Arquivo da categoria ‘Domingo’
Rosa Cabarcas
por Luiz Pedro
Ela tinha cara de puta cansada de esperar. Abalroada num poste do decrépito porto de Cartagena das Índias, olhar perdido no tédio que cada homem rude trazia para sua cama todas as noites. Seu corpo desatado pelo tempo era indiferente ao calor daquela noite. Nem o mar do Caribe se perdendo no negro à sua frente conseguia amainar aquele abafado de quarto fechado.
Sua roupa não condizia com seu ofício. Não havia a vulgaridade das concorrentes que disputavam território e combatentes. Trajava um vestido solto, do mesmo roxo desbotado que esvaziava da taça com goles insípidos. Seus movimentos lânguidos eram a marca de uma batalha que jamais venceria. Virava o rosto vagarosamente para acompanhar os passos de potenciais negócios, os olhos emoldurados em maquiagem desleixada piscavam lentamente, numa mistura de embriaguez e desalento, distantes de serem confundidos com uma tentativa sedutora de comércio. O destino gravado a ferro quente no seu ventre deixava claro: já havia passado por todos os bordéis da cidade desde seus 12 anos, não havia homem casado que não tivesse procurado seu colo quente, seus lençóis mais secaram lágrimas do que se molharam do suor da sofreguidão dos solitários.
Desencostou do seu porto, jogou o resto de vinho ao mar em oferenda sem fé e juntou-se a um velho pescador que a maré lhe trouxe. Deixou-se apalpar nas nádegas outrora firmes e caminhou com os últimos passos arrastados de criança que nunca quis ser bailarina.
“Eterno Amor De um Dia Só”
por Luiz Pedro
Búzio tanto pode ser um molusco como pode ser a concha na qual ele vive. Também é o final do nome de um município fluminense, com lindas praias e ventos fortes. Dizem que podemos ler a sorte em jogo de búzios, mas sou um tanto cético. Diante dessa polissemia e diferentes utilidades para uma mesma conchinha, me permito ler não a sorte, que está longe de ser minha especialidade, mas sim o passado e jogá-lo no papel para ver no que dá. Então é esse o significado de tal palavra que adotarei pra mim. Só pra mim.
Paixão de verão tem programa de índio pra fugir do tédio, jogar boliche vira uma ótima para noite. Paixão de verão tem que dar batata frita do McDonald’s na boca. Tem primeiro beijo em queda de luz, sabe como é cidade pequena. Tem implicância com sotaque, afinal “ês pens cu ôns é dês”. Paixão de verão que se preze não cessa com o sono e te acende um espírito meliante, roubar beijo vira especialidade da casa. Tem cheiro de repelente, já que mosquito não dá folga nem para casal se curtir em paz. Mas para curtir de verdade, tem jogo de tabuleiro e greve de papo. Greve que só irá cessar com muita negociação e chamego nos pés. Se for paixão das boas, tem conversa na piscina até os dedos cansarem de enrugar, mesmo que a chuva tente expulsar. Tem vontade de conhecer cada centímetro do corpo da paixão em poucos minutos, já que o tempo é precioso e curto. Tem todo beijo com cara de último, pois logo será. “Às vezes é melhor viver um eterno amor num dia só”.
Paixão de verão tem um lado angustiante. Assim como o verão, tem uma velocidade diferente, tem cara de pancada de chuva no final da tarde, forte, mas que não é suficiente para o calor cessar, pois vai embora logo, logo. Deixa aquele rastro de chuva, cheiro de terra molhada, uma brisa mais fresca, azul do céu rareando e um gostinho de “quero mais”. Aquela vontade de esquecer que a despedida será necessária. Aquela vontade de abraçar um pouco mais, de esquecer que o relógio caminha sem muita consideração com os breves amantes. Aquela vontade de falar tudo, de não estragar nada, de repassar as horas na cabeça para não correr o risco de esquecer qualquer detalhe. E a volta pra casa é afetada por qualquer música no rádio do carro que tenha o calor de uma paixão interrompida. Paixão de verão tem espaço para sonho, mas a distância surge para nos despertar sem aviso prévio.
E aqui a gente fica. Cada um para seu lado, sem mágoas nem arrependimentos. Minha esperança é grande de nascença e preciso pensar que não acabou aqui. Só me basta a esperança, e nela eu me apego como o náufrago de uma mulher. Já dizia a Beatriz: “para sempre é sempre por um triz.”
Crônica do Descaminho Anunciado
por Luiz Pedro
Mais uma vez encarava a noite, procurava estrelas e jogava a cabeça pra trás, apoiando-a no pescoço. Desceu a cabeça e em pé, fora do bar, respirava o sereno e torcia para que a cada gol do Flamengo o gosto de vitória na vida subisse um pouco pela sua garganta. O jogo terminou empatado, tomou um rumo diferente de volta para casa.
Foi pela orla, procurando algo para se entreter, mas a noite fria havia espantado qualquer que fosse, só restavam os corajosos corredores e os vendedores solitários de quiosque. Percebeu que não teria sucesso e retornou para o meio dos prédios, agora em busca de um boteco qualquer. Estava doente, não deveria beber, mas aquela noite fazia necessário um gole de cerveja, por mais que as conseqüências fossem devastadoras.
Sentou em algum boteco que não fosse conhecido, não queria a sensação cômoda da familiaridade. Desistiu da cerveja. Pediu um maço de Derby, uma garrafa de Dreher e ali ficou, no balcão, acompanhando na televisão de 14” as últimas notícias da noite. Tentava, pois os jornalistas moviam as bocas sem que fosse possível ouvir qualquer som, estava no mudo. O som que tomava o ambiente era alguma dessas músicas não muito animadoras que tocam na MPB FM nas noites de domingo. Apesar de não querer familiaridade, a música combinou, sentiu desgosto e se restringiu a acender seu cigarro. A febre estava voltando, sentia a fronte esquentar e o frio correr pelas suas pernas. Fechou o casaco, mas manteve-se guerreiro na missão de beber a garrafa que lhe desafiava a sua frente. Começou a puxar papo com o garçom, que estava apoiado na pia com cara de poucos amigos. Falou sobre a mulher que o abandonara naquela semana. Ela dizia que não mais tinha motivos para deixá-lo seguir atrasando sua vida, que tinham planos distintos, que a vida era outra. Ele contava como se a dor fosse uma ferida aberta de dias recentes, sem qualquer noção de realidade e tempo, já que Carolina havia seguido com sua vida há mais de 20 anos. Mas continuava a falar dela. Sentia que se falasse do amor que sentiu, do carinho que apenas encontrava naquela voz, tudo aquilo que lhe dominara por duas décadas sairia finalmente do seu corpo, o abandonaria de vez, sua febre cederia e então sairia do delírio de um final tão óbvio.
O rádio ainda tocava, com breves interferências, a garrafa estava na metade, mas brincava com o copo seco, sorvendo o vazio e tocando o gelo na ponta dos lábios. O maço já havia se esgotado, fumara todos pela metade. Ergueu-se, aceitando que não era nem derrota, muito menos vitória, mas aquele sentimento de quem se perdeu no caminho e busca resposta em sonhos. Chegou em casa, tirou os sapatos, fugiu de ver no espelho seu rosto achincalhado pelo tempo e deitou-se. Sabia que aquele leve torpor da bebida traria o sono imediatamente. E quem sabe também traria o mesmo sonho que sonhara por esses 20 anos, independente de delírios de febre. O sonho que a linda Carolina lhe sussurrava: “Está tudo bem”.
O lembrete do babaca covarde
por Luiz Pedro
Eu sinto constrangimento por sentir saudade do que já fui, mas não me sinto estranho de sentir saudade do que jamais serei. Estranho. Não sei se já fui uma pessoa melhor, não sei no que me transformo. Tenho medo de que a desilusão tome conta de tudo. Desiludido com os mesmos idiotas que notei, decepcionado com as mulheres diferentes que imaginei. Não quero mais falar sobre os meus sonhos, nem aqueles que planejei para a virada de todo ano, nem aqueles cotidianos que me despertam sobressaltado. Não sei formular frases, não sei mais escrever para tocar as pessoas. Mudei pra pior? Tento esquecer que mantenho todos os meus rancores cuidadosamente embaixo do travesseiro, finjo perdoar apenas para ter como apoiar a cabeça no sono, sono artificial, de quem bebe pra dormir e esquecer e morrer e não renascer nos próximos anos. Mas o perdão não participa nem quando me empurram na fila do Metrô. Que morra quando for atravessar a rua, babaca. Viro a cara pra aleijado, sou descrente apenas de aparência, tenho fé apenas quando me convém, já me apaixonei por mulher de amigo, não amigo qualquer, estou falando de amigo do tipo filho da puta, desgraçado mesmo, daquele que se joga na frente do carro por você e empresta dinheiro pouco se fodendo com calote. E depois eu vi que não passava de mais uma, ela não passava de mais outra qualquer. Valeu a pena? Sei lá, quero entender o motivo para a busca de motivo em tudo. Não quero qualquer uma, as iguais não tem graça, não dão fogo, não causam enxaqueca. A esperança da mulher diferente é uma covardia com as mulheres iguais, todas são, mas sou covarde, e não me importo de ser covarde, não me importo se, covarde ou não, as pessoas aceitam minha covardia transfigurada em chantagem. Chantagem, porque sempre vou achar que estão me devendo, e se estão me devendo, vou cobrar, e se vou cobrar, cobro com juros, correção monetária e porrada na cara. Tanta sacana nesse mundo e logo ela teve que fazer a pior sacanagem de todas. Quantos anos? Sete? Oito? Já perdi a conta, mas não deveria, porque tenho que cobrar depois o tempo que ela me largou aqui, com juros e a porra toda, porque sem rancor minha vida não segue, é combustível, queimando, cuspindo fumaça preta na minha cara para eu tossir a metade de pulmão que me resta, com catarro, sangue e saliva de quem não toma um gole e deve pro santo que está cobrando toda semana. Um amigo do meu pai morreu. Bebia, fumava, dava o cu, e morreu com o coração do tamanho da caixa torácica. Era um piadista gordo, andava com pochete, dava aula de matemática numa bosta de escola e não se importava de mandar aluno tomar no cu. Figuraça, mas morreu, não é mais merda alguma. E quem se importa? Ninguém, mas continuo achando justo. Justo é o que me favorece.
A velha guarda do amor
por Luiz Pedro
Alguns breves comentários nos fazem entrar numa espécie de transe introspectivo. Outro dia escutei uma conversa sobre pessoas melosas. Tal característica era vista como um grave defeito, os tais melosos eram marginalizados. Fui pensar no conceito de “pessoa melosa” e rapidamente cheguei à clara idéia de alguém que exagera no afeto. Mas aí esbarramos em outra dificuldade de conceituação: qual seria o ponto do exagero?
Temos uma sociedade que beira a hostilidade nas relações interpessoais, o paradoxo está presente em todos os gestos e as atitudes beiram o absurdo da incoerência. Os que marginalizam o afeto exagerado são os mesmos que distorcem o conceito de afeto e beijam 20 pessoas em poucas horas. Na falta de referências em meio à busca sôfrega pela produtividade, vírus que fortalece o egoísmo, qualquer gesto que insinue fraqueza é taxado como um defeito. Um mero afago, elogio ou confissão de saudade se torna excessivo, uma falha de produção, revela uma falta. Na onda do Fordismo, viramos máquinas de produzir, nada pode faltar. Na conta desse processo de desumanização, pode botar a mecanização não só da produção, como do nosso sentir, pensar, viver.
Em outra conversa, escutei amigas comentando: “o que é um beijo numa vida? Nada.” Eu intervi, discordei veementemente e, para minha felicidade, fui acompanhado por um bravo guerreiro. A partir do momento que o beijo, um dos gestos de maior intimidade entre duas pessoas, é visto como um nada na vida, posso afirmar, sem medo, que estamos caminhando para uma forma de compreensão um tanto mórbida dos nossos sentimentos.
Admito que pessoas melosas realmente podem ser chatas. Mas querendo o copo meio cheio, afirmo que são heróis do afeto, a verdadeira resistência do carinho, ilustres representantes da velha guarda do amor, tal como deveria ser: cheio de defeitos.
“It’s the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We’re always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.” CRASH, Paul Haggis. EUA. 2004
“Amor como atalho e labirinto”
por Luiz Pedro
Abro os olhos na frente do espelho e me sinto saído de uma propaganda contra o crack. “Mais um jovem vencido pelas drogas.” Antes fosse. As desilusões vão acompanhando o amanhecer e inundam a minha janela com o despertar inevitável da alvorada. Minha gata tenta uma graça para me alegrar, mas logo desiste diante do aturdimento provocado pelo sopro da desesperança que me visitou na surdina da noite. Já é tarde, algum sonho de otimismo fez questão de se diluir nas mágoas jamais vencidas e o rancor impera soberano, com a arrogância que apenas eu fui capaz de alimentar.
Ainda vou me arrepender dessa manhã em que descobri mensagens secretas nos meus livros. Declarações anônimas de casais que se amaram com tantos afagos, que talvez se feriram com tantas palavras impensadas, que por certo não mais se reconhecem no sorriso apagado pela década passada. “30/08/2001 – um ano de namoro. Boa leitura!”
Continuo procurando provas de sentimentos verdadeiros e recorro às cartas. Antigas, marcadas de dobras, amareladas por esperar, com letras arranhadas sem a firmeza da maturidade. Telegramas selados no correio, bilhetes largados em cantos de caderno. Todas endereçadas ao meu nome, mas nenhuma que seja minha. Também encontro outras que deixei de enviar, o clássico equívoco de escrever e não mandar a quem, por direito, deve escolher entre lê-las, chorá-las, guardá-las ou rasgá-las. Foram tantas promessas de amizade eterna, juras de amor verdadeiro, mas nenhuma que o tempo tivesse tempo para zelar. Todas remontam aos restos de um passado que não passa de um remoto passado. Em janeiro, 8 anos.
O barulho dos ônibus supera o dos passarinhos, alguma rádio ecoa ao longe uma música do momento, a luz acesa do meu quarto está em vão. As velharias que revirei não surtiram efeito, embora não houvesse tal pretensão. Recordo da triste constatação que um dia acometeu Marilyn Monroe e aceito que a desesperança tem a cruz da realidade. “Não me falta homem, o que me falta é amor.”
