Suco de carambola
por Luiz Pedro
Quando garoto, eu viajava até o interior de Minas com meus tios e primos. Era a viagem certa de férias: visitar minha avó em Patrocínio de Muriaé, uma pequenina cidade na divisa com o norte do Rio de Janeiro. Mas miúda mesmo, quatro mil habitantes, praça com igrejinha, cachorros vadios e magrelos, barro seco, “tarrrde, dona Almerinda”.
Após aquele almoço cruel, costelinha de porco, ovo caipira frito e doce de goiaba, éramos derrotados pelo sono no tapete da sala, numa falsa tentativa de fazer a digestão assistindo “Sessão da tarde”. Aos poucos, a casa ia despertando e um passeio rápido para esticar as pernas se fazia necessário, uma caminhada até a venda para comprar queijo. Na volta, o final de tarde já se anunciava no cheiro de chuva porvir, na brisa fresca dançando as árvores da praça. Chegando em casa, ia até a cozinha, onde minha avó preparava um suco de carambola fresquinha do pomar. Deixava o queijo em cima da mesa e me sentava na soleira da porta, olhando as nuvens acenando pelas costas da montanha e escutando o aconchegante sotaque da minha avó contando casos da vizinhança.
Então ela me dava aquele copo de suco de carambola, naturalmente doce, com um toque ácido na medida certa. Voltando a mirar as nuvens ao longe, tentava saborear ao máximo aquele frescor, com longos e pausados goles. Naqueles goles tenros que condensavam todo o ar de familiaridade e paz que só reencontrei novamente 20 anos mais tarde nos lábios de Beatriz.
A crônica da mulher bonita
por André
Era uma interrogação em aproximadamente 1,65 de altura. Não que fosse uma dessas mulheres cheias de dúvidas para escolher com que roupa iria a um simples compromisso, mas sim porque homem algum foi capaz de descobrir o que se passava pela sua cabeça ou decifrar qualquer sentimento que a leve expressão facial tentava denunciar à medida que brincava com um copo de suco e olhava debochadamente nos olhos dos presentes.
Era decidida, ao menos. Com um vestido preto e simples – o que talvez denotasse pouca paciência para a escolha da roupa –, chamou a atenção de qualquer um que não estivesse bêbado quando entrou na escondida confeitaria do bairro e sentou-se no terceiro banco à esquerda da máquina registradora.
- Um suco de morango, por favor.
Imaginei que fosse cliente antiga, já que não perguntou ao balconista quais as opções do estabelecimento. Enquanto esperava, roía cuidadosamente o canto da unha para não borrar o batom num tom de rosa bem leve que combinava com a sombra dos olhos. Não se importava com nada. Pouco dava atenção aos olhares ou cochichos dos outros à sua volta, parecia não haver ninguém ali. Era a garota e o seu suco de morango.
Abriu a bolsa, pegou o celular, conferiu uma mensagem e logo em seguida começou a falar com alguém do outro lado da linha. A cada sorriso rouco provocado pela conversa, puxava o canudo já manchado pelo rosa do batom para beber mais um gole do suco ou se punha a enrolar a ponta dos ondulados cabelos castanhos claros que caíam nos ombros marcados pelas sardas que a alça fina do vestido tentava esconder.
Eu a observava fixamente. Cada movimento, cada sílaba pronunciada, cada balançar de cabelo. Pagou a conta e saiu. Deu um pequeno trote segurando o vestido que até o vento tentava levantar e sumiu do meu campo de visão enquanto atravessava a via.
Discretamente levantei e fui até a calçada ver que direção tomara. Tudo em vão. Àquela altura e num piscar de olhos se confundiu com a beleza das ruas de Ipanema.
Deixe ela se curtir
por Luiz Pedro
Poucos são os momentos mágicos da vida. Ver no estádio seu time ser campeão, segurar seu filho no colo pela primeira vez, assistir o pôr-do-sol na companhia dos seus melhores amigos. Não, esses não são momentos mágicos. Talvez espetaculares, sensacionais, inesquecíveis. Mas são naturais, racionais, não possuem aquela faísca estranha que contamina o ambiente com um ar sobrenatural. Mágico mesmo é o momento em que você presencia uma mulher se masturbar.
Não serve câmera escondida, muito menos vídeo pornô. Não conta pedi-la para se tocar, nem prostituta. Tem que ser a sua mulher, ao vivo, a poucos centímetros, disponível ao toque, espontaneamente. Aquela mulher de cabelos presos, passos contidos, tímida, criada por pais omissos, anos de educação católica, menina assustada com a aula de religião doutrinando o erro e o pecado de curtir o próprio corpo, com a pena capital de jamais entrar no céu eterno. Aquela mulher reprimida por todos os lados, que não se permitia prazer, até ler em alguma revista ou conversar com alguma amiga que se masturbar era uma experiência necessária, instintiva e violentamente libertadora.
