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R.I.P.

Aviso aos navegantes: no Brasil, é proibido viver. Sem espanto, a verdade é essa mesmo que se lê. Você, que já não pode sair de casa quando tem vontade, para ir ao lugar que deseja, agora também não pode mais beber, nem fumar seu cigarro. Mas não se preocupe: carros, bebidas e cigarros continuam sendo vendidos livremente, no local mais perto de você, sem qualquer restrição.

Tudo e qualquer coisa em prol de um suposto bem coletivo que se almeja. A lógica é a simples, somos todos responsáveis pela coletividade, e por ela devemos abrir mão de nossos reprováveis desejos mundanos e superficiais. Nós, que temos nossa liberdade cada vez mais restringida por uma violência urbana induzida, provocada e prevista – a tal ponto que já se impregnou em nossa rotina diária –, passamos, também, a não poder desfrutar de determinados prazeres da vida, que há até pouco tempo eram perfeitamente aceitáveis.

O povo é presumidamente irresponsável e mal-educado. Essa é a premissa de que se parte quando se assevera que a única solução aos acidentes de trânsito por embriaguez é proibir a ingestão de qualquer mínima dose de álcool a quem vá dirigir, afinal, a irresponsabilidade que contamina o povo impede que os motoristas limitem seu consumo de álcool a uma quantidade que não lhes tire a percepção necessária à direção. São todos uns irresponsáveis; logo, estão todos proibidos de ingerir sequer um chopp. Eternos adolescentes!

Sim, o número de acidentes foi significativamente reduzido. Não poderia ser diferente, uma vez que a fiscalização cresceu na mesma proporção – até onde me recordo, antes dessa nova imposição não havia esse frisson de blitzes que hoje existe. Qualquer raciocínio lógico chega à conclusão de que quanto mais blitzes existirem à caça de quem não esteja em condições de dirigir, menor será o número de acidentes. Simples assim.

A novidade do momento é a proibição do fumo em locais públicos fechados. Concordo plenamente que o cigarro é incômodo ao extremo, até mesmo para os fumantes, e que fumar em locais fechados é realmente desagradável. Não há dúvidas, assim como é certo que o cigarro é a porta de entrada de inúmeros problemas de saúde. Quem fuma sabe disso e aceita o risco.

O único problema ocorre quando o que é desagradável se torna proibido em uma sociedade na qual é plena a liberdade de escolha dos lugares que frequentar, e onde quem deseja construir um negócio pode muito bem definir o público que pretende aceitar em seu estabelecimento – vide as casas de swing, um bom exemplo dado por um conhecido meu, fumante inveterado e revoltado com a nova lei do Estado do Rio.

Ou seja: os empresários tem o direito de permitir a entrada de fumantes em seus estabelecimentos, as pessoas tem a liberdade de escolher se desejam ou não frequentá-los, mas, mesmo assim, tome proibição. Mas não vamos proibir a indústria do tabaco, afinal, o lobby político que ela é capaz de iniciar é bem mais forte do que qualquer reivindicação popular.

Estaria mentindo se declarasse que não bebo, mas praticamente não dirijo e consigo muito bem viver sem cigarros. Difícil é, isso sim, viver submetido a lógicas pequenas e desrespeitosas à liberdade individual, pela qual já muito se sacrificou: pouco a pouco, vão sendo assassinados os cidadãos.

Eu confesso!

Devo confessar, adoro uma discórdia – ou, para ser mais popular, um barraco. Adoro, e não tenho vergonha de dizer que às vezes sinto até um alívio quando alguém que merece escuta umas verdades ou ganha umas cicatrizes como resultado de muito bem dados tabefes. Essa história toda de buscarmos a conciliação e tratarmos uns aos outros de forma dócil é bonita, bastante “Era de Aquário”, mas não se aplica fora de situações razoáveis, evidentemente. Afinal, é justo esse suposto dever moral de incorporar todo esse espírito “paz e amor” mesmo quando você foi obrigado a ouvir ou aturar poucas e boas? Santificado seja aquele que responder que sim, porque esse sacrifício é digno de canonização!

Levar desaforo para casa pode ser conveniente em determinadas situações, mas quando surge aquele descontrole que chega a elevar a temperatura do corpo, é inteiramente válido revidar – com os devidos limites, claro –, por quê não? Ora, a natureza dos homens é conflituosa, deixá-la de lado é justificável apenas por algum bem maior do que a honra individual, como a paz coletiva ou algo de similar transcendência.

Justamente em virtude dessa visão certamente não-convencional e talvez moralmente questionável para alguns, me deliciei nesta semana: briga feia na novela das oito, discussão acalorada no Senado Federal (sobre a qual, por sorte de quem lê, desisti de escrever)…atire a primeira pedra quem não teve a atenção nem um pouco despertada em alguma dessas situações. Quem tem coragem?

