Posts de outubro \01\UTC 2011|Página de posts mensais

Deixe ela se curtir

por Luiz Pedro

Poucos são os momentos mágicos da vida. Ver no estádio seu time ser campeão, segurar seu filho no colo pela primeira vez, assistir o pôr-do-sol na companhia dos seus melhores amigos. Não, esses não são momentos mágicos. Talvez espetaculares, sensacionais, inesquecíveis. Mas são naturais, racionais, não possuem aquela faísca estranha que contamina o ambiente com um ar sobrenatural. Mágico mesmo é o momento em que você presencia uma mulher se masturbar.

Não serve câmera escondida, muito menos vídeo pornô. Não conta pedi-la para se tocar, nem prostituta. Tem que ser a sua mulher, ao vivo, a poucos centímetros, disponível ao toque, espontaneamente. Aquela mulher de cabelos presos, passos contidos, tímida, criada por pais omissos, anos de educação católica, menina assustada com a aula de religião doutrinando o erro e o pecado de curtir o próprio corpo, com a pena capital de jamais entrar no céu eterno. Aquela mulher reprimida por todos os lados, que não se permitia prazer, até ler em alguma revista ou conversar com alguma amiga que se masturbar era uma experiência necessária, instintiva e violentamente libertadora.

Tal magia se dará na cumplicidade do charco dos suores, com a mulher em pêlos, cabelos despenteados, pernas abertas e respiração ofegante, tomando para si a liberdade de fazer aquilo que seus instintos sempre lhe pedem nos trâmites do amor solitário. Só que agora ela está acompanhada e você é apenas um coadjuvante. Não significa que você não a satisfaça ou que ela não te quer. Não, meu amigo, aqui é exatamente o oposto. Ela está tão entregue, tão disposta a sua vontade que fará aquilo que sempre fez sozinha, mas com você ali, de camarote, deitado ao seu lado. E não adianta querer tomar a frente e fazer por ela, não. Deixe-a se tocar, apenas a sua sabedoria de quem se basta pode conhecer os pontos que irão ativar uma intensa fiação elétrica. Se permita essa fraqueza, admita sua submissão a um corpo tão permeado de meandros no escuro da alcova. Se coloque a disposição, dê uma ajudinha sutil e fale as maiores perversões no ouvido, segure seu cabelo, faça-a sentir a sua respiração pesada de homem.

Agora aprecie com a mesma curiosidade de quem está despontando pro mundo. Note aqueles dedos tão pequenos e frágeis domando aquela força inesgotável que existe no corpo de uma mulher. As mãos escorregando facilmente para além do umbigo, dedos ágeis em movimentos que você não se sente minimamente capaz de repetir com tamanha destreza, enquanto a outra mão sobe até o peito, apertando o bico intumescido, passando os dedos na pele eriçada pela sensação vibrátil de quem vai entrar em curto a qualquer segundo. Veja-a de olhos fechados, gemendo sem pudor, boca aberta e lábios molhados. Sim, não pare de olhar, olhe tudo e sinta o ar ficando carregado, como o céu que vai escurecendo sinistramente de nuvens pesadas para, num só instante, descarregar aquela raiva em raio, trovão e chuva torrencial.

Toda aquela tensão não mais irá resistir e o gozo virá com força, numa energia em balde despejado, inundando o quarto com gritos, arranhões e dentes cerrados. E você ali, embasbacado na confiança da sua mulher, que de nada depende para ter um orgasmo ainda maior que os que você ensaia dar a ela.

E então, quando sentir essa fragilidade escancarada por uma mulher que se permitiu um gozo na sua frente, sem ter que prestar contas para você, Deus ou para puta que o pariu, saiba, meu amigo, que este será um momento mágico.

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