Tal magia se dará na cumplicidade do charco dos suores, com a mulher em pêlos, cabelos despenteados, pernas abertas e respiração ofegante, tomando para si a liberdade de fazer aquilo que seus instintos sempre lhe pedem nos trâmites do amor solitário. Só que agora ela está acompanhada e você é apenas um coadjuvante. Não significa que você não a satisfaça ou que ela não te quer. Não, meu amigo, aqui é exatamente o oposto. Ela está tão entregue, tão disposta a sua vontade que fará aquilo que sempre fez sozinha, mas com você ali, de camarote, deitado ao seu lado. E não adianta querer tomar a frente e fazer por ela, não. Deixe-a se tocar, apenas a sua sabedoria de quem se basta pode conhecer os pontos que irão ativar uma intensa fiação elétrica. Se permita essa fraqueza, admita sua submissão a um corpo tão permeado de meandros no escuro da alcova. Se coloque a disposição, dê uma ajudinha sutil e fale as maiores perversões no ouvido, segure seu cabelo, faça-a sentir a sua respiração pesada de homem.
Agora aprecie com a mesma curiosidade de quem está despontando pro mundo. Note aqueles dedos tão pequenos e frágeis domando aquela força inesgotável que existe no corpo de uma mulher. As mãos escorregando facilmente para além do umbigo, dedos ágeis em movimentos que você não se sente minimamente capaz de repetir com tamanha destreza, enquanto a outra mão sobe até o peito, apertando o bico intumescido, passando os dedos na pele eriçada pela sensação vibrátil de quem vai entrar em curto a qualquer segundo. Veja-a de olhos fechados, gemendo sem pudor, boca aberta e lábios molhados. Sim, não pare de olhar, olhe tudo e sinta o ar ficando carregado, como o céu que vai escurecendo sinistramente de nuvens pesadas para, num só instante, descarregar aquela raiva em raio, trovão e chuva torrencial.
Toda aquela tensão não mais irá resistir e o gozo virá com força, numa energia em balde despejado, inundando o quarto com gritos, arranhões e dentes cerrados. E você ali, embasbacado na confiança da sua mulher, que de nada depende para ter um orgasmo ainda maior que os que você ensaia dar a ela.
E então, quando sentir essa fragilidade escancarada por uma mulher que se permitiu um gozo na sua frente, sem ter que prestar contas para você, Deus ou para puta que o pariu, saiba, meu amigo, que este será um momento mágico.
O esconderijo
por Luiz Pedro
Um apartamento (ou casa) grande. Móveis um tanto desalinhados, sem conjunto, com tralhas largadas como se alguém tivesse que sair às pressas. Pela ampla janela de vidro, o azul violeta entrava inadvertidamente e anunciava que a tarde ia se entregando ao sono ali guardado. Eu andava pelos corredores e escutava os barulhos externos. O som de uma vizinhança tranquila, talvez uma casa nos altos do Horto, cercada mais por verde do que por urbanos. Apenas pássaros cantando espaçadamente e uma criança gritando na rua “chuta, Vinicius, chuta!”. O que deveria ser uma brincadeira de moleques me chamou atenção pelo detalhe de que o Vinicius deveria estar no apartamento. Era o apartamento do Vinicius. Mas não havia ninguém, há anos. Me pareceu loucura da criança que gritava lá fora, como se fosse acometido por algum esquecimento ou simplesmente a maré do tempo recolheu as lembranças e aquilo era apenas a visão de um passado fora de lugar.
Eu procurava o Vinicius pelo apartamento, mas não sabia a planta, não sabia o caminho para os quartos, tudo era novo. Andando pelo corredor, notei cores em movimento saindo por uma porta, havia uma televisão ligada. Entrei e era um quarto de criança, talvez do Vinicius, com a pequena cama encostada na parede bem ao lado da porta. Lá estava a TV ligada, porém havia sido tirada da estante e posta no chão, voltada para a cama. Estranhei, me aproximei e me abaixei para ver se lá estava o Vinicius, deitada embaixo da cama, assistindo televisão em uma posição nem um pouco comum. Não havia ninguém, mas alguém esteve lá. Um pacote de biscoito vazio, vários ursos, cachorros de pelúcia amontoados e amassados.
Ali ficava o Vinicius. Recluso de um mundo que não o aceitava. Podia imaginá-lo deitado com os joelhos encolhidos, mão na boca, olhos fixos na TV, protegido pelo lar que criou em uma casa onde não achava seu espaço. Protegido pelo abraço de todo tipo de pelúcia. Confinado na prisão que lhe impuseram e aceitou como um cão submisso.
Tentei me esgueirar para dentro daquilo que parecia um lar, mas meu corpo não cabia naquele espaço tão reduzido. Eu não era mais aceito no esconderijo tão cuidadoso que fiz para fugir dos gritos do meu pai, para não ouvir o choro da minha mãe. O tempo passou, esqueci o nome dos meus leais amigos de pelúcia, perdi o encanto que aquela cabana trazia, com tamanha paz e solidão.
Morri aos 9 anos de idade, em mergulhos no verde mar de Angra, mas meu corpo não pereceu. Apenas não cabe mais em mim.
A viagem científica da alma viciada
por Paula Braz
E esse desejo constante e fixo na busca da origem e causa de tudo pode levar à loucura.
O ego concentrado em si nada vê além.
E seu mal está na sua infinita criatividade processada de forma extremamente peculiar e própria.
Do ser que só se vê saem conclusões formadas, distorcidas no inconsciente,
Chegando à mente pré-fabricadas, aprovadas e corretas.
Presumivelmente exatas.
O porém está no seu vício de fabricação.