Aí mora a “sementinha do mal”: lá no fundo, você também é barraqueiro!

Bom dia por quê?

Detesto gente muito feliz.

Me irritam profundamente aquelas pessoas que parecem transbordar felicidade todos os minutos de todos os dias, desde sempre. Logo que tenho o desprazer de achar-me com um desses tipos, sinto uma incontrolável vontade de fugir imediatamente, e discretamente investigo as saídas de emergência mais próximas – aí incluída qualquer pessoa que esteja oportunamente por perto e da qual eu possa me valer a partir do levantamento de algum assunto aleatório.

Exemplares dessa agonizante situação não são raros. Chegam a você parecendo meros seres humanos razoavelmente bem-humorados, que estão passando por excelente momento, e você, simpático e acolhedor, imagina serem pessoas de ótima convivência. Até o instante em que você percebe que a fase de extrema felicidade simplesmente não tem fim.

Aí, não tem mais jeito: ature-o ou deixe-o. Cada encontro se transforma em um fantástico evento, com risadas ilimitadas e abraços acalorados e empolgação para um evento qualquer e extremo contentamento por qualquer simples fato, enquanto que, para você, cada segundo é sofrível eternidade, ao ponto de sentir enorme aflição e implorar pela exposição de um problema, uma reclamação, ou apenas um olhar um pouco mais preocupado. Não significa desejar mal aos outros, longe disso, significa buscar algum sinal de vida humana dentro daquele protótipo de personagem de comédia romântica. Também não é sinal, e logo tranquilizo o leitor, de rabugem, pessimismo ou tendências suicidas – ou assassinas, apesar dos sinais de incontrolável repúdio.

O que torna insuportáveis pessoas assim são duas coisas: o exagero e a ilusão. Afinal, convenhamos, na vida real ninguém consegue ser tão radiante durante tanto tempo. É justamente isso que nos faz razoavelmente toleráveis e, em conseqüência, evita um número ainda maior de conflitos ainda mais trágicos do que os já existentes.

O mundo de verdade é repleto de surpresas, sobressaltos, obstáculos, desilusões, palavrões em último volume, vontades repentinas de pular pela janela; aquele que não vive isso – ou para isso fecha os olhos -, não vive: existe. Finge viver.

Novamente, o interstício

Assisto imóvel a sua partida, que de tão certa e irremediável parece irreal. Mergulho nas lembranças que permanecem vivas em minha mente e revivo os olhares carregados de sentimento, as palavras desajeitadas à procura de sentido, os delicados toques repletos de malícia.

Recordo também os inúmeros obstáculos e as incertezas sempre atordoantes, que vez ou outra ou por algumas vezes desaguaram em inflexíveis discussões, após as quais percebia de maneira ainda mais determinante a intensidade do sentimento que nos unia. Reflito: retiraria qualquer das palavras proferidas, submetida ao risco de, ao final, arrepender-me de omitir emoções?

Afasto-me dessas memórias – o momento não é apropriado a reerguer discórdias. Sinto novamente a explosão de felicidade comum aos instantes mais simplórios, ao notar que, de tudo, permanece avassalador o que nos trouxe até aqui. Me pergunto, à essa altura, se algum dos minutos de que desfrutamos poderia ter sido melhor aproveitado. Não há dúvidas de que sim, desde que presentes diversos fatores que à época eram desconhecidos. Qualquer mínima alteração, no entanto, impediria que nos tornássemos o que hoje somos, com as impressões que atualmente temos e as lições que acumulamos.

Chegou a hora de mostrar maturidade, segurança e independência. Sinto sangrar-me o coração e o cair de uma lágrima inaugural, enquanto vejo que se vai, em travessia pelo oceano.

E inicio nova espera.

Utópicas efemeridades

Dos acontecimentos daquela tarde, pouco ainda consigo lembrar. Não importa, na verdade: o que fez valer o dia aconteceu quando estávamos apenas os dois, longe de qualquer pessoa conhecida, e quando a tarde já cedia lugar ao anoitecer.

Procurávamos oportunidades para ficarmos juntos. Para tanto, se pudéssemos, relegávamos a segundo plano compromissos previamente acertados, ou ao menos tentávamos abandoná-los o mais cedo possível, em busca de tempo dedicado exclusivamente a nós. Foi a solução que se apresentou naquele domingo.

Saímos sem nos despedir, para evitar comentários e especulações. O que faríamos e para onde iríamos interessava somente a nós, e a mais ninguém. Rapidamente entramos no carro e partimos, sem rumo – e sem qualquer vontade de fixar algum. Queríamos exatamente aquilo, nada além: um instante especialmente nosso.

