Uma noite idílica
por André
Abro os olhos bem devagar e esfrego-os com as mãos para desembaçar a visão ainda confusa pela claridade de algum rastro de luz que entra pela janela. Janela fechada e marcada por gotas de chuva que o vento trouxera e caprichosamente pintou no vidro. Fecho os olhos novamente e estico os braços para me espreguiçar. Estico os braços como quem, numa tentativa insana, tenta desesperadamente prolongar o momento.
Abandono a moldura e me viro pra você deitada no sofá. Com um vestido preto que deixava o colo alvo descoberto, segurava uma taça de vinho entre os dedos, como se posasse para um pintor anônimo diante do monumento que lhe renderia a fama eterna por sua obra-prima.
Caminhei pelo chão de madeira até o canto da sala sem falar nada. Só te olhava e prestava atenção em cada detalhe daquela cena para emoldurá-la na memória de forma que o tempo não fosse capaz de esvaí-la em fumaça. Ligo o rádio em busca de alguma estação que fizesse jus ao momento, à espera de uma música que transformasse aquela situação em cena de filme.
Sento aos pés do sofá sem dizer uma palavra sequer. Sento fitando seu rosto e o seu corpo relaxado no sofá. Sento e te admiro até você ficar sem graça, esboçando um leve rubor no rosto, como se não estivesse acostumada a ser observada assim insistentemente. Poderia passar a noite inteira ali em transe, feito a fotografia que vi recentemente de um monge que, em protesto, ateou fogo ao próprio corpo e aguentou passivamente a profusão das chamas que insistiam em atrapalhar a sua concentração. Mas fui interrompido.
Fui interrompido pelos primeiros solos e acordes de um piano que tocava no rádio a minha música favorita. Aliás, não sei nem se aquela é a minha música favorita. Mas para o momento era. Levantei, peguei a taça de sua mão e coloquei na mesa. Fiz um gesto com a mão e te puxei para dançar. Sem graça e talvez sem compreender, você acatou meu pedido gestual e passamos a flutuar sobre o piso de madeira. Unidos, passei a sentir as curvas do seu corpo que até então só me era permitido contemplar. Sentir as curvas e o perfume que vinha do seu cabelo úmido. Eu não sabia dançar. Só queria viver um momento único, uma cena idílica. Fecho os olhos para suspirar profundamente, encosto a cabeça no seu ombro e beijo o seu pescoço. A música acaba e ficamos ali, inertes no meio da sala por um tempo incontável. Eu poderia dormir e nunca mais acordar.
Ao abrir os olhos, tenho a visão novamente tomada pela claridade. Esfrego-os com força e olho ao redor. Só vejo o vazio do meu quarto e o vidro da janela que aprisionava o Sol e deixava transpassar a dura realidade de ter acordado de um belo sonho.
Depois de um dia tão cansativo como hoje,nada como ler um texto lindo como esse.
Me peguei suspirando aqui rsrsrsrs.
Gostaria de escrever mais coisas,mas não sou boa com as palavras.Penso mil coisas e quando vou colocar no papel as palavras fogem de mim.
Ou as palavras se repetem : ( .
mais uma vez, muito obrigado por perder 5 minutinhos de um dia cansativo com a leitura do blog. Volte sempre!
Dé adorei, muito lindo o texto, hj vc estava inspirado hein?!
Eu adoro ler seus textos, fico imaginando a história toda, os personagens…excelente.
Se me permite a brincadeira, esse personagem era muito você, forever alone! hahahahaha
Beijão.
pior que eu tenho a maior vontade que essa cena se realize um dia. Certamente esse personagem tem um pouquinho de mim. rs
Perder tempo lendo esse texto tão lindo?
Brincadeira né?
fodão o texto, talvez o que eu tenha mais curtido! tenho um sonho parecido, de dançar moonlight serenade no dia do meu casamento. mas fly me to the moon é fantastica tambem. alias, esse teu sonho me lembrou essa cena de filme. http://www.youtube.com/watch?v=dBHhSVJ_S6A
Ótimo texto! e sobretudo ótima trilha sonora que vc escolheu..
esse é um dos ou talvez o jazz que eu mais gosto…
Gostei muito.. parabéns! (: