Posts de julho \31\UTC 2009|Página de posts mensais
Bom dia por quê?
Detesto gente muito feliz.
Me irritam profundamente aquelas pessoas que parecem transbordar felicidade todos os minutos de todos os dias, desde sempre. Logo que tenho o desprazer de achar-me com um desses tipos, sinto uma incontrolável vontade de fugir imediatamente, e discretamente investigo as saídas de emergência mais próximas – aí incluída qualquer pessoa que esteja oportunamente por perto e da qual eu possa me valer a partir do levantamento de algum assunto aleatório.
Exemplares dessa agonizante situação não são raros. Chegam a você parecendo meros seres humanos razoavelmente bem-humorados, que estão passando por excelente momento, e você, simpático e acolhedor, imagina serem pessoas de ótima convivência. Até o instante em que você percebe que a fase de extrema felicidade simplesmente não tem fim.
Aí, não tem mais jeito: ature-o ou deixe-o. Cada encontro se transforma em um fantástico evento, com risadas ilimitadas e abraços acalorados e empolgação para um evento qualquer e extremo contentamento por qualquer simples fato, enquanto que, para você, cada segundo é sofrível eternidade, ao ponto de sentir enorme aflição e implorar pela exposição de um problema, uma reclamação, ou apenas um olhar um pouco mais preocupado. Não significa desejar mal aos outros, longe disso, significa buscar algum sinal de vida humana dentro daquele protótipo de personagem de comédia romântica. Também não é sinal, e logo tranquilizo o leitor, de rabugem, pessimismo ou tendências suicidas – ou assassinas, apesar dos sinais de incontrolável repúdio.
O que torna insuportáveis pessoas assim são duas coisas: o exagero e a ilusão. Afinal, convenhamos, na vida real ninguém consegue ser tão radiante durante tanto tempo. É justamente isso que nos faz razoavelmente toleráveis e, em conseqüência, evita um número ainda maior de conflitos ainda mais trágicos do que os já existentes.
O mundo de verdade é repleto de surpresas, sobressaltos, obstáculos, desilusões, palavrões em último volume, vontades repentinas de pular pela janela; aquele que não vive isso – ou para isso fecha os olhos -, não vive: existe. Finge viver.
Contigo
Espero que o presente não piore.
Vou tratar de saber-te e cuidar-me;
Farei com que a minh’alma desarme
Os espinhos do passado, a priori.
Se a tristeza já não causa-me alarme,
Quero mesmo que tua vida melhore.
Peço até para morrer nesse folclore
Cujo medo de perder-te é teu charme.
Junto a ti, poesia não é escrita!
Meu amor me inebria e sempre irrita
Os olhos dos que nutrem mero ódio.
Que a vontade de ter-te seja aquela
Da ansiedade d’uma boa novela
Onde chora-se ao último episódio.
No mesmo lugar
Não quero dizer
que não vale a pena arriscar.
Só não quero mais insistir
em ser insistente.
Não quero perder
tudo que lutei pra ganhar.
Apostando no teu olhar novamente.
E esperar
por quem não quer vir pra mim.
Levantar e cair para sempre.
Rodando
e permanecendo no mesmo lugar.
***
Gravei essa música com uns amigos em casa. Entre eles, Wellington Rodrigues e Octávio Augusto.
Sei que ninguém vai pedir, mas caso alguém queira, só deixar o e-mail.
FREEDOM (ou adaptação de “Demorei muito pra te encontrar”)
Demorei muito pra me libertar
Agora eu quero só viver!
Sem repressão, sem medo de ser!
O importante é ser feliz!
Como demorei para enxergar
Que a pessoa mais importante sou eu!
É o meu corpo, minha mente, meu ser!
Ninguém tem que me prender!
Ser o que sou sem medo de ser.
Reprimida por você!
Não entendia porquê sentia assim.
Liberdade existe, sim!
Nem venha me amarrar
Porque nunca mais vou suportar.
Me anular e me desrespeitar.
Essa Paula não dá mais.
Sem economia de emoção.
Sem medo do prazer.
Vou abrir o meu coração
Pra todos que quiserem ver.
Não quero rótulos,
Não quero leis.
A minha lei é ser feliz!
Então nem venha me reprimir
Que dessa vez não vou permitir!
Demorou para a coragem vir
Mas agora ela vai ficar!
Não vou ignorar os meus pensamentos,
Meus desejos,
Meus pressentimentos…
Uma nova pessoa ressurgindo
Após do inferno sair.
Não tenho que me justificar
Não sou robô
Nem sou você!
Viena
Eu havia acabado de chegar. A aula já tinha começado há alguns minutos e na sala restaram apenas os lugares mais distantes do quadro. De longe, pouco enxergava. Com sono, pouco me concentrava. Cansado, pouco entendia. Enfim, era um péssimo dia para ir à aula. Mas lá estava eu, não sei o porquê. Pensei que não precisava estar ali naquele momento.
- Então, para calcularmos a compatibilidade do sistema, devemos verificar a sua nulidade do conjunto de equações através do posto da matriz dos coeficientes e o seu número de incógnitas…
Incógnita era a minha presença na aula. Pensei que poderia estar tranqüilo correndo na praia, ouvindo música, jogando uma altinha e bebendo mate com dois dedos de limão. Depois de matar a sede correria em direção ao mar e…
- O conjunto solução obtido pela eliminação Gaussiana forma uma base vetorial com n graus de liberdade…
Liberdade, eu precisava muito disso. Apesar de ninguém estar me segurando, me sentia preso dentro da sala de aula. Precisava sair de lá, da sala, da faculdade, da cidade, do país! Esquecer tudo e virar hippie em algum país afora. Iria me dedicar à música e viver de gorjetas obtidas tocando violão no metrô de Nova Iorque. Ou me apresentar como músico especializado em Bossa Nova e tocar em cervejarias em Viena. Ou então…
- Através da obtenção dos autovalores do operador linear, será possível identificar os possíveis autovetores que formarão uma base da matriz diagonal que será utilizada nas demais transformações lineares.
Nesse momento me levantei. Não havia nem 15 minutos que eu estava fisicamente na aula, mas decidi ir embora. Arrumei minhas coisas e guardei tudo na mochila, me levantei e fui. O professor, ao me ver passar, parou a aula, olhou para mim e disse:
-Você mal chegou e já vai embora? Assim não vou poder te dar presença
- Professor, não me leve a mal, mas agora eu estou indo à praia. Quem sabe, se eu tiver sorte, semana que vem estarei em alguma cervejaria em Viena. Caso não nos vejamos mais, seja feliz com as matrizes.
Um Passo à Frente (Sessão Música Parte 4 – e última)
Um Passo à Frente
Se a gente não se cuida
Quem irá cuidar da gente?
Se os costumes não mudam
Porque é que a gente mente?
