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Às vezes

Uma vez, fui aquele que se entregou de corpo, alma, sangue e mente a uma mulher. Fui tudo o que ela quis e ela pôde, com toda a força do verbo, fazer de mim o que à sua cabeça ocorresse. Cheguei a elevá-la ao posto de santa, onde eu, mero devoto, subjetivei e abdiquei a minhas trivialidades em função de sua satisfação total.Quando no fim, como em muitos outros fins, a dita cuja não merecia. Uma vez.

Duas vezes cri que eu não serviria ao Exército. Meu pai me garantiu, em duas ocasiões distintas, que um capitão amigo dele faria com que meu cabelo Black Power se mantivesse intacto após as três apresentações em Triagem. Dito e nada feito. Uma semana depois, já marchava com desenvoltura e acordar às 4h30min já não era mais problema. Literalmente, “ah, meu pai…” nessas duas vezes.

Três vezes minha mãe foi chamada na minha religiosa escola, Santa Rosa de Lima, durante minha 6ª série. Puts!, eu era O caos. Minha professora de Matemática à época, a irreverente Lêda, me levou à capela do colégio algumas vezes com o intuito de exorcisar-me. Aqui, não minto: frustrada, trocou-me de turma. Lembro bem da expressão facial de minha mãe quando, na derradeira visita à sala da diretora, ouviu: “Carla, querida, não sei bem como dizer, mas esse menino é o Anticristo”. Tadinha de mamãe. A constrangi nas três vezes.

Quatro vezes dezessete, conta a Álgebra, dá sessenta e oito. Mas minha avó, ao partir, deixou à Terra o que nem esse número em anos é capaz de tremular. Beirando a idade da soma inicial, Elizabeth partiu. Nem sessenta e oito anos de vida, vinte ao meu lado, à época, são capazes de suprir dois anos de imenso vazio. Daí, concluo que Matemática -desculpe-me, cara Lêda – não é uma ciência exata. Pra mim, quatro vezes dezessete é dois, porque não quero ter de esperar sessenta e seis anos pra sofrer mais do que já sofri nesse biênio. Esta semana corre à data de dois anos após a morte de minha avó. E já estremeci mais de quatro vezes.

Cinco vezes. Ah! “Eu sou Flamengo de coração! Eu sou do time que é pentacampeão!”. Não há glória maior na minha vida do que fazer parte da Nação. Mengão, meu parceiro. Sempre que me flagro triste, recorro a ele – seus vídeos, fotos, tributos e façanhas sempre me alegram em tempos revoltos. E nada precisa fazer, nem vencer é necessário. Minh’alma pra sempre efervescerá ao timbre da odisséia rubro-negra, ganhando ou perdendo. Te amo, meu Flamengo! Te amo! Te amo! Te amo e te amo! Cinco vezes!

Recordar é, sim, viver. Mas o inverso não se faz verdade. E nenhuma, nenhuma vez mesmo, fui tão sincero ao proferir os seguintes dizeres: dá gosto ver a vida só às vezes!

Contigo

Espero que o presente não piore.
Vou tratar de saber-te e cuidar-me;
Farei com que a minh’alma desarme
Os espinhos do passado, a priori.

Se a tristeza já não causa-me alarme,
Quero mesmo que tua vida melhore.
Peço até para morrer nesse folclore
Cujo medo de perder-te é teu charme.

Junto a ti, poesia não é escrita!
Meu amor me inebria e sempre irrita
Os olhos dos que nutrem mero ódio.

Que a vontade de ter-te seja aquela
Da ansiedade d’uma boa novela
Onde chora-se ao último episódio.

Marcha Fúnebre

Não agüento mais ir à praia e ver a orla tomada por pessoas vestidas de branco e munidas de cartazes desfilando suas almas penosas. “Justiça! Justiça! Justiça!”. Ok, também concordo que deve haver. Trago na pele, inclusive, tinta que se alia a isso. Mas, convenhamos, que transitar com os olhos embargados de cimento e lágrima não é e nunca será a melhor forma de extirpar a violência.

Como dizia meu antigo professor de Geografia, segundo ele, parafraseando Jack, o Estripador: vamos por partes. Por que, em nome de Deus, as autoridades de segurança trabalhariam com mais afinco após uma manifestação contra a morte de uma criança? Essas pessoas que os passeantes julgam como corruptívies não chorariam nem se fosse com os filhos delas, então, não há razão aparente para apelar pro emocional das mesmas. Em 7 de fevereiro de 2007, morre o menino João Hélio, vítima da barbárie à qual já fomos apresentados. Nesses dois anos e meio, o número de mortes por bala perdida, latrocínio etc diminuiu drasticamente ou, pelo menos, reduziu? Uma coisa é a classe dos siderúrgicos ir protestar por aumento salarial. E, no fim, quase sempre conseguem o objetivo da ação. Afinal, quando mexe com dinheiro, fodeu.  Aí, o buraco é lá no topo. Mas quando fazem passeata para reivindicar justiça sobre uma vida que se foi, o peso do apelo é nulo. Corriqueiro adágio é pensar que a união faz a força. No caso exposto, apenas gera ilusão. Uma frase batida, mas que conclui-se desoladamente, é a que o dinheiro tá valendo, literalmente, mais que a vida.

As manifestações são muito úteis para embolar o trânsito na cidade.

Elizabeth

Ah, minha querida e amável senhora!
Por que sobes tão depressa, hein?!
Estou atordoado. ‘Vem’, vó, ‘vem’!
‘Vem’ que pra ti a morte não tem hora!

Deixe isso pra lá! Pare de demora!
Todos podem esperar, exceto quem
Te ama, te sente e te quer bem
Como eu, a mãe e a prole agora!

O céu há de receber-te, é certeza.
A chama que levou-te, já não acesa,
Escondeu o amor que não se repete:

Amor de neto que sempre existiu,
Amor da cria que, há pouco, viu
Deixares a Terra, oh, Elizabeth!

Obs: soneto dedicado à minha avó, falecida no dia 3 de agosto de 2007, num incêndio causado por seu cigarro dentro de sua própria casa. Escrevi este soneto algumas horas após ocorrido, depois de arrombar a porta e tentar salvá-la – vê-la inconsciente no chão – e desmaiar no corredor a metros de seu corpo. Bombeiros me tiraram com vida. Fui o único a sair vivo do apartamento onde, hoje, moro.

