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Cara ou Coroa

Pasta, carteira, chave do carro, telefone, tudo em dia. Entro no elevador e aperto o botão do primeiro andar. Logo na parede eu me olho no espelho do elevador e confiro o nó da gravata. Fez o nó francês, já para causar uma boa impressão. O terno é novo, comprado ontem. A calça, muito bem passada, combina com os sapatos novos de couro italiano. Coisa fina. Tudo ia se encaminhando conforme as expectativas. Aquela era a última de uma série de entrevistas. Esperava por aquele emprego há bastante tempo. Era a chance de ouro, mal podia imaginar. Sentia que em alguns instantes, tudo iria mudar E não deu outra. O elevador parou no meio do caminho. Ficou enguiçado entre o sétimo e o oitavo andar. O porteiro informou que o conserto só viria em algumas horas. Apreensão, nervosismo, desespero, raiva, angústia, tristeza: todos os sentimentos se revezavam naquele momento. Mas um deles se destacou: a curiosidade. Dentro do elevador, parado entre os dois andares, não havia apenas um futuro empresário de sucesso, mas também uma jovem criança. E aquele momento, para ela, não poderia ser melhor. Hoje ela faria prova de ciências. No entanto, o elevador parado significa para ela não apenas o adiamento do inadiável, mas também a conquista de mais algumas horas de Playstation naquele dia, já que não chegaria na escola a tempo. Azar de uns, sorte de outros.

Viena

Eu havia acabado de chegar. A aula já tinha começado há alguns minutos e na sala restaram apenas os lugares mais distantes do quadro. De longe, pouco enxergava. Com sono, pouco me concentrava. Cansado, pouco entendia. Enfim, era um péssimo dia para ir à aula. Mas lá estava eu, não sei o porquê. Pensei que não precisava estar ali naquele momento.

- Então, para calcularmos a compatibilidade do sistema, devemos verificar a sua nulidade do conjunto de equações através do posto da matriz dos coeficientes e o seu número de incógnitas…

Incógnita era a minha presença na aula. Pensei que poderia estar tranqüilo correndo na praia, ouvindo música, jogando uma altinha e bebendo mate com dois dedos de limão. Depois de matar a sede correria em direção ao mar e…

- O conjunto solução obtido pela eliminação Gaussiana forma uma base vetorial com n graus de liberdade…

Liberdade, eu precisava muito disso. Apesar de ninguém estar me segurando, me sentia preso dentro da sala de aula. Precisava sair de lá, da sala, da faculdade, da cidade, do país! Esquecer tudo e virar hippie em algum país afora. Iria me dedicar à música e viver de gorjetas obtidas tocando violão no metrô de Nova Iorque. Ou me apresentar como músico especializado em Bossa Nova e tocar em cervejarias em Viena. Ou então…

- Através da obtenção dos autovalores do operador linear, será possível identificar os possíveis autovetores que formarão uma base da matriz diagonal que será utilizada nas demais transformações lineares.

Nesse momento me levantei. Não havia nem 15 minutos que eu estava fisicamente na aula, mas decidi ir embora. Arrumei minhas coisas e guardei tudo na mochila, me levantei e fui. O professor, ao me ver passar, parou a aula, olhou para mim e disse:

-Você mal chegou e já vai embora? Assim não vou poder te dar presença

- Professor, não me leve a mal, mas agora eu estou indo à praia. Quem sabe, se eu tiver sorte, semana que vem estarei em alguma cervejaria em Viena. Caso não nos vejamos mais, seja feliz com as matrizes.