Ato falho
por Luiz Pedro
Mesmo os cegos não possuem olfato mais apurado, a perda da visão apenas os torna mais atentos à forma como percebem os cheiros, diz uma pesquisa de alguma universidade gringa. Fica óbvio que os sentidos, conjuntamente, são os responsáveis pelo apaixonamento. A moça surge, observo cada centímetro do entrelaçado da tez pálida, escuto as elevações e depressões em sua voz, sinto a brisa cheirosa de seus cabelos que varre minha sobriedade. A união desses meios de reconhecer o ambiente nos encaminha para as vielas em que o coração desatinado irá se perder. E se em uma experiência desses pesquisadores de universidades gringas as cobaias ficassem restritas a apenas um sentido na hora de conhecer uma mulher?
Ao vagar pelo Tribunal de Justiça no horário mais atribulado, eu perdi a conta das vezes que cruzei com uma conhecida do acaso que deixava um rastro de perfume no ar. Lembram do desenho do Zé Colméia e Catatau, que eram suspensos no ar pelo cheiro das cestas de guloseimas? Era eu, voltando à cabeça para procurar a dona da onda hipnotizante que tomava os corredores do Fórum. Me apaixonava naquele instante pelo cheiro de uma desconhecida inebriante, mas na virada do corredor já pensava no que tinha que fazer no próximo cartório a ser visitado.
A voz tem um potencial pouco aproveitado. No escritório, eu tratava de uns reembolsos com uma advogada do Rio Grande do Sul. A cada ligação, aquela voz com sotaque sulista bem carregado, me deixava imaginando como ela deveria ser, como estaria sentada na mesa, como estaria segurando o telefone enquanto falava. Nunca soube como ela era, mas é bom manter a ilusão. Hoje mesmo, ouvindo a CBN, a Mara Luquet fazia um dos seus comentários diários sobre economia e fiquei prestando atenção naquela voz, sem tem a menor noção do que ela falava. Falava com a informalidade e tranquilidade de quem comenta o final de semana despretensiosamente com uma amiga. Fiquei instigadíssimo e fui buscar no Google uma foto da dona daquela linda voz. Bem, era preferível ter ficado na ilusão, não havia nada a ver com o que imaginei. Mas continuarei escutando o seu quadro na CBN, “o assunto é dinheiro”, mesmo que eu não entenda nada de economia.
Tratar da visão é óbvio. Mas não falarei da beleza estática, a análise dos traços do rosto. Na época do colégio havia uma menina que sentava de um jeito peculiar quando estava escrevendo. Debruçava-se sobre a mesa, juntava os joelhos e deixava os pés abertos, apoiados pela ponta, junto ao pé da cadeira. Eu esquecia a aula e olhava o conjunto daquele sentar, tendo minha preferência na panturrilha que se pronunciava na ingenuidade daquele postar de pernas. Outro ponto alto é o ritual com que a mulher prende o cabelo em coque: sacode para soltar os fios, começa a juntá-los com as mãos e, num gesto rápido e ágil que apenas a prática proporciona, surge uma espiral de cabelos e o elástico prende rapidamente. Os fios restantes no pescoço agora nu dão o ar da resistência e finalizam o culto ecumênico que acaba de se desdobrar. Já um vestido verde… preciso falar?
Assim como os cegos não tem o olfato mais apurado, não posso esperar que esses momentos de restrição me permitam uma sentido mais apurado na percepção das sutilezas femininas. Mas talvez o caminhar da idade e os seus percalços façam esse trabalho. Talvez.
A origem dos confetes
por Luiz Pedro
Derrubado pelos tropeços do Google, saindo de Eduardo Marciano e chegando na crônica de quarta de cinzas, me encontrei novamente no carnaval de 2008, o melhor carnaval. Lá vai uma retrospectiva não tão breve.
Sexta carnavalesca, lá estava eu no Vem Ni Mim Que Sou Facinha, em Ipanema, com um antigo companheiro de derrotas, o comparsa número 1. Bebíamos sem pretensões, olhando as moças cada vez mais novas com olhos cada vez mais idosos, quando surge a ocasional pessoa que não imaginaria, paixonite tola número 1. Era ela? Só havia encontrado uma vez, porém foi o suficiente para congelar minha espinha.
Foquei de longe, me aproximei na esquiva da multidão a passos de leão na grama alta. Confirmei com meu cúmplice, é ela. Falo com ela? Havia uma história com a sua amiga ainda no frescor de um mês. Mas é carnaval, pensei. Talvez não fosse necessária tal contrapartida, a culpa é minha de não me acostumar ao jeito solto com que as pessoas se desencontram e reencontram.
Voltei a passos mais firmes e falei com ela. Trocamos as boas, combinamos de nos encontrar pelos blocos. O ânimo foi imediato: primeiro dia de carnaval e encontrei a moça perfeita para prender minha atenção. Saí de lá com meu comparsa e rumamos para o Concentra, Mas Não Sai, de Laranjeiras. Bloco entulhado e horrível. Só consegui quase apanhar de um ambulante dois por dois que se apropriou da rua e, embriagado, resolvi tirar satisfação.
Sábado era dia de Bangalafumenga! Desci o Alto Leblon, encontrei o comparsa número 2. Ainda tive breves minutos com uma paixonite tola número 2 – naquele momento comprometida, porém sozinha – e apenas curti a brisa feminina que ela trazia nos cabelos de índia. Bloco ótimo, no caminho de volta desviamos pelas ladeiras do Horto, esbarramos com um mendigo doidão pedindo um baseado para os passantes passistas, uma bola inesperada surge pelo caminho. Era um fruto caído de alguma árvore, entre um coco e um abacate, com a firmeza necessária para transformar em futebol nossa descida. Fomos tabelando por entre os carros e a galera, a cada vinte metros surgia outra dupla para nos desafiar, e ganhávamos todas, beneficiados pela gravidade. Já na Rua Jardim Botânico, seguimos para o Empolga às 9 ainda acompanhados de nossa bola, dando uma caneta vingativa no 592 e chamando o táxi para dançar entre pedaladas.
A Gávea é logo ali, paramos no Bob’s e lá estava a paixonite tola número 3, esta com um toque especial de amor combalido pelas intempéries da chuva que se anunciava. Essa sim, comprometida e não sozinha. Mas eu estava feliz, tanto por aditivos fornecidos pela AmBev quanto pelas serpentinas desenroladas, e pouco me importei. Alcançamos a orla, o bloco já se desfazia, mas encontrei comparsa número 3 reunido com outros amigos. Tentamos mudar a falta de animação que reinava, puxamos sambas antigos na palma da mão e no gogó, ganhamos simpatizantes de cantoria e sainhas tentadoras rodando nas coxas das passistas de ocasião.
Domingo amanhecendo com a chuva anunciada, Empurra que Pega no Leblon, reencontro o comparsa número 1. Bloco fraco, comentam de um bloco na rua da Matriz, partiu. Ônibus circular 584 ainda no Humaitá e começam a entrar foliões desanimados que afirmam que o bloco de Botafogo naufragou. Um grupo de meninas especialmente de Laranjeiras falam do Laranjada, as piadinhas começam, minha camisa do Flamengo vira alvo, as especialmente revelam a faceta carioca da marra despropositada e a viagem fica mais lenta.
O Laranjada já descia a General Glicério, mas deu para curtir uma estendida e animada “vou festejar” entre as lindas e altivas locais. O celular tocava, um grupo de amigas fazia um churrasco numa cobertura em Botafogo, piscina disponível, imperdível. Eu estava de sunga e fiquei agradecido pelo luar nas águas relaxantes da vida vadia.
Na segunda-feira, faleci diante da forte chuva que caía. A paixonite tola número 1, verdadeiro foco do carnaval, acabou ficando entre recados de Orkut, entre combinações de blocos e desencontros na muvuca. Para minha irritação maior, ainda fiquei sabendo depois que, no dia em que pretendi morgar, ela estava no Volta, Alice, linda com anteninhas no país das maravilhas. Para não perder o dia, fui parar em uma rave perdida nas areias de Ipanema até altas horas. Obviamente, nada houve que valesse a pena estender em comentários.
A terça chegou, lá estava no É Tudo ou Nada, o primeiro ano do bloco que o comparsa número 2 ajudou a fundar com seus batuques de caixa. Encontro antigos comparsas de colégio, não espero o desfecho em nostalgia e me despenco para a Lapa, Quizomba estava se aprumando. Animação total, primo-comparsa número 4 fazendo a companhia devida, música pegada, Carnaval ali se encerrava, temporariamente.
Sábado esbarrei com a amiga da paixonite tola número 1, que aqui classificaremos como a paixonite tola número… perdi a conta. Mulheres de Chico, música boa seguida de barzinho na Gávea, ali findou.
Domingo, comparsa número 1 reforçando as trincheiras da derrota iminente “que tu virias numa manhã de domingo”, Monobloco ainda nas areias de Copacabana. Vi um belo banho de mar da paixonite tola número perdi a conta e fomos para o final da festa, Boka de Espuma anunciada por uma roda de samba entre Itaipavas e Stellas. Ainda tive a companhia das amigas do churrasco da cobertura que tentaram dar uma força para o meu carnaval sair do zero, mas o placar era justo, assim quis deixar. Quando o bloco iniciaria os trabalhos, trovões pipocaram sobre os morros de Botafogo, desafiando o esquenta da bateria. A chuva caiu forte, limpou os confetes do rosto e tratou de nos varrer pelas ruas, como dono de bar que começa a lavar o chão mais para expulsar os últimos beberrões do que para manter o estabelecimento asseado.
Assim ficou o saldo: alma lavada, carnaval vivido, mas a paixonite tola número 1 ficou pelo caminho. Fiquei sem saber qual samba puxar, qual bloco seguir, qual história contar, qual sono dormir. Ilusão de carnaval sempre tem sabor de saudade.
Areia e névoa
por Luiz Pedro
Em um determinado momento do meu ápice de inspiração, por volta de meados de 2009, quando brotavam crônicas e poemas de qualquer pensamento tolo, eu pensei em escrever sobre o abraço. Mas de pensar em escrever e efetivamente escrever vai uma longa distância, então deixei o tema maturando em alguma gavetinha de rascunhos mentais.
Com frequência eu me recordo como aprendi a importância do abraço. Aliás, falar em importância parece que quero dar um sentido de utilidade, quando o abraço não tem a menor pretensão de ser útil. Aprendi como sentir um abraço. Assim fica melhor?
Éramos amigos, nos falávamos eventualmente, sem grandes trocas de confidências. Até que um dia, talvez por algum sopro de afetividade dela, talvez pela necessidade de compartilhar uma mera alegria, ela me deu um abraço muito apertado. De início achei engraçado, doeu até um pouquinho, mas o abraço foi apertado na medida do que ela queria me passar. Conseguiu e gostei, passei a praticar, virou até uma brincadeira nossa. Fomos nos aproximando cada vez mais e, como todo adolescente altamente suscetível à descoberta dos encantos femininos, me apaixonei por ela.
Guardei aquele sentimento pra mim. Vidrado nos seus olhos, escrevia poemas que entregava a ela como se apenas quisesse uma mera crítica, quando estava era confessando em segredo meu desejo.
Por fim, ficamos. Sabe aquela história de escutar sinos quando beijamos a mulher da nossa vida? No meu caso tocou “Fly Me To The Moon”. Me deleitava mais ainda nos abraços, mergulhando no perfume dos seus loiros, enlaçando seu corpo para incorporá-lo ao meu. Mas pouco durou. In other words, tive a dolorosa fossa de um amor contrariado, febril, noites insones, travesseiro de lágrimas e por muito tempo bani essa música da minha vida.
O tempo passou, a menina do abraço tomou rumo pelos meandros da vida, mas me deixou aquela lição valiosa e lembranças gostosas de abraços intermináveis.
Até que ganhei uma linda sobrinha, Bia, que me revelou o que era amor numa noite piegas de Natal, quando espontaneamente me abraçou. Agachei meu corpo para receber o abraço de seu pequeno corpo, que mal alcançava meu pescoço. Fiquei sem reação ao descobrir que amava aquela menininha com todas as forças e limitações que me imponho. Se me deixassem levar algo para uma ilha deserta, certamente seria a lembrança desse abraço.
Penso que se eu não prestasse atenção àquelas lições que tive com a garota da minha adolescência, talvez não fosse capaz de sentir o abraço. Será? Lembro da menina e sinto vontade de lhe dizer algumas palavras carinhosas. Por que não?
Acordei velho o suficiente para falar besteiras senis das quais não se espera resposta. Sonhei que você passava aqui para me dar um livro. Eu te abraçava com a costumeira indiferença pelo tempo e a névoa de um faroeste de um bilhão de anos se dissipava. O sol, já até esquecido, surgia, talvez maior, ou talvez eu apenas não me lembrasse que fosse tão brilhante.
Meu lirismo é uma nostalgia de infância.
Ele voltou
por Luiz Pedro
Não vi o Zico jogar. Uma das maiores tristezas que tenho na minha breve vida.
Quando tinha 10 anos, comprei um VHS chamado “Os Mais Belos Gols do Zico”. Quantos gols, quantos lindos gols! Ali conheci o maior ídolo da história dessa paixão louca que me domina. Perguntei para o meu pai se o Zico era isso tudo que falavam. Ele respondia: “ele era mais”. E meu pai é botafoguense. Já fiz inúmeras vezes a mesma pergunta, só pelo prazer de ouvir a opinião de alguém que presenciou o que mais desejei ter visto.
Sonho estar no Maraca na década de 80, bandeira erguida, na arquibancada ainda de concreto, vendo o Galinho comandar o esquadrão sensacional que era o Flamengo. Sonho impossível. Vejo vídeos na internet com depoimentos sobre o Zico, todos incontestavelmente falando bem. Unanimidade! Até aquele jogador do Bangu que acertou o joelho do Mestre e abreviou sua carreira falava com dor sobre o crime que cometeu com o próprio ídolo.
Sonho ainda em encontrá-lo, apertar sua mão e dizer um “obrigado” emocionado pelo o que não vi, pelo o que não vibrei, pela Magia Rubro-Negra que ajudou a criar. Este sonho ainda realizo.
Agora ele voltou. Não como o Mestre em campo, mas no comando do confuso futebol da Gávea. Vai dar certo?
Não tem como dar errado, é o nosso Rei! Lembro do Sebastianismo, movimento místico no qual os portugueses esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, que desapareceu numa batalha. Para eles, não houve morte. Para nós, o Messias estava apenas afastado, aguardando o momento certo para assumir a casa que ajudou a subir as paredes.
20 anos de espera! Valeram a pena… A CASA É SUA, ZICO!