E, dessa luneta pessoal, fica o ego achando que é o centro do universo.
Vendo em sua luneta particular, esquece que sozinho não está.
Sua luneta coabita com milhões de outras,
Semelhantes na estrutura, mas em posições diferentes.
Ocupam raios diversos do mesmo centro,
Atestando apenas o que lhe permite o ângulo de seu instrumento.
Passando algumas por décadas a fio sem notar a amiga luneta ao lado.
Culpa de sua matéria-prima,
Do duro revestimento envolto em sua alma.
Uma noite idílica
por André
Abro os olhos bem devagar e esfrego-os com as mãos para desembaçar a visão ainda confusa pela claridade de algum rastro de luz que entra pela janela. Janela fechada e marcada por gotas de chuva que o vento trouxera e caprichosamente pintou no vidro. Fecho os olhos novamente e estico os braços para me espreguiçar. Estico os braços como quem, numa tentativa insana, tenta desesperadamente prolongar o momento.
Abandono a moldura e me viro pra você deitada no sofá. Com um vestido preto que deixava o colo alvo descoberto, segurava uma taça de vinho entre os dedos, como se posasse para um pintor anônimo diante do monumento que lhe renderia a fama eterna por sua obra-prima.
Caminhei pelo chão de madeira até o canto da sala sem falar nada. Só te olhava e prestava atenção em cada detalhe daquela cena para emoldurá-la na memória de forma que o tempo não fosse capaz de esvaí-la em fumaça. Ligo o rádio em busca de alguma estação que fizesse jus ao momento, à espera de uma música que transformasse aquela situação em cena de filme.
Sento aos pés do sofá sem dizer uma palavra sequer. Sento fitando seu rosto e o seu corpo relaxado no sofá. Sento e te admiro até você ficar sem graça, esboçando um leve rubor no rosto, como se não estivesse acostumada a ser observada assim insistentemente. Poderia passar a noite inteira ali em transe, feito a fotografia que vi recentemente de um monge que, em protesto, ateou fogo ao próprio corpo e aguentou passivamente a profusão das chamas que insistiam em atrapalhar a sua concentração. Mas fui interrompido.
Fui interrompido pelos primeiros solos e acordes de um piano que tocava no rádio a minha música favorita. Aliás, não sei nem se aquela é a minha música favorita. Mas para o momento era. Levantei, peguei a taça de sua mão e coloquei na mesa. Fiz um gesto com a mão e te puxei para dançar. Sem graça e talvez sem compreender, você acatou meu pedido gestual e passamos a flutuar sobre o piso de madeira. Unidos, passei a sentir as curvas do seu corpo que até então só me era permitido contemplar. Sentir as curvas e o perfume que vinha do seu cabelo úmido. Eu não sabia dançar. Só queria viver um momento único, uma cena idílica. Fecho os olhos para suspirar profundamente, encosto a cabeça no seu ombro e beijo o seu pescoço. A música acaba e ficamos ali, inertes no meio da sala por um tempo incontável. Eu poderia dormir e nunca mais acordar.
Ao abrir os olhos, tenho a visão novamente tomada pela claridade. Esfrego-os com força e olho ao redor. Só vejo o vazio do meu quarto e o vidro da janela que aprisionava o Sol e deixava transpassar a dura realidade de ter acordado de um belo sonho.
A mulher com o cabelo mais bonito do mundo
por André
Não importa quantos anos passem, aquela cena continuará nítida na memória. Como se, a ferro e fogo, imprimissem uma marca na mente incapaz de ser apagada e tampouco esquecida. Eu não sei quem era aquela mulher, seu nome, idade ou de onde era. Mas aquele encontro ficaria marcado e por muito tempo a expectativa de revê-la me acompanhou.
Era tarde de maio e eu estava na livraria que costumo frequentar. Como de hábito, folheava as novidades literárias espalhadas pelos corredores e seções que o espaço apertado dela me oferecia. Sempre gostei da calma do local e me permitia perder horas ali, que me servia como uma espécie de refúgio de toda correria que a cidade impõe.
Naquele dia chovia torrencialmente e os passantes buscavam um lugar para se abrigar da tempestade. Acostumado à presença silenciosa dos livros, me senti incomodado com o burburinho das pessoas atrapalhando a minha atenta tentativa de leitura. Profanavam meu templo e o meu ritual semanal. Para fugir das pessoas que falavam insistentemente, procurei as fileiras mais afastadas da porta até achar alguma coisa que realmente prendesse minha atenção.
Folheava um livro qualquer até ouvir o irritante barulho do que parecia ser um salto martelando o piso de madeira. Fixei os olhos nas páginas sem ler nada. Apenas queria escapar daquele ambiente caótico que se formara por conta da chuva. Senti que a mulher parou ao meu lado, mas não fiz questão de olhar. Resolvi, então, colocar o livro na prateleira e sair dali.

Ao virar o corpo para me dirigir até o corredor seguinte, me deparei com a mulher que ficaria marcada na minha memória até hoje. A mulher com o cabelo mais bonito do mundo. Não me recordo quanto tempo fiquei parado admirando aquelas melenas castanhas. Cinco, seis, dez minutos? Não saberia dizer, mas acabei me dando conta da situação e fui para outra prateleira observá-la sem que pudesse ser notado.