Centro do Universo

Se encaro a face tua e deposito
Mais esperança e ímpar cumplicidade,
Deveras, não espero atrocidade
Que cometes de modo só e esquisito.

Aguardo que, quando teus olhos fito,
Veja mais que teu amor: veja a verdade
Que é ofuscada pela tua maldade
Onde a dor de te amar é só o que grito.

Preferes ter co’outrem à lua etérea
A ter comigo a mais valsa venérea;
Queres cobrar sem conceder. Desista!

O que vale-me agora é o que almejo!
Sem volúpias, cego e neste ensejo,
A justiça há de vestir-te, Egoísta!

Soldado Temilton, o arboriglota – Histórias do quartel

Eu era do 3º pelotão, de um total de 4, cada um com 50 soldados e a comando de um tenente e dois sargentos auxiliares. O tenente do meu pelotão era o Barbosa. Tenente Barbosa contava com o auxílio do Sargento Alexandre e do Sargento Santiago. Como todo pelotão tem um soldado que se destaca por seus anormais modos e costumes, o meu não podia ficar fora de tal regra. Já lhes apresentei ao Soldado de Moura, não já? Pois bem. Meu grupamento fora premiado: além dessa raridade de militar, fomos contemplados com a existência do soldado 258. O fabuloso, o extraordinário, o excepcional Temilton!

***

Soldado Temilton, logo à primeira vista, destacou-se: na segunda semana de aquartelamento, quando ainda éramos recrutas, assistíamos a aulas que tratavam de assuntos militares. Aprendíamos hinos, tínhamos instrução armada, noções de primeiros-socorros etc. Um dia, durante uma instrução de Ordem Unida (onde aprendíamos e aperfeiçoávamos técnicas de apresentação militar e de comandos como marchar), o Sargento Santiago nos ensinava a forma correta de apresentação. Ao ouvir seu nome ser chamado pelo sargento, o recruta deveria levantar-se na posição de Sentido, prestar continência, e falar seu número, nome de guerra e pelotão, nesta ordem.

- Soldado 214, Tomé Félix, 3º pelotão!, respondeu, corretamente, o Tomé.
- Muito bom, soldado. Padrão, disse o Sgt. Santiago.
- Soldado 243, Ramon, 3º pelotão!
- Bom, Ramon. Muito bom, elogiou o comandante.
Eis que o sargento aponta para Temilton.
- Soldado Temilton, 258!, brada o soldado.

- O Sr. é surdo, Sr. Temilton? Hein?! É surdo?! Você não tá ouvindo seus companheiros, não, é? De novo!, irritou-se o Sargento Santiago e fez menção pra que Temilton se sentasse e se apresentasse novamente.

Temilton sentou-se e recordou de como seus companheiros tinham se apresentado outrora. Desesperado, levantou-se.
- Temilton, soldado do 3º pelotão, 243!

- O Sr. tá de sacanagem, seu bisonho? Seu nome agora é Ramon?, vociferou o Sargento.
- Não, Sr., gaguejou Temilton.
- Então, por que o Sr. tá se apresentando com o número dele?
- Não sei…, disse, sinceramente, o cabisbaixo soldado.
- Anda, seu monstro! De novo!

E Temilton voltou a sentar-se, aguardando, trêmulo, pelo novo momento. Passados alguns segundos de profunda respiração do Sargento, sua voz de comando fez-se grave aos ouvidos deTemilton, fazendo-o saltar do chão qual grilo.

- Hum…É…Soldado! Dito isso, Temilton sentou-se e pôs o rosto entre as pernas dobradas envoltas pelos braços junto ao peito.
Foi uma explosão de risos na sala de instrução.

- Temilton, vem cá!, disse o Sargento Santiago, querendo controlar a raiva, mas visivelmente falhando na tentativa.

Com os olhos marejados pela vergonha, o recruta obedeceu de pronto. O sargento, então, deixou o militar em evidência, de pé à frente de todo o terceiro pelotão, onde ele encarava a tropa como se fosse um capitão desarmado prestes a enfrentar um exército de lendários espartanos.
- Paes Leme, me diz: o quê que eu faço com essa raro?
- O senhor é quem decide, respondi.

- Alguém aqui é contra Deus?, indagou em voz alta o sargento. Não houve resposta.

- Porque eu acho que Ele não teve amor quando botou esse bisonho na Terra, não. Temilton, o Sr. sabe o que o Sr. vai fazer agora? Tá vendo aquela árvore lá no pátio, perto do infinito? Então. O Sr. vai lá se apresentar pra ela até ela falar que tá bom. Entendido, seu mocorongo?

- Sim, Sr. Sargento!, disse Temilton, aliviado por não ter de mergulhar na Baía de Guanabara fardado e bradando “Temilton não é nome de gente!”, como já tinha feita outras inúmeras vezes.
***
- Soldado 233, Sant’anna, 3º pelotão!

- Tá bom, Sr. Sant’anna, mas pode melhorar. Quero ver vibrando!
A instrução prosseguiu tranqüila por mais cerca de uma hora, a ponto de ninguém mais se dar conta da ausência do Temilton. Agora, entoávamos, em uníssono, a Canção da Infantaria:
- “És a nobre Infantaria
Das armas, a rainha!
Por ti, daria
A vida minha!
És a glória prometida
Nos campos de batalha!
Estar contigo!
Ante o inimigo!
Pelo fogo da metralha!

És a eterna majestade
Das linhas combatentes!
És a entidade
Dos mais valentes!
Quando o toque da vitória
Marcar nossa alegria,
Eu cantarei!
Eu gritarei!
És a nobre Infantaria!”

A porta se abriu no momento e que seguíamos para a segunda parte da canção.
- Permissão para entrar no recinto, Sargento?!
- Tem permissão, seu monstro. O que o Senhor tá fazendo aqui, Temilton?!
- Eu ouvi, respondeu o soldado.
- O quê, seu bisonho?
- A árvore respondeu.