Saudades do Galinho – Moraes Moreira
E agora como é que eu fico
nas tardes de domingo
Sem Zico no Maracanã
Agora como é que eu me vingo
de toda derrota da vida
Se a cada gol do Flamengo
Eu me sentia um vencedor
Como é que ficamos os meninos, essa nova geração?
Arquibaldo, geraldinos,
como é que fica o povão?
Será que tem outro em Quintino?
Será que tem outro menino?
Vai renascer a paixão ou não?
Falou mais alto o destino
e o galinho vai cantar
láiá laiá
vai cantar noutro terreiro
no coração brasileiro
uma esperança
quem sabe o fim dessa história
não seja o V da vitória
o V da volta, volta
volta galinho
que aqui tem mais
carinho e dengo
vai e volta em paz que o Flamengo
já sabe como esperar
você voltar
Sereias
por Luiz Pedro
Voltei, coração desatado, olhos vagueando. Curte-se um caminhar de pernas macias ali, dá-se um sorriso malicioso aqui e o que é de seu lugar um dia irá voltar. Certas paixões são inatas, nascemos com elas, mas demoramos a desabrochá-las. Sabemos da sua existência num despertar epifânico, que nos colocará na perspectiva de um bêbado que toma uma cerveja pensando no quanto a próxima será ainda mais saborosa, gelada e reconfortante. A expectativa quase tátil, o desenrolar da cortejo nas palavras de andar labiríntico. Os cheiros femininos rodeiam e não hesito em aprisioná-los vigorosamente no meu peito, de lá jamais sairão, serão minhas donzelas de trovas, as sílfides que irão inspirar a cada vibração pungente de suas reentrâncias viciantes. Seguindo desvios, traçados fora de rota, me deixarei cair encantado a cada cantar de sereias míticas de longos cabelos de trevas e colos desnudos.
É, é isso mesmo, são as sereias. Serão as sereias. Depois de me guiar com tamanho afinco por bússolas donas da verdade, de seguir traçados em mapas arrogantes, deixarei tudo de lado e me permitirei ser levado por meras notas inebriantes. Eu as seguirei nas tempestades de chumbo, nas ondas intransponíveis, até me rebentar nas pedras de uma ilha fantasma, colocada maldosamente para abalroar minha frágil embarcação. Enfeitiçado nos seus lânguidos cânticos, me largarei na chuva grossa, sentirei a água salgada tocar meus pés e não reagirei. Deixarei que tome meu corpo e invada meus pulmões. Ir a pique pelas paixões é o único sacrifício que permite a vida.

Voltei a cantar
por Luiz Pedro
Papel. Caneta. Mão.
Juntei novamente, quem sabe surge algo legal. Something nice.
Um costume que se perdeu, sabe-se lá em que parte do meu peito.
Papel, caneta, mão. Falta algo.
Alma?
Tento me lembrar se a vendi em alguma feira de usados, no canto das bijuterias, com uns vinis do Yes e talheres de alguma coleção incompleta.
Papel, caneta e alma.
A mão só faz o trabalho sujo. O costume se foi, a prática virou meio gelo derretido. Mas o que é de seu lugar um dia irá voltar, de onde veio, de onde partiu, de onde jamais deveria ser movido.
Alma, dedos… um lápis!
E borracha de qualidade.
Sabe como é, não quero deixar vestígios.
Confetes
por Luiz Pedro
Meu carnaval se fez quando te encontrei desfilando e colorindo a avenida, envolta por foliões ébrios de ilusões, carentes de gratidões efêmeras. Banhada em chuva de confete, jogava sorrisos de menina em aspirais pela ciranda. E como aquele que não mais tem o destino a comandar, só quis cantar teu samba, só quis brincar no teu cordão, só quis me jogar na tua folia. Teu bloco era alegria a rua inteira! Nossos corações, amarrados em serpentina, batiam numa cadência que apenas a gente entendia.
Mas a quarta chegou. Desfez minha fantasia em cinzas e te levou desse baile que não merecia ter fim. Ilusão de carnaval sempre tem sabor de saudade.
Sobre o perdão
por Luiz Pedro
Qual a dificuldade em perdoar? Uma resposta simples seria baseada na lógica de que se a pessoa pisou na bola uma vez, o que a impediria de fazê-lo novamente? Mas não há como simplificar dessa maneira. O perdão existe, é claro, pois todos cometem erros. Se fossemos cortar relações com todos que já abalaram uma relação de confiança – seja com um deslize, seja com uma traição – viveríamos condenados a solidão.
Mas não se perdoa incondicionalmente. Não existe entre os mortais o “perdão divino”: amplo, geral e irrestrito. A cada vez que se perdoa, apenas aceitamos que o fato é passado, não há como reverter. Algumas vezes pode-se até corrigir o lapso, mas o lapso jamais deixará de ter ocorrido, de ter tomado espaço no tempo. Ele aconteceu, e isso é imutável. O indulto concedido se limita a criar a expectativa de que o engano não mais se repetirá. Entretanto, como qualquer expectativa, possui uma estrutura frágil, pois haverá a necessidade de ser correspondida para que seu objetivo seja alcançado. E tal correspondência torna-se inviável diante de qualquer tremor.
O perdão pode variar de acordo com o grau de proximidade entre o errante e o que se propõe a perdoar. Havendo uma amizade já cultivada, com um passado de acertos por meio de confiança depositada e retribuída, o errante possui algum “crédito”, pois já se mostrou confiável em outros momentos, o que ratifica o fator acidental do desacerto. Porém, tal “crédito” acaba por reduzido, afrouxando (temporariamente ou não) o laço de confiança. Durante esse período de abrandamento, evitam-se situações que tenham provocado o equívoco, e, conseqüentemente, a intimidade fica confinada a um espaço apequenado. Dependendo do quanto foi debitado, o confinamento pode asfixiar a relação, ocasionando uma crise que, se não for brevemente oxigenada, pode gerar sérias seqüelas.
Outra forma do perdão se pronunciar leva em conta a necessidade que se faz do outro, o grau de dependência que há entre ambos. Tal dependência pode ser financeira, afetiva, social e outras que não me recordo. Um tipo de relação que por muitas vezes conjuga os tipos de dependência supracitados é o casamento. Considerando que a remissão é concedida com mais facilidade quando há uma dependência maior entre os envolvidos, o casamento torna-se um terreno fértil para que se desenvolva o ato de perdoar. O marido pode depender financeiramente do casamento, já que o pagamento das contas adequou-se à combinação de salários. O marido pode ter suas carências supridas por uma esposa afetuosa, sentindo-se seguro e confortável. A esposa pode sucumbir à responsabilidade de gerir um casamento aparentemente saudável perante a sociedade, com medo da opinião alheia quanto ao “fracasso” de um divórcio. Porém, o perdão acaba por não ser desejado, mas sim exigido diante de tal dependência. E aí sim é um longo passo para o verdadeiro fracasso, por meio de uma vida gerida pelo rancor, desgosto, irritação, etc.
Por fim, não há como conviver sem o mais simples pedido de desculpas. Muitas vezes dito da boca pra fora, mas que já funciona como um apaziguador de mágoas. O perdão é um alento necessário para que não caminhemos rumo à infelicidade contida.
Irremediável
por Luiz Pedro
Você se foi há muito tempo. Felizmente não se trata de um eufemismo para morte concreta, daquelas que o corpo perece disfarçadamente no ar já putrefato do calor de novembro. Não gostaria da sua morte, apesar de desejá-la como remédio final nos momentos mais dolorosos que a memória cisma em realçar. Talvez seu desaparecimento de qualquer viela desse chão fosse uma escapatória. Você apenas saiu daqui, não que quisesse. Se naquele momento eu fizesse a proposta insana de casamento, como solução única e covarde em ato de terrorismo romântico, você aceitaria sem pestanejar. Secando confusamente as lágrimas que caíram em enganos do imponderável, esboçaria um sorriso ainda incrédulo, e, por fim, pularia em meu abraço por sentir-se novamente desejada, a mais desejada, simplesmente porque quem a deseja é o homem que ela também tanto quer para si.
Mas de nada adianta criar novas histórias. Eu não segurei firmemente o que restou, seus dedos se destrançaram e se perdeste na tropelia da multidão que o trem descarregava no final da tarde. Para evitar as tais memórias dolorosas, joguei fora cartas febris de confissões, bilhetes apressados pela paixão, pequenos presentes e até minha camisa que você vestia quando dormíamos juntos. Lavei várias vezes, deixei de molho, até impregná-la com incenso de canela eu tentei, mas seu cheiro não arredava, parecia ter entrado em cada volta de costura por teimosia e maldade. Eu poderia simplesmente ignorar, esquecer no fundo do armário, usar de pano, mas eu a olhava amassada, jogada na parede do armário, e não resistia: segurava em concha e aproximava do rosto, lentamente, até enfiar minhas narinas em suas dobras, puxando o ar vigorosamente. Acho até que não havia mais cheiro nenhum. Ia tateando com o nariz, procurando um ponto onde restasse um pouquinho do seu perfume. E não sei se encontrava. Desesperado, eu não conseguia distinguir mais nada, não sabia se aquele era seu aroma ou se as reentrâncias desse confuso passado me atormentavam tanto que eu imaginava seus ares se manifestando no mero cheiro de guardado. Eu era um viciado, buscando em cada respirar mais um instante de sanidade. Não dava para continuar daquele jeito. Desci para a rua com a camisa em punho, caminhei quatro quarteirões e joguei numa lixeira pública, imediatamente dei meia volta e voltei quase correndo, com medo do arrependimento, com pavor de realmente te esquecer.
Pronto, finalmente me sentia livre. Nada mais em casa poderia se tornar desculpa para essa assombração do seu amor retornar a me açoitar. Acreditei nisso, por alguns meses senti que naquele ato louco de querer queimar a camisa havia uma questão maior, havia uma cerimônia de purgação necessária, um ritual mágico de libertação espiritual.
Até o momento em que, arrumando pastas, jogando papel fora, achei um pequeno álbum de fotografias caído atrás de uma gaveta. Busquei com o braço, voltei com aquela poeira e tosse, limpei e abri. Ali estavam fotos de uma viagem a serra, em algum inverno. Viagem que fomos apenas nós dois. Eu pouco aparecia nas fotos, estávamos sós, então alguém tinha que fotografar. Você posava com suas roupas de frio, segurando cálices e mais cálices de vinho, e a cada foto que eu tirava, sentia o orgulho de ter registrado mais um momento raro de uma deusa sorrindo, que poderia mostrar aquela foto a algum poeta e ele responderia em meio a uma epifania nunca antes experimentada: “é a mulher mais linda que já vi, não, não pode ser uma mulher, é um anjo, e você registrou um momento único de um ser divinal, jamais mostre a alguém, é o caminho para a loucura, e não haverá volta.”
Eu bem sabia que era o caminho para a loucura. Assim que abri o álbum, e percebi que eram fotos suas, uma onda de medo percorreu cada fio do meu corpo. Como um alcoólatra recuperado, 20 anos sem beber, que toma um gole de Amaretto por engano. Senti o torpor envolver a língua, uma fagulha queimar o céu da boca, o calor descendo pelo esôfago e o álcool inebriando a mente de imediato. Uma, duas, três doses, até a garrafa secar. Eu passava as fotos rapidamente, tomado pelo seu rosto que percorria minha memória reavivada em diferentes poses e sorrisos, com aquelas melenas castanhas que certamente eram as responsáveis pelo cheiro intacto da camisa amaldiçoada. O sorriso aberto, com um dente levemente raspado, as pintas do seu colo que eu contava toda manhã enquanto você ainda sonhava entre nuvens. Ao chegar ao final, voltei ao começo, agora virava as páginas lentamente, tentando lembrar o momento exato de cada foto, fechava os olhos e tentava viajar no tempo, me transportar para trás daquela câmera no exato momento que em o flash disparava. Você tinha aquele jeito de menina descobrindo ser dona de sua beleza, caminhando com passos ainda incertos, usando as mãos atrapalhadamente. Mas aos poucos se descobria, e eu fazia parte daquele descobrimento, testemunhava seu nascimento como mulher.
Com essas certezas despontando novamente no horizonte das minhas retinas, estava diante de mais um dilema: o que fazer com aquelas fotos? Mantê-las comigo seria mais uma covardia, seria manter um fantasma rondando minhas noites. Nas horas de tristeza, eu buscaria aquele álbum e mergulharia naquele poço de amargura que minha desatinada cabeça foi capaz de criar. Não só deveria jogá-las no lixo como deveria queimá-las, sentir o cheio de papel fotográfico carbonizado, me submeter a uma sessão de nebulização com aquela névoa para purificar meus pulmões e não mais me perder naquela fumaça de nostalgia venenosa.
Não joguei fora. Tinha que aceitar que era uma praga sem fuga. Veria aquelas fotos, me arrependeria de ter jogado a camisa fora, de ter picotado suas cartas e a maldição só aumentaria. Talvez fosse o caminho, me afogar no poço de amargura, onde aquelas melenas castanhas sempre manteriam a recôndita esperança de estar novamente atrás da câmera fotográfica, testemunhando o divino se manifestar nos seus sorrisos. Minha vida estava desgraçada, irremediável.
Caminhos
por Luiz Pedro
Diante da rua, encosto-me num poste. Apoio melhor não existe. Todas as paredes estão tomadas por anúncios, cartazes e obras. Os prédios não mais têm entradas, as grades agora avançam sobre a calçada, como que nos expulsando para o meio dos carros.
Que lugar é esse? Tudo parece incrivelmente estranho, como se uma cidade nova despontasse nos meus olhos recém-nascidos. É a mesma cidade de sempre, mas agora a solidão dá novos tons, dilui cada história mal contada, atormentando a cabeça de cada um que cruza meu caminho olhando para o chão, murmurando pensamentos incompletos.
Onde estão aqueles que entravam nos meus sonhos? Os sonhos agora não mais existem, a noite demora a chegar, o sono demora a pegar. Sonhar para quê? Só resta descansar a cabeça, mas sem fechar os olhos. Pensamentos oníricos se tornaram momentos exclusivos para aqueles que ainda estão em seus uniformes escolares.
Agora cada um veste sua fantasia e sai com a mesma máscara de amaldiçoado. Não deixa de ser um uniforme, não é mesmo? Mas ainda busco arrepios, olhos marejados, mãos trêmulas… Qualquer sinal de que um coração ainda esteja vivo ali dentro.