A vida com a faca na mão
Sem coração ela segue
Pedindo perdão estou entregue
Sem sonhos, cuidados e desejos,
Eu nem penso mais nos seus beijos
E mesmo sem ver, sem saber,
Eu te tenho à luz pra acender
Ao topo do mundo, na filosofia dos burros,
Quem te deu moral pra fugir?
Desfilas com pose elegante, modelo,
Morre tentando quebrar o gelo
Assim implacável, chora na escuridão,
Entregado ao amor de um qualquer
Às pressas você me corrompe sem medo
Mas nunca serei igual antes
O justo fim de dois fiéis amantes
Só me diga a desventura que foi viver
Sem rumo, sem motivos pra querer,
A cada fim, um espaço.
Viva a luz da apelação emocional
Salve a saúde mental do erro irracional
Num mísero passo.
Sobre Escrever
por Luiz Pedro
“Bufo & Spallanzani”, um livro do Rubem Fonseca, tem um personagem que ridiculariza o protagonista – um escritor – questionando o talento e o suor necessários para exercer sua profissão, até o momento em que se propõe a fazê-lo, encarando os obstáculos existentes para a construção de um texto interessante. E constata o óbvio: é bem difícil.
Escrever é um bocado de renúncia. Alguém já falou isso antes, mas não me lembro quem. Na verdade, falava que amar era renunciar. Será? Algo assim. Quando se ama, dizem que deixamos de ser plenamente ativos, não mais somos senhores de nossas vidas, doamos nossa existência para o domínio do ser amado, ficamos dependentes. Quando se escreve, abre-se mão da realização do desejo. Se você encontra uma linda mulher e ela te inspira compor lindos versos, você não vai querer conhecê-la, saber seus sonhos, suas manias. Há um limite.
Mas o nome é interessante saber. A menos que ela se chame Josiclécia. Lembro-me da minha reação quando tomei conhecimento do nome de uma musa. Gabriela. Todas as palavras refletiam o seu nome, suas sete letras eram únicas no alfabeto. Era o arco-íris das letras. As outras eram apenas derivações, misturas, combinações. Somente aquelas sete tinham a realeza hierárquica inabalável de seu sangue azul para comandar uma plebe infinita de palavras. Gabriela.
Mas só o nome, sem sobrenome. A humanização da musa não funciona. Deusas não foram feitas para caminhar entre os mortais. Elas deslizam na ponta dos pés, no mínimo um palmo acima do chão, acima de qualquer irracionalidade mundana.
Não se enganem quando o escritor vai atrás de sua musa para conquistá-la. Quem está indo cortejá-la é o Homem, não o Escritor. O Escritor é um castrado, deleita-se apenas com o desejo. Mas, geralmente, o Homem impõe sua vontade, sua virilidade, instinto, e corre atrás, transformando o que era Musa em Mulher, deixando o Escritor resignado, sem inspiração. Essa é a verdadeira castração do escritor, perder sua ânsia por escrever, secar sua pena. A castração sexual do Escritor é necessária, senão seria paradoxal à sua existência.
É, o diagnóstico não é dos melhores.
Novamente, o interstício
Assisto imóvel a sua partida, que de tão certa e irremediável parece irreal. Mergulho nas lembranças que permanecem vivas em minha mente e revivo os olhares carregados de sentimento, as palavras desajeitadas à procura de sentido, os delicados toques repletos de malícia.
Recordo também os inúmeros obstáculos e as incertezas sempre atordoantes, que vez ou outra ou por algumas vezes desaguaram em inflexíveis discussões, após as quais percebia de maneira ainda mais determinante a intensidade do sentimento que nos unia. Reflito: retiraria qualquer das palavras proferidas, submetida ao risco de, ao final, arrepender-me de omitir emoções?
Afasto-me dessas memórias – o momento não é apropriado a reerguer discórdias. Sinto novamente a explosão de felicidade comum aos instantes mais simplórios, ao notar que, de tudo, permanece avassalador o que nos trouxe até aqui. Me pergunto, à essa altura, se algum dos minutos de que desfrutamos poderia ter sido melhor aproveitado. Não há dúvidas de que sim, desde que presentes diversos fatores que à época eram desconhecidos. Qualquer mínima alteração, no entanto, impediria que nos tornássemos o que hoje somos, com as impressões que atualmente temos e as lições que acumulamos.
Chegou a hora de mostrar maturidade, segurança e independência. Sinto sangrar-me o coração e o cair de uma lágrima inaugural, enquanto vejo que se vai, em travessia pelo oceano.
E inicio nova espera.
Marcha Fúnebre
Não agüento mais ir à praia e ver a orla tomada por pessoas vestidas de branco e munidas de cartazes desfilando suas almas penosas. “Justiça! Justiça! Justiça!”. Ok, também concordo que deve haver. Trago na pele, inclusive, tinta que se alia a isso. Mas, convenhamos, que transitar com os olhos embargados de cimento e lágrima não é e nunca será a melhor forma de extirpar a violência.
Como dizia meu antigo professor de Geografia, segundo ele, parafraseando Jack, o Estripador: vamos por partes. Por que, em nome de Deus, as autoridades de segurança trabalhariam com mais afinco após uma manifestação contra a morte de uma criança? Essas pessoas que os passeantes julgam como corruptívies não chorariam nem se fosse com os filhos delas, então, não há razão aparente para apelar pro emocional das mesmas. Em 7 de fevereiro de 2007, morre o menino João Hélio, vítima da barbárie à qual já fomos apresentados. Nesses dois anos e meio, o número de mortes por bala perdida, latrocínio etc diminuiu drasticamente ou, pelo menos, reduziu? Uma coisa é a classe dos siderúrgicos ir protestar por aumento salarial. E, no fim, quase sempre conseguem o objetivo da ação. Afinal, quando mexe com dinheiro, fodeu. Aí, o buraco é lá no topo. Mas quando fazem passeata para reivindicar justiça sobre uma vida que se foi, o peso do apelo é nulo. Corriqueiro adágio é pensar que a união faz a força. No caso exposto, apenas gera ilusão. Uma frase batida, mas que conclui-se desoladamente, é a que o dinheiro tá valendo, literalmente, mais que a vida.
As manifestações são muito úteis para embolar o trânsito na cidade.
Das Hierodulas
Os letreiros vermelhos de neon que piscavam desordenadamente podiam ser convidativos, mas me lembraram os escritos narrados por Dante na sua Divina Comédia.
“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”
Estava lá, não porque queria, mas porque me faltava coragem. Entrar já não era mais mera opção, nem força do acaso. Era obra do embalo. A decisão em conjunto tomada, por mim calada, por mim consentida, por mim omitida.
Dentro, eu não teria mais escolha.
No Inferno, a música que guiava a minha passagem não vinha da lira de Orfeu e tampouco acalmava o Cérbero. Apenas o instigava.
Só vivendo o inferno para se saber que o mesmo não é marcado por terríveis castigos ou por eternas dores. Se para os cristãos o Inferno é a ausência de Deus, meu inferno era a ausência de mim mesmo.