Gargalhadas estrondosas deram lugar ao uníssono que outrora reinava na sala de instrução. Eu, por exemplo, me escorei na parede para não ir ao chão.

- Temilton, pelo amor de Deus, o que o Sr. disse?, respondeu, incrédulo, o Sargento Santiago.
- Ué, Sargento. O Sr. disse pra voltar só quando a árvore respondesse? Então.

- Calma aí. O Sr. tá me dizendo, Sr. Temilton, que a árvore falou com o Sr.?!
- Sim, respondeu o soldado 258.
- Então vamos lá embaixo agora que eu quero ouvir isso!

Descemos todos ao encalço do Sargento. Ao pé da tal árvore, nos posicionamos, ainda com deboche. Temilton pôs-se à frente e apresentou-se:
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
Perfeito. Mas o Sargento não deu-se por satisfeito:
- Tá, Soldado. Muito bom. Mas cadê a porra da voz da árvore?!
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!, repetiu Temilton, exemplarmente.
- Tá, Temilton. Tá! Eu quero ouvir a árvore!

Apenas eram escutadas as vozes do Temilton e do Sargento Santiago. Equanto aguardávamos uma resposta desconcertante do soldado, o silêncio era o palhaço preso na caixa de surpresa prestes a ser aberta.
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
- Fiu!, ouviu-se um assobio.
- Aí, não falei?! Viu? O Sr. viu?! A árvore respondeu!
- Ah, eu não acredito!, respondeu, irado, o Sargento Santiago.

- Nem eu, Sargento! Nem eu! A Natureza é mesmo maravilhosa! Cada um se comunica do seu jeito, né?! Deus é grande…, vislumbrou Temilton.

- Ô, seu monstro! Isso é o passarinho ali no galho! Pelo amor de Deus! Puta que pariu! Temilton, na boa, vai pra água, vai. Não tem almoço pro Sr. hoje, não.

Não é possível. O Sr. não existe. Pelo amor de Deus…, disse o Sargento com raiva e pêsame.

- Mas, é que… Eu vou ter de falar que Temilton não é nome de gente?!, perguntou o soldado.
- Não, seu raro. Quando o Sr. mergulhar, eu quero ouvir: “Eu sou o Temilton e falo com árvores!”. Entendido?
- Sim, Sr.
***

Após risadas compartilhadas entre nós, soldados, e o Sargento Santiago – no único momento onde ele permitiu essa relação -, o comandante disse em voz alta:
- Só falta ele voltar dizendo que flertou com a Pequena Sereia!

És

Um amor,
Uma vida,
Uma mulher,
Uma ferida,

Uma perfeição,
Uma superação,
Uma alegria,
Uma energia,

Uma loucura,
Uma gostosura,
Uma fé,
Minha futura mulher,

Uma doença,
Uma crença,
Uma beldade,
Morro de saudade,

Uma fonte,
Minha fonte.

Meu eu,
Meu seu,
Seu meu,
Nosso nosso!

Soneto à Transformação

N’alma ingrata que geraste em véu ligeiro,
Sou mais solto, mais sangrento, e balbucio
Umas preces, minha dama, e em terno cio
Sou capaz de deflagrar-te: sou faceiro.

De algum modo, se me pego por inteiro
Foragido a perecer, já renuncio
A este cargo de domínio, e num cicio
Auxílio teu conclamo ao travesseiro.

Pelas vidas várias que me forneceste,
Serei sempre grato a ti, Rainha, e neste
Carrossel de amor quero sempre estar!

Dando voltas nas curvas do teu destino
Onde há um ano renasceu o menino
Que se afoga e vive no teu peito-mar!

Obs: soneto dedicado a um ano de união à minha namorada.

Nota zero pra mim – Desventuras no Alasca

Eu contava 16 anos e ela, no mínimo, 60. Tudo começou em uma fila de supermercado no Alasca. Não, não se trata de uma intensa e linda história de amor. Estou falando de um crime. Vou explicar, mas tenha calma: é uma história um tanto quanto triste (pra mim) e hilária (pra você).

Estava eu no Wal-Mart da Child’s Road com meus humildes dez dólares pra comprar o mais novo cd do Ja Rule. À seção de cd’s, procurei pelo tal disco até achá-lo na última prateleira, a mais próxima do chão. Para alcançá-lo, tive que inclinar-me à frente e, infelizmente, deixar à mostra minhas partes posteriores carnudas e globosas (é, leitor, tive que deixar a bunda pro alto mesmo). Meu maior desejo no momento era tirar logo aquele cd dali, mas ele tinha, para a minha infelicidade, emperrado nas armações de ferro da prateleira. Minha agonia só aumentava. Eu voltava a ficar de pé e depois me inclinava de novo para tentar pegar aquilo que, em breve, me pertenceria. Alternava para, obviamente, não passar mais tempo em posição tão constragedora, próxima àquela que, segundo boatos, Napoleão perdeu a guerra. Minhas tentativas, que se repetiram periodicamente quatro vezes, foram frustradas. Quase desistindo e pedindo ajuda a um funcionário da loja, resolvi tentar mais uma vez: inclinei o tronco à frente e expus, mais uma vez, meu ‘popozão’. Dessa vez, demorei mais tempo, porque acreditei que, determinado do jeito que eu estava, o Ja Rule não tardaria a estar sob meu poder. Foi quando, para o meu total desespero, vi se aproximar de mim um ser do sexo masculino (não digo homem porque tenho lá minhas dúvidas quanto à opção sexual daquela pessoa). Entrei em pânico: não poderia abandonar minha busca àquela altura do campeonato quando eu já tinha tirado praticamente todo o cd da prateleira e erguer-me eretamente para encarar aquele ser nos olhos com o olhar mais másculo que eu seria capaz de produzir. Resolvi, então, apressar-me na missão antes que aquele que eu pré-julguei como homossexual se aproximasse de mim e viesse a…! Prefiro não dizer. Já me sinto invadido (física e mentalmente) só de pensar em pensar tão impuras coisas. Bom, o que aconteceu foi o seguinte: o cara parou atrás de mim num ponto cego meu onde eu não conseguia ver seu rosto, ou seja, não sabia para onde ele estava olhando. Eu vi, alucinadamente e em câmera lenta, a mão dele adejar o ar e aproximar-se do meu patrimônio traseiro. Que susto! Suas falanges  passaram direto, mostrando-me, com o indicador, uma outra cópia do cd que se encontrava em local de bem mais fácil acesso do que esse que me submetera a essa napoleônica posição. Agradeci, peguei o disco na prateleira sugerida por aquele que usava uma camisa com a gravura de um arco-íris e fui para a fila pagar pelo tão almejado objeto.