Meu olhar atônito acompanhava atento cada movimento que os fios faziam em cada movimento dela na sua procura por livros nas prateleiras mais altas. Eu fui testemunha ocular da mulher que levava a poesia cativa nos cabelos. E a partir daquele momento e daquele dia, levaria minha atenção, minha razão e durante um bom tempo meus pensamentos. Diante de tal situação, o que fazer? Eu não sabia, mas olhar já não me bastava mais. Eu queria sentir, cheirar, tocar…
Resolvi dar a volta e chegar mais perto para, quem sabe, sentir o cheiro ou esbarrar nela. Os corredores são apertados, eu teria uma desculpa. Eu era um alucinado e mendigava qualquer migalha que a circunstância pudesse me oferecer.
Não consegui. Ao me aproximar, por capricho do destino ou maldade dela, a vi colocar o livro cuidadosamente na prateleira e se dirigir para a saída. Fiquei sem reação. Não era possível que aquela seria a última vez. Poderia ter saído da livraria e ido atrás dela, mas a sua partida me deixou tão sem reação como quando a avistei.
Fui até onde ela estava e busquei o livro que lia. Peguei-o e passei página por página, tateava folha por folha e era como se tocasse aqueles cabelos. Aproximei as páginas do nariz e procurei sentir o seu cheiro. Hoje até acho que o que sentia era o cheiro de novo do livro, mas na época e até hoje consigo recobrar, sentia perfeitamente aquele perfume. O cabelo mais cheiroso do mundo.
Eu precisava guardar aquela prova, aquele documento. Me dirigi rapidamente até o balcão e resolvi comprá-lo. Aquela relíquia seria minha. Atordoado corri para casa com o livro nas mãos protegendo-o da chuva que já deixara de cair com violência. Sentado na cama, era um lunático. Cheirava-o insistemente procurando sentir naquelas páginas algo que me recobrasse aquela sensação única que vivi naquela tarde. Não me importava de quem era o livro ou o que nele continha. Importava era a sensação que ele me despertava.
Passei o resto da tarde e boa parte da noite naquele ritual até pegar no sono. Na manhã seguinte repeti tudo novamente até resolver ir para livraria à tarde tentar reencontrá-la. O local me despertava lembranças e os livros eram testemunhas que gritavam a minha angústia. Passei muito tempo repetindo essa rotina em vão. Foi então que percebi que aquilo fora obra do acaso e que me restava apenas me conformar.
Aquela mulher levaria não mais apenas a poesia cativa nos cabelos como eu já intuíra. A partir de então levaria também o meu lembrar…
Rosa Cabarcas
por Luiz Pedro
Ela tinha cara de puta cansada de esperar. Abalroada num poste do decrépito porto de Cartagena das Índias, olhar perdido no tédio que cada homem rude trazia para sua cama todas as noites. Seu corpo desatado pelo tempo era indiferente ao calor daquela noite. Nem o mar do Caribe se perdendo no negro à sua frente conseguia amainar aquele abafado de quarto fechado.
Sua roupa não condizia com seu ofício. Não havia a vulgaridade das concorrentes que disputavam território e combatentes. Trajava um vestido solto, do mesmo roxo desbotado que esvaziava da taça com goles insípidos. Seus movimentos lânguidos eram a marca de uma batalha que jamais venceria. Virava o rosto vagarosamente para acompanhar os passos de potenciais negócios, os olhos emoldurados em maquiagem desleixada piscavam lentamente, numa mistura de embriaguez e desalento, distantes de serem confundidos com uma tentativa sedutora de comércio. O destino gravado a ferro quente no seu ventre deixava claro: já havia passado por todos os bordéis da cidade desde seus 12 anos, não havia homem casado que não tivesse procurado seu colo quente, seus lençóis mais secaram lágrimas do que se molharam do suor da sofreguidão dos solitários.
Desencostou do seu porto, jogou o resto de vinho ao mar em oferenda sem fé e juntou-se a um velho pescador que a maré lhe trouxe. Deixou-se apalpar nas nádegas outrora firmes e caminhou com os últimos passos arrastados de criança que nunca quis ser bailarina.
Amemos burramente
por Luiz Pedro
Escrevo na noite da Super Lua, um fenômeno que ocorre quando o satélite está mais próximo da Terra que usualmente, atingindo seu perigeu, acrescentando que tal momento coincide com a Lua cheia, o que resulta em um espetáculo único pelos próximos 18 anos. Um dia de namorar a Lua, ou então namorar sob a Lua, preferencialmente. Logo, só chego à uma conclusão: amemos burramente. Simplesmente assim.
Assim, sem expectativas, mas com a esperança de um amor eterno, porque um bom amor tem que pelo menos parecer grande o suficiente para jamais acabar. Sem medo, porque amar não é fácil como dizem as histórias. Há dor, dificuldades, mas amar com coragem te faz mirar uma salvação nos olhos da amada e seguir destemido, sem fraquejar ou tropeçar, atravessando qualquer intempérie nebulosa que o destino interponha impiedosamente.