Quem havia me roubado de mim?
Se a imagem mítica do inferno é representada pelo horror, meu inferno era repleto de uma beleza suja e prazerosa, uma beleza epicúrea. Os demônios não castigavam, mas cantavam odes ao prazer. Convidativos vendiam um amor barato e descartável.
Um amor vencido.
Eu, taciturno, novamente calei, consenti, omiti.
Embriagado e sonolento por uma coragem artificial, pelo canto das sereias do mar de solidão.
Eu vivi a eternidade e vos garanto: Não valeu a pena.
Tal como Orfeu, só me resta agora tomar o caminho de volta. Sem ter uma Eurídice, sem olhar para trás.
Vida a um
Sou só eu
Minha caneta
A folha
E minha mente.
Nós todos somos um.
A solidão.
Que não é meu cigarro
Mas é meu ar.
Por vezes, rarefeito,
Se o coração acelera,
Se as mãos suam
Ou o corpo se arrepia.
Então encontro seu ar.
E fazemos de nossa solidão particular
Um encontro
De corpos e almas.
E suor
E desejo
E mãos
E saliva
E boca
E pescoço
E gozo.
E, por um momento, esqueço que estou só.
Nasci só.
Vivo só.
E morrerei só.
Mas enquanto esse ciclo não se finda
Vago pelas ruas
À procura de uma outra
Solitária alma.
E só.

Invasão
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
Levantei da cama assustado. Estava ouvindo um forte barulho no vidro do quarto. Cheguei a pensar que crianças estavam tentando estilhaçar a janela do meu quarto jogando pedras, mas logo me dei conta de que isso era quase impossível, pois moro no oitavo andar. Mal humorado, me levantei para verificar o que era tal barulho na janela. Para minha surpresa, era um pássaro. Eu não fazia a menor idéia do que ele estava fazendo do lado de fora da minha janela, pendurado na grade. Tampouco por que estava bicando o vidro da janela intermitentemente. Pensei que ele poderia estar com fome. Não tenho linhaça em casa, mas tenho algumas frutas. Busquei um pedaço de maçã que estava na geladeira e fui dar para o pássaro. Quando eu abri a janela, ele voou. Acho que assustei o pássaro. Guardei a maçã e voltei a dormir.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
Pus a mão na cabeça e me protegi! Com certeza era bala perdida. Tentei me proteger com o travesseiro da guerra entre traficantes e policiais que acabava com a minha tranqüilidade. Aos poucos, fui reconhecendo o barulho e pensei: será novamente o pássaro? Abri a cortina e lá estava ele, de novo, por algum motivo bicando a janela do meu quarto. Ao cogitar abrir a janela, ele bateu as asas e se foi. Era a segunda manhã seguida que isso acontecia. Eu já estava ficando com raiva do MALDITO PÁSSARO FILHO DA PUTA que perturbou o meu sono. Precisava fazer alguma coisa.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
A essa altura, eu não me incomodava mais. Tentei assustar o pássaro, prendê-lo em uma gaiola, envenená-lo, mas nada funcionou. Então, passei a dormir nestes últimos meses na sala. Maldito pássaro filho da puta.
Te Espero (Sessão Música Parte 3)
Te Espero
Esse é o começo de uma nova sensação
Talvez você não queira ter tamanha emoção
Se tranque no seu quarto se esconda no porão
É a hora que o rei não escapa do peão
Te espero em meia hora lá fora
Pra gente resolver
Espero que você seja sincera
Da mesma forma que eu vou ser
Se você mentir pelo menos seja justa
Não queira ser feliz a minha custa
E seja humilde pra reconhecer
Que nossas brigas faziam bem pra você
Se hoje parto sem certeza de voltar
É porque farto já estou de te amar
O mundo me apresenta coisas novas
Que são provas pra adiante te mostrar
Te espero em um segundo
Mas no fundo não torço por você
A sua partida só de ida
Me fez entender
Que uma frase mal dita
É um grito de apuros
Cobrando as dívidas
Que o amor deixou com juros
A máquina de fazer silêncio quebrou nosso pacto
Causando impacto
Ficando a mágoa
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa
Brotando do cacto sem água
Acacinado
por Luiz Pedro
Conversando com uma amiga, lembrávamos momentos marcantes de namoros. Contava-me das noites que passava conversando com um ex. A dedo, ele fazia desenhos imaginários nas costas dela, que, por sua vez, tentava adivinhar que figura estaria se formando em sua pele. Pensei em qual momento eu havia guardado com todo esse carinho dos amantes intermináveis, mas nem precisei me alongar muito. É uma lembrança que me ataca constantemente, deixando a pontinha de nostalgia melancólica dos desencontrados amorosos.
Aos 15 anos, tive minha primeira namorada, Marina. A distância era um sufoco. Ela, em Vista Alegre. Eu, no Cosme Velho. Marcávamos de nos encontrar no metrô, na área de embarque da estação de Vicente de Carvalho. Morrendo de saudade e meio perfeccionista, eu era pontual, por vezes chegava até uns 15 minutos mais cedo do horário previsto, e ficava aguardando. Ela era meio atrapalhada e, consequentemente, sempre atrasada, de 15 a 60 minutos. Aguardava encostando-me à parede da área de embarque, sentado no chão. Em duas ocasiões, um funcionário do metrô veio me perguntar se estava tudo bem. Estranhei aquela intervenção e ele me confidenciou que eu estava com um semblante muito abatido, e que algumas pessoas se jogavam na linha do metrô. Não, não, estava abatido, mas não tanto!
Esses minutos de espera se alongavam ruidosamente nas minhas bufadas de impaciência. Cada perna que surgia descendo a escada eu imaginava ser as pernas dela, o que obviamente provocava grandes decepções .
Por fim, ela aparecia, olhava-me com aqueles olhos de quem sabe que fez besteirinha. Entretanto, da mesma forma, transparecia tanto carinho e paixão que aquela angústia desaparecia imediatamente. Parada ao final da escada, inclinava a cabeça e sorria satisfeita. Eu caminhava na sua direção, onde ela juntava às mãos a frente do corpo e embolava os pés, uma menina que aguarda o iminente perdão. Vinha andando na minha direção, fazendo careta, como que desinteressada, enquanto meu peito se enchia de uma forma que transbordava em sorrisos. Por fim, ela notava que aquela minha “raiva” era puro enfeite e acelerava os passos em minha direção, e eu também me apressava em atravessar cada metro em busca do ar que se contaminava da felicidade mais divina já apresentada aos que amam. Aquele ar que tomava meus pulmões com um arrebatamento digno dos romances escritos na mais ardorosa febre amorosa. Abraçava-a com força, os dias distantes tinham que ser compensados naquele único abraço, naquele segundo, naquele breve momento de sentir-me entorpecido, sem saber se estava por viver ou morrer. Mas, caso realmente estivesse deixando nosso mundo, não me incomodaria.