A fila não estava muito grande. No máximo, 4 pessoas na minha frente. Estava tudo tranqüilo, se excluirmos o fato de uma senhora na minha frente olhar, de minuto em minuto, pra minha cara e, quando percebia que eu a encarava de volta, tornava a virar-se pra frente num susto. Ela fez isso algumas vezes e eu, obviamente, estranhava, mas não falava nada: ainda estava atordoado diante do risco que corri minutos antes na prateleira. A idosa devia ter uns 60 anos e usava um pano na cabeça, uma saia longa, sapatos de gafieira e uma blusa de seda larga e estampada. A certo momento, não me contive: ela olhou pra minha cara e eu disse, em alto e bom inglês: “que foi?”. Sim, pareci grosseiro, mas aqueles olhares cheios de rugas já estavam fazendo com que meus nervos dessem nós. “Nada, não”, respondeu ela. “É que você se parece muito com meu filho, mas ele morreu já faz tempo…”, e, com o semblante triste, abaixou a cabeça. Senti todo o peso do mundo nas minhas costas por ter falado de forma tão mal educada com aquela pobre senhora. Minha vontade era de que ela pudesse me bater pra eu criar vergonha na cara. Ela prosseguiu: “será que quando eu for embora, você pode falar ‘tchau, mãe’ pra mim?”. Eu, capaz de tudo pra me redimir com ela naquele momento, disse que sim com o sorriso mais afetado que eu pude mostrar. A mulher tinha o aspecto de uma santa, era imaculada ao meu ver. Tão frágil, pequena e velha, que agradá-la seria algo prazeroso. Pelo que percebi, ela era uma senhora solitária que não tinha felicidade há anos. Felicitá-la seria muito gratificante. Pois bem. Nota zero pra minha ingenuidade. A coroa passou pelo caixa, pôs suas compras nas mãos, virou pra trás e acenou. Eu disse: “tchau, mãe”, e ela, com sincero sorriso na face, acenou com fervor. Me senti puro, alvo. Andei pra frente, cumprimentei o moço do caixa e ofereci-lhe o cd. “É dez dólares, né?”. “Não, oitenta.” E, com um olhar de completa incompreensão na face, interroguei-o: “oitenta?”. E ele, para a completa destruição da minha alma e intelecto, respondeu: “é. sua mãe disse que você ia pagar pelas compras dela”. “Tá maluco? Ela não é a minha mãe, não! Peraí!”. Disse isso a plenos pulmões e saí correndo em direção à senhora que, há 5 segundos, acabava de passar pela porta da saída. Foi então que o fato ainda mais extraordinário aconteceu: não satisfeita em me aplicar esse golpe, a velha corria pra cacete! Eu estava a uma distância de uns dez metros, inicialmente. Quando cheguei à porta do estabelecimento, correndo muito – e olha que não sou nem um pouco lento -, ela já tinha ampliado a vantagem para algo em torno de quarenta metros! Corri, corri, corri atrás daquela coroa maldita… e ela só se distanciava. Eu ia correndo e pensando num jeito daquela, desculpe o termo, filha-da-puta correr mais do que eu. Eis que ela entra no carro e leva consigo muito mais do que meu dinheiro: ela levou minha ‘carioquice’. Como eu, carioca da gema, saio do Rio de Janeiro e vou tomar um golpe aplicado por uma velha no Alasca? Cabisbaixo, segui andando em direção ao Wal-Mart. Àquela hora, percebi que o alarme do supermercado estava soando, pois o cd ainda estava na minha mão. Eu estava no meio do estacionamento. Pensei: “eu não posso voltar. Não tenho dinheiro pra pagar por isso”. Pelo menos meu objetivo já estava cumprido, uma vez que o Ja Rule já estava comigo. Dei meia-volta e apressei-me a correr antes que os seguranças do local viessem procurar pelo crioulo baderneiro que estava roubando a loja e querendo bater numa pobre, indefesa e branca senhora.

Caminhando, minutos depois, revivi meus momentos no Wal-Mart: o perrengue pra tirar o cd da prateleira; o semi-assédio sexual daquele ser; o inacreditável golpe da velhinha. Desolado, concluí: “tô no Alasca, tô (a)lascado!”

Aliteração Criminosa

Pragas presas para polir.
Pedaços pisados, pratos, pinos;
Pressa pútrida, podres pepinos
Proezas, pilhérias podem punir.

Pesadas pegadas, pagode político.
Pacatas putas, prazeres praianos;
Preço pequeno; por podres panos,
Padeça, procure, peão paralítico!

Poetas piratas, possíveis prisões.
Prosa, pândega, patuscada: pó;
Pragas polidas para prender!

Pretos, porcos pilham – porões.
Práticas punidas, pobre pataxó;
Prole provida: pornográfico prazer!

de Moura, o imortal – Histórias do quartel

Foi na época em que meu primeiro nome era soldado quando conheci de Moura. Ele, um militar recém-incorporado ao Exército assim como eu naquele tempo, era um recruta de bem curiosos traços peculiares: em apenas dois meses de aquartelamento, o dito cujo já havia posto terra nos ouvidos com o intuito de protegê-los do estrondo dos tiros de fuzil e costumava banhar-se à fragrância de aloé puro, sem o uso de água, convicto de que desta forma, segundo crença chinesa, estaria imune a todo e qualquer tipo de mal terrestre. Porém, o fato mais inesperado da leviana saga do meu amigo soldado em meses militares ainda estava por vir.
***