Uma paixão não se sustenta, tem prazo de validade bem determinado. Seu destino é transformar-se em outro sentimento ou então precisará de um sopro na brasa adormecida embaixo de tanta cinza para que queime vermelho novamente. Talvez a distância tenha essa vantagem de ventania, alimentando a paixão a cada despedida com sua angústia de vez derradeira. Na troca dolorosa de últimas palavras, estudo no entrelaçado de suas retinas algum sinal do destino, como se as linhas de sua mão não bastassem para revelar o tanto de vida que o futuro nos reserva. Procuro no último beijo um encantamento que me transforme em seu, sem realidade dura, apenas um iludido “felizes para sempre”. Não houve separação, fomos vítimas de uma conspiração dos deuses que nos colocaram em trilhos diferentes. Rezo com a fé de um pobre desalmado para esse trem descarrilhar e que assim eu fuja do meu destino final, uma estação vazia e fria, sem você para me receber com seu abraço de moça amada.
Caso nos seja dada a possibilidade – mas sem expectativas – desejo que possamos nos reencontrar. Por mais que anos tenham se passado, ou apenas algumas semanas, desejo ter uma vela para clarear a memória de uma história tão bem contada, reconhecendo o perfume da sua respiração, sabendo que nele reside todo o ar que preciso para continuar caminhando ao seu lado.
Amemos burramente, amando uma Lua distante, mas sem perder a esperança de um reencontro tão próximo, mesmo que num longínquo futuro. Nesse momento lá estaremos, sempre prontos a nos apaixonar novamente, sem julgamentos, com o mesmo arrebatamento dos amantes recentes. E que nesse ínterim possamos esperar, pacientemente, sabendo que ela está lá, também esperando, pronta para nos receber com seu maior brilho no próximo encontro.
Nua lua encoberta
por Paula Braz
Por mim, seguia nua por aí.
Sem pestanejar.
Mas o mundo é muito pudico…
Não suportaria me ver
De corpo e alma totalmente nus.
A família me censuraria com frases de efeito puritanas,
E olhares de maldição.
A religião me condenaria ao inferno eterno,
Enquanto rezasse por minha pobre alma pecaminosa.
A sociedade já teria me levado para a fogueira das hipocrisias
Desde o primeiro momento,
Queimando minhas vergonhas
Aos urros famintos de justiça.
Mas, sozinha, na mente e nos sonhos,
Despida permaneço
Para os olhos mais sensíveis
E as almas mais humanas.
“Eterno Amor De um Dia Só”
por Luiz Pedro
Búzio tanto pode ser um molusco como pode ser a concha na qual ele vive. Também é o final do nome de um município fluminense, com lindas praias e ventos fortes. Dizem que podemos ler a sorte em jogo de búzios, mas sou um tanto cético. Diante dessa polissemia e diferentes utilidades para uma mesma conchinha, me permito ler não a sorte, que está longe de ser minha especialidade, mas sim o passado e jogá-lo no papel para ver no que dá. Então é esse o significado de tal palavra que adotarei pra mim. Só pra mim.
Paixão de verão tem programa de índio pra fugir do tédio, jogar boliche vira uma ótima para noite. Paixão de verão tem que dar batata frita do McDonald’s na boca. Tem primeiro beijo em queda de luz, sabe como é cidade pequena. Tem implicância com sotaque, afinal “ês pens cu ôns é dês”. Paixão de verão que se preze não cessa com o sono e te acende um espírito meliante, roubar beijo vira especialidade da casa. Tem cheiro de repelente, já que mosquito não dá folga nem para casal se curtir em paz. Mas para curtir de verdade, tem jogo de tabuleiro e greve de papo. Greve que só irá cessar com muita negociação e chamego nos pés. Se for paixão das boas, tem conversa na piscina até os dedos cansarem de enrugar, mesmo que a chuva tente expulsar. Tem vontade de conhecer cada centímetro do corpo da paixão em poucos minutos, já que o tempo é precioso e curto. Tem todo beijo com cara de último, pois logo será. “Às vezes é melhor viver um eterno amor num dia só”.
Paixão de verão tem um lado angustiante. Assim como o verão, tem uma velocidade diferente, tem cara de pancada de chuva no final da tarde, forte, mas que não é suficiente para o calor cessar, pois vai embora logo, logo. Deixa aquele rastro de chuva, cheiro de terra molhada, uma brisa mais fresca, azul do céu rareando e um gostinho de “quero mais”. Aquela vontade de esquecer que a despedida será necessária. Aquela vontade de abraçar um pouco mais, de esquecer que o relógio caminha sem muita consideração com os breves amantes. Aquela vontade de falar tudo, de não estragar nada, de repassar as horas na cabeça para não correr o risco de esquecer qualquer detalhe. E a volta pra casa é afetada por qualquer música no rádio do carro que tenha o calor de uma paixão interrompida. Paixão de verão tem espaço para sonho, mas a distância surge para nos despertar sem aviso prévio.
E aqui a gente fica. Cada um para seu lado, sem mágoas nem arrependimentos. Minha esperança é grande de nascença e preciso pensar que não acabou aqui. Só me basta a esperança, e nela eu me apego como o náufrago de uma mulher. Já dizia a Beatriz: “para sempre é sempre por um triz.”
A CIDADE ESTÁ EM LAMAS
por Paula Braz
Transporte recomendável? Sem dúvidas, o barco!
Que cidade maravilhosa, cidade imperiosa, cidade toda dengosa nada!