E o tivemos. Seduziu-nos o fim da tarde; encostamos em um lugar qualquer da orla e imediatamente retiramos os sapatos, para sentir fixando em nossos pés os gelados grãos de areia. Desabamos sobre o imenso carpete natural que formavam, nos sentando de forma que seus braços envolviam quase todo o meu corpo, e eu apaguei de minha mente tudo o que havia à nossa volta. Lembro que nada, ou muito pouco, falamos.

Sucumbimos à hipnótica força do pôr-do-sol, que nos tornava meros figurantes de um espetáculo de cores sem igual. Por alguns minutos senti apenas seus braços, que me envolviam e afastavam do mundo que nos esperava quando aquele instante tivesse fim; sua descansada respiração, na contramão dos acelerados batimentos de seu coração; o vento frio da noite que estreava; os grãos gelados de areia em nossos pés.

Ali permanecemos, por um curto período de tempo, que mais pareceu uma eternidade, pela força com que se manifestaram nossos sentimentos e impressões. E era justamente essa intensidade, presente em cada segundo de nossos mais ligeiros encontros, que, como que por mágica, compensava o abandono de todos os compromissos, pessoas e obrigações da vida real, completamente ignoradas para que ficássemos juntos.

Com o perdão da malfadada palavra

A falta de inspiração é um dos maiores problemas com o qual se depara um auto-intitulado escritor, amador ou profissional. Confesso que, na minha humilde condição de rabiscadora de palavras muitas vezes sem sentido, constantemente me acho certeiramente atingida por esse mal. Hoje, por exemplo.

Todo o silencioso ritual que culmina em um texto razoavelmente suportável, fruto de pequenas impressões ou sentimentos acumulados durante certo período, parece não ter gerado qualquer resultado produtivo que pudesse ocupar algum minuto do tempo daqueles que ainda não perceberam que, no fundo, nada mais faço do que inventar historinhas fantasiosas com generosas pitadas de desabafo.

Mas a falta de inspiração, e isso afirmo sem qualquer receio de estar equivocada, não significa necessariamente a ausência de algo sobre o que escrever. Pessoalmente, quase sempre deriva de uma overdose de sensações incongruentes, provocadoras de tamanha confusão a ponto de me impossibilitarem que as reduza a palavras, tão certas e definidas. É a situação em que me encontro. Creio estar poupando os leitores que ainda me restam de escritos muito mais desinteressantes do que essa infeliz confissão.

Garanto, no entanto, que a organização desse turbilhão de emoções que bloqueia uma escrita minimamente inteligível há de vir, e, aí sim, espero que seja capaz de produzir uma ou outra frase carregada de sentidos. Bem distante de um sincero e quase intragável mea culpa.

Saudade

Aperta.

Dói, bem no fundo da alma.
E como curar quando não há solução?
Nem ao menos um paliativo…
 
Dá-me ao menos outra dor!
Que seja mesmo física, em última hipótese…
Talvez distraio enquanto a assisto.

Esqueço o que é,
Como foi,
O que será doravante.

E, quando não mais recordar,
Então voltarei em segundo à realidade.
Sentirei o frio, o terror, vacilante.

Com as cores assim desbotadas,
De cada dia nada mais esperarei
Senão o retorno ao que sempre era.

De tudo, se impossível ao final,
Resta ainda a derradeira opção:
Seguir em frente, largar a espera.

Recomeçar, e ainda que incerta,
Abandonar o cultivo da dor:
Viver sem acreditar em ilusão.

E, quando menos imaginar,
Virá a tua face – de novo.
Oscilo, desconcerto, ressentida.

Mas, como posse tua perdida,
A ti me devolvo.

Ruína em prosa

Tentei escrever um poema.

Sujeito às regras da erudita língua portuguesa, vitrine de rítmicos verbos e luxuosa estrutura, rascunhei repetidamente palavras de profundo significado em sua essência, visando conferir melodia às construções melancólicas que rabiscava em crescente frustração.

Forrado por inúmeros bolos de papel amassado, o chão do pequeno quarto servia de único suporte ao peso de toda a decepção contida em cada um dos ensaios fracassados. As costas já me doíam, o sono investia em minhas pálpebras, a vista começava a apelar por descanso, e eu tentava escrever um poema.

Era madrugada e apenas alguns carros contaminavam a paisagem em que eu buscava refugiar a mente, esperando por um clique de inspiração, a partir da concentração no que havia além dos limites da janela. O espaçado e quase imperceptível barulho que faziam os veículos, entretanto, se unia aos gigantes ruídos produzidos pelos menores movimentos, que seriam facilmente ignorados em qualquer outro horário. Eu, inserida naquele mar de fracassos, insistia na ideia de escrever um poema.