Durante uma sessão de instrução sobre fuzis, estávamos sentados no chão de uma sala ampla com janelas grandes e esteiras com nossos armamentos no segundo andar do Palácio Duque de Caxias. Todos os soldados, salvo algumas exceções, estavam excitadíssimos com a singular oportunindade de aprender a desmontar e montar seus fuzis com notável agilidade de manejo do armamento. O instrutor, o Tenente Ferreira, haveria de se lembrar pra sempre da tarde em que quase matou um recruta, acidentalmente.
***

Ainda não éramos soldados efetivados. Todos nós, que, juntos, contávamos duzentos, éramos estranhos à arte centenar de armar e desarmar nossa “namorada”, como assim nos obrigava a chamar nosso fuzil o Tenente Ferreira, um oficial que impunha respeito e fazia muitos de nós passar a noite só piscando. De Moura, com sua capacidade esplêndida de obedecer todas as ordens e aterrorizado pela imagem do tenente, mal podia fitá-lo que já queria satisfazê-lo antes que o mesmo proferisse uma palavra sequer. A instrução teve seu início após o cessar de um conversa entre o Tenente Ferreira e o Capitão Estrela.
- “Todo mundo põe o fuzil na posição vertical, com a chapa da soleira pra baixo, e senta de frente pra ele”, ordenou o tenente. “Presta atenção porque eu só vou explicar uma vez, seu bando de bisonho!”.

Todos o olhavam. Os cinqüenta que estavam na sala, uma vez que fomos divididos em quatro grupos devido à capacidade espacial da mesma, prestavam bastante atenção às instruções do Tenente Ferreira. De Moura, temendo seu constante esquecimento repentino, era o que mais se esforçava para armazenar todas as informações dadas durante quase 15 minutos. Periodicamente, notava-se a mão dele adejando o ar para questionar e esclarecer suas dúvidas. Era o único.
- “Essa peça é pra que mesmo, senhor?”, perguntou de Moura.

- “Ah!, seu bisonho! Acabei de falar! É pra armazenar os gases que propulsionam o projéctil! O obturador de cilindro de gases é uma peça que requer cuidados: quando a gente tira ela, a mola do êmbolo impulsiona ela pra fora e arremessa ela longe. Então, cuidado pra não deixar ela voar e quebrar. Se o obturador cair, cai junto!”.
Após essa afirmação, que era uma espécie de bordão no quartel (como “se o fuzil cair, cai junto!”), algumas risadas abafadas foram ouvidas.
***

O obturador de cilindro de gases localiza-se próximo ao cano do fuzil e é apontado para frente. Na posição vertical na qual encontrava-se o FAL – Fuzil Automático Leve que, diga-se de passagem, de leve só tem o nome -, qualquer descuido com a peça poderia fazer com que ela fosse lançada verticalmente para longe. Assim sendo, após explicar as funções dos demais compartimentos do fuzil e de montar e desmontar lentamente para que todos entendessem o processo, o Tenente Ferreira nos informou que era a nossa vez. Nervoso, como todos os outros estavam, comecei a desmontar quando o Tenente disse “Valendo!”. O objetivo inical era desmontar e montar o FAL em menos de um minuto . Todos estávamos concentradíssimos na nossa tarefa e o esforço mútuo nos remetia a um estado de transe, um devaneio, como se o fuzil fosse mesmo a nossa namorada, tendo em vista o zelo que tínhamos para com o mesmo. De Moura, sentado ao meu lado na última fileira logo abaixo da janela, estava igualmente compenetrado, com a sua língua à vista sendo prensada pelos dentes. Pereira, na outra ponta, já apresentava sinais de desespero. R. Morais, ao centro, parecia tranqüilo e começava a montagem, com sua notável habilidade com o armamento. Eu, não portador dessa faculdade, alucinava-me vendo todos os outros em ação enquanto esforçava-me para tirar o retém do ferrolho que insistia em prender na culatra. Quando, por fim, consegui tirar a maldita peça, vi, numa questão de segundos, uma peça voar ao meu lado. Um momento mágico, salvo a tragédia que o sucederia. O obturador de cilindro de gases do fuzil do de Moura quicou no parapeito da janela e caiu para o lado de fora da sala. Algumas pessoas notaram quando De Moura se levantou, ciente do seu destino. Sem entender, o Tenente Ferreira o chamou, em voz baixa. De Moura ignorou o chamado e fitou-me. Vi em seus olhos a inocência de um garoto e a coragem de um guerreiro que sabia a hora de enfrentar a morte. Incrédulo, o tenente chamou-o de novo. “De Moura!”. De moura olhou para a janela, deu dois passos largos rapidamente em direção à mesma e mergulhou de cabeça, passando por cima do parapeito. “De Moura!”, gritou o perplexo Tenente Ferreira, sem acreditar no que acabara de presenciar. Eu, atônito assim como todos os outros soldados, levantei para ir ver o que tinha acontecido com o De Moura, mas o tenente me advertiu. “Mandei levantar, porra?!”. Nos sentamos. O Tenente Ferreira debruçou-se sobre o peitoril da janela e soltou um “Caralho!” tão sonoro que nos fez reféns do medo da morte do nosso amigo. O tentente deixou o Sargento Santiago tomando conta do pelotão e pôs-se aceleradamente porta afora.
***

Permanecemos sentados, apreensivos. Uns já esboçavam lágrimas, ao passo que outros, indignação, afinal, de Moura havia se atirado pela janela seguindo as ordens do tenente. Algumas vozes eram ouvidas, mas nada de extraordinário. Parecia que eu tinha sido abruptamente interrompido de um pesadelo e este se tornara realidade. Nunca imaginaria uma atitude tão insensata como a vivida há minutos antes. Nunca ousaria pensar em presenciar um suicídio desta forma. Inconformado, abstraí a situação e embarquei numa viagem sem rumo, as pálpebras fechando. A cena se repetiu: de Moura jogava-se pela janela em busca do obturador de cilindro de gases. Abri os olhos, interrompido pelo ranger da porta que se abria. Por ela, inexplicavelmente, entrava um pálido Tenente Ferreira e um intacto Soldado de Moura. Aturdido pela visão, não sabia o que dizer. Aliás, assim como os demais, não tinha o que dizer. O que iria falar? “Então você tá vivo, de Moura?!” ou “Você não morreu?”? O silêncio falou por si só. O tentente voltou ao seu lugar original, à frente do grupamento. de Moura também voltou à sua posição outrora ocupada, ao meu lado. Boquiaberto, fitei-o nos olhos enquanto sentava-se. Espantado, como se ele tivesse visto outrem indo embora pela janela, me perguntou o motivo de eu o olhar tanto e com tanto pavor. Permaneci mudo.