Encaminhado ao mais alto degrau do paraíso, sabendo-me justiçado por dores e desprazeres, eternamente morreria no abraço de Marina.
Utópicas efemeridades
Dos acontecimentos daquela tarde, pouco ainda consigo lembrar. Não importa, na verdade: o que fez valer o dia aconteceu quando estávamos apenas os dois, longe de qualquer pessoa conhecida, e quando a tarde já cedia lugar ao anoitecer.
Procurávamos oportunidades para ficarmos juntos. Para tanto, se pudéssemos, relegávamos a segundo plano compromissos previamente acertados, ou ao menos tentávamos abandoná-los o mais cedo possível, em busca de tempo dedicado exclusivamente a nós. Foi a solução que se apresentou naquele domingo.
Saímos sem nos despedir, para evitar comentários e especulações. O que faríamos e para onde iríamos interessava somente a nós, e a mais ninguém. Rapidamente entramos no carro e partimos, sem rumo – e sem qualquer vontade de fixar algum. Queríamos exatamente aquilo, nada além: um instante especialmente nosso.
E o tivemos. Seduziu-nos o fim da tarde; encostamos em um lugar qualquer da orla e imediatamente retiramos os sapatos, para sentir fixando em nossos pés os gelados grãos de areia. Desabamos sobre o imenso carpete natural que formavam, nos sentando de forma que seus braços envolviam quase todo o meu corpo, e eu apaguei de minha mente tudo o que havia à nossa volta. Lembro que nada, ou muito pouco, falamos.
Sucumbimos à hipnótica força do pôr-do-sol, que nos tornava meros figurantes de um espetáculo de cores sem igual. Por alguns minutos senti apenas seus braços, que me envolviam e afastavam do mundo que nos esperava quando aquele instante tivesse fim; sua descansada respiração, na contramão dos acelerados batimentos de seu coração; o vento frio da noite que estreava; os grãos gelados de areia em nossos pés.
Ali permanecemos, por um curto período de tempo, que mais pareceu uma eternidade, pela força com que se manifestaram nossos sentimentos e impressões. E era justamente essa intensidade, presente em cada segundo de nossos mais ligeiros encontros, que, como que por mágica, compensava o abandono de todos os compromissos, pessoas e obrigações da vida real, completamente ignoradas para que ficássemos juntos.
Elizabeth
Ah, minha querida e amável senhora!
Por que sobes tão depressa, hein?!
Estou atordoado. ‘Vem’, vó, ‘vem’!
‘Vem’ que pra ti a morte não tem hora!
Deixe isso pra lá! Pare de demora!
Todos podem esperar, exceto quem
Te ama, te sente e te quer bem
Como eu, a mãe e a prole agora!
O céu há de receber-te, é certeza.
A chama que levou-te, já não acesa,
Escondeu o amor que não se repete:
Amor de neto que sempre existiu,
Amor da cria que, há pouco, viu
Deixares a Terra, oh, Elizabeth!
Obs: soneto dedicado à minha avó, falecida no dia 3 de agosto de 2007, num incêndio causado por seu cigarro dentro de sua própria casa. Escrevi este soneto algumas horas após ocorrido, depois de arrombar a porta e tentar salvá-la – vê-la inconsciente no chão – e desmaiar no corredor a metros de seu corpo. Bombeiros me tiraram com vida. Fui o único a sair vivo do apartamento onde, hoje, moro.
As três feridas narcísicas
Três grandes acontecimentos marcaram o ego humano de tal forma que foram considerados as três feridas narcísicas da humanidade.
O primeiro grande golpe veio com Copérnico, quando o mesmo afirmou não sermos o centro do Universo. Éramos meros coadjuvantes que brincavam no carrossel do Sol.
Se não estávamos no papel principal da peça universal, nos restava ainda gozar da condição de filhos de Deus. Mas Darwin, ao descobrir o evolucionismo, nos legou a condição de mero produto do acaso. Não somos seres especialmente criados, mas apenas resultado da evolução natural dos seres.
A despeito disso tudo, quisemos reivindicar, como última esperança, a racionalidade exclusiva da nossa espécie. E então, Freud nos deu o derradeiro golpe que nos faz sangrar até hoje. Não somos sequer senhores de nós mesmos. A consciência é a menor parcela de nossa vida psíquica.
Tal qual o homem, a nossa vida – de modo individual – a cada momento sofre feridas que abalam a nossa estrutura e nos fazem repensar o que somos e o que queremos a cada instante.
Lembro-me que a primeira ferida narcísica que sofri foi aos 7 anos. Quando pequeno, pensava ser o meu pai o homem mais alto do mundo. Por ele e por meio de sua altura aspirava às coisas do alto. Foi quando conheci outro maior do que ele…
Restava ainda a condição de super-herói inerente a todo pai. Foi quando aos 13, vi meu pai chorar pela primeira vez. O homem inatingível também sentia medo, também sentida dor, também chorava. O super-herói tinha lá as suas fraquezas.
Depois de feito homem, nada mais poderia me abalar, pensei. Foi aí que me bateu à porta a morte. Nada e nem nínguém é eterno. Mesmo as pessoas mais queridas têm prazo definido de estada na Terra. Eis a ferida que sangra até hoje. Eis a ferida que nunca vai cicatrizar.
E você? Quais as suas feridas?
Uma acumulação de pequenos grandes momentos

Não há, no mundo, momento mais importante do que esse, agora.
Passou.
Viver no futuro e esquecer o momento.
Perde-se, não volta mais.
E perdeu foi vida.
Porque a vida tá aqui,
Em todo, e, especialmente, cada momento transpirando emoções.
Emoções únicas.
Cada momento é único.
Carpe Diem não é coisa dos vadios.
É privilégio dos sábios.
De um ser vivo, consciente da efemeridade de sua existência.
Que procura absorver dela os momentos.
Assim, vive,
E não, somente, existe!
Brincando
Pedrinho mal podia acreditar. Ele ganhou de presente de aniversário de seu tio mais velho um cachorro. Não era um simples cachorro, mas um cachorro adestrado, desses que disputa competições. Só pelo nome, ele já se mostrava imponente: Sagaz.
Sagaz tem inúmeros prêmios em modalidades que ninguém fazia idéia do que fosse, mas os troféus acompanhavam o canino no embrulho do presente. Os cuidados com o cachorro eram de primeiro mundo, tal como a sua ração, importada do Canadá.
Os olhos de Pedrinho brilhavam, mal podia esperar para brincar com o cão. Correu até o quarto, buscou uma bolinha de tênis velha dentro do armário e foi para a rua brincar com cachorro. Conduzindo-o pela coleira, Pedrinho não conseguia esconder a ansiedade para ir brincar com o seu novo presente na praça perto de casa. Já havia contado aos amigos a novidade.
Ao chegar à praça, soltou o Sagaz, pegou a bolinha de tênis no bolso e a arremessou o mais longe possível, quase a perdendo de vista. Em seguida, disse:
- Pega Sagaz!
