Posts de agosto \12\UTC 2011|Página de posts mensais

O esconderijo

por Luiz Pedro

Um apartamento (ou casa) grande. Móveis um tanto desalinhados, sem conjunto, com tralhas largadas como se alguém tivesse que sair às pressas. Pela ampla janela de vidro, o azul violeta entrava inadvertidamente e anunciava que a tarde ia se entregando ao sono ali guardado. Eu andava pelos corredores e escutava os barulhos externos. O som de uma vizinhança tranquila, talvez uma casa nos altos do Horto, cercada mais por verde do que por urbanos. Apenas pássaros cantando espaçadamente e uma criança gritando na rua “chuta, Vinicius, chuta!”. O que deveria ser uma brincadeira de moleques me chamou atenção pelo detalhe de que o Vinicius deveria estar no apartamento. Era o apartamento do Vinicius. Mas não havia ninguém, há anos. Me pareceu loucura da criança que gritava lá fora, como se fosse acometido por algum esquecimento ou simplesmente a maré do tempo recolheu as lembranças e aquilo era apenas a visão de um passado fora de lugar.

Eu procurava o Vinicius pelo apartamento, mas não sabia a planta, não sabia o caminho para os quartos, tudo era novo. Andando pelo corredor, notei cores em movimento saindo por uma porta, havia uma televisão ligada. Entrei e era um quarto de criança, talvez do Vinicius, com a pequena cama encostada na parede bem ao lado da porta. Lá estava a TV ligada, porém havia sido tirada da estante e posta no chão, voltada para a cama. Estranhei, me aproximei e me abaixei para ver se lá estava o Vinicius, deitada embaixo da cama, assistindo televisão em uma posição nem um pouco comum. Não havia ninguém, mas alguém esteve lá. Um pacote de biscoito vazio, vários ursos, cachorros de pelúcia amontoados e amassados.

Ali ficava o Vinicius. Recluso de um mundo que não o aceitava. Podia imaginá-lo deitado com os joelhos encolhidos, mão na boca, olhos fixos na TV, protegido pelo lar que criou em uma casa onde não achava seu espaço. Protegido pelo abraço de todo tipo de pelúcia. Confinado na prisão que lhe impuseram e aceitou como um cão submisso.

Tentei me esgueirar para dentro daquilo que parecia um lar, mas meu corpo não cabia naquele espaço tão reduzido. Eu não era mais aceito no esconderijo tão cuidadoso que fiz para fugir dos gritos do meu pai, para não ouvir o choro da minha mãe. O tempo passou, esqueci o nome dos meus leais amigos de pelúcia, perdi o encanto que aquela cabana trazia, com tamanha paz e solidão.

Morri aos 9 anos de idade, em mergulhos no verde mar de Angra, mas meu corpo não pereceu. Apenas não cabe mais em mim.

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