E se eu tiver que ir?
por Luiz Pedro
E se eu tiver que ir? Te deixar, me deixar ficar sem você. Viajar por trabalho, estudos, ou qualquer outro infortúnio que não preza pelos casais que são partidos por quilômetros milhares, e passar anos em um lugar qualquer que, por certo, se tornaria um fim de mundo sem você ao meu lado. Ou talvez nem isso, apenas precisar arrumar a vida, a casa, me arrumar. Tentaríamos continuar juntos? Mesmo sem saber quando voltaria, ou mesmo se teria retorno, se teríamos um reencontro cinematográfico, com sinos dobrando incessantemente. Tentaríamos? Prepotência esnobar o oceano que nos divide? Diriam que é loucura, que deveríamos cuidar de nossas vidas, conhecer novas pessoas, que somos novos, que há muita vida lá fora. Mas de que adianta, ainda que nos comprovassem cientificamente, desenrolassem teses infindáveis a nossa frente, de que adiantaria se dissertassem cálculos precisos de que a distância não tardaria em nos separar? Nada, de nada serviria, se a única coisa que realmente importa é o quanto há de amor em nossas mãos, é o calor que eu sinto quando seus olhos pousam nos meus, é o frio na espinha que me corre a cada declaração em sussurros trocados. Seria fácil?
Ou seria o oposto? Tentaríamos nos ferir, soltar farpas para um afastamento inicial visando preparar o terreno da separação permanente. Estancaríamos o sangramento com mais feridas? Machucados recíprocos para que o iminente rompimento não doesse tanto. Um tanto burrice, mas será que a insanidade de romper nossa loucura não seria capaz de tal desatino? Indiferença, desencontros forçados, ciúmes exagerados, acusações desdobradas, até xingamentos? Seria uma separação dura, fria. Mas talvez fosse melhor assim, cada um seguindo seu caminho, sem a dor prolongada no desenrolar da saudade, com sua conseqüente afirmação de sentimentos. É mais fácil odiar do que amar. E levaríamos isso ao pé da letra, nos forçando um ódio que jamais houve e que nem teria como nascer em um campo colorido e repleto como o nosso. Por fim, estaríamos distantes, trocando burocráticas palavras, perseguindo uma fala que não fosse capaz de expor o desejo, o carinho e a falta sentida reciprocamente. Por trás de tamanha dureza nas palavras, teria o temor do reencontro, tão inevitável a desatar sentimentos plácidos, tão óbvio a desguardar margens de águas caudalosas. Não saberíamos como reatar?
Impossível, para tudo há solução, a minha esperança é grande de nascença, é claro que para nosso amor também teria, a solução seria o próprio amor, essa grandeza natural presente nas mais versadas matizes e cheiros, presente nos segundos mais prosaicos da nossa vã existência. Amor esse desbotado pelas outras fraquezas mundanas, mas sempre pronto para vir à tona com a força descomunal que apenas os fenômenos da natureza transbordam. As flores sempre insistem em brotar. “Mas é outono”. Vá você dizer isso a elas. E nessa vertente, num ir e vir descrente, talvez só nos reste o devir.
E, quem sabe, mesmo de volta para casa, eu não me encontre em você. Acontece, o destino tem dessas brincadeiras de mau gosto. Será o fim. Mas será digno daqueles que tentaram, que não permitiram o destino tomar as rédeas, que domaram o tempo na medida em que lhes coube e foram os capitães de seus caminhos. Será o fim, mas olharemos para trás e teremos a recôndita sabedoria dos que jamais desistiram. E buscarei outras vidas, outros caminhos, seguirei, fincarei raízes por outras terras.
Quer saber? Acho que não conseguiria. Me conheço, não morarei mais em mim, terei morada em minhas palavras. E este será o meu lar, entre os versos que falam de você.
Yasmine
por Luiz Pedro
Minha companheira se foi. Yasmine, gata persa, aos 13 anos e 6 meses de uma vida bem feliz.
Em 30 de março de 1996 ela dava seu primeiro miado de filhote, fomos buscá-la no dia 16 de junho do mesmo ano. Eu queria uma gata, então um amigo da minha mãe indicou um gatil. Fomos lá buscar a Yasmine, fiquei super ansioso. Lembro-me de estar sentado no sofá, com vários gatos ao redor, segurando a caixinha na qual ela seria levada pra casa. Eu estava louco para botá-la pra dentro e sair de lá, queria brincar com ela, curtir os primeiros momentos daquela que me acompanharia por mais de uma década. Ela era miúda, os pelos meio arrepiados, uma cara estranha. Na verdade ela sempre foi feia, parecia uma bruxinha. Mas era doce, carinhosa. Eu arrumava bolas de gude, ping-pong, barbantes, tudo que fosse possível para uma brincadeira. Ela ficava atiçada, corria de um lado para o outro, pulava, se divertia. Pegou uma gripe muito forte, ficou muito debilitada, pensamos que não fosse escapar. Ficou mais feia do que já era, magra, poucos pelos e mais arrepiados ainda. Mas cuidamos, foi tratada devidamente e sarou, para alívio da casa. Sempre comeu muito, crescia vigorosamente, com corpo esguio, patas longas. Até meio desproporcional, a cabeça era pequena, o que a deixava mais estranha ainda.
Levamos para primeira exposição de gatos e, obviamente, foi aquilo já esperado, passou longe de ganhar. Nem pensamos em levá-la uma segunda vez, aceitamos que beleza não era o forte dela. Mas ela esbanjava em outras qualidades. Foi se tornando uma gata forte, saudável, limpíssima e educada. Cruzou a primeira vez, ficou grávida. Com aquele corpo esguio e agora barrigudo, andava com dificuldade, estava mais estranha ainda! Quando seus filhotes estavam para nascer, me procurou no quarto. Sentou a minha frente, miava insistentemente. Quando dei por mim, já estava com um filhote por entre as patas. Vieram outros vários, preparamos um berço no meu quarto e lá ela ficou com seus anjinhos. Muito atenciosa, adorava lambê-los, se refestelava com eles. Teve várias outras crias, cuidava de todas com muita atenção. Me dava até orgulho ter “criado” uma mãe tão boa. Nos mudamos para uma casa no Itanhangá, lá ela dava passeios pela vizinhança, se metia pelo mato, sumia por até dois dias, ficávamos loucos de preocupação. Uma vez voltou grávida, teve uma ninhada de vira-latas. Começamos a tentar segurá-la para não mais acontecer, até porque uma outra gata havia morrido num desses passeios, mas era complicado, ela sempre escapava.
Nos mudamos de novo, agora para Copacabana. Ela já entrou numa idade mais avançada, foi perdendo a visão até ficar cega. Mas não tivemos tempo de lamentar, pois ela aprendeu a se virar rapidamente e vivia muito bem, se guiando pela memória dos caminhos e seus bigodes muito precisos. Foi ficando paradinha, não mais brincava. Continuava muito carinhosa, mas sentiu a idade, dormia boa parte do tempo. Até que notamos alguns caroços em sua barriga. Levamos ao veterinário, que diagnosticou um câncer. Não indicava a operação, pois dizia que ela não sobreviveria. Então assim deixamos. Ela estava bem, não mudou muito. Passava por alguns momentos de magreza, tivemos que ter mais atenção, colocá-la para comer, eventualmente dar uma ração especial. mas sempre carinhosa. Eu chegava em casa, abria a porta do meu quarto e ela imediatamente entrava, subia na cama e sentava no braço da poltrona, para ficar sentada ao meu lado. Pedia colo, eu puxava ela para cima de mim, ela miava carinhosamente. A cada momento desse eu sentia uma pontada no peito, sabendo que eles por certo se aproximavam de ser os últimos. Então chegou o dia em que notamos ela estranhamente deitada, percebemos uma diarréia estranha, que tinha emagrecido além do que às vezes costumava emagrecer. Mantive a fé, pensei ser apenas uma fraqueza momentânea. Mas ela estava piorando rapidamente, tive que aceitar, era derradeiro. Mais alguns dias e ela se foi.
Agora quando eu chego na porta de casa, sinto medo de abrir a porta e me deparar com a saudade que me aguarda. Sinto falta daquela gata que se apressava a tomar seu lugar no braço da poltrona assim que eu abria a porta do meu quarto. Mas é assim, as memórias ficam, junto com a felicidade de ter passado 13 anos muito bem acompanhado. E me resta o consolo das noites. Sei que nos meus sonhos podemos continuar nossas brincadeiras.

Flamengo, a paixão tem suas cores
por Luiz Pedro
Sou muito rubro-negro. É complicado graduar uma paixão, como muito se faz nos fóruns da internet. Torcedor “de verdade”, os “modinhas”, e os vários níveis estabelecidos por aqueles (boa parte da civilização-ocidental-capitalista-selvagem-e-cruel, na qual me incluo) vidrados em comparações nesse tempos modernos de competitividade à flor da pele. Cada um sabe o tamanho da sua paixão, cada um sabe o quanto vibra nas vitórias, o quanto sofre na arquibancada, o quanto lamenta aquela bola caprichosamente tocada na saída do goleiro que esbarra no pé da trave. E ninguém tem nada a ver com isso.
O Flamengo, equilibrando-se na bordinha do G4, viaja para Belo Horizonte onde vai encarar o Atlético-MG, com um Mineirão abarrotado de atleticanos fanáticos ao lado de suas encantadoras mineiras. Amanhã, domingo. Jogo com clima de decisão, quem ganhar afasta o outro do sonhado título e complica até pretensões de chegar à Libertadores. Jogo que será transmitido na televisão, todos tensos aturando as secadas do Luiz Roberto, xingando as morcegadas do Léo Moura e abrindo um largo sorriso diante da facilidade com que o Petkovic cola a redonda nos pés.
Não poderei ver o jogo, sequer escutar no rádio. Estarei trabalhando na aplicação de uma prova, circulando por corredores de um colégio perdido no Jardim Botânico, dando esporro em fiscais preguiçosos, me enrolando para ajudar meu primo-chefe. E nem um fone colado no ouvindo pra sofrer na narração exagerada dos radialistas. Crueldade com aquele que acompanha o campeonato e terá que aguardar a frieza do noticiário para saber da derrota ou da contagiante esperança que surgirá diante de um triunfo em cima da galinhada. Minha torcida será para que tenha um vizinho rubro-negro muito animado para berrar na janela a cada gol do Flamengo. Já quanto aos gols do Atlético, tenho certeza que não faltarão secadores arco-íris se manifestando.
E assim vou acompanhar o jogo mais importante do ano. De longe, imaginando jogadas, querendo expulsar a pontapés os que demorarem demais a finalizar a prova, tentando mandar vibrações positivas para Willians e Airton não brincarem de fazer pênalti ou de arrumar cartão bobo. Tudo bem. Terminada a prova, terei minha grana, mas com certeza fará falta sofrer, xingar o jogador pela tela, convicto de que ele estará me escutando de lá. Até sonhei, Adriano abre o placar, pressão do Atlético forte o jogo inteiro, então, no último minuto, Pet fecha o caixão com um gol de pênalti. Que ansiedade!
Por fim, farei um pedido: aqueles que puderem acompanhar o jogo, sofram por mim, vibrem por mim. Sou muito rubro-negro, assim como toda a Nação que vai suar frio nesse calor infernal. Modinhas, cativos de arquiba, assinantes de pay-per-view: vamos todo pra cima deles! Deixou chegar, sabe como é né…

Lápide
por Luiz Pedro
No primeiro tropeço, deteu-se por um instante, tombou a nuca e encarou o céu, já enegrecido pela noite. Com as luzes da cidade, os prédios estreitando-se no topo e algumas nuvens, poucas estrelas eram visíveis. Aquilo lhe bateu como um presságio, e a cada novo tropeço estava lá, encarando o céu. Era o mesmo céu, o que lhe trazia alguma intimidade naquele momento de profundo isolamento provocado pelo fracasso. Sentia que podia dividir mais um fardo com a noite que lhe pesava a cabeça, como se o pecado não fosse cometido apenas por ele, mas também pelo céu, pelas estrelas, pelo negro insondável que lhe cobria. Aqueles eram seus cúmplices nas derrotas que não paravam de se suceder e lhe davam a certeza de que não seria incriminado sozinho.
Não seria pelos amores desconstruídos nas camas reviradas, não seria pela desesperança de esbarrar com o destino. Jamais escutariam a voz impúbere dos que não lutaram. Uma história largada no desvão da memória, destronada na desistência de andar em passos firmes e constantes. Certamente não encontrariam motivos na farda carcomida por fracassos embaraçosos, nem na sofreguidão das mãos que cavam a própria cova neste chão duro e intolerante.
Não seria por nada do que jamais fez. Está agora com o rosto virado para o chão, caído sobre o assoalho empoeirado do esquecimento que tanto cultivou. Embaralhado na culpa e no rancor, se deixou dominar pelos vieses tão naturais da batalha. Se recusou a enxergar, se negou ao óbvio.
Seria, sim, por aqueles olhos fundos, escondidos nas rugas semeadas pelo tempo, temerosos do que poderia surgir a frente. Até porque jamais criou algo que fosse digno de se gastar o olhar.
Foi justamente por esses olhos tão fundos que a compreensão de sua vida ficou marcada pelo signo da derrota. Seria essa sua lápide: esquecida, desgastada, rachada, justa.
Aquela
por Luiz Pedro
Era a Gabriela, e me provocava um questionamento constante. Eu me perguntava incessantemente, mas não tinha o menor intuito de encontrar respostas. As perguntas paravam no ar, e era assim que eu as queria.
Eu continuava indo ali, no final da tarde, todas as terças e quintas. Se fosse pela manhã, o sol certamente traria uma tonalidade mais calorosa aos seus cabelos. Era a Gabriela: aquela cujo nome transforma todas as outras letras do alfabeto insignificantes; aquela do vestido verde que me revira em angústias; aquela que é alta, mas não muito, apenas o suficiente para se destacar das divinas; aquela da boca babaloo de morango; aquela que torna todas as palavras vãs, inoperantes para transmitir qualquer idéia, sentimento, tese científica; aquela que desliza na ponta dos pés, acima de qualquer irracionalidade terrena. Ela, aquela, Gabriela, minha musa.