A impaciência aos poucos superava a obsessão, e não tardou a desistência. Não bastava o esforço ou a vontade, nada se refletia nas finas folhas do bloco de papel, tendo bastado os imprestáveis ensaios até ali concretizados, adicionais frustrações à enorme coleção.

Assim desisti de escrever um poema.

Ultraje a Bilac

Como quisesse livre ser, deixando as paragens natais, partiu: caminho livre à frente. Velhas lembranças, persistentes problemas, incômoda vida; tudo esquecido à medida em que as paisagens marginais deixavam de ser familiares e, pouco a pouco, eram substituídas por novo cenário. Era hora de seguir adiante.

Estranhas pessoas, gigantes desafios e a vastidão de um mundo diferente pelo qual percorreu e no qual viveu, tão intensamente como nunca antes havia. A renovação dos votos do compromisso com a vontade de seguir tornou aprazível o que antes destruía, transformou angústia em tranquilidade e revirou o desgosto pelo hoje e o desalento do amanhã. Mas hoje, em falta do aconchego da mesmice, chora lembrando o antes vivido.

E logo, o olhar volvendo compungido, pede que volte o lar abandonado à inquietude que lhe consome, e que agora lhe faz desejar o calor da sóbria tranquilidade ao longe. Pelo que respira, pensa e vive, desde que a saudade é presente.

Assim por largo tempo andei perdido: felicidade desmesurada a volta ao mesmo, na ânsia do recomeço do velho – cálido, confortável e agasalhador.

Revolução

Eu levava uma vidinha bastante normal, sem muita emoção e definitivamente sem qualquer adrenalina, e gostava disso. Diversamente do que muitas pessoas sentem, não me fazia falta o surgimento de alguém surpreendente ou de um momento revolucionário: minha rotina me bastava. Me tranquilizava descansar minha cabeça no travesseiro ao final do dia com a certeza do que aconteceria no dia seguinte. Até aquela noite.

Olhava para o relógio e me preparava para despedir-me do amigo que comemorava seu aniversário, afinal, àquela hora eu já havia atingido meu objetivo de comparecer à comemoração e parabenizar o rapaz. Meus planos eram os mesmos de sempre; eu desceria até a rua principal e pegaria um táxi até minha casa, onde, após tomar um banho bem quente e mergulhar em meu pijama de flanela, desfrutaria de mais uma noite de sono profundo.

Direcionei meu corpo por entre as pequenas aglomerações de pessoas, buscando o rapaz orgulhoso de si – vai entender essa felicidade toda apenas pelo fato de ter dado mais um passo no caminho até a velhice… -, mas o resumido espaço do local impedia uma movimentação ágil. Como não aguentava mais ficar naquele lugar, comecei a me utilizar da má-educação e parei de pedir licença e de andar educadamente; naquele cenário, as pessoas não percebiam a diferença entre um empurrão mais forte e um mero tapinha no ombro. Quando já estava desistindo e pensando se valeria mais a pena continuar o pequeno e tortuoso trajeto ou voltar ao ponto de partida para simplesmente ir para casa, todos os meus planos para aquela noite foram embora. Eu o vi pela primeira vez.

Confesso que nenhum de nós dois estava sóbrio o suficiente para responder de forma plena por suas atitudes, muito menos por seus pensamentos, nos instantes que sucederam. Minhas impressões desse momento, alerto, estão contaminadas pelo efeito do álcool misturado àquele sentimento novo que todos, menos eu, gostavam de sentir. Olhei para aquele homem e tive vontade de esquecer onde estávamos e que fazíamos, mais ainda quem estava ao nosso redor, e até ele chegar da maneira mais rápida, para acabar de vez com aquela ansiedade à qual eu não estava nem um pouco habituada.

Ele chegou até mim primeiro, quando duvido ter conseguido elaborar uma frase inteligível para a banal pergunta que me havia feito:

- Tudo bem? Você está sozinha?

Não consigo me lembrar da íntegra do diálogo e nem mesmo de alguma parte significativa dele, apenas me recordo de como cada porção do meu corpo tremia em ritmos diferentes e descompassados e de como eu tentava disfarçar esse nervosismo, receosa de que parecesse uma menina adolescente no lance precedente ao seu primeiro beijo. Acho que não consegui, e suspeito que isso tenha conferido a ele a segurança necessária a que fizesse a proposta de me deixar em casa, depois de uma conversa em que soubemos apenas os principais dados da vida um do outro: solteiros, bem-empregados, inteligentes e grandes amigos do aniversariante do dia.