Isso aqui tá mais para cidade enlameada, cidade desastrada, cidade despreparada, cidade da enxurrada.
Num passeio de barco público,
Vou observando, vou vendo, vou enxergando.
Observo o estado das coisas, de pessoas e de água.
Vejo água, terra e lama.
Enxergo calamidade, destruição, mortes e falhas graves na estrutura.
Pouco preparo, muitas conseqüências.
Solidariedade? Ah, sim!
Boa vontade existe, e compaixão também,
Mas elas sequer conseguem chegar ao seu destino final.
São interceptadas, desviadas,
Se perdem no tempo e espaço,
Nas mãos sujas da corrupção,
Guiadas por mentes psicopatas,
Corações sem escrúpulos
E sangue de barata, morta.
Teu asco não chega nem perto dos homens poderosos.
Poder que atira e tira,
Manda e comanda,
Paga e vende
Ou mata e morre.
Ou tudo ao mesmo tempo.
Não necessariamente nessa ordem.
Certamente numa ordem interna
Que transforma a vida numa desordem certa.
É, Rio de Janeiro, será mesmo carnaval o ano inteiro?
Cidade do samba, do futebol e das caipirinhas.
Mas, já estamos em maio,caro meu.
Não te preocupes com isso!
Junho tem copa do mundo e outubro eleições.
E a caipirinha, essa tá sempre ai, quando quiser, é só pedir!
2010, o ano que nunca existiu.
Pois assim é mais fácil esquecer o que tentam me esconder.
Pode resisitir, mas o Haiti é aqui!
Um brinde
por André Cruz
Eu queria escrever algo leve sobre um assunto profundo. Algo que tratasse com agudeza essas superficialidades da vida.
Não consigo. Nada mais tem importância pra mim. Aliás, a única coisa que me importa é esse lastro de olho diesel que você deixou nas minhas veias. É o tormento da sua volta que faz meu coração palpitar.
Acordo afobado todos os dias. Acordo, pego o celular e em vão procuro uma ligação sua.
Já pensei em trocar de número infinitas vezes para esse tormento passar, mas não consigo. Desisto por falta de coragem, por medo de perder uma desesperada tentativa de reconciliação sua pedindo desculpas pelo tempo perdido ou uma daquelas mensagens apaixonadas que trocávamos.
Tudo mentira. Aposto que você diz isso pro primeiro cara que te paga uma bebida na rua e te leva pra cama.
É como se eu esperasse uma Parusia. Virei um crente maldito. Te defendo fanaticamente perto dos que ousam falar de você.
- Ela te deixou! Não merece o seu sofrimento!
Foda-se! Só estou carregando a minha cruz.
Há poucos dias foi o nosso aniversário de namoro. Peguei aquela foto que tiramos juntos numa Polaroid em um dos nossos primeiros encontros. A foto já estava perdendo a cor e a nitidez. Já o que eu sentia…

Tormenta! E a minha nau já não tinha mais comandante e nem rumo.
Tomei um banho, me arrumei e saí. Fui naquele restaurante em que a gente se conheceu. Sentei à mesma mesa e pedi ao garçom o nosso mesmo prato.
- E pra beber, senhor?
- Uísque.
Um brinde a sua covardia!
Sete anos!
Levei esse tempo todo pra descobrir que você não prestava, que era uma merda na cama e que só me fez mal.
Sete anos pra descobrir que eu te amo, que nenhuma mulher vai te substituir e que você merece toda filha da putagem do mundo até voltar pra mim.
Sem sentido
por Paula Braz
Você acha engraçada a decadência humana?
Pois eu não.
Acho triste, perversa, cruel e fria.
Na verdade, me embrulha o estômago, me arde o peito, me dilacera a alma.
Transforma o meu espírito em um bando de caquinhos de vidro
Que a cada movimento do corpo fazem perfurar lentamente o meu âmago.
Fico pensando que esse Deus tão bom e justo deve ser
Cego
Surdo
Falência múltipla.
Porque ele não enxerga a miséria que nos rodeia,
Não ouve os gritos dos desesperados
E nem sequer profere qualquer palavra de consolo
Que, ao menos, amenize essa falta de pão, teto, amor e dignidade…
Que a cada dia nos dai hoje.
Crônica do Descaminho Anunciado
por Luiz Pedro
Mais uma vez encarava a noite, procurava estrelas e jogava a cabeça pra trás, apoiando-a no pescoço. Desceu a cabeça e em pé, fora do bar, respirava o sereno e torcia para que a cada gol do Flamengo o gosto de vitória na vida subisse um pouco pela sua garganta. O jogo terminou empatado, tomou um rumo diferente de volta para casa.
Foi pela orla, procurando algo para se entreter, mas a noite fria havia espantado qualquer que fosse, só restavam os corajosos corredores e os vendedores solitários de quiosque. Percebeu que não teria sucesso e retornou para o meio dos prédios, agora em busca de um boteco qualquer. Estava doente, não deveria beber, mas aquela noite fazia necessário um gole de cerveja, por mais que as conseqüências fossem devastadoras.