- “Por que você tá me olhando com essa cara?”, perguntou de Moura. “Tá maluco? Parece que nunca me viu! Eu, hein!”.
- “De Moura, como?”, finalmente falei.

- “Ah, sim! Fui pegar a peça, ué. Aqui ela, ó! Desgraçada quase me matou!”. E encerrando o assunto com um sorriso sincero, me mostrou o obturador de cilindro de gases.
***
Após o episódio, num outro dia qualquer enquanto eu descascava batatas, de Moura me chamou:
- “Paes Leme, chega aqui.”
- “Fala, de Moura.”
- “Lembra do dia da instrução com o FAL?”, disse ele, envergonhado.
- “Como eu vou me esquecer disso?”

- “Você sabe que foi um acidente, né? Poderia ter acontecido com qualquer um, ué! Se põe no meu lugar! Sacanagem vocês ficarem me zoando por isso!”
Abismado, abobalhado, aparvalhado e puto, eu disse:
- “Você é muito estranho, moleque.”

Corações Errantes

Cantes aos deuses tua cólera! Cantes
De forma que não lhes reste suspeita!
Cantes! Exponhas a fúria da desfeita
Que fizeste teu amor em teu peito antes!

Cantes alto! Faças cordas vibrantes!
Mostres o que teu corpo não aceita:
Ser aliciado para esta seita
Onde sagram-se os corações errantes!

Ponhas um fim ao que te seduziu!
Faças jus ao que tua alma viu
Ser maléfico desde o início!

Não mais deixes o teu peito revolto
A vagar sem direção e envolto
Na mantilha desse disforme vício!

Um ato selvagem – Desventuras no Alasca

O cursor do Word piscava à sua frente. O jovem estudante de Jornalismo, com 20 verões vividos, não sabia como imprimir ao papel a sensação exata da cena presenciada por ele  quatro anos antes. Martírio eterno, pensava Marcos. Seu cérebro se atrofiava em imagens contundentes e sem fim – Jô Soares, Jornal da Globo, Bradesco, Assolan…a TV se pronunciava às suas costas, dando-lhe palavras suficientes para que ele se abstraísse da missão de relatar o crime em questão. Eis que, de súbito, as cenas surgiram em sua frente, ordenadamente e em forma de palavras, fazendo com que o rapaz esfolasse seus dedos ao atacar o teclado.

“Dois mil e três, mês que não recordo, dia irrelevante. A manhã mais clara do Alasca acabara de raiar, às 8h45. Marcos, brasileiro estudante de intercâmbio, contava 16 anos e se dirigia para a terceira aula do dia na Ninilchik High School. Ninilchik, uma cidadezinha ao sul de Anchorage, principal centro referencial do Alasca, tinha 400 habitantes. Marcos  se destacava não só por ser o único negro na região, mas também por usar uma camisa com um nome de um animal, com listras vermelhas e pretas dispostas horizontalmente. Por motivo óbvio, o seu time, Flamengo, virara motivo de chacota entre os demais alunos que, em alto e bom inglês, diziam pelos corredores da escola com seus sotaques acentuados “ei, flamingo!”, posto que o encontro das letras “e” e “n” soavam como “i” e “n”. Enfim. Marcos, ao contrário do nome do seu time, era bem respeitado e popular na cidade onde todos se conheciam e todos queriam conhecê-lo. Um brasileiro no Alasca? Em Ninilchik? Atípico.

O dia irrelevante correu tranqüilo paro o garoto. Como de costume, ele ficou até mais tarde vendo seu “irmão” Adam, de 14 anos, treinar luta. Adam era irmão de Molly, filho de Jerry e Susie Byrne – eram a família que se dispusera, com todo carinho e afeto tal para com um filho/irmão, a hospedar Marcos. Às 16h30, ele foi beber água e, no caminho, viu as cheerleaders praticando no ginásio da escola. Distraiu-se por mais tempo do que pensara: ao ver a última perna ser erguida à altura da cabeça, olhou para o relógio e surpreendeu-se vendo o ponteiro menor na casa cinco. Saiu em disparada pelo corredor em direção ao salão de luta, mas já não havia ninguém lá. Pela janela, procurando Adam, viu o ônibus amarelo da Ninilchik High School sair. Já estava escuro e quase não havia iluminação no trajeto de volta para seu lar na cidade onde só existiam casas. Pôs-se, então, a encarar o frio de vinte e sete graus Celsius negativos e virou à direita, depois à esquerda, até chegar ao pé da ladeira, onde só se via a luz da lavanderia quase sumindo no horizonte formado pelo pico da rua. O frio gelava-lhe as juntas. Martírio eterno, pensava Marcos. Mesmo sem lata d’água na cabeça, subir a ladeira com neve na venta era ralação. Ele foi subindo, subindo, subindo a ladeira sem fim. No meio do caminho, de repente, ouviu um barulho vindo de perto. Olhou para os lados, mas nada viu além do que pudesse ver com as pálpebras cerradas. O barulho se repetiu. Assombrado, Marcos não sabia o que fazer. Tentou apertar o passo, mas uma sombra irrompeu da escuridão, tapando a fraca luz proveniente da lavanderia. Ficou parado, sem luz, sem visão, sem esperanças, na verdade. O vulto lhe atacou . Marcos não voltou pra casa no dia irrelevante.

O enigma sobre o que atacou o rapaz permaneceu por alguns dias. Marcos não soube explicar o que havia lhe abordado, uma vez que ficara completamente sem visão no momento. Só sentiu duas mãos muito pesadas empurrarem seu peito e uma pisada forte na perna. Todos da cidade ficaram mobilizados com o fato ocorrido. Até onde se sabia, Marcos não tinha nenhuma inimizade em Ninilchik. Algumas pequenas investigações eram feitas no local onde o rapaz fora encontrado pelo motorista do ônibus da escola, no dia seguinte ao irrelevante, estirado no chão gélido da ladeira, sem a mochila. Fora conduzido direto para casa após ser achado. O xerife local, Mr. Wolf, apresentou-se a Marcos durante o intervalo das aulas. Colheu algumas informações e jurou encontrar o responsável pelo primeiro ato de violência em 13 anos na pequena cidade de Ninilchik.