Eu, pela primeira vez em muitos anos, simplesmente não pensei. Sabendo que ali quebrava toda a programação rotineira que tanto me agradava todos os dias, sucumbi ao desconhecido sentimento que surgia e deixei que ele me conduzisse até minha casa. Deixei também, mais tarde, que aquele olhar penetrante que me fulminava desde o segundo em que o avistei me convencesse a propor que ele subisse.

Não houve constrangimento algum. Parecia que nos conhecíamos há anos e sabíamos exatamente o que deveríamos fazer, mas, ao mesmo tempo, não sabíamos o que esperar. Optei por parar de pensar mais uma vez. E dormi, naquela noite, certa de que a partir daquele dia abandonaria toda a minha até então segura rotina.

Fraternidade

Meu irmão nasceu lindo. Era uma criança que exibia por aí todas as características que qualquer mãe desejaria que seu filho possuísse: olhinhos enormes, de cor clara indefinida; cabelos sedosos em que se formavam caracóis perfeitamente delineados; nariz torneado; lábios de contorno imaculável, tão rosados quanto as faces. Nas palavras da minha avó, Deus deveria estar bem-humorado no momento em que resolveu criar o Théo.

Eu, por outro lado, nada tinha de especial. Nasci munido de um par de olhos de formato e cor bastante comuns, cabelos secos e crespos e um nariz que, digamos, atraía a atenção das pessoas pela, digamos, ausência de proporcionalidade. Deus deveria estar puto quando resolveu me criar.

As pessoas só tinham olhos para o Théo, que, paparicado e elogiado incansavelmente, adorava isso. E eu, um menino completamente dentro da média – até mesmo um pouco abaixo dela –, buscava atrair a atenção geral fazendo todas as travessuras necessárias a tanto, com o que transformei a vida de meus pais em um verdadeiro purgatório durante toda a minha infância. A ele, eram atribuídos adjetivos como “lindo” e “anjinho”, e nossos pais eram constantemente parabenizados pela formosura da criança; a mim cabia, na melhor das hipóteses, a qualidade de “gracinha”, acompanhada de um sorriso amarelo e olhares de repreensão em virtude do meu comportamento.

Assim crescemos até a adolescência, época em que o trauma poderia ter sido bem pior, se eu ainda não estivesse habituado a não ser o preferido de nem mesmo uma pessoa que nos conhecesse. Nesse período, já havia abandonado as travessuras infantis por considerá-las sem efeito, mas meu irmão permanecia lindo, simpático, educado, comportado e, agora, excelente aluno. Seu boletim escolar era sempre o extremo oposto do meu, e mesmo não integrando qualquer das turminhas mais populares do colégio, o Théo tinha um sucesso invejável com as meninas. Suas várias namoradas eram sempre muito mais bonitas do que minhas poucas companhias femininas; às vezes eu sentia até que minha família controlava algum constrangimento em solidariedade às minhas namoradinhas, quando estávamos todos reunidos.

O Théo cursou uma excelente faculdade de Direito e se graduou com louvor, tendo sido aprovado quase que instantaneamente em um dos concursos públicos mais concorridos da área, e hoje é um jovem rapaz muito bem-sucedido. Eu, depois de duas tentativas, consegui cursar História em uma instituição não muito conceituada, e ocupo o pouco tempo livre que me resta calculando como pagar todas as contas com o parco somatório dos salários pagos pelos três colégios em que leciono. Estou casado há cinco anos com a última das três namoradas que tive.

Nunca entendi porque o Théo ainda não casou, sendo tão bom partido e tendo desfilado com uma enorme quantidade de meninas, tão deslumbrantes e com tantas qualidades quanto ele. Não estou entendendo, também, porque na noite da última sexta-feira, no restaurante onde eu e minha esposa gastamos algumas economias para comemorar nosso aniversário de casamento, ele estava acompanhado de uma garrafa de vinho português e de um rapaz muito simpático, de quem carinhosamente segurava a mão sobre a mesa na qual se posicionava uma delicada vela.

Querido diário

Certas coisas se revestem de tamanha simplicidade que ficamos com medo de acreditar que são de verdade. Que são possíveis. Talvez por receio de depositar demasiada confiança em algo que, por parecer descomplicado, pode dar errado, e, nesse momento, entrar na realidade e ver que nem tudo é como gostaríamos que fosse. Aliás, quase tudo é bem diferente do que idealizamos.