O cachorro sequer se moveu para ver o que Pedrinho havia arremessado. Pedrinho não entendeu o que havia dado de errado. Foi buscar a bolinha. Enquanto isso, pensava no que poderia ter dado de errado. Concluiu que ele deveria ter mostrado a bolinha de tênis ao cachorro. Assim, ao retornar chamou o cachorro e disse:
- Aqui, Sagaz, olha a bolinha, olha! Agora pega, Sagaz!
Outro longo arremesso, dessa vez na direção do campo aberto, para que o Sagaz pudesse observar onde a bolinha cairia. Ao menos, o cachorro acompanhou a trajetória da bolinha. Após ela cair no chão, ficou olhando para a cara do Pedrinho. E Pedrinho? Bem, mais uma vez, foi buscar a bolinha. Enquanto analisava o que havia dado errado, pensou que talvez devesse colocar a bola perto do focinho do cachorro para que ele pudesse cheirá-la. Aí, então, o cachorro reconheceria o percurso pelo rastro do cheiro da bolinha e a buscaria. Assim, não deu outra:
- Sagaz, cheira a bolinha, cheira! Isso amigão! Agora, pega!!!
Dessa vez, até o Pedrinho perdeu de vista o arremesso. Sagaz, então, se moveu. Estava de pé, passou a ficar deitado no chão. Pedrinho ficou irritado. Decidiu ir para casa, já que o cachorro não queria brincar. Enquanto pegava a coleira, Sagaz correu desesperadamente. Minutos depois, retornava ele, para o alívio de Pedrinho que disse:
- Vamos embora, agora, seu cachorro preguiçoso. Só quer ficar deitado aí no chão e quando é hora de ir embora, some. Na hora de buscar a bolinha, fica parado que nem uma estátua. Você não serve pra nada, mesmo…
Pedrinho pôs a coleira no Sagaz e foi para casa. Ao chegar em casa, soltou Sagaz e foi para o quarto. Curiosamente, encontrou a bolinha de tênis em cima de sua cama.
Que seja pra sempre (Sessão Música Parte 2)
Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Manuela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.
Que seja pra sempre
Essa noite eu sonhei com você
Pensei em tantas coisas
Tentei te agradar
Mas eu percebi que não saí do lugar
Eu espero que seja o melhor
Que nós sejamos felizes
Faremos disso um fato
Que isso não seja mais um drama barato
Pra te encontrar e te contar
O quanto foi difícil achar
Alguém que enfim pudesse amar
E desculpar meus erros que são seus também
Ria como no primeiro dia
Me mostre toda sua alegria
Ao ver que eu sou quem você queria
Faça da minha vida uma avenida pro céu
Me acompanhe nessa minha vida
Essa fase de artista
Se não for pra sempre dessa vez
Talvez eu desista
Mas te carregarei comigo
Como a melhor das lembranças
O nosso canto ao telefone
O nosso amor de criança
Agora quando eu voltar a sonhar
Tentarei dizer o que sinto
De repente não ficar mudo
Já que pra essa prova eu não sei como eu estudo
Ora menina, só tem você por aqui,
Então deixe-me te ver sorrir
Me encare com seus olhos perfeitos
Diga que eu sou suspeito para falar deles
Agora sim estamos fortalecidos
Diante do seu poder
Discussões nos manterão unidos
Você sempre sabe o que deve fazer
Pode contar sempre comigo
Deixa eu te olhar enquanto anda
Decida a hora de partir
Aqui você é quem manda
Entrega
por Luiz Pedro
Entrega
as juras cantadas,
os amores contados,
os beijos roubados.
Entrega
os tolos dissabores,
as estranhas cores,
as velhas dores.
Entrega
os sorrisos largados,
as lágrimas veladas,
os abraços derramados.
Eu sei, não volta mais,
já não passa de história,
acabou.
Mas, por favor, entrega.
Entrega
tudo aquilo que eu te dei,
tudo aquilo que você me deu,
tudo aquilo que eu sou.
Com o perdão da malfadada palavra
A falta de inspiração é um dos maiores problemas com o qual se depara um auto-intitulado escritor, amador ou profissional. Confesso que, na minha humilde condição de rabiscadora de palavras muitas vezes sem sentido, constantemente me acho certeiramente atingida por esse mal. Hoje, por exemplo.
Todo o silencioso ritual que culmina em um texto razoavelmente suportável, fruto de pequenas impressões ou sentimentos acumulados durante certo período, parece não ter gerado qualquer resultado produtivo que pudesse ocupar algum minuto do tempo daqueles que ainda não perceberam que, no fundo, nada mais faço do que inventar historinhas fantasiosas com generosas pitadas de desabafo.
Mas a falta de inspiração, e isso afirmo sem qualquer receio de estar equivocada, não significa necessariamente a ausência de algo sobre o que escrever. Pessoalmente, quase sempre deriva de uma overdose de sensações incongruentes, provocadoras de tamanha confusão a ponto de me impossibilitarem que as reduza a palavras, tão certas e definidas. É a situação em que me encontro. Creio estar poupando os leitores que ainda me restam de escritos muito mais desinteressantes do que essa infeliz confissão.
Garanto, no entanto, que a organização desse turbilhão de emoções que bloqueia uma escrita minimamente inteligível há de vir, e, aí sim, espero que seja capaz de produzir uma ou outra frase carregada de sentidos. Bem distante de um sincero e quase intragável mea culpa.
Centro do Universo
Se encaro a face tua e deposito
Mais esperança e ímpar cumplicidade,
Deveras, não espero atrocidade
Que cometes de modo só e esquisito.
Aguardo que, quando teus olhos fito,
Veja mais que teu amor: veja a verdade
Que é ofuscada pela tua maldade
Onde a dor de te amar é só o que grito.
Preferes ter co’outrem à lua etérea
A ter comigo a mais valsa venérea;
Queres cobrar sem conceder. Desista!
O que vale-me agora é o que almejo!
Sem volúpias, cego e neste ensejo,
A justiça há de vestir-te, Egoísta!
Amar, verbo transitivo
O cogumelo de fumaça, para alguns críticos, marca o fim de uma era de ideologias bem definidas e abre as cortinas para o início de um tempo sem verdades absolutas: a Pós-modernidade.
Um sociólogo polonês chamado Zygmunt Bauman define por líquidas as relações humanas da atualidade. Líquidas porque efêmeras. Ao tentarmos tocá-las se esvaem, escorrem como líquido nas mãos. O próprio amor, sentimento intocável e infalível da moral cristã, já tem seu prazo de validade.
Dura enquanto não dá defeito.
Dura enquanto durar a nossa paciência.
Dura enquanto não encontramos outro melhor.
Trocamos de amor, como trocamos de celular. E é óbvio que para alguns, a frequência com que se troca de amor é bem maior.