O mistério resolveu-se no domingo seguinte ao ataque. Voltando da igreja com a família, o garoto viu um alce andando na rua. Para sua infelicidade e completa vergonha, Marcos notou, pendurado na boca do animal, um pedaço de papel que reconheceu na hora, devido à forma: era uma folha do seu bloco de anotações no formato do escudo do Flamengo.”

Fogo ao Falaz

Grito, sim! Motivos já não me pecam!
Cólera presa em olhos de rubor!
Abomino quem, na vida, é ator
E os que n’outros corações defecam!

Roda, Mundo! Roda, pois que não secam
As dores da mentira em esplendor
Que vertem no meu rosto com sabor
De justiça! Vida e rancor não brecam!

Deixai, Senhor, fluir todo meu ódio,
Posto que, à frente, brindarei no pódio
Reservado aos homens de Palavra!

Lúcifer, permitas que injustos entrem
Em teu reino de Trevas, e os que mentem,
Tostes-lhes os ossos em rica lava!

Que Missa do Galo, que nada!

Pude sim entender a conversação que tive com uma coroa, em 2004, quando eu tinha dezessete anos e ela, trinta. Maria era a tia do Thiago, meu amigo de infância, e, também, a dona da casa onde nós íamos passar os próximos quatro dias, em Tiradentes. Maria, ou D. Maria, como inicialmente a chamei, transmitia a límpida impressão de uma santa, posto que cedera a casa e seus aposentos, sem parcimônia, a mim e a Thiago, pondo-se sempre à disposição e demonstrando um alto grau de solicitude. Me senti envergonhado logo à primeira vista: assim que cheguei, Maria se prontificou a preparar-nos um lanche e, após a refeição e lhe desejar uma boa noite, encontrei meu quarto de hóspede divinamente arrumado com um bilhete contendo os seguintes dizeres: “Meu quarto é o último do corredor. Qualquer coisa que precisar, não hesite em bater à porta. Maria.”.

O evento em questão seria o Axé Tiradentes, onde aconteceriam diversos shows de axé (micareta, sabe?) no centro da cidade histórica de Minas Gerais. As atividades iniciar-se-iam naquela mesma noite, contando com a presença de uma banda, até o momento desconhecida, chamada Babado Novo. A previsão para o início do show era à meia-noite e eu e Thiago já estávamos contando as horas: lembro que, logo após ler o bilhete de Maria, olhei para o relógio e apertei duas vezes o botão da esquerda para checar o cronômetro regressivo e ver que só faltavam duas horas, quarenta e três minutos e vinte, dezenove, dezoito segundos. Deixei minha mala num canto, encostei a porta e larguei-me sobre a macia cama do quarto de hospédes.  E já estava na terceira música do show, todos indo ao delírio ao som do axé. Thiago já estava sem camisa, se confundindo com uma menina de uns poucos anos, talvez quinze. Eu pulava e junto vinha todo o saculejo da massa formada por pretos, pardos, mulatos, brancos, gays, lésbicas e todos as outras opções sexuais da modernidade. O palco estava meio distante, mas os telões não me deixavam escapar nenhum detalhe daquelas pernas grossas da cantora. A imagem ia subindo e a saia parecia encurtar. Disseram que ela já tinha parido dois, mas com aquela barriga era difícil de acreditar. A câmera subiu mais um pouco e deixou à vista a imagem de seios fartos, lindos. Agora, víamos o queixo e o rosto era reveleado. Num susto, percebo Maria com o microfone na mão e Thiago ao pé da cama me sacudindo pra me acordar.

- Acorda, maluco! Bora tomar um café pra agüentar a noite inteira! Troca de roupa logo, anda! Só não faça barulho, porque minha tia já tá dormindo.

Não tive como me levantar e não ficar com aquela visão da tia do Thiago na cabeça.

Ele fora descendo na frente, pude ouvir seus passos pelo ranger dos degraus. Olhei novamente o relógio e apertei o mesmo botão da esquerda, duas vezes: faltavam duas horas, trinta e quatro minutos e cinqüenta e cinco, cinqüenta e quatro, cinqüenta e três segundos. Não acreditava. Só tinham se passado oito minutos? Naquele instante passei a achar que era possível morrer de ansiedade. Abri minha mala e tirei de lá a roupa que eu já havia escolhido para a ocasião havia meses: uma bermuda jeans, minha cueca preta da sorte e meus tênis nike. A camisa era o abadá, obviamente. Mas eu não ia me vestir sem antes tomar um bom banho. Precisava, no entanto, de uma toalha. Thiago me dissera que não precisava levar nada que não fossem vestes ou material de higiene pessoal. Desci para chamá-lo, mas foi só descer alguns degraus que o avistei na porta de casa conversando com uma menina de uns poucos anos. Preferi não incomodá-lo:se bem conheço Thiago, era capaz de brigar comigo se eu atrapalhasse uma conversa dele com uma garota. Voltei pra minha cama e já sabia da única opção que me restara. E essa opção estava no último quarto do corredor. Caminhei até a porta do santuário de Maria (sim, santuário! Já não disse que era uma santa?) e ergui a mão à frente, pronto para dar leves batidas na madeira escura que me separava dela. Hesitei, porém. Eu sabia que ela dissera que não havia problema em bater à sua porta, mas achei abuso. Pensei no que fazer. Bom, ela não tinha ido se deitar há muito tempo. Resolvi bater bem de leve, mas antes ensaiei na parede ao lado. Foram duas batidas bem sutis e me vi pronto para a prova final. Cerrei os punhos, pus a mão à frente e eu estava quase dando socos no alvo rosto de Maria.