O fato é que temos reservas quando nos deparamos com coisas simples. Buscamos complicá-las, sob a justificativa de que quanto mais complicadas, maiores as chances de que dêem certo; procuramos pequenos obstáculos em cada etapa, em cada situação essencialmente simplória, iludidos de que ultrapassar barreiras garante alguma certeza de vitória, de que devemos ter segurança para tentar algo além do que vem sendo vivido. Questiono, não poucas vezes, se as grandes transformações do homem se verificam depois de muita ponderação e do intenso emprego da razoabilidade, e quase sempre chego à conclusão de que elas são resultado do mero impulso, da explosão de sentimento e de vontade.

O medo da incerteza paralisa. Impede de viver. Pode parecer conversa de livro de auto-ajuda – e é -, mas é a verdade, nua e crua. O abandono da falsa certeza de que há coisas eternas e pessoas insubstituíveis dói, frustra, aterroriza, e essa é a vida fora dos contos de fada: sujeita a dores, frustrações e medo. Ignorá-la, definitivamente, não é a solução adequada, sob pena de dar início a uma vida fantasiosa, verdadeira fábula, que se torna intragável sem maior esforço.

Sabemos quando chega a hora de ultrapassar as barreiras; sentimos a exata ocasião, de alguma forma que as restrições da linguagem não permitem descrever à perfeição, mas que somos capazes de identificar precisamente. Dar as costas a essa capacidade não significa que a sensação desaparecerá; ao contrário, proporciona o impulso necessário a que produza uma tormenta ainda mais intensa, sendo apenas uma atitude propulsora de um verdadeiro atraso de vida.

Arriscar, sim. Talvez diretamente ao encontro da felicidade, possivelmente rumo a uma nova frustração. E por que não? Em último caso, algo de produtivo sempre poderá ser extraído da dor: no mínimo, ela resulta em escritos sem sentido, porém francamente sinceros, sobre a folha de um velho caderno escolar reutilizado.

Como andar de bicicleta

Me lembro de acordar pela manhã sem medo do que poderia acontecer ao longo do dia, e de me levantar com toda a disposição intrínseca a uma criança. Naquele dia, havia deixado devidamente preparado tudo o que iríamos precisar; meus tênis e roupas já haviam sido escolhidos, os sanduíches de queijo haviam sido preparados por minha mãe na noite anterior e estavam na geladeira ao lado da garrafa de suco de morango, e – o principal! – os pneus da bicicleta haviam sido avaliados e aprovados pelo frentista do posto de gasolina que desde sempre existiu à esquina da rua.

Meus pais ainda não estavam despertos. Assim que percebi que meu pai roncava profundamente e minha mãe não ameaçava qualquer movimento voluntário, voei sobre os dois e comecei a saltar sobre a cama, ao que meu pai acordou com um último ronco mais profundo e minha mãe apenas se deu ao trabalho de jogar as pernas para fora da cama.

Em vinte minutos estavam prontos, menos por disposição própria e mais por minha inquietação e insistência. Então, lá fomos os três em direção ao parque que ficava a poucas quadras de minha casa, e que propositalmente dispunha de largas pistas asfaltadas ora utilizadas como ciclovias, ora feitas de pistas de corrida. As rodas de apoio da diminuta bicicleta cor-de-rosa tinham sido extraídas por meu pai antes de deixarmos o apartamento, e ali estava eu, diante de minha ornamentada bicicleta, já sem qualquer suporte técnico, depositando toda a minha incalculável empolgação na inexplicável confiança de que não, eu não cairia.

Pulei ansiosamente na garupa, encostei meus pés nos pedais. Senti o empurrão gentilmente provido por meu pai e, sem dar importância para aquele frio na barriga que buscava dominar todo o resto do meu corpo, mirei em um ponto fixo mais adiante e segui em frente. Descobri que o segredo para o equilíbrio era não desviar daquele ponto, e esquecer todas as sensações sobre as quais poderia se espalhar minha concentração; apontava especificamente para lá e apenas me permitia sentir o vento que batia em meu rosto e fazia meus cabelos voarem. O que experimentei ao alcançar o fim do percurso que eu mesma havia definido foi indescritível, sem possível comparação a qualquer combinação de sentimentos.

Essa manhã invade, hoje, meus pensamentos, e eu me pergunto onde foi parar toda aquela empolgação anterior ao desafio tido por impossível? Em que momento abandonei a avassaladora coragem de enfrentar o desconhecido e esquecer a preocupação com as prováveis conseqüências? Quando esgotei a confiança na minha própria capacidade de ir além?

Parece que ainda tenho muito a aprender comigo mesma.

Equilíbrio à ausência

Bati a porta e fui andando a passos firmes, descontando todo o ódio que tentei trancafiar no apartamento sobre o velho assoalho que se mantinha firme ao longo de décadas no terceiro andar daquele antigo prédio. Era uma manhã de domingo que, chuvosa e sem-graça, insistia em passar a impressão de que, na verdade, era a segunda-feira de uma daquelas semanas que prometem ser insuportáveis.