Invasão

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

Levantei da cama assustado. Estava ouvindo um forte barulho no vidro do quarto. Cheguei a pensar que crianças estavam tentando estilhaçar a janela do meu quarto jogando pedras, mas logo me dei conta de que isso era quase impossível, pois moro no oitavo andar. Mal humorado, me levantei para verificar o que era tal barulho na janela. Para minha surpresa, era um pássaro. Eu não fazia a menor idéia do que ele estava fazendo do lado de fora da minha janela, pendurado na grade. Tampouco por que estava bicando o vidro da janela intermitentemente. Pensei que ele poderia estar com fome. Não tenho linhaça em casa, mas tenho algumas frutas. Busquei um pedaço de maçã que estava na geladeira e fui dar para o pássaro. Quando eu abri a janela, ele voou. Acho que assustei o pássaro. Guardei a maçã e voltei a dormir.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

Pus a mão na cabeça e me protegi! Com certeza era bala perdida. Tentei me proteger com o travesseiro da guerra entre traficantes e policiais que acabava com a minha tranqüilidade. Aos poucos, fui reconhecendo o barulho e pensei: será novamente o pássaro? Abri a cortina e lá estava ele, de novo, por algum motivo bicando a janela do meu quarto. Ao cogitar abrir a janela, ele bateu as asas e se foi. Era a segunda manhã seguida que isso acontecia. Eu já estava ficando com raiva do MALDITO PÁSSARO FILHO DA PUTA que perturbou o meu sono. Precisava fazer alguma coisa.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

“TOC, TOC, TOC, TOC…”.

A essa altura, eu não me incomodava mais. Tentei assustar o pássaro, prendê-lo em uma gaiola, envenená-lo, mas nada funcionou. Então, passei a dormir nestes últimos meses na sala. Maldito pássaro filho da puta.

Brincando

Pedrinho mal podia acreditar. Ele ganhou de presente de aniversário de seu tio mais velho um cachorro. Não era um simples cachorro, mas um cachorro adestrado, desses que disputa competições. Só pelo nome, ele já se mostrava imponente: Sagaz.

Sagaz tem inúmeros prêmios em modalidades que ninguém fazia idéia do que fosse, mas os troféus acompanhavam o canino no embrulho do presente. Os cuidados com o cachorro eram de primeiro mundo, tal como a sua ração, importada do Canadá.

Os olhos de Pedrinho brilhavam, mal podia esperar para brincar com o cão. Correu até o quarto, buscou uma bolinha de tênis velha dentro do armário e foi para a rua brincar com cachorro. Conduzindo-o pela coleira, Pedrinho não conseguia esconder a ansiedade para ir brincar com o seu novo presente na praça perto de casa. Já havia contado aos amigos a novidade.

Ao chegar à praça, soltou o Sagaz, pegou a bolinha de tênis no bolso e a arremessou o mais longe possível, quase a perdendo de vista. Em seguida, disse:

 - Pega Sagaz!

O cachorro sequer se moveu para ver o que Pedrinho havia arremessado. Pedrinho não entendeu o que havia dado de errado. Foi buscar a bolinha. Enquanto isso, pensava no que poderia ter dado de errado. Concluiu que ele deveria ter mostrado a bolinha de tênis ao cachorro. Assim, ao retornar chamou o cachorro e disse:

 - Aqui, Sagaz, olha a bolinha, olha! Agora pega, Sagaz!

Outro longo arremesso, dessa vez na direção do campo aberto, para que o Sagaz pudesse observar onde a bolinha cairia. Ao menos, o cachorro acompanhou a trajetória da bolinha. Após ela cair no chão, ficou olhando para a cara do Pedrinho. E Pedrinho? Bem, mais uma vez, foi buscar a bolinha. Enquanto analisava o que havia dado errado, pensou que talvez devesse colocar a bola perto do focinho do cachorro para que ele pudesse cheirá-la. Aí, então, o cachorro reconheceria o percurso pelo rastro do cheiro da bolinha e a buscaria. Assim, não deu outra:

 - Sagaz, cheira a bolinha, cheira! Isso amigão! Agora, pega!!!

Dessa vez, até o Pedrinho perdeu de vista o arremesso. Sagaz, então, se moveu. Estava de pé, passou a ficar deitado no chão. Pedrinho ficou irritado. Decidiu ir para casa, já que o cachorro não queria brincar. Enquanto pegava a coleira, Sagaz correu desesperadamente. Minutos depois, retornava ele, para o alívio de Pedrinho que disse:

 - Vamos embora, agora, seu cachorro preguiçoso. Só quer ficar deitado aí no chão e quando é hora de ir embora, some. Na hora de buscar a bolinha, fica parado que nem uma estátua. Você não serve pra nada, mesmo…

Pedrinho pôs a coleira no Sagaz e foi para casa. Ao chegar em casa, soltou Sagaz e foi para o quarto. Curiosamente, encontrou a bolinha de tênis em cima de sua cama.