- Boa noite, Maria, eu disse, como quem fora apanhado em flagrante.
- Boa noite, Marcos. Você tá precisando de alguma coisa?
- É, eu ia chamar a senhora, mas pensei que talvez pudesse acordá-la e…
- Ah, Marcos! Que bobagem! Achei que você entenderia a minha letra. E eu não sou nenhuma senhora! O que você quer de mim?
“Para falar a verdade, só um beijo de boa noite, por ora”, pensei eu.
- É que eu quero tomar um banho mas eu não tenho toalha. Será que você poderia me emprestar uma?
- Claro, claro! Como pude me esquecer? Venha. As toalhas ficam lá embaixo.

Fui seguindo Maria até a dispensa. Eu não havia reparado em sua roupa até o momento: ela vestia uma camisola amarela bem simples, parecendo um vestido de pano. Estava muito bonita. Media algo em torno de 1,60m, 1,65m e seu peso era bastante proporcional à sua altura; tinha cabelos bem longos e ondulados que quase lhe tocavam a cintura; seus olhos eram compridos e castanhos; os lábios grossos e bem desenhados. Era muito bonita.
- Esta serve? Ou você não gosta da cor laranja?
- Tá ótima, Maria. Obrigado.
- Você aceita um café?
- Seu sobrinho tinha me oferecido isso, mas se eu for depender dele, durmo esperando.

Lá foi Maria pra cozinha. Enquanto fazia o café, me perguntava se eu costumava viajar, se meus pais eram divorciados, se eu gostava de ler…

-Atualmente, tô lendo São Bernardo. Eu gosto muito de literatura nacional, sabe?
- Que legal! Eu também gosto. Tô lendo O Cortiço, ela respondeu.
- Eu já li. Muito maneiro.

Durante os dez minutos de conversa que se sucederam, discutimos alguns clássicos literários e também estilos musicais. Descobri que Maria era muito eclética. Seu gosto ia de blues a samba. Agora, ela já havia servido o café e estava de pé, do lado oposto da mesa, os cotovelos apoiados sobre a superfície desta e o rosto enfiado entre as mãos espalmadas, me contemplando a três palmos de distância.
- Tá gostoso?

- Uma delícia, respondi a ela, sinceramente. Pode ir deitar se quiser, Maria. Desculpa todo esse incômodo a essa hora.

- Incômodo nenhum! Fico todos os dias tão sozinha aqui nessa casa e quando tenho companhia não posso desfrutar? Que idéia!

Fiquei envergonhado e surpreso. Eu já não era um mero hóspede: Maria me elevara à posição de companhia.

Passados dois minutos de um silêncio que só era quebrado periodicamente com o barulho da colher batendo na xícara, Thiago despediu-se da garota, entrou na sala e me perguntou que horas eram.

- Dez e vinte, respondi.
- Vou tomar banho logo, então. Quero tirar uma soneca depois.
- Beleza.

Durante o diálogo breve entre eu e meu amigo, percebi que a santa não tirava os olhos de mim. Ao perceber isso, me senti poderoso e frágil ao mesmo tempo. Não me pergunte a razão.

- Tava ótimo, Maria. Muito obrigado.
- Se tem alguém aqui que precisa agradecer, esse alguém sou eu.

Maria estava tão próxima de mim que eu conseguia me ver nos grandes olhos dela. Ela era muito bonita. Certa hora, Maria passou a língua nos lábios para umedecê-los. Eu preferi não crer num ato sedutor. Deduzi que, como estava frio, sua boca deveria estar ressecada.

Continuamos conversando durante um bom tempo, sempre com modos e respeitando os limites ideológicos de cada um, até eu repetir a ação de apertar duas vezes o botão esquerdo do meu relógio e ver que faltavam  apenas quarenta e dois minutos e quarenta e dois, quarenta e um, quarenta segundos.

Comecei a achar graça: agora, eu queria que o tempo passasse mais devagar. Eu estava gostando dos minutos gastos com a tia do Thiago. Ela parecia ter muita coisa interessante a me contar. Me encheu de histórias dizendo da vez que viajou pro Nordeste, de quando foi pra Moçambique, falando da época da juventude…Eram coisas divertidas de se ouvir. E o jeito como ela contava era muito excitante, quase como se revivesse os momentos passados. Ofereceu-me um vinho assim, de pronto. Não entendi nada. Mas não é porque não entendi que recusei: mal disse que sim e ela já fazia minha taça transbordar. Agora, depois de alguns pares de doses, falava com uma magia e uma desenvoltura impressionantes. Fora, aos poucos, abandonando seu aspecto imaculado e tornando-se mais humana, ao passo que ria, me dava tapas no ombro, chamava-me de “Marquinho”…vez ou outra ajeitava a manga da camisola que tendia a revelar-me sua nudez.

A conversa foi fluindo assim, divertida. Nós parecíamos grandes amigos que não se viam há tempos e estavam colocando a conversa em dia. Estava sentada na cadeira ao meu lado, com as mãos sobre a mesa, próximas às minhas. Eu já não me sentia tímido e a achava cada vez mais linda. E tinha a impressão que minha taça de vinho nunca esvaziava, por mais que eu bebesse. Olhei pro cronômetro, após apertar duas vezes o botão da esquerda e me surpreendi: faltavam treze minutos e trinta e um, trinta, vinte e nove segundos. Quando olhei para Maria para dizê-la que era melhor eu ir acordar Thiago, seu rosto estava a um palmo do meu, seus olhos inibindo-me novamente. Segundos de apreensão. O coração não sabia por onde iria sair. Eis que ela pergunta:

- O que você quer fazer agora? Acordar o Thiago?
Fico sem resposta.
- Hein, Marquinho?, ela insiste.
- Não é melhor?, respondo.
- Não. É melhor?
- Parece.

Sua respiração doce e com aroma de uva me desnorteia. Ela se aproxima. Eu bebi muito, eu acho. Preciso ter calma. Ela pode estar mais distante do que parece. Tudo muito rápido. Pisco e a imagino em cima do palco, dançando e apontando pra mim no meio da multidão. Abro os olhos, após alguns supostos segundos. Maria já não está mais lá. No lugar dela, Thiago me contempla ao pé da cama. Pergunto o que houve. Ele ri, constrangido.
- Você bebeu muito.

É… não sei se entendi realmente aquela conversação.

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