Mas ainda era domingo. Por sorte, como que premeditadamente, a chave do carro havia sido deixada sobre a arca herdada das gerações anteriores, que ocupava boa parte de um dos cantos da sala do pequeno apartamento há poucos meses redecorado. A chave pendia de um urso de pelúcia multicolorido de exageradas dimensões para um chaveiro normal, no qual se penduraram algumas peças de metal que marcavam incessantemente o ritmo do furioso caminhar.

Não havia mais o que conversar. As palavras proferidas até ali já tinham sido capazes de apagar boa parte dos momentos uma vez inesquecíveis que vivemos. Abri a porta da garagem, depois de um hercúleo esforço para não chorar novamente, resistência que, mais uma vez, foi inteiramente inútil. Via, ali, pra mim, a rua se abrindo, bastante molhada pela fina chuva que ainda incomodava os moradores menos preguiçosos, frequentadores matinais das muitas bancas de jornal e das algumas padarias que se alastravam pelos quarteirões mais próximos. Acelerei, sem saber que sentido tomar e, muito menos, meu destino final. Minha única vontade era ir embora dali, e com isso afrouxar o arame que vinha apertando meu coração nos últimos tempos.

Ainda me doíam as mágoas provocadas pelo que foi dito nas inúmeras brigas anteriores. Latejavam, derrotando qualquer possibilidade de esquecê-las. Me obrigavam a pisar no acelerador com toda a força, e eu trocava de marcha com tamanha dificuldade que o carro emitia barulhos irreconhecíveis a um bom motorista. Já não bastava o amor nem a vontade de fazer dar certo, não mais era suficiente querer estar junto, pois estar junto, ultimamente, significava estar longe; olhar nos olhos parecia uma tortura sem fim – talvez pelo medo de assim perceber que a melhor solução era, simplesmente, não achar solução. Ir embora.

Foi assim que, em uma chuvosa manhã de domingo, admitimos a nossa última discussão. Bati a porta. Peguei o carro e acelerei, para qualquer lugar ou para lugar nenhum, deixando tudo para trás. Alguns quilômetros depois, a chuva parecia dar trégua, e as nuvens iam clareando e se separando umas das outras. O sol ainda não aparecia, mas os sinais de que o tempo iria melhorar aumentavam a cada minuto. Resolvi parar o carro, ir até o bar mais vazio às margens da estrada e pedir uma água – há muito beber uns goles de água não era tão prazeroso. E vi o sol se pôr.

De volta à natureza humana

A fidelidade é um assunto permeado de tabus e ideais de moral que, é bem verdade, podem contaminar qualquer conclusão teoricamente imparcial quando o que está em jogo é a possibilidade de traição. Sempre que me deparo com a mais inocente consideração a respeito dos relacionamentos modernos e a relativização da fidelidade, e as causas que acabam por conduzir a isso, procuro mergulhar numa reflexão livre de qualquer preconceito para conseguir entender minimamente esse – novo? – universo. Afinal, a moral doutrinada desde os primeiros anos de vida logo nos mostra que a atitude mais leal a ser tomada quando sentimos, além da vontade, a necessidade de estar com outra pessoa que não aquela com a qual estamos, é, simplesmente, não mentir. É abrir o jogo, cartas na mesa; é se expor mesmo, dar a cara a tapa, se sujeitar a repreensões pelo fato de ter se deixado levar por um qualquer…por óbvio, isso não é confortável. Ao contrário, o mais reconfortante é evitar o desgaste de um embate que pode nem mesmo vir a existir, bastando para isso uma pequena quantia de boas mentiras e alguma sorte, o suficiente para viver uma ou outra aventura fora de um relacionamento estável. Falta coragem para deixar para trás a certeza e investir na dúvida, o que, convenhamos, é natural a todo ser humano. Mas será que a covardia pode superar a lealdade quando o assunto é traição? O amor pode não ser eterno; a paixão, definitivamente não é. Não é apenas por amor que um relacionamento sobrevive. Ele ultrapassa essa barreira, e envolve sentimentos bem mais profundos e muito menos egoístas do que aquele que achamos ser amor. No entanto, a maioria das pessoas, sem perceber, sacrifica tudo isso em prol de um prazer muitas vezes momentâneo e vazio, que na hora, muitas vezes, não parece momentâneo e vazio. Mas que quase sempre é, e apesar de fingirmos que ignoramos isso, sabemos muito bem no que estamos nos envolvendo. Porém, temos medo dos efeitos das nossas próprias decisões, que alguns colocam em prática de maneira oculta justamente com o intuito de evitar os estragos e afastar a frustração de perceber que não, não são as fortalezas morais que os ensinaram a ser; e que não, não se importam com o que os outros, com quem tem uma vida em comum, podem vir a sentir. E que são humanos, e, quase sempre, covardes. E é isso que, cedo ou tarde, parciais ou não, acabamos por concluir.