Sentou em algum boteco que não fosse conhecido, não queria a sensação cômoda da familiaridade. Desistiu da cerveja. Pediu um maço de Derby, uma garrafa de Dreher e ali ficou, no balcão, acompanhando na televisão de 14” as últimas notícias da noite. Tentava, pois os jornalistas moviam as bocas sem que fosse possível ouvir qualquer som, estava no mudo. O som que tomava o ambiente era alguma dessas músicas não muito animadoras que tocam na MPB FM nas noites de domingo. Apesar de não querer familiaridade, a música combinou, sentiu desgosto e se restringiu a acender seu cigarro. A febre estava voltando, sentia a fronte esquentar e o frio correr pelas suas pernas. Fechou o casaco, mas manteve-se guerreiro na missão de beber a garrafa que lhe desafiava a sua frente. Começou a puxar papo com o garçom, que estava apoiado na pia com cara de poucos amigos. Falou sobre a mulher que o abandonara naquela semana. Ela dizia que não mais tinha motivos para deixá-lo seguir atrasando sua vida, que tinham planos distintos, que a vida era outra. Ele contava como se a dor fosse uma ferida aberta de dias recentes, sem qualquer noção de realidade e tempo, já que Carolina havia seguido com sua vida há mais de 20 anos. Mas continuava a falar dela. Sentia que se falasse do amor que sentiu, do carinho que apenas encontrava naquela voz, tudo aquilo que lhe dominara por duas décadas sairia finalmente do seu corpo, o abandonaria de vez, sua febre cederia e então sairia do delírio de um final tão óbvio.
O rádio ainda tocava, com breves interferências, a garrafa estava na metade, mas brincava com o copo seco, sorvendo o vazio e tocando o gelo na ponta dos lábios. O maço já havia se esgotado, fumara todos pela metade. Ergueu-se, aceitando que não era nem derrota, muito menos vitória, mas aquele sentimento de quem se perdeu no caminho e busca resposta em sonhos. Chegou em casa, tirou os sapatos, fugiu de ver no espelho seu rosto achincalhado pelo tempo e deitou-se. Sabia que aquele leve torpor da bebida traria o sono imediatamente. E quem sabe também traria o mesmo sonho que sonhara por esses 20 anos, independente de delírios de febre. O sonho que a linda Carolina lhe sussurrava: “Está tudo bem”.
Carta de(s)amor
por André Cruz
Você se foi há muito tempo. Desde então eu fico aqui, te esperando sentado no mesmo lugar da última vez que nos vimos. Sete anos, sete anos de vida jogados fora. Talvez fosse melhor termos terminado tudo ou até mesmo eu ter descoberto alguma traição. Assim não ficaria com essa sensação de incompletude, esperando um fim que não vai acontecer. Não chove e nem faz Sol. O dia é cinza, amargo, abafado, incômodo.
Quando você partiu sem dar notícias, eu ainda te procurei por muito tempo nas esquinas. Procurava o teu olhar perdido em algum vislumbre. Em meio a tanta confusão da cidade, via o teu vestido sacodido pelo vento, seguia seu cheiro e voltava pro mesmo lugar. Pra sarjeta. Sentado respirando a fumaça dos carros que passavam jogando a água da poça no meu rosto.
Como pode fazer isso?
Acho até que o cheiro que sentia era o teu cheiro podre que vinha do bueiro. Virei parte do cenário cinza da cidade. Um poste, uma lata de lixo, um papelzinho de propaganda no chão sujo da rua.
Antes eu só te amava. Agora eu também te odeio.
Já quis até que você morresse, mas seria pouco! Você precisa sofrer. Como eu, perder sete anos da sua vida. Sofrendo, quem sabe até você fique no mesmo lugar que eu estou hoje. Quem sabe assim até nos encontremos na mesma vala.
Quem sabe assim você até leia esse desabafo de(s)amor.
“Adeus, minha ilusão de um instante! Tudo continua a ser velho; nihil sub sole novum.”
O lembrete do babaca covarde
por Luiz Pedro
Eu sinto constrangimento por sentir saudade do que já fui, mas não me sinto estranho de sentir saudade do que jamais serei. Estranho. Não sei se já fui uma pessoa melhor, não sei no que me transformo. Tenho medo de que a desilusão tome conta de tudo. Desiludido com os mesmos idiotas que notei, decepcionado com as mulheres diferentes que imaginei. Não quero mais falar sobre os meus sonhos, nem aqueles que planejei para a virada de todo ano, nem aqueles cotidianos que me despertam sobressaltado. Não sei formular frases, não sei mais escrever para tocar as pessoas. Mudei pra pior? Tento esquecer que mantenho todos os meus rancores cuidadosamente embaixo do travesseiro, finjo perdoar apenas para ter como apoiar a cabeça no sono, sono artificial, de quem bebe pra dormir e esquecer e morrer e não renascer nos próximos anos. Mas o perdão não participa nem quando me empurram na fila do Metrô. Que morra quando for atravessar a rua, babaca. Viro a cara pra aleijado, sou descrente apenas de aparência, tenho fé apenas quando me convém, já me apaixonei por mulher de amigo, não amigo qualquer, estou falando de amigo do tipo filho da puta, desgraçado mesmo, daquele que se joga na frente do carro por você e empresta dinheiro pouco se fodendo com calote. E depois eu vi que não passava de mais uma, ela não passava de mais outra qualquer. Valeu a pena? Sei lá, quero entender o motivo para a busca de motivo em tudo. Não quero qualquer uma, as iguais não tem graça, não dão fogo, não causam enxaqueca. A esperança da mulher diferente é uma covardia com as mulheres iguais, todas são, mas sou covarde, e não me importo de ser covarde, não me importo se, covarde ou não, as pessoas aceitam minha covardia transfigurada em chantagem. Chantagem, porque sempre vou achar que estão me devendo, e se estão me devendo, vou cobrar, e se vou cobrar, cobro com juros, correção monetária e porrada na cara. Tanta sacana nesse mundo e logo ela teve que fazer a pior sacanagem de todas. Quantos anos? Sete? Oito? Já perdi a conta, mas não deveria, porque tenho que cobrar depois o tempo que ela me largou aqui, com juros e a porra toda, porque sem rancor minha vida não segue, é combustível, queimando, cuspindo fumaça preta na minha cara para eu tossir a metade de pulmão que me resta, com catarro, sangue e saliva de quem não toma um gole e deve pro santo que está cobrando toda semana. Um amigo do meu pai morreu. Bebia, fumava, dava o cu, e morreu com o coração do tamanho da caixa torácica. Era um piadista gordo, andava com pochete, dava aula de matemática numa bosta de escola e não se importava de mandar aluno tomar no cu. Figuraça, mas morreu, não é mais merda alguma. E quem se importa? Ninguém, mas continuo achando justo. Justo é o que me favorece.
