Arquivo da categoria ‘Paula Santa Rosa’

Seu nome

Não me leve a mal se te trato mal
É que teu nome me dá calafrios
Seu nome é só um nome como tantos nomes assim
Mas pra mim não é seu nome
E sim a lembrança
Uma triste esperança sem fim
Que insiste em perturbar.
Ai como dói falar
Uma imagem que castiga os sentidos
Não é seu nome que me maltrata, não é você
Eu bem sei…
Você por você não é nada.
Não é forte nem fraco, não tem nem forma
Nem cordão.
Você por você é vazio, é buraco
Espaço qualquer.
Multidão.
Mas seu nome… Seu nome é de toda imensidão!
E preenche meu íntimo com força
E torce tudo aqui.
Como se pensasse que ando sedada
E que nada vou sentir.
Seu nome é infeliz pra mim.
É a saudade que virou do avesso
Quando não se coloca nem preço
Pra se torturar.
Seu nome é ferida quando não quer fechar.
Mas eu sei…
Que é só um nome.
Como tantos outros na vida existirão
E o seu nome que é só um nome
Não me partiu o coração.
Eu sei… não foi seu nome.
Não foi você.
Mas mesmo assim não dá.
Ninguém com esse nome merece ficar.
Em mim seu nome é fim.
E estou recomeçando…

Compreensão

Quem ama – ama
Ama muito sem pensar
Quem ama se doa
Quem ama se dá
Quem ama aceita
Renuncia e ama
Quem ama solta
Permite entrar

E não há um mundo
Que seja capaz
De tirar um amor
Quando este está
Para aquele que ama
A porta é aberta
É ferida na certa
E alívio no ar

Quem ama não pede
Apenas entende

Aquilo que tem, cada um dá.

Ela e o gigante

Ninguém sabia o quanto era grande
Ninguém suspeitava
Ninguém suspeitou
Até o dia que aquele gigante
Aquele gigante do sonho acordou

Ela pequena e aquele gigante
Ela gigante ela chorou
Ninguém suspeitava que era tão grande
Ela e o gigante
O gigante que amou

E o amor era lindo… todo de cor
Colorido de tela com cheiro e sabor
Ela pintava todo o gigante
Que triste ganhava e dava sua dor

A dor do gigante, o gigante de dor
Que ela pequena no peito guardou
E amor colorido que era tão grande
Hoje são telas que ela deixou.

Explique-se

Detesto redação!
Detesto regras, parágrafos
Padrão!
Detesto ser ditado
Usado, manipulado
Prefiro até ficar calado
Com medo
Não.
Reprovação!
Detesto ter que ser…
Ou ter que ter
Que seja! Que não seja!
Que saco a exclamação.
Por quanto me equilibro
Nesse jogo ainda vibro
Até um dia vou partir
Detesto cálculos
Só posso rir.
Velho, jovem, criança
Homem e mulher
O que é que você quer?
 Sabe… Não me importa.
Minha mente mal suporta
Qualquer frase, qualquer voz
Tudo vale bem veloz
Certo?
O que vale é o reto.
Tem que ser correto.
E pronto.
Vamos descartar.
O importante é comentar.
Não é pessoa
É só papel.
Basta só rasgar.
 
Desculpa
Mas não pra mim.
Não sou assim.

Esboço

Eu sou rosa sou verde vermelho

Sou branco e preto

Amarelo e azul

Sou roxo, lilás, sou marrom

Sou laranja e sou batom

Sou saia e unhas pintadas

Sou cafona e desbocada

Pequena flor

Delicada.

Que pinta e cospe e chora

Que cobre esconde adora

Sou assim.

Um esboço de mim.

Sou sua filha

Capoeira.

Sou sim mandingueira.

Perdão.

Mas o batuque não sai da minha mão.

E eu gosto.

Do cheiro da vela da cor

Toda brincadeira de ator

Que resisto

Insisto

Que não cabe na minha mão

Sou gota lua e coração

Madrugada.

Eu já nasci apaixonada

E em cada passo de tinta

Escorre estampada

O quanto eu amo

E como amo

O simples fato

de sentir.

 .

Descongelando

...

Acabou. Aqui dentro.
Não quero mais. Eu quero mais. Eu quero brilho de mim pra mim pros lados.
Quero começo e enredo. Não quero fim.
Acabou. Você é fim. Dentro de mim não mora mais.
Não mora mais saudade, não dói mais seu nome.
Mora apenas a lembrança. Sem trança, sem água.
Lembrança de lembrar.
Sem esperança, sem esperar.
Acabou.
Hoje você acabou em mim.
Se acabou. Finalmente. Muito bem. Conseguiu.
Não quero mais. Não te quero mais.Eu quero mais.
Pra mim.

Prisão domiciliar

Não aguento mais
Não aguento essas paredes brancas sem vida sem cor
Não aguento esse silêncio, essa educação
Não quero não
Quero poder subir pular gritar
Quero correr
Sorrir falar
Palavrão
Ou um não
Eu quero ar
Só um suspiro
Uma canção
Quero comunicação
A minha educação
A sua não.
Quero dançar livre
Quando quiser
E beber o sabor de ser mulher
Andar na corda bamba até o equilíbrio chegar
Saber que dependeu de mim aquele lugar
Crescer.
Até virar gigante… Tocar o céu
Tirar todos os sonhos do papel
Subir no palco da vida
Sem pedir aplausos
Mas respeitar o respeito
Conquistar o direito
E olhar os olhos de quem tanto amei.
E sentir que nenhuma mágoa eu levei
Viver por inteiro com a casa no mundo
E saber que tudo valeu cada segundo.

Assim… Com as asas no ar…
Assim. Como o passarinho.

Aos dezesseis

Ela acordou, foi para a escola, entrou na sala de aula, sentou. Olhava o quadro, a matéria estava correndo. O caderno ainda na mochila, nada na mesa a não ser suas mãos. Olhava os lados, não agüentava os mesmos rostos, as mesmas vozes, nenhum amigo.  Nenhum objetivo, nenhuma atenção especial, todos iguais. Começou a dedilhar na mesa, queria fazer alguma coisa, uma música, um poema, uma mágica que a tirasse de lá. Olhou o teto, as paredes, um pequeno crucifixo em cima do quadro negro. Fixou os olhos num ponto. Será que ele vem? Será que vou gostar? Isso já perdeu a graça! O tempo é feroz… Come tudo que vê, não deixa nada… Será? Eram idéias que a cercavam, pensamentos que a tomavam de tudo a mais que estava ali. Resolveu pegar o caderno. Passou o dia todo assim. Disfarçava sorrisos ou entrava em assuntos bobos para que a hora chegasse mais depressa. Acabou! Hora de ir embora, hora de voltar pra casa. Mas, hoje, ela sabia que não iria voltar. Não sem antes encontrá-lo e perder seus medos.

Foi descendo a rua. Sabia que o encontraria no meio do caminho. E se não gostar? E se ele virou um chato, se ele estiver feio? E se for alto demais, sensível demais ou cansativo demais? E se quiser ir embora e não souber como? E se ele quiser beijá-la?!

Não, isso ele não iria fazer… Querer não é fazer. Tranqüilizou-se. Por instantes ficou ansiosa para encontrá-lo logo. E se ele não estiver no meio do caminho? Continuou a andar. Seu coração estava disparado, frio na barriga, apertava as alças da mochila, andava em passos retos e pequenos. Que maluquice! Depois de tanto tempo! Parecia coisa de filme, novela mexicana em “O reencontro”. Ai, quanta bobeira! Continuou a andar. Aquele era o tipo de coisa que não acontecia todo dia, ou que simplesmente não acontecia. Só em filme bem piegas. Ela não queria ser piegas. Riu de si mesma, olhando para baixo, balançando a cabeça. Levantou os olhos e viu… Abaixou rápido de novo! Que criancice! Levantou os olhos e sorriu, continuou a andar até onde ele estava. Parado, encostado no muro da rua, bem no meio do caminho, esperando por ela, com um sorriso, olhando pra baixo, rindo de si mesmo, tentando se distrair.

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