Eu podia observar do outro lado da rua, através da porta de vidro da academia, quando ela se apoiava no balcão de entrada para conversar com as recepcionistas. Por cinco, dez minutos, ficava com os cotovelos no balcão, enquanto era possível notar algumas risadas curiosas de suas interlocutoras. Sempre trajando o mesmo estilo de roupa: calça de lycra até logo abaixo do joelho, uma camisa nem apertada nem muito solta, uma grossa meia de algodão e tênis de corrida, azul e branco. Todos os dias era isso, variava apenas nas cores, cores sóbrias, nada muito chamativo. Roupas insossas para uma musa vestir, é verdade, mas ela apenas estava indo à academia e essa vestimenta era padrão. Eventualmente erguia o dorso, apoiava-se com as duas mãos emparelhadas, descansava o pé direito sobre o calcanhar do pé esquerdo, que subia e descia na ponta dos dedos ansiosamente. Se despedia com um rápido levantar da palma da mão e saia para a rua com seu caminhar altivo. O trajeto da porta da academia até a esquina em que virava era uma reta de cinquenta metros percorridos em torno de quarenta segundos. Nesse breve período sempre fazia algo. Ou bebia água de sua garrafa, ás vezes buscava o celular e dava uma rápida olhada, provavelmente esperando alguma ligação. Eventualmente ela que ligava, falava com um leve sorriso. Eu sentia uma ponta de inveja por não receber aquela chamada, queria escutar sua voz. Mas mesmo como um simples terceiro, era uma tarefa impossível. Eu estava sentado no bar do outro lado da rua, ela falava com discrição, e ainda havia o barulho de carros e outras conversas. Impossível. Aqueles quarenta segundos, mais o tempo em que era possível observá-la na recepção, eram suficientes.
Negava-me a segui-la até sua casa, aquilo me faria mal. Eu não era um tarado, não queria me sentir um maníaco! Não tinha a intenção de abordá-la, puxar conversa, saber seu nome, o filme que lhe fazia chorar ou o destino de suas férias na infância. Eu estava ali apenas para vê-la. Ou também havia uma vontade inconsciente de ser notado observando? Será que eu ainda tentava reparar algum detalhe que teria passado despercebido, mesmo após três semanas de constante tocaia? Ainda que não houvesse nenhuma miudeza a ser descoberta, a constante repetição daquele fato trazia um vago sentimento de intimidade, como se a minha rotina, de alguma forma, fizesse parte da rotina dela. E esse hábito era recompensado nas horas seguintes a aparição, quando eu preenchia folhas e mais folhas do meu caderno de anotações, com poemas completos, às vezes apenas versos soltos, crônicas, frases, desenhos garranchosos de perfis femininos, ou apenas suas formas. Olhos amendoados, por vezes com óculos das mais variadas armações, lábios finos, grossos, narizes pequenos ou distintos.
Já não mais conseguia desenvolver qualquer outro assunto. Tornara-se uma obsessão que eu sentia necessidade de alimentar para me alimentar de inspiração, nada mais importava. Só me restava e só me interessava a aura das mulheres briosas que se desencadeavam da visão das terças e quintas, no mesmo horário pelo final da tarde. Mas, talvez, ainda faltasse o sol digno da manhã.
Tédio
por Luiz Pedro
Um Rio sem carros. As pistas da Presidente Vargas singularmente calmas. Na orla, sem motores rugindo nem estridentes buzinas competindo com o som das ondas tocando a areia. Sem fumaça de caminhões obesos. Verde amarelo vermelho?
Sem limpeza urbana. Areia pela rua na ressaca, terra pela casa na chuva, folhas secas cobrindo a calçada, metros de grama no Aterro movendo-se em ondas na brisa marinha, crescimento desenfreado de árvores fazendo noite a qualquer hora.
Sem trancas, sem cadeados. Segredos revelados, cofres peso morto. Portões e janelas ao sabor do vento, presídios tão escancarados quanto a porta daquela esposa de militar combatente. Portarias gradeadas, muros, cercas, paredes, tudo vira uma figura das nossas antigas prisões cotidianas.
Que tal sem gente? Filas dizimadas, a massa compacta desembarcando no Centro seria uma boa memória. Praias desertas esperando novos descobridores, animais retomando seus espaços sem temor. Sem corre-corre, sujeira, assalto, mortes estúpidas. Silêncio. Sem conversas de bar, sem risadas de criança, sem grito de gol. Sem amor platônico, paixão de verão, dor de cotovelo, tristeza, saudade, esperança, angústia, desespero, alegria. A vida lembrada apenas nos portarretratos largados pelas casas.
Os prédios ficariam intactos, como prova inconteste da nossa falha. Edifícios enormes de corredores e salas completamente abandonados. Os únicos inquilinos seriam os antigos, aranhas sem vassourada restringindo teias.
Por fim, ficariam toneladas e quilômetros de concreto inóspito, vago, frio, como em uma maquete envidraçada. Meros criadores de sombra, tão inúteis quanto já eram.
O que houve? Guerra, epidemia, aquecimento global? População evaporada por um cataclismo? Convulsão social? Nada disso.
Talvez seja só o tédio de quem já se cansou de imaginar um futuro de glórias numa sociedade tão predestinada ao passado.
O que é uma crônica?
por Luiz Pedro
Odeio conceituar. Estabelecer limites, delinear fronteiras, elaborar definições. Na verdade, não sei fazê-lo. Não somente em relação à crônica, mas, convenhamos, toda e qualquer singularidade mundana é dolorosa de desnudar em palavras. Logo, recorro a quem sabe. Viro-me para o petulante Houaiss, que garbosamente responde: “texto literário breve, freqüentemente narrativo, de trama quase sempre pouco definida e motivos geralmente extraídos do cotidiano imediato”.
Está certo? Sim, mas longe de ser satisfatório. Amplo demais, sem sal, alma. Qualquer outro poderia assim definir, o Aurélio mesmo é muito solícito, mas dificilmente seria suficiente. Mesmo os mestres apresentarão rachaduras, as ranhuras das imperfeições inerentes a qualquer arrogância de limitar um gênero literário a uma dúzia de palavras. Se eu tentar dar meu parecer, sem a tecnicidade e a precisão dos tijolos supracitados, serei uma criança desenhando hieróglifos antes de sequer saber o alfabeto da língua materna. O que fazer? Nada. Não tenho prazo, não tenho limite de caracteres, não tenho chefe. Pode soar como um tema muito restrito e direcionado, já que assim o título-pergunta pressupõe, contudo trato de ignorar seu caráter inquisitório e me recuso a dar uma resposta que seja propriamente minha.
A crônica não tem gênese firmada em raízes profundas. Pode se alastrar na grama rasteira, pendurar-se nas árvores em trepadeiras, surgir entre as pedras na coragem das orquídeas. Cria-se nas reminiscências da tarde atravessando a janela do trem para Japeri, nas casas de tijolos tortos rapidamente se sobrepondo, nos trabalhadores apertados em bancos duros para assistir a um ambulante e um pastor venderem paçocas e redenção eterna. Pairando no ar, a deriva nas vielas do pensamento descompromissado, perdido nos devaneios da jovem moça. Algo como criança que persegue uma borboleta tentando aprisioná-la nas mãos, sempre sem sucesso – e até sabendo que não terá sucesso – mas se divertindo com o simples borboletear colorido de asinhas tão simpáticas em fuga desengonçada.
Não quero encontrar definição. Não me interessa. Certa vez peguei um livro do Rubem Braga, resolvi ler e passei a conceber aquelas breves confissões como crônicas, já que assim se vendia o livro. Foi o bastante.
Dizem que a melhor maneira de descobrir o que uma história tem por dentro é contando-a inúmeras vezes. Talvez a melhor forma de entender uma crônica, e destrinchar sua concepção, seja lendo repetidamente. Após várias leituras, continuará sem saber conceituá-la em palavras diretas, só que conhecerá seus pormenores com intimidade maior do que o próprio autor supunha ter quando escreveu. Nesse momento bastará uma motivação, bastará uma fagulha pipocar do esfregar incessante de gravetos, e a chama surgirá. O que é uma crônica? Não sei, mas as palavras que entornarás no papel terão a precisão de um dicionário nomeado com uma voz única, a sua voz. Mesmo o Aurélio precisará rever seus conceitos.
Seus olhos…
por Luiz Pedro
Eu os quero olhando para os meus.
Meus olhos…
descobrem seus olhos negros
um olhar que desliza pelo meu colo
e marca meu peito de dor.
Por que eu olhei para você?
Não consigo tirar os olhos,
quero estar junto a ti
para meus olhos terem seus olhos,
nada mais em meu olhar.
Tocar meus dedos em seus pêlos,
respirar o seu ar,
respirar você.
Sentir o suor da sua mão
entrando na minha pele,
arrepiar-me com a sua boca
molhando minha ânsia
de morder o seu calor.
Calar-me do sufoco
de unhas me rasgando,
apertar seu peito junto ao meu
e sentir um coração desesperado,
berrando por entre dentes cravejados.
Ouvir gritos de suspiros,
implorar beijos punitivos
por enlouquecer em seu cheiro.
Nada melhor que seus olhos
para transformar meu corpo
em seu mar de prazer.
Glorioso
por Luiz Pedro
Apesar de descrente das vielas do acaso, dou sorte aos que me cercam. Mas como dizem que sou pé quente – e elogio é sempre agradável, fundamentado ou não – gosto de pensar que sou realmente um amuleto.
Meu pai sempre me convidou para assistir aos jogos do Botafogo no Maracanã. Sou flamenguista chato, dos mais chatos de uma espécie já chata, contudo ele talvez me considere uma boa companhia, já que por certo sou um tipo de superstição, pois todo jogo que o acompanho, o Botafogo vence. E visto que este resultado não é muito recorrente, ele se agarrou a isso.
Fomos assistir a semifinal da Taça Guanabara, contra o Fluminense. Naquele ano, o Maracanã estava sendo reinaugurado mais uma vez, agora com as cadeiras inferiores estalando de novo, e lá resolvemos ir.
Chegamos de metrô, descemos na estação do Maracanã, atravessamos a rampa da UERJ. Como ainda faltavam boas horas para a bola rolar, o movimento era razoavelmente fraco. Algumas entradas estavam diferentes, tudo era meio estranho para meu velho. Eu, já acostumado à rotina de torcedor cativo da arquibancada, não notei grande diferença. Buscávamos uma bilheteria, papai perdido, quem sabe traído pela memória castigada, então o puxei pelo braço colocando-o na direção correta, e me pus a explicar a divisão de preço dos ingressos pelo caminho. Naquele momento, no embalo da andança, percebi que estava levando meu pai ao Maracanã. Ele, que a contragosto me levava na arquibancada rubro-negra quando eu ainda era moleque demais para ir com minhas próprias pernas, agora era guiado por minhas mãos para a torcida alvinegra. Dei-lhe um abraço pelo ombro enquanto caminhávamos e comentei, sorrindo: “Agora quem te leva ao Maracanã é o teu filho.” Ele sorriu de volta, satisfeito por um dever cumprido de pai que agora desfruta de um passeio sem a responsabilidade de cuidar de uma criança.
Existem coisas que só acontecem com o Botafogo, mas quando meu pai está comigo, isso fica esquecido. Pé-quente que sou, o Botafogo ganhou de novo.

Vazio
por Luiz Pedro
Li uma reportagem no jornal “O Globo” de três de março de 2009 sobre a exposição “Vazios, uma retrospectiva”, que reúne “vazios” criados por nove artistas ao longo dos últimos cinquenta anos. Mas o que me deixou impressionado não foi a exposição, mas sim a reação das pessoas, na sua maioria, negativa. Não apenas negativa, mas até revoltada, acusando de ser uma gozação, “ridículo” e questionando até o viés artístico da exposição.
Procuramos ser afetados. Esculturas retumbantes no meio de uma salão, quadros impactantes nas paredes iluminadas, sons, cores. Enfim, qualquer coisa que atue, que dê o primeiro passo no processo de reflexão acerca da arte. Então, entramos em uma sala vazia. Sem nada nas paredes, chão, teto. Temos APENAS parede, chão, teto. Pode ser arte? Pode. Pode ser uma gozação? Igualmente.
Como minha professora de literatura definia, “a arte é a transfiguração simbólica da realidade imediata”. Que transfiguração? Quais simbolismos? Quantas realidades? Muito ou pouco imediata? Aí, camarada, é com você. A arte é feita pelo artista e pelo seu crítico, balanceadamente. Uma obra para niguém, sem que qualquer pessoa possa processar seus simbolismos por meio da sua imediata realidade, certamente é uma obra incompleta. Acima de tudo, a arte, antes de provocar críticas lógicas e racionais, provoca emoções.
Diante do elogio ao vazio, a presença da ausência, e principalmente da reação perpelexa de seus espectadores, podemos concluir algo: o vazio incomoda. Incomoda porque nos instiga a buscar algo mais. Muitas vezes, quando não se pode ver nada no exterior, talvez seja um convite a olhar para o interior. Nosso interior. E é possível que não se veja absolutamente nada. Não que não exista algo, mas porque preferimos não procurar temendo que nada exista. Temos medo de ser um retrato do exterior desvirginado. Então é melhor buscar distrações fora da caixa de memórias, experiências, sensações, emoções, dores e angústias que carregamos para todos os lados.
Uma sala vazia tem muito a acrescentar. Aguça outros sentidos. Percebe-se a textura da parede, a altura do teto, o espaço disponível, o silêncio, o calor, o frio, a luz. Talvez a disponibilidade provocada pelo vazio, a parede em branco como um quadro esperando a ser pintado, soe como o infinito. Um sem número de possibilidades a serem imaginadas, desenvolvidas, até destruídas. E nos colocar no papel de atores da realidade, autores da arte, é uma inversão indesejada.
Então, o vazio, como obra de arte, acaba sendo uma gozação mesmo. Faz-se graça com aqueles que não querem procurar. É risível a revolta daqueles que não apenas se recusam a procurar, mas principalmente temem o que podem encontrar. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. O vazio pode ser o convite ao novo, como também pode ser um convite simplesmente ao próprio vazio. Quem faz a arte da sua vida é você.
Carta à Professora
por Luiz Pedro
Oi, Silvana!
Já nem sei se lembra de mim, mas você foi minha professora de língua portuguesa e literatura no Colégio Pedro II, unidade Humaitá. Formado em 2003, fui seu aluno em 2001 e 2002, e no último ano participei do “Utopia”, jogral que fizemos juntos no Fazendo Arte.
Semana passada eu estava conversando com alguns familiares sobre a Bienal do Livro, seu potencial entre o público infantil e o objetivo de incentivar a leitura em camadas geralmente não muito atingidas pela literatura. O papo acabou entrando nas obras “chatas” que são passadas aos alunos no período escolar, o que atrapalharia o interesse da garotada pela leitura. Lembrei então de você, e fiz questão de citar que tive uma professora de literatura maravilhosa, que foi essencial para acender o meu interesse não só pela literatura como pelas artes. Lembrei das indicações que mais gostei, Bufo & Spallanzani e Metamorfose, das suas explicações apaixonadas e interpretações elucidativas que jamais encontrei em qualquer professor. Sem contar o dia que entrou na sala de aula recitando “Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal”, com uma força que até hoje me inspira a desatar poemas do Fernando Pessoa e do Ferreira Gullar em voz alta e ninguém nada entende.