O próprio autor é exemplo vivo de liquidez e efemeridade nas relações. Enquanto digita o texto da Quinta-Feira Santa no celular, se apaixona por cada mulher bonita que entra no metrô, um amor a cada estação. Amores que duram por duas ou três estações. Eternos amores de um dia só.
- Que loira linda! [próxima estação: Maracanã]
Acabou o amor.
Canudos
Guerra feia
Guerra burra
Guerra estúpida.
Guerra quente
Guerra do ódio
Odiosa guerra.
Matar para viver
Viver para matar
Pra morrer.
Derramar seu sangue
Sangue de seu filho
Ou de seu amigo.
O que é isso? -1 vivo +1 morto -1 vivo +1 morto…
Deus há de salvar
Sua alma no céu.
E será que há salvação
Pra este monte de carne podre?!
Moinho de mortos.
Feridos
Fedidos
Fudidos
Quantos + poderão vir? +1, 10, 20, 30, 500, 500 mil? 3 milhões? Todos?
Fome
Sujeira
Suor e
Sede.
Abençoai minha alma
Porque meu corpo alcançou o limite.
Insensatez
Afaste-se da cabeça dos homens.
Estes, que arrancam-lhes as cabeças na vitória.
Ó glória
Ó mérito
Vencemos!
Matamos
E morremos
Cada vez que o estouro dispara.
Uma bala. Uma pessoa.
Uma desgraça. Uma família.
Perdoai-me, senhor, pela ingnorância e instinto animal que me possuíram.
E, para que lutávamos mesmo?!
Detalhe…
Para agora e na hora que vierem os mortos...
Amém!

Dedicação
Celso Gomes era um professor universitário muito bem conceituado. Com artigos publicados em revistas acadêmicas do país e do exterior, gozava de muito prestígio entre professores e alunos. Devido ao seu grande prestígio no meio acadêmico, as poucas vagas disponíveis para as suas aulas tornavam-se extremamente disputadas pelos alunos. Seus artigos eram referência obrigatória para qualquer publicação. Suas palavras eram sinônimas de sabedoria, interpretadas como uma verdade absoluta.
Era final período, os alunos precisavam realizar a última avaliação do curso. Muitos, então, se dedicaram ao máximo para realizar um bom trabalho, pois o enxergava como uma possível tese acompanhada de uma carta de recomendação para uma universidade estrangeira, além do prestígio pessoal de ter trabalhado junto ao professor Gomes. E eu era um deles.
Depois de pronto é que percebi o quanto aquele trabalho havia consumido muito do meu tempo. Meses de dedicação e leitura sobre o tema nas principais revistas do Brasil e do exterior. Realizei uma resenha de praticamente tudo o que já foi publicado antes. Depois, fiz inúmeros testes e simulações matemáticas nos computadores do laboratório de análises. Equações, fórmulas, hipóteses, teorias, conseqüências, resultados e, enfim, conclusões. Era um trabalho muito bem feito. Resumo e Abstract no início, índice de siglas, figuras e tabelas, bibliografia. Os gráficos eram renderizados, todos em 3D. Talvez fosse o melhor trabalho já realizado na minha vida. Cheguei a sentir orgulho de mim mesmo, pois acreditava que aquele trabalho poderia ser o meu passaporte para o doutorado no exterior! Afinal, tamanha dedicação deveria valer alguma coisa.
Enfim, chega então o tão aguardado dia da entrega dos trabalhos. Muitos alunos haviam aguardado ansiosamente por esse momento, principalmente eu! Alguns reliam os slides que logo iriam apresentar, outros se apressavam em corrigir alguns poucos detalhes da apresentação, mas ninguém ficava parado. Eu havia me preparado bem para a apresentação na noite anterior, pois costumo ficar nervoso e esquecer detalhes importantes em apresentação de trabalhos. Mas hoje, com certeza vou apresentar um grande trabalho.
Assim, às 10:00 da manhã, a secretária do professor aparece na sala de aula e nos passa o seguinte recado:
- Bom dia, alunos. O professor me ligou ontem de noite e me disse que iria antecipar as férias dele em uma semana para poder participar de um congresso na Europa no final do mês. Assim, estão todos automaticamente aprovados, não precisam entregar os trabalhos. Boas férias!
Paralela (Sessão Música Parte 1)
Paralela
Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Letícia, que eu chamava de Lela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.
Paralela
As palavras entaladas atravessadas na goela
A verdade já de tarde tão covarde se esfarela
Se ela soubesse o meu nome como eu sei o nome dela
Um presente que não se toca como retas paralelas
Paralela Paralela Paralela Para:Lela
Não houve um só momento
Em que meu pensamento, afastou-se de ti…
Não houve um só dia
Em que eu não queria te fazer sorrir
Não houve um só segundo
Em que o mundo não parou pra te aplaudir
E eu sou o cara mais feliz do mundo
Desde quando te conheci
Foi bom saber que não fui só eu
Quem sentiu saudades
Mas eu não sou seu irmão
Eu quero mais que a sua amizade
Eu devo estar ficando maluco
Com o passar da idade
Mas quero que saiba que te amo mais
Que minha própria liberdade
É por isso que minha vida é paralela a sua
E se encontrar é cair em contradição
É por essas e outras que não ouço meu coração
É por acaso que não tenho qualquer oposição
Ambição ou coisa assim
Mas é pra guardar dentro de mim
Sua imagem tão bela
Paralela Paralela Paralela Para:Lela
Desamor
por Luiz Pedro
Aquilo que parecia o Inferno mostrou-se a mais fria das noites. Não, no Inferno as chamas não tremulam em bandeiras de tempestade. Sente-se apenas o gelo da solidão de quem morreu sem as lágrimas da amada, sem a saideira com os amigos, sem o desespero da mãe abandonada. Descobrir-se inapto ao amor é morrer sem deixar de respirar, puxando o ar cada vez mais forte, sentindo o diafragma comprimir todo nosso peito e machucando de vazio. Talvez uma facada no coração fosse menos dolorida que o desamor. Só que nem há mais batimentos cardíacos para pulsarem sangue nas lâminas de todas essas decepções cortantes e desentranhadoras. Minha fome, meu vigor, minha baixa desesperança, meu grande otimismo de idealista. Tudo desapareceu na utopia que se desfez nas primeiras badaladas do sino da estação, chamando para o trem dos predestinados. Já aceito que a vida é para alguns, e não me sinto mais derrotado, muito menos desprovido de privilégios. Nem todos são para vencer, poucos são os que ainda sobreviverão a todas as estações e irão desembarcar no destino agraciado de eras vindouras desses sonhos que não se perderam nos trilhos cruzados. A torrente é pesada, sem a pureza prometida pelas chuvas despretensiosas. Não me incomodo, encharco, misturo lágrimas às gotas que me caem sem compaixão e molho a ponta da língua na salmoura de pele que me restou. Já caminho sem compasso, já piso sem firmeza, não me importa o rumo que as linhas da minha palma indicam. Resignado, vou aos tropeços em busca de um chão duro e insensível as minhas feridas sem cura. Cuspo seco, ergo a cabeça por breves instantes, minha mente roda, perco o horizonte e fecho os olhos aos males que me açoitam, estalando as varetas que sequer ecoam na parede das ruas desguarnecidas. Ajoelho-me para as penitências restantes, mas o peso dos braços me faz desabar. Encolho, retraio as pernas para junto do corpo, reduzido a insignificância que sempre procurei. Não há mais o que fazer, não há para onde cair, não há mais para quem gritar. Minha voz rouca e débil balbucia uma oração infiel. Meu reino, assim na terra como no céu, será negado por tudo que deixei de santificar. A tentação nunca houve, mas não terei o perdão daqueles que ofendi, nem me livrarei do mal que tanto desejei. Ao Inferno, diga que aqui estou. Amém.