Dedicação

     

Celso Gomes era um professor universitário muito bem conceituado. Com artigos publicados em revistas acadêmicas do país e do exterior, gozava de muito prestígio entre professores e alunos. Devido ao seu grande prestígio no meio acadêmico, as poucas vagas disponíveis para as suas aulas tornavam-se extremamente disputadas pelos alunos. Seus artigos eram referência obrigatória para qualquer publicação. Suas palavras eram sinônimas de sabedoria, interpretadas como uma verdade absoluta.

     

Era final período, os alunos precisavam realizar a última avaliação do curso. Muitos, então, se dedicaram ao máximo para realizar um bom trabalho, pois o enxergava como uma possível tese acompanhada de uma carta de recomendação para uma universidade estrangeira, além do prestígio pessoal de ter trabalhado junto ao professor Gomes. E eu era um deles.

     

Depois de pronto é que percebi o quanto aquele trabalho havia consumido muito do meu tempo. Meses de dedicação e leitura sobre o tema nas principais revistas do Brasil e do exterior. Realizei uma resenha de praticamente tudo o que já foi publicado antes. Depois, fiz inúmeros testes e simulações matemáticas nos computadores do laboratório de análises. Equações, fórmulas, hipóteses, teorias, conseqüências, resultados e, enfim, conclusões. Era um trabalho muito bem feito. Resumo e Abstract no início, índice de siglas, figuras e tabelas, bibliografia. Os gráficos eram renderizados, todos em 3D. Talvez fosse o melhor trabalho já realizado na minha vida. Cheguei a sentir orgulho de mim mesmo, pois acreditava que aquele trabalho poderia ser o meu passaporte para o doutorado no exterior! Afinal, tamanha dedicação deveria valer alguma coisa.

     

Enfim, chega então o tão aguardado dia da entrega dos trabalhos. Muitos alunos haviam aguardado ansiosamente por esse momento, principalmente eu! Alguns reliam os slides que logo iriam apresentar, outros se apressavam em corrigir alguns poucos detalhes da apresentação, mas ninguém ficava parado. Eu havia me preparado bem para a apresentação na noite anterior, pois costumo ficar nervoso e esquecer detalhes importantes em apresentação de trabalhos. Mas hoje, com certeza vou apresentar um grande trabalho.

     

Assim, às 10:00 da manhã, a secretária do professor aparece na sala de aula e nos passa o seguinte recado:

     

- Bom dia, alunos. O professor me ligou ontem de noite e me disse que iria antecipar as férias dele em uma semana para poder participar de um congresso na Europa no final do mês. Assim, estão todos automaticamente aprovados, não precisam entregar os trabalhos. Boas férias!

Amizades

Leblon, 9 da manhã. Era uma manhã de domingo. Ia andando buscar o meu jornal de domingo na banca mais próxima de casa. Chinelo, bermuda, camisa amassada. Carregava meio sem jeito um punhado de moedas que me serviriam para comprar o jornal de domingo e o cigarrinho da manhã. Enquanto caminhava, observava a paisagem. Ciclistas passando, pássaros cantando, crianças brincando, opa! Não acreditei no que estava vendo em um primeiro momento. Era um carro importado. Mas não era um simples carro, era uma autêntica máquina italiana! Aquele modelo sequer existia no país, sua venda era permitida apenas para colecionadores. Potência, design, conforto, tecnologia, enfim, era O Carro. Ele havia parado na minha frente. Eu aproveitei aquele momento curto para dedicar o primeiro trago do dia à minha admiração sobre aquela que seria uma das novas maravilhas do mundo contemporâneo. A combinação entre o metal da carroceria e a luz solar criava o espelho mais nítido que eu já havia visto. Podia ver meu rosto ainda sonolento no reflexo do vidro. Podia. Naquele momento o vidrou do carro foi abaixando e a minha imagem foi dando lugar a uma outra imagem divina no banco do carona. Ainda mais divina que a imagem do próprio veículo. Era uma mulher. Um espetáculo de mulher. Uma morena relativamente alta. Deveria ter 1,80 m. Seu cabelo era ondulado. A pele, morena. Seus seios não eram grandes, tampouco pequenos. Pareciam ser do tamanho ideal: do tamanho da palma da mão. O rosto era fino, de traços fortes. O nariz, pequeno, e os lábios, grandes. Os olhos verdes contrastavam com a pele morena. Enquanto vivia um sonho, uma voz serena, mas convicta, me alçava novamente à realidade:

- Com licença, senhor. Seguindo por essa rua eu chego à Barra da Tijuca, certo?

- Não, minha senhora. Por esse caminho vocês retornam à Lagoa.

- Então como fazemos? – ela perguntou novamente.

Aproveitei a ocasião para me aproximar dos enviados de Deus. Afinal, não poderia abusar da sorte, desastrado que sou. Então, me aproximei do veículo para passar as instruções corretas, quando olhei para o motorista. Ele olhou para mim e disse:

 - Fábio?! Lembra de mim, o César Augusto?

- Perdão, senhor. Deve ser algum engano.

- Ah, então me desculpe. É que você é muito parecido com um amigo meu que estudou comigo.

- Ok, tudo bem. Não há problemas. Faça o seguinte. Seguindo por esse caminho mesmo vocês chegam na Barra.

- Mas esse caminho não era o da Lagoa?

- É sim, mas serve também.

- Ah, ok, amigo! Muito obrigado!

- De nada!

Naquela oportunidade, era a única coisa que eu poderia fazer. Os mandei para o lugar errado. Afinal, eu odeio o César Augusto.

Escolha

Era manhã de uma terça-feira. O barulho que vinha da janela já indicava uma terça-feira bastante chuvosa. O celular tocava mais alto, já pela terceira vez. O despertador fazia a mesa vibrar. Logo a sua música favorita se tornaria na mais desagradável de todo o dia.  Enquanto decidia se estenderia ou não a soneca por mais dez minutos, avaliava se valia a pena chegar muito atrasado, ao invés de apenas atrasado. Mas naquela ocasião, não valia. Olhou rapidamente para a janela, que confirmava com a fraca claridade que o dia realmente havia começado. Ao se levantar, ouviu:

- Amor, aonde você vai?
- Tenho que ir.

- Você não pode ficar mais um pouquinho? – ela perguntou enquanto acariciava as suas mãos.
- Hoje não, querida. Infelizmente…
- Ah, amor… queria que você ficasse mais tempo aqui…

- Eu também queria ficar mais tempo, mas infelizmente hoje não dá. Tenho uma reunião marcada com a diretoria, tenho que apresentar o relatório mensal.
- OK, amor… mas quando você voltar, você vai me pagar em dobro.
- Pode ter certeza, minha linda.

Ele se arrumou, mas dessa vez não teve os cuidados habituais. Logo desceu do prédio. Não foi de carro, tomou um taxi. O destino era o aeroporto. Lá encontraria Helena, sua amante. O destino era Natal-RN. Três dias em “reunião”. Depois voltaria para casa e encontraria sua mulher, conforme o plano. Porém, dessa vez, ela não estava mais lá. Havia apenas um recado na cama. Ela fez a sua escolha.

Ciclos

- Então, eu acho que é isso. Acabou.

Era o fim de um relacionamento de 8 anos. As lágrimas no rosto traduziam a tristeza daquele momento. Afinal, eles foram muito felizes durante muito tempo. Festas, jantares, viagens, sorrisos, risadas, abraços, beijos, nada mais ocorria. A novidade foi trocada pela rotina e os elogios pela educação. O desejo não era mais vontade. A excitação virou sonho e o sonho acabou.