Morango com champanhe

A situação, vista de um modo geral, era um dos clichês mais antigos de que se tem notícia. Relacionamentos ocultos entre pessoas de diferentes níveis de hierarquia no ambiente de trabalho, afinal, já são corriqueiros a ponto de não terem a capacidade de permanecer por muito tempo no elenco geral de fofocas, qualquer que seja o lugar de que estejamos falando.

Ele, no entanto, se negava a entender aquilo como mais um exemplo de passatempo montado durante o expediente, apesar de tudo para isso indicar. Vamos e venhamos, ele era mais novo, mais inexperiente; ela, por sua vez, era uma mulher já na casa dos 30 anos, quase 40, muito bem-sucedida e casada há pouco menos de uma década – e assim parecia muito feliz. Ah, e linda. Mas não fisicamente; longe disso, sua aparência dificilmente era assunto nas mesas de chopp, nos dias em que os homens se reuniam para assistir os jogos do Flamengo no botequim à esquina do prédio da empresa e falar dos atributos das mulheres. Ela era linda no conjunto, e como só ele enxergava todo o conjunto, era o único a inclinar o pescoço quando ela passava, perfumada e impecavelmente alinhada em um tailleur feito sob encomenda.

Em que ponto, então, essa história se distanciava do clichê, qual a característica que a tornava diferente? Ele gostava dela. Às vezes, chegava até mesmo à conclusão de que a amava, uma vez que não sabia muito bem como era isso, pois seus infantis namoros iniciavam-se na madrugada bêbada de uma boate e não chegavam a durar mais de um semestre. Todas as vezes que seu telefone tocava e ele era chamado à sala dela, o caminho era uma eternidade, enquanto ele sentia algo próximo de uma mistura de nervosismo, ansiedade, inquietação, animação e expectativa. E, ao entrar no gabinete, permeado por dezenas de livros distribuídos alfabeticamente em uma estante de madeira escura, minuciosamente organizado, exceto pela muda de roupa pendurada atrás da porta, e sempre com um leve aroma de morango com champanhe no ar, ele só era capaz de reparar naquela figura poderosa que tinha os olhos fixos na tela do laptop. Para sua decepção, a sequência posterior era sempre a mesma; ele entrava, recebia uma pilha de papéis para analisar e algumas instruções sobre o que fazer com eles, saía da sala ainda transtornado pelo cheiro de morango com champanhe que insistia em permanecer nas suas narinas ao longo de todo o dia, executava as tarefas, entregava o resultado final e recebia um “muito obrigada” e, algumas vezes, um seco elogio. Todas essas etapas para ele se resumiam em um período no qual incessantemente só pensava nela e naquele cheiro que não parava de sentir.

E assim se passaram alguns anos, enquanto ela ficava cada vez mais bem-sucedida e ele se revoltava com a crescente covardia que o impedia de tomar uma atitude que o fizesse ter aquela mulher para si algum dia. Se considerava um fraco, um moleque, incapaz de arriscar ouvir uma negativa após importunar uma mulher tão admirável com um assunto de tamanha insignificância como aquela paixão platonicamente desenvolvida.

Não conseguindo pensar em outra coisa senão aquele aroma que lhe perseguia, decidiu ir tomar um vinho em um restaurante do bairro depois do expediente e, esvaziada uma garrafa do malbec chileno que havia escolhido sem qualquer critério, resolveu tomar uma atitude definitiva. Era um homem, afinal de contas, e deveria agir como tal. Pagou a conta, vestiu o paletó, lavou o rosto e foi andando a passos largos até o edifício onde ficava a empresa; àquela hora, ela ainda deveria estar trabalhando, como de costume. Passou pela portaria como um furacão, acordando o sonolento e assustado funcionário da guarita, entrou no elevador parado no térreo e apertou o botão que indicava o vigésimo primeiro andar. A única luz ainda acesa iluminava aquela sala que ele bem conhecia; não parou, abriu a porta. Fechou.

Ela, com a camisa de linho parcialmente aberta e o penteado desfeito, sentada sobre a mesa antes organizada, agarrada a um de seus companheiros de trabalho, presença certa nos dias de transmissão dos jogos do Flamengo no botequim e um dos maiores enaltecedores das formas físicas de todas as demais mulheres da empresa. A última coisa que conseguiu identificar foi um delicado pacote rosa aberto sobre a mesa, caído, com um hidratante corporal de morango com champanhe já quase ao chão.

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