Saudade
Aperta.
Dói, bem no fundo da alma.
E como curar quando não há solução?
Nem ao menos um paliativo…
Dá-me ao menos outra dor!
Que seja mesmo física, em última hipótese…
Talvez distraio enquanto a assisto.
Esqueço o que é,
Como foi,
O que será doravante.
E, quando não mais recordar,
Então voltarei em segundo à realidade.
Sentirei o frio, o terror, vacilante.
Com as cores assim desbotadas,
De cada dia nada mais esperarei
Senão o retorno ao que sempre era.
De tudo, se impossível ao final,
Resta ainda a derradeira opção:
Seguir em frente, largar a espera.
Recomeçar, e ainda que incerta,
Abandonar o cultivo da dor:
Viver sem acreditar em ilusão.
E, quando menos imaginar,
Virá a tua face – de novo.
Oscilo, desconcerto, ressentida.
Mas, como posse tua perdida,
A ti me devolvo.
Soldado Temilton, o arboriglota – Histórias do quartel
Eu era do 3º pelotão, de um total de 4, cada um com 50 soldados e a comando de um tenente e dois sargentos auxiliares. O tenente do meu pelotão era o Barbosa. Tenente Barbosa contava com o auxílio do Sargento Alexandre e do Sargento Santiago. Como todo pelotão tem um soldado que se destaca por seus anormais modos e costumes, o meu não podia ficar fora de tal regra. Já lhes apresentei ao Soldado de Moura, não já? Pois bem. Meu grupamento fora premiado: além dessa raridade de militar, fomos contemplados com a existência do soldado 258. O fabuloso, o extraordinário, o excepcional Temilton!
***
Soldado Temilton, logo à primeira vista, destacou-se: na segunda semana de aquartelamento, quando ainda éramos recrutas, assistíamos a aulas que tratavam de assuntos militares. Aprendíamos hinos, tínhamos instrução armada, noções de primeiros-socorros etc. Um dia, durante uma instrução de Ordem Unida (onde aprendíamos e aperfeiçoávamos técnicas de apresentação militar e de comandos como marchar), o Sargento Santiago nos ensinava a forma correta de apresentação. Ao ouvir seu nome ser chamado pelo sargento, o recruta deveria levantar-se na posição de Sentido, prestar continência, e falar seu número, nome de guerra e pelotão, nesta ordem.
- Soldado 214, Tomé Félix, 3º pelotão!, respondeu, corretamente, o Tomé.
- Muito bom, soldado. Padrão, disse o Sgt. Santiago.
- Soldado 243, Ramon, 3º pelotão!
- Bom, Ramon. Muito bom, elogiou o comandante.
Eis que o sargento aponta para Temilton.
- Soldado Temilton, 258!, brada o soldado.
- O Sr. é surdo, Sr. Temilton? Hein?! É surdo?! Você não tá ouvindo seus companheiros, não, é? De novo!, irritou-se o Sargento Santiago e fez menção pra que Temilton se sentasse e se apresentasse novamente.
Temilton sentou-se e recordou de como seus companheiros tinham se apresentado outrora. Desesperado, levantou-se.
- Temilton, soldado do 3º pelotão, 243!
- O Sr. tá de sacanagem, seu bisonho? Seu nome agora é Ramon?, vociferou o Sargento.
- Não, Sr., gaguejou Temilton.
- Então, por que o Sr. tá se apresentando com o número dele?
- Não sei…, disse, sinceramente, o cabisbaixo soldado.
- Anda, seu monstro! De novo!
E Temilton voltou a sentar-se, aguardando, trêmulo, pelo novo momento. Passados alguns segundos de profunda respiração do Sargento, sua voz de comando fez-se grave aos ouvidos deTemilton, fazendo-o saltar do chão qual grilo.
- Hum…É…Soldado! Dito isso, Temilton sentou-se e pôs o rosto entre as pernas dobradas envoltas pelos braços junto ao peito.
Foi uma explosão de risos na sala de instrução.
- Temilton, vem cá!, disse o Sargento Santiago, querendo controlar a raiva, mas visivelmente falhando na tentativa.
Com os olhos marejados pela vergonha, o recruta obedeceu de pronto. O sargento, então, deixou o militar em evidência, de pé à frente de todo o terceiro pelotão, onde ele encarava a tropa como se fosse um capitão desarmado prestes a enfrentar um exército de lendários espartanos.
- Paes Leme, me diz: o quê que eu faço com essa raro?
- O senhor é quem decide, respondi.
- Alguém aqui é contra Deus?, indagou em voz alta o sargento. Não houve resposta.
- Porque eu acho que Ele não teve amor quando botou esse bisonho na Terra, não. Temilton, o Sr. sabe o que o Sr. vai fazer agora? Tá vendo aquela árvore lá no pátio, perto do infinito? Então. O Sr. vai lá se apresentar pra ela até ela falar que tá bom. Entendido, seu mocorongo?
- Sim, Sr. Sargento!, disse Temilton, aliviado por não ter de mergulhar na Baía de Guanabara fardado e bradando “Temilton não é nome de gente!”, como já tinha feita outras inúmeras vezes.
***
- Soldado 233, Sant’anna, 3º pelotão!
- Tá bom, Sr. Sant’anna, mas pode melhorar. Quero ver vibrando!
A instrução prosseguiu tranqüila por mais cerca de uma hora, a ponto de ninguém mais se dar conta da ausência do Temilton. Agora, entoávamos, em uníssono, a Canção da Infantaria:
- “És a nobre Infantaria
Das armas, a rainha!
Por ti, daria
A vida minha!
És a glória prometida
Nos campos de batalha!
Estar contigo!
Ante o inimigo!
Pelo fogo da metralha!
És a eterna majestade
Das linhas combatentes!
És a entidade
Dos mais valentes!
Quando o toque da vitória
Marcar nossa alegria,
Eu cantarei!
Eu gritarei!
És a nobre Infantaria!”
A porta se abriu no momento e que seguíamos para a segunda parte da canção.
- Permissão para entrar no recinto, Sargento?!
