia o café, me perguntava se eu costumava viajar, se meus pais eram divorciados, se eu gostava de ler…

-Atualmente, tô lendo São Bernardo. Eu gosto muito de literatura nacional, sabe?
– Que legal! Eu também gosto. Tô lendo O Cortiço, ela respondeu.
– Eu já li. Muito maneiro.

Durante os dez minutos de conversa que se sucederam, discutimos alguns clássicos literários e também estilos musicais. Descobri que Maria era muito eclética. Seu gosto ia de blues a samba. Agora, ela já havia servido o café e estava de pé, do lado oposto da mesa, os cotovelos apoiados sobre a superfície desta e o rosto enfiado entre as mãos espalmadas, me contemplando a três palmos de distância.
– Tá gostoso?

– Uma delícia, respondi a ela, sinceramente. Pode ir deitar se quiser, Maria. Desculpa todo esse incômodo a essa hora.

– Incômodo nenhum! Fico todos os dias tão sozinha aqui nessa casa e quando tenho companhia não posso desfrutar? Que idéia!

Fiquei envergonhado e surpreso. Eu já não era um mero hóspede: Maria me elevara à posição de companhia.

Passados dois minutos de um silêncio que só era quebrado periodicamente com o barulho da colher batendo na xícara, Thiago despediu-se da garota, entrou na sala e me perguntou que horas eram.

– Dez e vinte, respondi.
– Vou tomar banho logo, então. Quero tirar uma soneca depois.
– Beleza.

Durante o diálogo breve entre eu e meu amigo, percebi que a santa não tirava os olhos de mim. Ao perceber isso, me senti poderoso e frágil ao mesmo tempo. Não me pergunte a razão.

– Tava ótimo, Maria. Muito obrigado.
– Se tem alguém aqui que precisa agradecer, esse alguém sou eu.

Maria estava tão próxima de mim que eu conseguia me ver nos grandes olhos dela. Ela era muito bonita. Certa hora, Maria passou a língua nos lábios para umedecê-los. Eu preferi não crer num ato sedutor. Deduzi que, como estava frio, sua boca deveria estar ressecada.

Continuamos conversando durante um bom tempo, sempre com modos e respeitando os limites ideológicos de cada um, até eu repetir a ação de apertar duas vezes o botão esquerdo do meu relógio e ver que faltavam  apenas quarenta e dois minutos e quarenta e dois, quarenta e um, quarenta segundos.

Comecei a achar graça: agora, eu queria que o tempo passasse mais devagar. Eu estava gostando dos minutos gastos com a tia do Thiago. Ela parecia ter muita coisa interessante a me contar. Me encheu de histórias dizendo da vez que viajou pro Nordeste, de quando foi pra Moçambique, falando da época da juventude…Eram coisas divertidas de se ouvir. E o jeito como ela contava era muito excitante, quase como se revivesse os momentos passados. Ofereceu-me um vinho assim, de pronto. Não entendi nada. Mas não é porque não entendi que recusei: mal disse que sim e ela já fazia minha taça transbordar. Agora, depois de alguns pares de doses, falava com uma magia e uma desenvoltura impressionantes. Fora, aos poucos, abandonando seu aspecto imaculado e tornando-se mais humana, ao passo que ria, me dava tapas no ombro, chamava-me de “Marquinho”…vez ou outra ajeitava a manga da camisola que tendia a revelar-me sua nudez.

A conversa foi fluindo assim, divertida. Nós parecíamos grandes amigos que não se viam há tempos e estavam colocando a conversa em dia. Estava sentada na cadeira ao meu lado, com as mãos sobre a mesa, próximas às minhas. Eu já não me sentia tímido e a achava cada vez mais linda. E tinha a impressão que minha taça de vinho nunca esvaziava, por mais que eu bebesse. Olhei pro cronômetro, após apertar duas vezes o botão da esquerda e me surpreendi: faltavam treze minutos e trinta e um, trinta, vinte e nove segundos. Quando olhei para Maria para dizê-la que era melhor eu ir acordar Thiago, seu rosto estava a um palmo do meu, seus olhos inibindo-me novamente. Segundos de apreensão. O coração não sabia por onde iria sair. Eis que ela pergunta:

– O que você quer fazer agora? Acordar o Thiago?
Fico sem resposta.
– Hein, Marquinho?, ela insiste.
– Não é melhor?, respondo.
– Não. É melhor?
– Parece.

Sua respiração doce e com aroma de uva me desnorteia. Ela se aproxima. Eu bebi muito, eu acho. Preciso ter calma. Ela pode estar mais distante do que parece. Tudo muito rápido. Pisco e a imagino em cima do palco, dançando e apontando pra mim no meio da multidão. Abro os olhos, após alguns supostos segundos. Maria já não está mais lá. No lugar dela, Thiago me contempla ao pé da cama. Pergunto o que houve. Ele ri, constrangido.
– Você bebeu muito.

É… não sei se entendi realmente aquela conversação.