Posts de maio \26\UTC 2011|Página de posts mensais
Uma noite idílica
por André
Abro os olhos bem devagar e esfrego-os com as mãos para desembaçar a visão ainda confusa pela claridade de algum rastro de luz que entra pela janela. Janela fechada e marcada por gotas de chuva que o vento trouxera e caprichosamente pintou no vidro. Fecho os olhos novamente e estico os braços para me espreguiçar. Estico os braços como quem, numa tentativa insana, tenta desesperadamente prolongar o momento.
Abandono a moldura e me viro pra você deitada no sofá. Com um vestido preto que deixava o colo alvo descoberto, segurava uma taça de vinho entre os dedos, como se posasse para um pintor anônimo diante do monumento que lhe renderia a fama eterna por sua obra-prima.
Caminhei pelo chão de madeira até o canto da sala sem falar nada. Só te olhava e prestava atenção em cada detalhe daquela cena para emoldurá-la na memória de forma que o tempo não fosse capaz de esvaí-la em fumaça. Ligo o rádio em busca de alguma estação que fizesse jus ao momento, à espera de uma música que transformasse aquela situação em cena de filme.
Sento aos pés do sofá sem dizer uma palavra sequer. Sento fitando seu rosto e o seu corpo relaxado no sofá. Sento e te admiro até você ficar sem graça, esboçando um leve rubor no rosto, como se não estivesse acostumada a ser observada assim insistentemente. Poderia passar a noite inteira ali em transe, feito a fotografia que vi recentemente de um monge que, em protesto, ateou fogo ao próprio corpo e aguentou passivamente a profusão das chamas que insistiam em atrapalhar a sua concentração. Mas fui interrompido.
Fui interrompido pelos primeiros solos e acordes de um piano que tocava no rádio a minha música favorita. Aliás, não sei nem se aquela é a minha música favorita. Mas para o momento era. Levantei, peguei a taça de sua mão e coloquei na mesa. Fiz um gesto com a mão e te puxei para dançar. Sem graça e talvez sem compreender, você acatou meu pedido gestual e passamos a flutuar sobre o piso de madeira. Unidos, passei a sentir as curvas do seu corpo que até então só me era permitido contemplar. Sentir as curvas e o perfume que vinha do seu cabelo úmido. Eu não sabia dançar. Só queria viver um momento único, uma cena idílica. Fecho os olhos para suspirar profundamente, encosto a cabeça no seu ombro e beijo o seu pescoço. A música acaba e ficamos ali, inertes no meio da sala por um tempo incontável. Eu poderia dormir e nunca mais acordar.
Ao abrir os olhos, tenho a visão novamente tomada pela claridade. Esfrego-os com força e olho ao redor. Só vejo o vazio do meu quarto e o vidro da janela que aprisionava o Sol e deixava transpassar a dura realidade de ter acordado de um belo sonho.
A mulher com o cabelo mais bonito do mundo
por André
Não importa quantos anos passem, aquela cena continuará nítida na memória. Como se, a ferro e fogo, imprimissem uma marca na mente incapaz de ser apagada e tampouco esquecida. Eu não sei quem era aquela mulher, seu nome, idade ou de onde era. Mas aquele encontro ficaria marcado e por muito tempo a expectativa de revê-la me acompanhou.
Era tarde de maio e eu estava na livraria que costumo frequentar. Como de hábito, folheava as novidades literárias espalhadas pelos corredores e seções que o espaço apertado dela me oferecia. Sempre gostei da calma do local e me permitia perder horas ali, que me servia como uma espécie de refúgio de toda correria que a cidade impõe.
Naquele dia chovia torrencialmente e os passantes buscavam um lugar para se abrigar da tempestade. Acostumado à presença silenciosa dos livros, me senti incomodado com o burburinho das pessoas atrapalhando a minha atenta tentativa de leitura. Profanavam meu templo e o meu ritual semanal. Para fugir das pessoas que falavam insistentemente, procurei as fileiras mais afastadas da porta até achar alguma coisa que realmente prendesse minha atenção.
Folheava um livro qualquer até ouvir o irritante barulho do que parecia ser um salto martelando o piso de madeira. Fixei os olhos nas páginas sem ler nada. Apenas queria escapar daquele ambiente caótico que se formara por conta da chuva. Senti que a mulher parou ao meu lado, mas não fiz questão de olhar. Resolvi, então, colocar o livro na prateleira e sair dali.

Ao virar o corpo para me dirigir até o corredor seguinte, me deparei com a mulher que ficaria marcada na minha memória até hoje. A mulher com o cabelo mais bonito do mundo. Não me recordo quanto tempo fiquei parado admirando aquelas melenas castanhas. Cinco, seis, dez minutos? Não saberia dizer, mas acabei me dando conta da situação e fui para outra prateleira observá-la sem que pudesse ser notado.
Meu olhar atônito acompanhava atento cada movimento que os fios faziam em cada movimento dela na sua procura por livros nas prateleiras mais altas. Eu fui testemunha ocular da mulher que levava a poesia cativa nos cabelos. E a partir daquele momento e daquele dia, levaria minha atenção, minha razão e durante um bom tempo meus pensamentos. Diante de tal situação, o que fazer? Eu não sabia, mas olhar já não me bastava mais. Eu queria sentir, cheirar, tocar…
Resolvi dar a volta e chegar mais perto para, quem sabe, sentir o cheiro ou esbarrar nela. Os corredores são apertados, eu teria uma desculpa. Eu era um alucinado e mendigava qualquer migalha que a circunstância pudesse me oferecer.
Não consegui. Ao me aproximar, por capricho do destino ou maldade dela, a vi colocar o livro cuidadosamente na prateleira e se dirigir para a saída. Fiquei sem reação. Não era possível que aquela seria a última vez. Poderia ter saído da livraria e ido atrás dela, mas a sua partida me deixou tão sem reação como quando a avistei.
Fui até onde ela estava e busquei o livro que lia. Peguei-o e passei página por página, tateava folha por folha e era como se tocasse aqueles cabelos. Aproximei as páginas do nariz e procurei sentir o seu cheiro. Hoje até acho que o que sentia era o cheiro de novo do livro, mas na época e até hoje consigo recobrar, sentia perfeitamente aquele perfume. O cabelo mais cheiroso do mundo.
Eu precisava guardar aquela prova, aquele documento. Me dirigi rapidamente até o balcão e resolvi comprá-lo. Aquela relíquia seria minha. Atordoado corri para casa com o livro nas mãos protegendo-o da chuva que já deixara de cair com violência. Sentado na cama, era um lunático. Cheirava-o insistemente procurando sentir naquelas páginas algo que me recobrasse aquela sensação única que vivi naquela tarde. Não me importava de quem era o livro ou o que nele continha. Importava era a sensação que ele me despertava.
Passei o resto da tarde e boa parte da noite naquele ritual até pegar no sono. Na manhã seguinte repeti tudo novamente até resolver ir para livraria à tarde tentar reencontrá-la. O local me despertava lembranças e os livros eram testemunhas que gritavam a minha angústia. Passei muito tempo repetindo essa rotina em vão. Foi então que percebi que aquilo fora obra do acaso e que me restava apenas me conformar.
Aquela mulher levaria não mais apenas a poesia cativa nos cabelos como eu já intuíra. A partir de então levaria também o meu lembrar…
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