- Tem permissão, seu monstro. O que o Senhor tá fazendo aqui, Temilton?!
- Eu ouvi, respondeu o soldado.
- O quê, seu bisonho?
- A árvore respondeu.
Gargalhadas estrondosas deram lugar ao uníssono que outrora reinava na sala de instrução. Eu, por exemplo, me escorei na parede para não ir ao chão.
- Temilton, pelo amor de Deus, o que o Sr. disse?, respondeu, incrédulo, o Sargento Santiago.
- Ué, Sargento. O Sr. disse pra voltar só quando a árvore respondesse? Então.
- Calma aí. O Sr. tá me dizendo, Sr. Temilton, que a árvore falou com o Sr.?!
- Sim, respondeu o soldado 258.
- Então vamos lá embaixo agora que eu quero ouvir isso!
Descemos todos ao encalço do Sargento. Ao pé da tal árvore, nos posicionamos, ainda com deboche. Temilton pôs-se à frente e apresentou-se:
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
Perfeito. Mas o Sargento não deu-se por satisfeito:
- Tá, Soldado. Muito bom. Mas cadê a porra da voz da árvore?!
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!, repetiu Temilton, exemplarmente.
- Tá, Temilton. Tá! Eu quero ouvir a árvore!
Apenas eram escutadas as vozes do Temilton e do Sargento Santiago. Equanto aguardávamos uma resposta desconcertante do soldado, o silêncio era o palhaço preso na caixa de surpresa prestes a ser aberta.
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
- Fiu!, ouviu-se um assobio.
- Aí, não falei?! Viu? O Sr. viu?! A árvore respondeu!
- Ah, eu não acredito!, respondeu, irado, o Sargento Santiago.
- Nem eu, Sargento! Nem eu! A Natureza é mesmo maravilhosa! Cada um se comunica do seu jeito, né?! Deus é grande…, vislumbrou Temilton.
- Ô, seu monstro! Isso é o passarinho ali no galho! Pelo amor de Deus! Puta que pariu! Temilton, na boa, vai pra água, vai. Não tem almoço pro Sr. hoje, não.
Não é possível. O Sr. não existe. Pelo amor de Deus…, disse o Sargento com raiva e pêsame.
- Mas, é que… Eu vou ter de falar que Temilton não é nome de gente?!, perguntou o soldado.
- Não, seu raro. Quando o Sr. mergulhar, eu quero ouvir: “Eu sou o Temilton e falo com árvores!”. Entendido?
- Sim, Sr.
***
Após risadas compartilhadas entre nós, soldados, e o Sargento Santiago – no único momento onde ele permitiu essa relação -, o comandante disse em voz alta:
- Só falta ele voltar dizendo que flertou com a Pequena Sereia!
Festina Lente
Era pontual. Às 17h começou a se arrumar para um encontro que só aconteceria às 19h30. Nada podia dar errado. Passou sua calça e a blusa sistematicamente, tomou banho, fez a barba e às 18h30 estava pronto para sair de casa. O bar ficava a poucas quadras de onde morava. Também era indeciso e levou o tempo da descida do 7° andar até a porta do edifício para escolher como iria.
- Táxi, pensou.
Lhe pouparia lenço. Já bastava o suor da insegurança e da ansiedade.
Também era tímido. Ao longo do caminho rememorava frases prontas que lia em livros ou ouvia em filmes – a timidez, como toda maldição, provê bênçãos. Tinha uma inteligência e uma memória louvável. Só ele sabia o quanto havia sido difícil conseguir aquele encontro. Quase naufragou na sua própria timidez.
Às 19h00 chegou ao bar e a sua primeira atitude foi olhar o relógio. A pontualidade, apesar de uma qualidade, reside num grande defeito: a ansiedade.
Às 19h15 já imaginou um possível atraso e nas possíveis desculpas que ele mesmo dava para si.
- Um drink, por favor.
A bebida é como coragem líquida. Só ela é capaz de tornar o tímido num descontraído e sedutor, tal qual os personagens dos romances que lia e o oposto do Dom Quixote que era.
19h25 e a hora teima em demorar a passar.
19h30
- Até 19h35 não pode ser considerado atraso.
Cada minuto sozinho é eterno.
19h40
- Deve ter perdido o ônibus do horário.
19h50
- O ônibus quebrou.
20h00
-Todos os ônibus da cidade quebraram.
20h30
-Não vem mais.
O que ele havia feito de errado?
Hamlet observara a Horácio que existiam mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. Nada mais importava, não queria saber motivos ou causas. Toda a sua timidez, sua pontualidade e sua insegurança naufragavam agora no fundo de um drink.
-Mais um, por favor. Hoje eu não tenho hora pra chegar.
No fundo da sua alma
Se eu me esforço um pouco, minha sensibilidade aguça e posso enxergar dentro de você, dele ou de qualquer um que passe pela minha vista. Olho no fundo dos seus olhos e vejo tudo o que está sentindo. Posso até arriscar o que está pensando.
Junto aos seus olhos, todo o conjunto te entrega: sua boca, suas expressões, suas rugas e seus gestos, a posição do seu corpo. Sua relação interior com o mundo exterior. 2 mundos. 2 diferentes mundos em constante convivência, muitas vezes, desarmônica.
No fundo da sua alma, eu posso ver uma bela menininha num belo dia de sol, alegre e saltitante, uma menina cheia de sonhos, cheia de amor e alegria, cheia de espontaneidade. Uma menina pura, inocente e inexperiente.
Seus olhos brilham como o sol daquela manhã. São tão esplêndidos e ternos quanto a luz que aquecia os corações gelados.
De repente, seu olhar cai, e vejo que aquela pequena menina cresceu, ela agora tem peito, bunda e um jeito de Lolita. Sinto a sensualidade no ar, sinto o cheiro de sexo transpirando em cada passo seu.
Ela só pensa NAQUILO. Também pudera! Seus hormônios estão à flor da pele, sua respiração constantemente ofegante, mal pode se conter. Vejo tua boca me chamar.
Mas quando fixo um pouco além meu olhar, parece que uma sombra me cobre por inteiro. Fico cega, sem sentidos e sem rumo. O que aconteceu? Quem fechou as cortinas? Não enxergo nada, tudo o que vejo é escuridão. Tudo o que sinto é solidão. Tudo o que vejo me apavora.
Também pudera. Só vejo nada. Meus olhos me iludiram, levaram minhas esperanças, meus sonhos, minhas alegrias, meu gozo. O que sobrou de mim?
Devolvam-me, olhos traíras, o que a mim pertence! Não pense em me negar. Não lubridie a minha inteligência. Os olhos a mim pertencem. Com eles faço o que bem entender!
Posso ver as rugas aumentando. Aquelas velhas rugas. Fruto da preocupação, do medo, do desespero, da infelicidade. Aquela bela menina virou uma velha rancorosa.
Não deixe que os seus olhos fechem de vez.
Comentários (2)