Arquivo da categoria ‘Paula Santa Rosa’
Seu nome
Compreensão
Quem ama – ama
Ama muito sem pensar
Quem ama se doa
Quem ama se dá
Quem ama aceita
Renuncia e ama
Quem ama solta
Permite entrar
E não há um mundo
Que seja capaz
De tirar um amor
Quando este está
Para aquele que ama
A porta é aberta
É ferida na certa
E alívio no ar
Quem ama não pede
Apenas entende
Aquilo que tem, cada um dá.
Ela e o gigante
Ninguém sabia o quanto era grande
Ninguém suspeitava
Ninguém suspeitou
Até o dia que aquele gigante
Aquele gigante do sonho acordou
Ela pequena e aquele gigante
Ela gigante ela chorou
Ninguém suspeitava que era tão grande
Ela e o gigante
O gigante que amou
E o amor era lindo… todo de cor
Colorido de tela com cheiro e sabor
Ela pintava todo o gigante
Que triste ganhava e dava sua dor
A dor do gigante, o gigante de dor
Que ela pequena no peito guardou
E amor colorido que era tão grande
Hoje são telas que ela deixou.
Explique-se
Esboço
Eu sou rosa sou verde vermelho
Sou branco e preto
Amarelo e azul
Sou roxo, lilás, sou marrom
Sou laranja e sou batom
Sou saia e unhas pintadas
Sou cafona e desbocada
Pequena flor
Delicada.
Que pinta e cospe e chora
Que cobre esconde adora
Sou assim.
Um esboço de mim.
Sou sua filha
Capoeira.
Sou sim mandingueira.
Perdão.
Mas o batuque não sai da minha mão.
E eu gosto.
Do cheiro da vela da cor
Toda brincadeira de ator
Que resisto
Insisto
Que não cabe na minha mão
Sou gota lua e coração
Madrugada.
Eu já nasci apaixonada
E em cada passo de tinta
Escorre estampada
O quanto eu amo
E como amo
O simples fato
de sentir.

Descongelando

Acabou. Aqui dentro.
Não quero mais. Eu quero mais. Eu quero brilho de mim pra mim pros lados.
Quero começo e enredo. Não quero fim.
Acabou. Você é fim. Dentro de mim não mora mais.
Não mora mais saudade, não dói mais seu nome.
Mora apenas a lembrança. Sem trança, sem água.
Lembrança de lembrar.
Sem esperança, sem esperar.
Acabou.
Hoje você acabou em mim.
Se acabou. Finalmente. Muito bem. Conseguiu.
Não quero mais. Não te quero mais.Eu quero mais.
Pra mim.
Prisão domiciliar
Não aguento mais
Não aguento essas paredes brancas sem vida sem cor
Não aguento esse silêncio, essa educação
Não quero não
Quero poder subir pular gritar
Quero correr
Sorrir falar
Palavrão
Ou um não
Eu quero ar
Só um suspiro
Uma canção
Quero comunicação
A minha educação
A sua não.
Quero dançar livre
Quando quiser
E beber o sabor de ser mulher
Andar na corda bamba até o equilíbrio chegar
Saber que dependeu de mim aquele lugar
Crescer.
Até virar gigante… Tocar o céu
Tirar todos os sonhos do papel
Subir no palco da vida
Sem pedir aplausos
Mas respeitar o respeito
Conquistar o direito
E olhar os olhos de quem tanto amei.
E sentir que nenhuma mágoa eu levei
Viver por inteiro com a casa no mundo
E saber que tudo valeu cada segundo.
Assim… Com as asas no ar…
Assim. Como o passarinho.

Aos dezesseis
Ela acordou, foi para a escola, entrou na sala de aula, sentou. Olhava o quadro, a matéria estava correndo. O caderno ainda na mochila, nada na mesa a não ser suas mãos. Olhava os lados, não agüentava os mesmos rostos, as mesmas vozes, nenhum amigo. Nenhum objetivo, nenhuma atenção especial, todos iguais. Começou a dedilhar na mesa, queria fazer alguma coisa, uma música, um poema, uma mágica que a tirasse de lá. Olhou o teto, as paredes, um pequeno crucifixo em cima do quadro negro. Fixou os olhos num ponto. Será que ele vem? Será que vou gostar? Isso já perdeu a graça! O tempo é feroz… Come tudo que vê, não deixa nada… Será? Eram idéias que a cercavam, pensamentos que a tomavam de tudo a mais que estava ali. Resolveu pegar o caderno. Passou o dia todo assim. Disfarçava sorrisos ou entrava em assuntos bobos para que a hora chegasse mais depressa. Acabou! Hora de ir embora, hora de voltar pra casa. Mas, hoje, ela sabia que não iria voltar. Não sem antes encontrá-lo e perder seus medos.
Foi descendo a rua. Sabia que o encontraria no meio do caminho. E se não gostar? E se ele virou um chato, se ele estiver feio? E se for alto demais, sensível demais ou cansativo demais? E se quiser ir embora e não souber como? E se ele quiser beijá-la?!
Não, isso ele não iria fazer… Querer não é fazer. Tranqüilizou-se. Por instantes ficou ansiosa para encontrá-lo logo. E se ele não estiver no meio do caminho? Continuou a andar. Seu coração estava disparado, frio na barriga, apertava as alças da mochila, andava em passos retos e pequenos. Que maluquice! Depois de tanto tempo! Parecia coisa de filme, novela mexicana em “O reencontro”. Ai, quanta bobeira! Continuou a andar. Aquele era o tipo de coisa que não acontecia todo dia, ou que simplesmente não acontecia. Só em filme bem piegas. Ela não queria ser piegas. Riu de si mesma, olhando para baixo, balançando a cabeça. Levantou os olhos e viu… Abaixou rápido de novo! Que criancice! Levantou os olhos e sorriu, continuou a andar até onde ele estava. Parado, encostado no muro da rua, bem no meio do caminho, esperando por ela, com um sorriso, olhando pra baixo, rindo de si mesmo, tentando se distrair.
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