Porém, apesar de tanto tempo, eles ainda eram jovens. Havia caminhos diferentes para uma nova vida. Novas atividades, novas amizades, novas paixões. A vida continuaria enquanto a triste lembrança seria aos poucos substituída por outras novas, mas não menos interessantes. Novas fotos substituiam aquelas do porta-retrato. Logo, já havia um novo álbum de fotos montado. Tudo era novo. Exceto os desejos. Esses sim, ainda eram antigos.

As novas piadas não tinham tanta graça. As piadas sem graça não tinham graça nenhuma. As fotos eram formais. Os sorrisos não eram espontâneos. Os beijos, sem sincronia. O abraço não encaixava com o corpo. Os corpos não se encaixavam. A vida não era a mesma. Eles eram felizes, mas não sabiam.

- Vamos voltar?

- E se não der certo? Talvez essa não seja a melhor saída para nós.
- Vamos tentar de novo.

- Já tentamos de novo, inúmeras vezes… e cada vez que voltamos, terminamos mais tristes.
- Mas ainda estamos tristes.
- É porque ainda não acabou.

Agora acabou. Era o fim.

Informação

Ana Carolina Strauss-Kahn é uma médica bem-sucedida. Dona de uma das principais clínicas médicas da cidade do Rio de Janeiro, ela tem o perfil da mulher moderna. Pós-graduada em Berkeley, é a principal referência em seu meio profissional. Vive sempre bem informada e se recusa a depender de ajuda de qualquer pessoa para qualquer tarefa. Ana Carolina queria mostrar que poderia superar qualquer pessoa em suas tarefas, principalmente os homens.

Assim, decidiu levar por conta-própria o seu carro no mecânico. O carro possuía apenas duas semanas de uso. Ainda com cheiro de novo, o banco do carro tinha o saco plástico que o protege o estofado. Ela havia percebido um barulho estranho no interior do veículo que começou a incomodá-la desde o final da tarde de sábado, quando voltava de uma viagem rápida de Búzios. Então, ela decidiu procurar um mecânico para verificar o problema.

Sem ajuda de ninguém, apenas com algumas poucas referências do Google, levou o carro ao mecânico mais próximo de seu trabalho na hora do almoço. A oficina mecânica se situava na Tijuca, a poucos minutos da Praça da Bandeira. Após alguns sinais de trânsito, ela encontrou a rua que procurava sem dificuldades. Bastava agora achar a oficina. Esse era o problema. Oficinas, ela contou ao menos uma dúzia, todas enfileiradas uma ao lado da outra. Após conferir o número da oficina correta em seu BlackBerry, ela estacionou o carro ao lado da sua referência.

Ao abrir a porta, estranha o comportamento das pessoas ao redor. Todos olhavam paralisados para ela. Afinal, por aquelas bandas não se via carro como aquele. E nem mulheres como aquela. A conjugação dos dois foi um choque para a rua toda.

O mecânico da oficina, atento ao fato se apresenta:

- Boa tarde, senhora. Posso Ajudá-la?

- Boa tarde, senhor. Meu carro está com um barulho estranho no motor, mas não sei bem do que é, gostaria que você tentasse descobrir o que é esse barulho.

O mecânico mal ouve o barulho e logo diz:

- Olha minha senhora. Com esse barulho, vou ter que mandar fazer uma revisão em toda a suspensão, e dar uma olhada também nos pivôs que sustentam a roda, pois se eles quebrarem a roda sai. Aí, minha senhora, é um perigo…  

Ela se assusta de início. Não imaginava que um carro novo já tivesse tantos problemas. Mas, logo veio a desconfiança. Achava que estavam passando a perna nela. Então, ela pergunta:

- E quanto você acha que vai sair isso?

- Olha, minha senhora… eu ainda não sei, pois também vou ter que dar uma esticada nas correias, passar parafina na vela e verificar o rolamento do alternador. Depois vou limpar o motor com descarbonizador e, se precisar, trocar o óleo. Vou dar uma regulagem nas válvulas e verificar os freios. Deixa eu pegar a calculadora para fazer as contas, mas não deve ser menos de 3 mil reais.