Apesar de tamanha admiração, pisei na bola. No final de 2002 – admito que recordo com vergonha – cometi algumas besteirinhas de adolescente tentando ser rebelde. Deixava de ler livros e entregava a prova em branco assim que era entregue. Em seu olhar havia evidente decepção, mas eu o recebia com indiferença. Certo dia, após mais uma dessas mancadas, em tom desalentado, você me pediu seu aluno do 1º ano de volta. Senti-me uma criança ridícula, fiquei envergonhado por ter desapontado uma pessoa que eu tanto estimava. Só que tal percepção da realidade veio um pouco tarde, já que as férias estavam chegando e no ano seguinte você não seria minha professora. Surgiu então o Fazendo Arte como matéria eletiva e entrei motivado a me refazer. Após longos ensaios, confusões com aquele grupo enorme, divergências e os naturais obstáculos do projeto, fizemos três lindas apresentações para o auditório lotado. Na última apresentação, enquanto Fascinação era cantada, olhei para você, sentada na primeira fila, com olhos molhados, e compartilhei das suas lágrimas. Ao final daquele dia ainda escreveu um lindo bilhete em minha caderneta escolar, elogiando minha recuperação e finalizava dizendo que sempre estaria comigo.
Bem agora eu estava procurando uma crônica do Gabriel García Márquez quando achei uma reportagem sobre o apreço que Gabo cultivava por sua professora, a quem dedicava todo seu triunfo literário, sendo citada em diversas obras do escritor colombiano. Apesar de não ter romances publicados, muito menos um prêmio Nobel, resolvi te escrever esse texto como um singelo agradecimento. Eu preferiria abraçá-la com o carinho devido, mas espero que por essas palavras seja possível sentir o calor sincero com que eu agradeço sua promessa cumprida: você está sempre comigo.

A Sunday Smile
por Luiz Pedro
Sempre tive medo de ficar preso a um tema, circundar o mesmo assunto nos textos que escrevo e, consequentemente, ficar chato. Mas é até arrogante pensar que na pretensão de escrever por uma vida – e sobre a vida – não vá ocorrer um déjà vu. Nietzsche muito bem falou sobre a repetição ininterrupta dos fatos no seu conceito filosófico do Eterno Retorno: “A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Mas depois do “Verde Sacudido”, não só a crônica como também todas as referências já feitas em outros textos, senti-me novamente encantado por essa visão entorpecente do feminino trajando um vestido verde.
Fui ao PercPan (Panorama Percussivo Mundial) na quarta-feira, em um teatro no Leblon. Na verdade, eu estava pouco me lixando para os batuques que lá iam ressoar, só tinha olhos para o Beirut, uma banda por aqui conhecida no mainstream apenas pela música “Elephant Gun”, tema de uma belíssima microssérie da Globo, “Capitu”, do final de 2008. Meu lugar era situado no andar superior, distante do palco. Contudo, surgiu o pensamento entre meus amigos de descermos para a área do público que ficava mais próxima do palco, idéia que se acentuou diante da falta de fiscalização dos ingressos na entrada do respectivo setor. Seguimos para o andar inferior, ficamos no corredor lateral, em pé. Logo pudemos perceber que não fomos os únicos a ter essa idéia, já que se notava claramente uma superlotação, com todos os corredores cheios. Show começa, o vocalista convoca o público a se aproximar do palco e então a invasão dos corredores foi oficializada. A minha frente, na esquina entre o corredor lateral e o corredor que cortava a frente do palco, havia um bom espaço disponível, pois as pessoas se concentravam ou na frente do palco ou nos degraus mais elevados do corredor lateral. Eis que surge aquela visão já familiar, porém capaz de me provocar as sensações mais primitivas.
Uma mulher, cabelos em coque, pequena, delgada. Desfrutava muito bem do tal espaço, iniciando os primeiros passos de uma solitária dança embalada por “Elephant Gun”. Com um leve vestido verde, misturava um pouco as danças tradicionais que o som do Beirut costuma evocar com a alegria dos saltitos de uma criança brincando. Vestido verde, magnético, de olhos de Capitu, que absorve e traga, “como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Esqueci do show. Na verdade, a música serviu de trilha sonora para o que se pronunciava a minha frente, e me apeguei à idéia de que eu era o único sortudo a ter percepção daquele pequeno espetáculo. Um fio prendia meu olhar àqueles passos e, a cada rodopio, eu me desenrolava feito um carretel, a mercê dos caprichos daquela bailarina de caixinha de jóias. Ela rodava, eu entontecia. Pulava segurando com uma mão a barra do vestido, como que levemente abrindo-o, por vezes soltava e resolvia desatar nas mãos agora erguidas outra dança, que se desenhava na contraluz do palco. E ali estava eu, tal qual um velho sensível às belezas cada vez mais distantes da realidade de outrora, emocionado, sem saber exatamente o motivo, embevecido na teia que aquela jovem havia me enredado.
O show acabou, o meu espetáculo correlato também. Rapidamente, com o escoar das pessoas, perdi de vista minha menina e também acabei por seguir meu caminho. Ainda curtia o regresso daquela emoção: o arrebatamento, a falta de ar, o sensação de vazio dominando o corpo desde a boca do estômago até a tontura que chegava a enublar a visão. E a saudade já dava pontadas de querer se manifestar, apesar de tamanha brevidade. O Eterno Retorno seria a solução que eu abraçaria sem pestanejar. Repetiria tudo: as mais dolorosas paixões, os mais doentios ciúmes, as barreiras mais intransponíveis e as lágrimas mais incontidas. Por mais alguns instantes emaranhado na ciranda da minha sílfide, eu me açoitaria nas eternas intempéries da vida. Valeria a pena.
Fé
por Luiz Pedro
Na multidão, entre vozes já perdidas desde os pulmões, torço pelo melhor, temo pelo pior, mas sempre com a certeza de só poder contar com a própria vontade de superação. Já não sinto meu peito, já não acho meus amigos, meus irmãos seguiram seus caminhos. Trabalho a vida com o cuidado de quem restaura um mosaico milenar. Peças perdidas num tempo em que nossos pesares eram perdoados em cantigas de ninar.
Na multidão, só escuto o que quero, só vejo o que me importa. Essa multidão que me sufoca, me dá o ar para continuar seguindo, esbarrando, tropeçando, mas sempre seguindo. Os olhos correm por rostos familiares de outras histórias, entrelaço os dedos por recear o encontro do óbvio. Sempre visito a casa onde nasci, me vejo crescendo nos quintais de poeira, sinto o calor de brincar em paz.
Na multidão, sinto-me sozinho e cada vez mais perto de ti.

Lua de Agosto
por Luiz Pedro
Estou ferido. Não consigo mais me mover, apóio as costas na parede, desço o corpo lentamente, já sem forças. Os estilhaços da granada fizeram um bom estrago. O sangue molha minhas roupas em golfadas ritmadas pela minha pulsação, o ar entra em meus pulmões com dificuldade. Felizmente não há dor, meu corpo está cada vez mais dormente. Mas o metal do fuzil encostado na pele fica mais frio a cada instante que passa. Só me serve de apoio, abraçado ao cano como a última bandeira que me resta, o corrimão que me segurará por mais um pouco. O tiroteio lá fora está cada vez menos intenso. As metralhadoras em intervalos longos, estampidos de fuzil rareando, granada não mais, aquela talvez tenha sido a última. Nossa contenção está muito debilitada, a munição está escassa, nossos homens estão mortos. As linhas inimigas avançam, em questão de minutos estarão aqui. Por uma brecha consigo ver uma parte do céu, iluminado por uma lua cheia que eu não me dava ao prazer de admirar desde não me lembro quando. Começo a escutar gritos estrangeiros, ainda distantes, mas se aproximam. Nossa lua. Você está tão distante, lembro-me da promessa de voltar, que de qualquer forma eu voltaria, e falava isso convicto, não pelas suas lágrimas. Mas agora aceito que a morte é iminente. Olho a lua, aceito que minha vida escoará por essa terra, assim como a vida de outros tantos companheiros, fico em paz, estranhamente tranqüilo. Nossa lua de agosto, que nas nossas caminhadas era cúmplice de promessas eternas, dos nossos dedos entrelaçados, dos beijos que teimavam em não acabar. A lua que te fazia virar o rosto para o céu e procurar por entre as árvores. Quando avistava, surpreendia-se, dizia que estava mais brilhante, sempre brilhava mais do que a lua anterior. Apontava, perguntava-me retoricamente se era linda. Mas eu mal olhava a lua, seu rosto brilhava ainda mais, moldado nos cabelos dourados em cachos. Revistam as cercanias, matam os feridos, celebram a batalha vencida. Mas a lua ainda está lá, eu ainda estou aqui, não mais sozinho. Consigo sorrir, minhas forças não me permitem mais segurar o fuzil, minha cabeça tomba, de soslaio ainda olho a lua. As vozes estão além da parede, escuto os passos. Desculpa, minha linda, minha vida, minha lua, desculpa. Busco meu fuzil, empunho arquejante, trêmulo, viro-me para o canto de onde vem os passos, tento focar na pontaria, ainda posso despachar algum deles. De relance vejo a lua rapidamente, tento gravar na memória, buscar forças na partida, evitar despedidas mentais. Estão tentando forçar a entrada.
Vermelho Desbotado
por Luiz Pedro
Ah, memórias de infância. Sempre me arrebatam, embora já de cores desbotadas. Não que eu esteja velho demais. Sim, algumas dores ao acordar e ocasionais pontadas na cansada tristeza que me impedem de deitar. Porém, nada preocupante. Parece que às vezes a alma corre mais que o tempo. Mas os tempos de criança eu busco recordar regularmente e suas formas não sofrem grandes distorções.
Na época do colégio, antes de entrar para a aula, eu passava em frente a uma barraquinha de doces, e lá deixava algumas moedas por pirulitos, balas. Tinha uma predileção especial por Babaloo de morango. Além de docinho e de render belas bolas, sua aparência me apetecia. Havia até um pequeno ritual antes de mascar: abria cuidadosamente sua embalagem e deitava aquela bolinha de vermelho suave no centro de minha mão espalmada. Por alguns instantes, ficava a admirar aquela pequena guloseima, me deliciando com o prazer iminente que iria me proporcionar. Gostava de controlar aquela ânsia que os jovens têm por provar tudo vorazmente, como se do contrário houvesse a ameaça de penosos castigos. Essa agonia era o verdadeiro gosto que aquele chiclete tinha pra mim. Só após me sacrificar por um breve momento que eu o pousava vagarosamente na língua, para então morder de leve, sentindo aquele líquido entornar pelos cantos da boca.
Essa lembrança me açoda rigorosamente nas recentes semanas. São os lábios dela. Incrivelmente semelhantes na suavidade do vermelho, com uma textura reveladora da maciez tênue, assim como se faziam as conversas com amigos agora irreconhecíveis. A mesma angústia por sorver aquela delicadeza de gostosura. Com uma diferença: antes era controlável, justamente por saber que, quando eu bem entendesse, a espera seria cessada e eu desfrutaria sem impedimentos. Só que não está mais ao alcance da minha trêmula mão espalmada. E também não tem mais graça diante da espera sem rédeas.
Agora entendo porque memórias da infância são tão palatáveis diante desse pesado presente. Porque são memórias. Apenas lembramos quando tudo ainda estava tão doce. Mas no presente, sentimos o vigor com que os dias se tornam insossos, uma borracha envelhecida que precisa ser cuspida. Nada como o tempo para desbotar os sabores. Aos poucos, tudo perde seu açúcar.
Escrever que é bom, nada.
por Luiz Pedro
Sábado à tarde, sento-me para escrever, e nada. Branco, esse mal que acomete diante da folha limpa, ou, no meu caso, da tela limpa, com a insistente barrinha do Word piscando “vai logo que eu não tenho o dia todo”. Manuel Bandeira dizia que Rubem Braga era sempre bom, mas “quando não tem assunto então é ótimo”. Só que o Braga de Cachoeiro foi – foi não, é, e sempre será – o Senhor da Crônica. Então, o que fazer? Caminhar. Calço meu par de tênis e meto o pé atrás de algo na rua que instigue qualquer pensamento a sair da minha cabeça oca.
Moro em Copacabana, mas nunca gostei de caminhar no calçadão. Não rende nada, as pessoas estão ali apenas para caminhar, em ritmo apressado puramente para suar, sem rumo, param, marcam no cronômetro qualquer tempo, dão meia volta e caminham apressadamente novamente para lugar nenhum. Pego a Barata Ribeiro e toco para Ipanema.
Agora sim, pessoas verdadeiramente apressadas! Inclusive eu, que não consigo andar num ritmo moderado. Carros, ônibus, sinal fechado, velhinhas lerdas. No trajeto há uma enormidade de botecos, alguns vascaínos sofrem, outros bebem secando, a maioria apenas jogando conversa fora, seja em pé no balcão ou nas cadeiras que tomam as calçadas. Entro na Bolívar, caio na Tonelero (ou seria Toneleiros?) e subo o Corte do Cantagalo em direção a Lagoa. Desemboco de frente para o Dois Irmãos, o sol já desceu. As montanhas que acolhem a Floresta da Tijuca são apenas sombras, a silhueta de um monstro gigantesco que deita beirando o espelho d’água. Acredito que as crianças devem ver assim, é mais divertido. Faço algumas barras, acentuo o suor que já tinha desandado a brotar após subir o Corte e já volto mais apressado para casa, com algumas idéias para jogar no papel. Viu? Andar deu certo. Agora virou até um problema, já que estou longe de qualquer pedaço de papel. Seguro os pensamentos, repito-os várias vezes para que colem na minha testa e nada se perca. No caminho de volta passo em frente ao Copa Azul, o boteco está atolado, algum grupo toca um pagode animado e a galera comprou a idéia. No comando do pandeiro está a figura mais adequada possível: óculos escuros, camisa regata do Flamengo falsificada, sorrisão de quem está abalando e não vai parar tão cedo. Alguém voltando do trabalho, mochila nas costas e calça jeans, pára e curte um pouco; uma cinquentona dança de braços erguidos, copo de cerveja na mão e pelancas braçais ao vento. “Todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar”! Ê beleza!