Após ouvir o valor, ela achou que poderia estar sendo enganada. Estava praticamente decidida a sair dali e procurar outro lugar. Enquanto ela decidia o que fazer, o mecânico foi buscar a calculadora na gaveta de baixo de sua mesa. Em seu movimento, sentiu uma leve dor nas costas que o obrigou a fazer uma cara feia. Então, ela disse:

- Você está com dor nas costas?

- Estou, mas é algo passageiro… já estou tomando remédio, logo ela vai passar.

- Bom… eu conheço pacientes que sofreram de dores terríveis por causa de doenças da coluna, reumatismos, artrite. E se você não estiver tomando a medicação correta, você vai ter efeitos colaterais gravíssimos como torcicolo, dorsalgias, lombalgias e doenças da coluna cervical. Você poderá sentir para sempre a dor de uma contusão muscular, distensão ou mesmo estiramento. Contraturas, rigidez articular, entorses e limitação dos movimentos da coluna serão constantes na sua vida. Mas se você quiser, eu posso encomendar o remédio correto para você.

O mecânico olhou para ela assustado. Achava que poderia ser um problema relativo ao esforço físico repetitivo feito ao longo da sua vida no seu trabalho de mecânico. Então, ele perguntou:

Você é médica, senhora?

- Sou sim – respondeu ela.

- Então, o que a senhora acha que eu devo fazer?

- Vamos fazer um trato: você dá um jeito no meu carro que eu vou receitar um tratamento para você. Enquanto você resolve o problema, eu vou comprar o seu medicamento.

Prontamente, ele aceitou. Achou melhor não desconfiar do trabalho sério de uma médica. Já ela, deixou o carro com o mecânico, foi à esquina, comprou alguns comprimidos anti-inflamatórios, e os colocou dentro de um pequeno vasilhame, também comprado na farmácia. Esperou 40 minutos, entregou os remédios a ele e pegou o carro. Sem mais ruídos. Achou que fez um grande negócio. Ele também.

O Efeito Dinâmico das Cotas Sociais

Mãe, Pai! Passei no vestibular!!!

Os pais abraçaram orgulhosos o pequeno Joãozinho! O pai logo correu para o quarto para abrir a garrafa de whisky que ele ganhara certa vez do seu chefe de brinde no Natal. Já o sorriso da mãe estampava o rosto e atravessava as duas orelhas. Ela já se imagina contando a novidade para as amigas do salão de beleza em que trabalha. Afinal, nenhum deles jamais havia sonhado entrar em uma universidade, uma vez que apenas a mãe terminou o ensino médio e o pai abandonou os estudos para poder trabalhar e sustentar os custos do nascimento do primeiro de três filhos do casal. Apesar de sempre desejarem um bom futuro aos seus filhos, jamais cogitaram que seus filhos fossem cursar uma universidade. Parecia um sonho para eles.

Joãozinho tem 18 anos, é morador do Méier e terminou o terceiro ano no CIEP próximo ao sambódromo. Ele havia decidido fazer a prova do ENEM apenas por fazer e obteve apenas um resultado modesto garantido pela boa nota na redação, nada extraordinário. Porém, ele foi beneficiado pela política de cotas universitárias, que lhe proporcionou uma bolsa de estudos do PROUNI. Ele deverá cursar uma universidade privada no próximo ano e receberá uma pequena ajuda de custo para transporte e xerox. Vai cursar informática.

Para cursar a faculdade, João terá dificuldades, já que terá de conciliar seu emprego na Lan House próxima à Praça da Bandeira com o horário da aula. Porém, maior dificuldade ainda será a de aprender o que não aprendeu. O seu ensino médio foi marcado pelas poucas aulas, ausência de professores e baixa qualidade de educação, além da ausência de valiações periódicas recorrentes. Terá que estudar muitose quiser se formar. Mesmo que o faça, talvez não seja suficiente. Talvez seja.

João é de alguma forma relativamente qualificado. Muitos outros sequer conseguiram entrar. Muitos mesmo. João sabe muito pouco. Mas muitos não sabem absolutamente nada. João não teve uma base educacional mínima necessária para ingressar no curso superior, mas vai cursá-lo. Talvez o termine. Mas para isso, terá que contar agora mais com esforço próprio do que com ajuda de terceiros. Principalmente com o esforço próprio. Até porquê já teve “muita” ajuda de terceiros, se forem comparadas as suas oportunidades com as que seus pais tiveram. Ele perceberá que está muito à frente deles, graças ao “empurrãozinho” do governo.

Certamente ele não será o melhor aluno da faculdade, nem mesmo de sua turma. Será candidato a aluno de mais baixo desempenho da faculdade e favorito a encabeçar as estatísticas de evasão escolar. Mas se o Joãozinho se formar, será então merecido, apesar de ser a sua obrigação. Só dependia dele e ele fez por onde. Ainda, ele terá chegado a um patamar no qual ninguém da sua família jamais chegou.

Agora Joãozinho se forma e consegue um emprego. Ele trabalha no setor de processamento de dados em uma média empresa que presta serviços a uma afiliada da Petrobrás. É um trabalho técnico, burocrático e sem grandes desafios. Vez ou outra faz hora extra, o que o faz chegar atrasado em seu curso preparatório para o concurso de técnico da Eletrobrás. Tem planos mais ambiciosos e uma qualidade de vida inquestionavelmente superior à de seus pais.

Então fica a pergunta: se Joãozinho tiver filhos, eles serão também alvos da política de cotas para universidades? 

Risco e Recompensa

A teoria econômica é fundamentada na avaliação feita pelos agentes econômicos entre o risco e a recompensa de cada decisão tomada. Como é de se esperar, para se obter maiores recompensas é necessários correr maiores riscos. Qualquer que seja a decisão que um indivíduo toma, ele sempre espera ficar em uma posição melhor do que a que ele atualmente está. Aliás, ele espera. Mas ele jamais terá certeza de que vai ficar, pois ele não é capaz de prever o futuro. Assim, ele avalia os riscos, as recompensas e toma a sua decisão.

Desse modo, a experiência de vida que o indivíduo carrega acaba servindo como suporte para formar as suas expectativas sobre um futuro próximo, porém incerto. Para qualquer situação, ele sempre lembrará do seu passado e com base nele tomará a melhor decisão para o seu futuro.

Entretanto, o indivíduo não é capaz de avaliar as conseqüências, riscos e recompensas de uma novidade, de uma surpresa em sua vida. Em um ambiente completamente novo, não há passado para orientar as suas decisões. Diante a tantas mudanças, é difícil tomar uma decisão com tão pouco conhecimento sobre o caminho a ser trilhado. Logo, não há um comportamento esperado por ele para essa situação inédita. Neste caso, só resta uma coisa a se fazer: ALL IN!

O Papel da Imprensa

Imprensa e Democracia estão intimamente associadas. Este é o chavão dos jornalistas. Afinal, a própria Constituição garante a livre expressão da atividade de comunicação. Após a abertura política no Brasil, jamais se questionou o papel da imprensa no país. Ela não permite o seu questionamento. Quando se tenta, afirma-se que questionar a imprensa é como questionar a democracia, um ato de censura.

Porém, desde que a Constituição Cidadã foi promulgada há mais de 20 anos, inúmeros problemas sociais que deveriam ter sido resolvidos há muito tempo ainda não o foram. Pobreza, desigualdades regionais e violência, apenas para citar alguns poucos. Logo, ou a Democracia não funciona ou a imprensa não funciona (ou ambos). Quem são os responsáveis pelo insucesso (fracasso)? A imprensa diz que são os políticos, responsáveis pela gestão pública no país.

Assim, questiono: qual é o papel da imprensa?

Como instrumento da democracia, a imprensa tem o papel de informar à sociedade o que ocorre no país.

Mas como uma empresa privada, seu objetivo é o lucro através da venda de informação para quem a compra.

Logo, a imprensa é eficiente apenas economicamente, pois consegue lucrar e o seu business se sustenta ao longo do tempo. Caso contrário, já teria falido e fechado as portas. Já como instrumento da democracia, ela não tem sido eficiente, pois os mesmos problemas sociais persistem há mais de 20 anos.