Definitivamente é mais agradável pagodear do que ficar caçando palavras para jogar no papel. Mas cada um na sua, até que minha caçada rendeu bons frutos. Quem sofre, agüenta a Segundona; quem pagodeia, curte o sábado; quem bebe, espanta seus males; quem escreve, caminha.
É, acho justo.

Companheirismo
por Luiz Pedro
Minha companheira há 13 anos. E a palavra é essa mesmo: companheira. Com essa gatinha que divide o cotidiano comigo desde meus 10 anos aprendi o que significa “ser companheiro”.
Não podemos nos comunicar verbalmente, porém ela sempre está ao meu lado, trazendo um aconchego, mesmo nos momentos em que estou mais arisco. Eu sei que posso contar com ela e ela sabe que pode contar comigo. De forma natural e espontânea. Fico bobo com a confiança que minha felina deposita em mim. Tenho brincadeiras mais brutas, principalmente para uma gata já velhinha como ela. Porém, apenas brincadeiras. E ela, sabendo que não passará disso, que eu não a machucarei, se deixa levar e curte comigo. Respeitamos o espaço um do outro, muitas vezes até nos esquecemos, mas, sempre que nos buscamos, encontro o mesmo afeto de sempre, a mesma receptividade de sempre.
Ser companheiro é estar disposto a ajudar o outro, haja o que houver, e encarar não como uma responsabilidade, mas sim como um prazer, ainda que não haja troca de palavras – e nem é fundamental, basta estar presente. Para minha infelicidade, ela é apenas uma gatinha e não poderá me acompanhar por muito mais. Porém, a lição que ela me trouxe será tão eterna quanto a lembrança dos carinhos que trocamos.
Obrigado, minha companheira.

Ainda Gabriela
por Luiz Pedro
Não lhe trarei verbos puros. A imperatividade está longe de nos levar aos lugares que as insondáveis profundezas do nosso inconsciente desejam avidamente. A objetividade vigora pela prisão das correntes escravistas da inaptidão ao novo. O mundo desperto nos restringe aos psicotrópicos para transcender o abandono das concretudes corpóreas. Por isso, trago verbos aliados das imagens, companheiros das transfigurações, cúmplices das divagações, supridos de tangencialidade e circunstancialidade em sofreguidão.
Novidade não há, visto que os mais capacitados escrivães da elevação mundana já o fazem há tanto quanto fincamos nossa existência nas terras do além-mar. Nas mais altas aspirações pela busca de uma morada, encontrei Pasárgada, onde Rei bebe em nosso bar, contando vantagens das enamoradas . Ou em Macondo, onde Remédios, a bela, destronava as mais altas hierarquias do coração com sua frieza desalentadora, que congelava a ponta dos dedos, os dedos, logo a mão inteira, avançada pelo braço e, por fim, arrebatava-lhe por inteiro, com a inescapável força das ressacas trazidas pelo sudoeste das paixões contrafeitas.
Não, em nenhuma dimensão plausível na mais moderna física, em nenhum mundo tão distante que a luz do sol não tenha alcançado, em nenhum sentimento esquecido nas fronteiras do incompreensível. Em nada será possível descrever as múltiplas cores desfraldadas pela tua simples presença. Alguns outros tentaram e tentarão. Tereza, da terceira vez, não mais se via, além dos céus se misturando com a terra. Luiza, que por seus cabelos revelava os sete mil amores guardados apenas para si. Cecília, cujo nome não tinha ao seu alcance nem as mais sutis melodias. E por todas as outras que ainda sublimariam as vidas de homens destinados as desgraças do desamor.
Por nenhuma delas eu teria a certeza de que palavras são palavras. Por mais que eu lhe traga verbos impuros, em nada servirão os pormenores da minha fala. “Na tua presença, palavras são brutas”.
Sobre Escrever
por Luiz Pedro
“Bufo & Spallanzani”, um livro do Rubem Fonseca, tem um personagem que ridiculariza o protagonista – um escritor – questionando o talento e o suor necessários para exercer sua profissão, até o momento em que se propõe a fazê-lo, encarando os obstáculos existentes para a construção de um texto interessante. E constata o óbvio: é bem difícil.
Escrever é um bocado de renúncia. Alguém já falou isso antes, mas não me lembro quem. Na verdade, falava que amar era renunciar. Será? Algo assim. Quando se ama, dizem que deixamos de ser plenamente ativos, não mais somos senhores de nossas vidas, doamos nossa existência para o domínio do ser amado, ficamos dependentes. Quando se escreve, abre-se mão da realização do desejo. Se você encontra uma linda mulher e ela te inspira compor lindos versos, você não vai querer conhecê-la, saber seus sonhos, suas manias. Há um limite.
Mas o nome é interessante saber. A menos que ela se chame Josiclécia. Lembro-me da minha reação quando tomei conhecimento do nome de uma musa. Gabriela. Todas as palavras refletiam o seu nome, suas sete letras eram únicas no alfabeto. Era o arco-íris das letras. As outras eram apenas derivações, misturas, combinações. Somente aquelas sete tinham a realeza hierárquica inabalável de seu sangue azul para comandar uma plebe infinita de palavras. Gabriela.
Mas só o nome, sem sobrenome. A humanização da musa não funciona. Deusas não foram feitas para caminhar entre os mortais. Elas deslizam na ponta dos pés, no mínimo um palmo acima do chão, acima de qualquer irracionalidade mundana.
Não se enganem quando o escritor vai atrás de sua musa para conquistá-la. Quem está indo cortejá-la é o Homem, não o Escritor. O Escritor é um castrado, deleita-se apenas com o desejo. Mas, geralmente, o Homem impõe sua vontade, sua virilidade, instinto, e corre atrás, transformando o que era Musa em Mulher, deixando o Escritor resignado, sem inspiração. Essa é a verdadeira castração do escritor, perder sua ânsia por escrever, secar sua pena. A castração sexual do Escritor é necessária, senão seria paradoxal à sua existência.
É, o diagnóstico não é dos melhores.
Acacinado
por Luiz Pedro
Conversando com uma amiga, lembrávamos momentos marcantes de namoros. Contava-me das noites que passava conversando com um ex. A dedo, ele fazia desenhos imaginários nas costas dela, que, por sua vez, tentava adivinhar que figura estaria se formando em sua pele. Pensei em qual momento eu havia guardado com todo esse carinho dos amantes intermináveis, mas nem precisei me alongar muito. É uma lembrança que me ataca constantemente, deixando a pontinha de nostalgia melancólica dos desencontrados amorosos.
Aos 15 anos, tive minha primeira namorada, Marina. A distância era um sufoco. Ela, em Vista Alegre. Eu, no Cosme Velho. Marcávamos de nos encontrar no metrô, na área de embarque da estação de Vicente de Carvalho. Morrendo de saudade e meio perfeccionista, eu era pontual, por vezes chegava até uns 15 minutos mais cedo do horário previsto, e ficava aguardando. Ela era meio atrapalhada e, consequentemente, sempre atrasada, de 15 a 60 minutos. Aguardava encostando-me à parede da área de embarque, sentado no chão. Em duas ocasiões, um funcionário do metrô veio me perguntar se estava tudo bem. Estranhei aquela intervenção e ele me confidenciou que eu estava com um semblante muito abatido, e que algumas pessoas se jogavam na linha do metrô. Não, não, estava abatido, mas não tanto!
Esses minutos de espera se alongavam ruidosamente nas minhas bufadas de impaciência. Cada perna que surgia descendo a escada eu imaginava ser as pernas dela, o que obviamente provocava grandes decepções .
Por fim, ela aparecia, olhava-me com aqueles olhos de quem sabe que fez besteirinha. Entretanto, da mesma forma, transparecia tanto carinho e paixão que aquela angústia desaparecia imediatamente. Parada ao final da escada, inclinava a cabeça e sorria satisfeita. Eu caminhava na sua direção, onde ela juntava às mãos a frente do corpo e embolava os pés, uma menina que aguarda o iminente perdão. Vinha andando na minha direção, fazendo careta, como que desinteressada, enquanto meu peito se enchia de uma forma que transbordava em sorrisos. Por fim, ela notava que aquela minha “raiva” era puro enfeite e acelerava os passos em minha direção, e eu também me apressava em atravessar cada metro em busca do ar que se contaminava da felicidade mais divina já apresentada aos que amam. Aquele ar que tomava meus pulmões com um arrebatamento digno dos romances escritos na mais ardorosa febre amorosa. Abraçava-a com força, os dias distantes tinham que ser compensados naquele único abraço, naquele segundo, naquele breve momento de sentir-me entorpecido, sem saber se estava por viver ou morrer. Mas, caso realmente estivesse deixando nosso mundo, não me incomodaria.
Encaminhado ao mais alto degrau do paraíso, sabendo-me justiçado por dores e desprazeres, eternamente morreria no abraço de Marina.
Entrega
por Luiz Pedro
Entrega
as juras cantadas,
os amores contados,
os beijos roubados.
Entrega
os tolos dissabores,
as estranhas cores,
as velhas dores.
Entrega
os sorrisos largados,
as lágrimas veladas,
os abraços derramados.
Eu sei, não volta mais,
já não passa de história,
acabou.
Mas, por favor, entrega.
Entrega
tudo aquilo que eu te dei,
tudo aquilo que você me deu,
tudo aquilo que eu sou.
Desamor
por Luiz Pedro
Aquilo que parecia o Inferno mostrou-se a mais fria das noites. Não, no Inferno as chamas não tremulam em bandeiras de tempestade. Sente-se apenas o gelo da solidão de quem morreu sem as lágrimas da amada, sem a saideira com os amigos, sem o desespero da mãe abandonada. Descobrir-se inapto ao amor é morrer sem deixar de respirar, puxando o ar cada vez mais forte, sentindo o diafragma comprimir todo nosso peito e machucando de vazio. Talvez uma facada no coração fosse menos dolorida que o desamor. Só que nem há mais batimentos cardíacos para pulsarem sangue nas lâminas de todas essas decepções cortantes e desentranhadoras. Minha fome, meu vigor, minha baixa desesperança, meu grande otimismo de idealista. Tudo desapareceu na utopia que se desfez nas primeiras badaladas do sino da estação, chamando para o trem dos predestinados. Já aceito que a vida é para alguns, e não me sinto mais derrotado, muito menos desprovido de privilégios. Nem todos são para vencer, poucos são os que ainda sobreviverão a todas as estações e irão desembarcar no destino agraciado de eras vindouras desses sonhos que não se perderam nos trilhos cruzados. A torrente é pesada, sem a pureza prometida pelas chuvas despretensiosas. Não me incomodo, encharco, misturo lágrimas às gotas que me caem sem compaixão e molho a ponta da língua na salmoura de pele que me restou. Já caminho sem compasso, já piso sem firmeza, não me importa o rumo que as linhas da minha palma indicam. Resignado, vou aos tropeços em busca de um chão duro e insensível as minhas feridas sem cura. Cuspo seco, ergo a cabeça por breves instantes, minha mente roda, perco o horizonte e fecho os olhos aos males que me açoitam, estalando as varetas que sequer ecoam na parede das ruas desguarnecidas. Ajoelho-me para as penitências restantes, mas o peso dos braços me faz desabar. Encolho, retraio as pernas para junto do corpo, reduzido a insignificância que sempre procurei. Não há mais o que fazer, não há para onde cair, não há mais para quem gritar. Minha voz rouca e débil balbucia uma oração infiel. Meu reino, assim na terra como no céu, será negado por tudo que deixei de santificar. A tentação nunca houve, mas não terei o perdão daqueles que ofendi, nem me livrarei do mal que tanto desejei. Ao Inferno, diga que aqui estou. Amém.

Angra
por Luiz Pedro
Angra
Dos Reis, das rainhas!
Peixe-espada, cação, tainha.
Casas curvadas, pés em fila no meio-fio de cal.
Sombra de amendoeira, cama de areia.
Pique-esconde, futebol de lata.
Banho de mangueira, manga-espada.
Teto alto, maré baixa.
Não me deixe, Angra!
Traga-me verdes sacudidos, olhos ardidos, sonhos vividos.
Pescaria de siri, perna ralada, sueca até de madrugada.
Banho de mar com luar, caranguejo no jantar.
Canto de cigarra se alongando no vazio.
Calor de estio, infância sem frio.
Ah, chuvas de verão!
Ainda sinto aqueles pingos caindo em meu rosto nas tardes de domingo.
Se não for pedir muito, só quero fazer um pedido:
Por favor, enterrem meu coração em Angra.

Sobre a despedida
por Luiz Pedro
Rubem Braga, em uma das suas memoráveis crônicas, “Despedida”, escreveu que talvez fosse melhor não haver despedida na partida. “Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso.”
A despedida é o último alento. Uma utópica possibilidade de eternizar o abraço derradeiro. Sabemos que aquela pessoa não mais estará em nossa vida – definitivamente, ou, espera-se, temporariamente – mas temos a esperança de que o adeus seja a senha para cristalizar o presente, impedindo que um passado remendado por lembranças desbotadas tome lugar.
A última troca de risos, a última gentileza, última conversa despretensiosa. Ao menos é a última. A despedida traz a consciência imediata da perda e entendemos a irrecorrível necessidade de aprender a se consolar com a solidão. Fugir do adeus é enganar-se de que nada tenha acontecido. Nossa saudade não existirá, pois não houve despedida, ninguém se foi. “Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.”
Em outro trecho, Rubem Braga aceita que a lembrança torna a solidão ainda maior, porém menos triste. Não imagino despedidas felizes. Uma vez eu escutei ou li em algum lugar que a festa de casamento – após a cerimônia, todos bêbados e dançantes – era o jeito de esconder uma despedida. Muita alegria, música alta e álcool para não pensar no nosso “eu” que deixamos para trás. Tanto o casado quanto os amigos estão se despedindo do solteiro irresponsável e farrista de outrora. E funciona. Nós postergamos a solidão e a ficha cairá outro dia, “como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.”
No final, o que fica é a lembrança. Com ou sem despedida. Devemos nos ater a isso, pois não perdemos nada, a partida não levou todos os momentos vividos. E não devemos esquecer a importância das recordações diante de um doloroso desencontro. Cada lembrança que despertar sem aviso trará uma pontada de sofrimento, mas também trará um leve sorriso e o conforto de saber que todos os pormenores valeram à pena.
Desencontro
por Luiz Pedro
Deixa pra lá.
Não quis dizer isso,
não quis sentir aquilo.
Perdi o tempo certo,
me atrapalhei com as palavras,
blefei quando não tinha nada,
percebi quando já era óbvio.
Já não havia mais do que tirar,
não havia mais onde procurar,
não havia mais pelo o que lutar.