Não se consegue trazer à opinião pública informações de modo a pressionar a sociedade brasileira a cobrar as mudanças esperadas. Mas quem sempre comprou informação continua comprando. Parece satisfeito com o produto que compra. Parece satisfeito com a sociedade em que vive.

Vida, Liberdade e Sociedade: a questão do aborto

Cedo ou tarde, muitas pessoas têm filhos. Algumas delas passam boa parte da vida planejando como será sua vida a partir de então. Com apenas 10 anos de idade as meninas já sabem quantos eles serão, o sexo de cada um e o nome deles. Os homens só querem escolher o time que eles vão torcer e não escondem o desejo de que sejam “pegadores” na escola, mesmo que o pai não tenha sido propriamente um. E também esperam que a mulher não ponha um nome esdrúxulo em seus filhos. Pedro Thiago, por exemplo.

Ter filhos é uma necessidade biológica do ser humano, bem como a nutrição. A primeira necessidade é a de perpetuação da espécie enquanto a segunda indica a necessidade dos indivíduos prolongarem sua existência. E a gravidez é um dos principais indicativos de que a perpetuação da espécie humana está para acontecer.

Quando a gravidez é proposital, não há maiores conseqüências, pois a gravidez foi fruto do planejamento familiar. Houve um preparo psicológico da mãe/pai para poder receber um filho e também o preparo de uma estrutura que permita garantir à criança boas condições de crescimento e desenvolvimento.

Entretanto, a gravidez pode ocorrer acidentalmente, e não da forma como foi desejada. Qual a diferença? Se quando a gravidez é planejada a criança tem a melhor estrutura possível para o seu crescimento, quando a gravidez é acidental a sua estrutura não será a melhor possível. Assim, a qualidade de vida da criança não será a desejada pela mãe.

E quais as conseqüências nesse caso? Elas podem ser muito pequenas, quase imperceptíveis. Mas isso apenas quando as condições sócio-econômicas da família forem favoráveis. Caso contrário, pode ocorrer o amadurecimento precoce de uma mãe jovem, até mesmo com o seu abandono escolar, um grande impacto financeiro para a família e baixa assistência à criança recém-nascida.

Em alguns casos, tais conseqüências podem afetar o desenvolvimento da criança e o problema, que antes era familiar, tornar-se social. Imagine o caso de uma mãe cujo filho não foi reconhecido pelo seu pai. Então, o impacto financeiro é tamanho que essa mãe se vê forçada a abandonar seus estudos para sustentar seu filho. Ainda há o agravamento de que sem escolaridade, o seu salário é menor. Seu filho cresce sem a companhia do pai, que não o reconheceu, e da mãe, que trabalha para poder sustentar a família. Se o futuro dessa criança for a marginalidade, o problema deixa de ser familiar e passa a ser social. É claro que o exemplo não é a regra geral, mas é um caso bastante freqüente na atualidade.

Assim, a interrupção da gravidez passa a ser uma possibilidade dentro das opções da mãe. Não pela sua preocupação social, mas também pela sua preocupação com as condições de vida dada ao seu filho, por vezes, bastante diferente das de seus sonhos de infância. Porém, muitas vezes se questiona o direito da criança à vida, já que ela não pode se defender. Ainda, desde os tempos de Freud já se observava que a interrupção pode causar problemas psicológicos à mãe.

Certamente, até antes do ato sexual não há vida. Certamente também, há vida após o parto da criança. Logo, pode-se concluir que a vida começa em algum momento entre o ato sexual e o parto. Assim, resta a questão: quando exatamente começa a vida?

Há quem diga que seja no momento da fecundação. Mas o fato de haver fecundação não quer dizer que a mulher, autônoma sobre o seu corpo, está preparada para ser mãe. Logo, não há preparo para haver vida. Assim, a definição de vida pode ser também psicológica, além de biológica. Se a mãe não estiver preparada para ser mãe e as mudanças sobre o seu corpo comuns na gravidez não a convenceram do contrário, a interrupção, sim, pode ser uma opção real. Um bem para ela, seu filho e para a sociedade.

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