Parece até que era outra língua,
que nossos sinais não batiam,
que nossos olhares se perdiam,
que seu telefone tinha mudado,
que nossos horários foram trocados,
que nossos medos eram os mesmos.
Parece até que…
não era pra ser.
O lenhador
por Luiz Pedro
E desce o machado da realidade. Com seu fio já castigado pelas madeiras invernais, já cansado de tornar as copas de alto prumo em lenha para aquecer sonos tão pesados que não se sonham, tão escuros quanto a noite de chumbo sem pesar. A lâmina mastigada pelo vigor da vida partida não mais quer cortar, não mais quer se valer do seu destino. Mas a mão calejada do homem rude está ali, ignora a dificuldade crescente, bate com mais raiva, maltrata a si, maltrata aos seus. E o machado da realidade desce, corta, lenha. Prende-se a farpas, descasca anos de vigor, resiste à tudo, nega-se ao reencontro.
Deita o machado ao lado da montanha morta. A mão grossa, sem tato, áspera, corre a testa, seca o suor que brota em rios e margens. Os braços ardem, a circulação retoma aos dedos, o ar frio queima o peito e refresca. Pensa na sombra das lenhas ainda árvores, pensa no branco que abre-se a cada batida, relembra o nome dos pássaros que piam pausadamente, dispensa a memória das negações ainda vivas. Recobre-se de raiva, prepara a madeira, aperta as mãos ao redor do cabo da fragilidade. Não mais pensa, não mais vive, não mais respira.
E o machado desce. Cada vez mais cego.
Santa Rosa
por Luiz Pedro
Quero te escrever um livro.
Poesia em prosa,
sem começo, muito menos fim,
até meus dedos definharem.
Preencher paredes de páginas,
assinando com a febre que me deixaste,
suar em palavras todo o desatino que me provocas.
Pintar em cada muro,
em toda calçada,
nas portas da cidade,
desentranhar minha angústia em tintas gritantes,
inventar cores pra te dizer tuas.
Quero seus passos cruzando minha calçada,
desfazendo a impureza do meu peito,
percorrendo aquilo que já chamei de meus dias.
Não temas, minha pequena.
Com fé, nosso porto será a rede de nossos sonhos.
Ancorado
por Luiz Pedro
Se das tormentas não consigo aportar, ir a pique é apenas juntar-se as outras corajosas embarcações.
Combatemos contra o insone vento de lugar nenhum, mas não há força que resista a garganta de um mar faminto, ávido por descansar naus de longas jornadas. Senhor dos Mares, que paz encontrarei senão em seu estômago inóspito? Chega de perder meus homens nesse inferno de ondas, alagando nosso convés com o sangue de uma luta sem vencedor. Capitães de bravias rugas, oficiais incansáveis por caminhos distantes, tenentes obstinados em atravessar paredes de água revolta sem destino. Não é porque foram tragados para o âmago desse oceano, aos pés de sua imensidão, que perderiam seus rumos.
Longe de suas amadas, órfãos de suas moradas, pele rasgada pelo sol e curada pelo salgado atlântico. Guerreiros de remos empunhados, mãos calejadas por cordas tão firmes quanto o vigor do além-mar. O horizonte limita a visão da nossa solidão e o infinito torna-se nítido. Entoamos canções de saudade, apontamos a proa para promessas de águas plácidas, praia de areia fina, céu de brigadeiro. Não irei desapontá-los, mesmo que tenha que agarrar-me ao topo do mastro e cuspir sangue na tempestade que me arremessa aos 5 horizontes.
Se assim quiseres, hei de afundar lutando! Lutando até o casco rebentar-se no fundo de pedras, e, enrolado na vela que antes estufava o peito para puxar avante nossos corações, dormirei em seus braços, com a certeza de jamais ter zarpado.
Centroavante rompedor
por Luiz Pedro
Pestana, Teleco, Pedrão, Beto Mordomia; Celso Cachacinha e Tirolim. Assim era formado meio-campo e ataque daquele time que ganhava todas as peladas de Campo Grande. Na década de 70, só deu eles. Mas agora surge o desfalque do Tirolim.
Após alguns anos daquelas peladas memoráveis, Tirolim sofreu um acidente que lhe deixou seriamente debilitado, passando a ter várias complicações em sua saúde. Soma-se o avançar da idade e o resultado só poderia ser pior: entrou na faca várias vezes. Nos últimos meses, mal saía de casa. Nas últimas semanas, ficou confinado a cama. Uma hora tinha que acabar, acabou esta noite.
O time todo está reunido na abafada capelinha para se despedir do seu centroavante. O padre diz algumas palavras de alento, lá fora o coveiro espera para levar Tirolim. Os amigos se pronunciam a retirar o caixão da capelinha. Visivelmente consternados, se posicionam, erguem o ataúde de madeira simples e levam lentamente. Ainda sobra força naquele meio-campo de muitos anos e poucos cabelos.
Na arrastada procissão até o túmulo, o cemitério fica evidente. Não é dos maiores, tem um corredor principal que leva até um portal com os dizeres “ecce locus in quo habitamus”. Há simplicidade, poucos túmulos suntuosos, diversas cruzes brancas com números mal pintados. Aos poucos, vamos subindo uma leve colina. Alguém comenta que o pai do Tirolim havia comprado um singelo espaço no alto do cemitério por ser um local ventilado, de onde seria possível ver a roça. Todos reconhecem o espírito galhofeiro marcante daquela família.
Chegando ao jazigo, alguns se aproximam, outros se mantém distantes, descem o caixão. Eu poderia falar que, nesse exato momento, caiu uma fina chuva, apenas nesse momento, por breves 30 segundos. Uma breve homenagem. Mas seria piegas, batido, e vocês não acreditariam em mim. Então, só para constar, o sol pegava um pouco de lado, poucas nuvens pairavam. Tirolim, botafoguense, não ficaria nem um pouco satisfeito com a ironia que se dava: o coveiro cimentava seu túmulo, posando com um surrado boné do Flamengo. Algumas velas foram acesas, preces sussurradas. Todos foram se retirando, com uma tristeza já mais leve, cedendo espaço a conversas amenas.
Já de volta a entrada do cemitério, a procissão para, mas os assuntos continuam. Surgem sorrisos, lembranças queridas são revividas. Eu – que ali estava como ente recolhido, um pouco distante do burburinho descontraído que se tornava dominante – sou interpelado por uma senhora:
- Eles estão voltando de um enterro?
Respondo com uma sintética confirmação de cabeça. A intrometida, um pouco assustada, completa:
- Nossa, você é o único que está triste.
Viro-me para a conversa animada do meio-campo. Eles gesticulam recordações de alguma jogada, algum gol, alguma vitória. Como eles ficariam tristes com esse centroavante? Santo Tirolim.

Li uma crônica
por Luiz Pedro
Uma crônica bonita, bem escrita. Não era sobre verões vividos, sutilezas bucólicas, muito menos de languidas moças. Na verdade, pouco importa entrar em detalhes. Mas tinha a capacidade de, a cada palavra, fincar suas vírgulas em minhas retinas. Prendeu minha atenção. Pude ler ininterruptamente, com o prazer de continuar calmamente após cada período pontuado.
Impressionava o vigor constante que o autor imprimiu ao texto. Frases se alinhando com fluidez e veemência. Como um homem nadando no mar: acima da arrebentação, em braçadas lentas, mas traçando o seu caminho nas ondas com uma firmeza irrefutável. E me solidarizei com o escritor, em sua silenciosa missão de desbravar a folha em branco. Resolvi acompanhá-lo, tal qual um torcedor acompanha o nadador em seu recluso encargo de pavimentar os altos e baixos do oceano.
Não me decepcionei. Cheguei ao final com a satisfação de uma vitória, como o homem no mar, que toca os pés na areia em maré rasa. A crônica tinha um desfecho esperado, mas ainda assim sua reação provocada era de estranhamento. Só que um estranhamento de admiração, pela beleza que um final previsível ainda era capaz de desvendar. E então, tudo vira uma inquietação injustificável.
Fecho o livro, estico o corpo na poltrona, cerro os olhos para não deixar escapar aquelas imagens tão evidentes. Desperto e ergo-me. Arrastando os chinelos, caminho pausadamente em direção à cozinha. Encho um copo d’água e bebo com longos goles, desejando que assim me fosse permitido mais tempo para entender o que fazer com tal inquietação. Não há como guardá-la, já que tomaria muito espaço em meio ao meu arquivo já entulhado de desassossegos mundanos. De súbito, substituo os longos goles por longos e firmes passos de volta ao meu quarto. Sento-me em frente ao computador, abro o editor de textos.
E escrevo esta crônica.
Verde Sacudido
por Luiz Pedro
Para Gabriela.
Lá estava eu, sonhando novamente com meus seis anos, correndo pelo píer de tábuas corridas e tostadas pelo sol de verão. Corria saltitando para não queimar os pés e mergulhava naquele verde mar de Angra. Aquele verde manchado por pedras submersas me amedrontava terrivelmente, tanto por sua tonalidade sombria quanto pelo pavor do desconhecido. A água distorcia os rochedos profundos, tornando-os ainda maiores. Era o esconderijo perfeito para o monstro que me espreitava. Mas pulava, pensando que se o fizesse com muita força, o monstro se assustaria. Corria saltitando, queria uma pirueta bem impulsionada para sacudir vorazmente aquele verde mar de Angra. Mal sabia que o verde, outrora sacudido por mergulhos infantis, viria a revirar meus sentimentos adultos após quinze anos.
Demoro a perceber que meu sono é interrompido por sinos estridentes: o alarme do meu celular reclama que já passa das seis da manhã. Chafurdo no travesseiro por um instante e levanto-me. Tomo um banho semidesperto e enfio umas roupas quaisquer. Saio de casa apressado, apesar da meia hora de folga. Ponho os pés ainda cambaleantes na rua também sonolenta e encosto num poste, ao lado do ponto de ônibus.
A viagem para a faculdade é um dos momentos mais agradáveis da manhã. Aproveito para contemplar o meu Rio de Janeiro em seus primeiros bocejos. O trajeto traz a praia de Botafogo, com o sol ainda desvencilhando-se de Niterói. Na seqüência, tenho as árvores do Aterro do Flamengo. Tenho até uma predileta: copa esparsa, densa, beira-mar, fazendo pose manhosa e dobrando seus galhos em cartão-postal.
Chegando ao Centro, desço em frente ao Panteão de Duque de Caxias. Atravesso as tantas Avenidas Presidente Vargas, prestando atenção nos ainda poucos carros e na Candelária que reflete uma quase luz própria. Cruzar o Campo de Santana é entrar num novo mundo. Ou melhor, num mundo tão antigo que não seria absurdo imaginá-lo pré-histórico. O sol ainda baixo, cortando os galhos das árvores. Árvores enormes, onde sua grandeza revela séculos de lento e paciente crescimento. O silêncio precede o estorvo.
Deixo o Campo de Santana. Esquerda, um bar; direita, a porta da faculdade, já com carros tomando toda sua entrada. Olho para ambos, busco qualquer porto. Nada. Finjo estar focado nos passos medidos, ando depressa como que atrasado. Não desvio o olhar para qualquer lado. Entro em sala, aquele amontoado de pessoas e cadeiras. Mais do primeiro do que do último. Outras pessoas entrando, se esgueirando pelo pouco chão que resta. Cada um trazendo sua cadeira na cabeça, como que exilados trazendo suas vidas nas costas. O calor parece não querer deixar a sala, quer testemunhar. O suor brota, qualquer movimento torna-se incômodo.
Aos poucos, sem aparente motivo, o tempo transcorre como que sem pressa. Busco meu relógio, o ponteiro dos segundos se ressente da minha desconfiança e trava. Ergo a cabeça. Demoro a perceber que aquela visão não tinha nada familiar com qualquer momento que eu já tivesse vivido. Pode parecer piegas, mas acho que os sentimentos mais fortes não se diferenciam em várias nuances. Pode parecer piegas, mas é a mulher mais bela que já passou pelos meus olhos. Não consigo dizer que era um anjo, nem que eu me sentia no paraíso, menos ainda que ela era a presença divina na minha vida. Muito pelo contrário. Era tão linda que me amedrontou, feito o monstro do mar. Não tive a impressão de ser uma presença divina, tive a impressão de ser uma presença diabólica. Aquela mulher havia sido feita num ateliê do inferno, onde todos os detalhes foram cuidadosamente pensados e moldados apenas para me atormentar, para me tentar. Ou talvez aquela tentação fosse o próprio demônio encarnado. Sim, por tamanha perfeição, só poderia ser o próprio. Ele descobriu até o que eu não sabia gostar, até o que eu desconhecia me ser tentador.
Alta, mas não muito. Alta o suficiente para se destacar das divinas. Cabelos pretos, lisos, levemente ondulados nas pontas. Ali, naqueles malignos negros, era por onde o espírito do mal deixava transparecer sua sombra. Talvez também nos olhos, mas não pude olhá-los fixamente. Acredito que também negros. Mas certamente olhar diretamente naqueles olhos – mesmo que por um breve instante – seria a entrada para a eternidade nas profundezas. Não me arrisquei. Deveria. Valeria o risco.
Dando o contraste de precisão artesanal, a pele alva me desesperava. Desesperava pelo quão tentador era desejar saber a textura de cada entrelaçado de sua tez. Era como estar numa exposição, onde haveria uma jóia de inestimável valor. Entre a jóia e a mão, nenhuma separação, barreira, impedimento, nada. Você pode tocar, mas não deve. Quais seriam as conseqüências de tal ousadia? Deveria. Valeria o risco.
Entretanto, tais descrições físicas não valeriam o rótulo de tentação diabólica se não houvesse aquele vestido verde. Ali, achei o elo com a realidade. Com o verde no qual eu me enfiava, temendo o monstro da minha cabeça. Era a assinatura de que não poderia ser uma manifestação divina. Era o verde em que eu mergulhava, sabendo que o monstro estaria a minha espera.
Essa visão durou pouco. Durou o tempo suficiente para não respirar, mas não sentir necessidade de fazê-lo. Logo ela se foi, deixando apenas o rastro da mudança. De que nada seria como antes, de que minha vida se dividia agora em duas. Uma nova parte de mim estava nascendo ali, naquele momento.
E então, tudo ficou claro. As rugas da minha fronte dissiparam-se. A vida se debatia à minha frente, como um peixe fisgado já no chão do barco. Não havia mais volta. Tudo se chocava e desfalecia. Eram ondas desencontradas no sacudido mar de Angra.
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