A velha guarda do amor
por Luiz Pedro
Alguns breves comentários nos fazem entrar numa espécie de transe introspectivo. Outro dia escutei uma conversa sobre pessoas melosas. Tal característica era vista como um grave defeito, os tais melosos eram marginalizados. Fui pensar no conceito de “pessoa melosa” e rapidamente cheguei à clara idéia de alguém que exagera no afeto. Mas aí esbarramos em outra dificuldade de conceituação: qual seria o ponto do exagero?
Temos uma sociedade que beira a hostilidade nas relações interpessoais, o paradoxo está presente em todos os gestos e as atitudes beiram o absurdo da incoerência. Os que marginalizam o afeto exagerado são os mesmos que distorcem o conceito de afeto e beijam 20 pessoas em poucas horas. Na falta de referências em meio à busca sôfrega pela produtividade, vírus que fortalece o egoísmo, qualquer gesto que insinue fraqueza é taxado como um defeito. Um mero afago, elogio ou confissão de saudade se torna excessivo, uma falha de produção, revela uma falta. Na onda do Fordismo, viramos máquinas de produzir, nada pode faltar. Na conta desse processo de desumanização, pode botar a mecanização não só da produção, como do nosso sentir, pensar, viver.
Em outra conversa, escutei amigas comentando: “o que é um beijo numa vida? Nada.” Eu intervi, discordei veementemente e, para minha felicidade, fui acompanhado por um bravo guerreiro. A partir do momento que o beijo, um dos gestos de maior intimidade entre duas pessoas, é visto como um nada na vida, posso afirmar, sem medo, que estamos caminhando para uma forma de compreensão um tanto mórbida dos nossos sentimentos.
Admito que pessoas melosas realmente podem ser chatas. Mas querendo o copo meio cheio, afirmo que são heróis do afeto, a verdadeira resistência do carinho, ilustres representantes da velha guarda do amor, tal como deveria ser: cheio de defeitos.
“It’s the sense of touch. In any real city, you walk, you know? You brush past people, people bump into you. In L.A., nobody touches you. We’re always behind this metal and glass. I think we miss that touch so much, that we crash into each other, just so we can feel something.” CRASH, Paul Haggis. EUA. 2004
“Amor como atalho e labirinto”
por Luiz Pedro
Abro os olhos na frente do espelho e me sinto saído de uma propaganda contra o crack. “Mais um jovem vencido pelas drogas.” Antes fosse. As desilusões vão acompanhando o amanhecer e inundam a minha janela com o despertar inevitável da alvorada. Minha gata tenta uma graça para me alegrar, mas logo desiste diante do aturdimento provocado pelo sopro da desesperança que me visitou na surdina da noite. Já é tarde, algum sonho de otimismo fez questão de se diluir nas mágoas jamais vencidas e o rancor impera soberano, com a arrogância que apenas eu fui capaz de alimentar.
Ainda vou me arrepender dessa manhã em que descobri mensagens secretas nos meus livros. Declarações anônimas de casais que se amaram com tantos afagos, que talvez se feriram com tantas palavras impensadas, que por certo não mais se reconhecem no sorriso apagado pela década passada. “30/08/2001 – um ano de namoro. Boa leitura!”
Continuo procurando provas de sentimentos verdadeiros e recorro às cartas. Antigas, marcadas de dobras, amareladas por esperar, com letras arranhadas sem a firmeza da maturidade. Telegramas selados no correio, bilhetes largados em cantos de caderno. Todas endereçadas ao meu nome, mas nenhuma que seja minha. Também encontro outras que deixei de enviar, o clássico equívoco de escrever e não mandar a quem, por direito, deve escolher entre lê-las, chorá-las, guardá-las ou rasgá-las. Foram tantas promessas de amizade eterna, juras de amor verdadeiro, mas nenhuma que o tempo tivesse tempo para zelar. Todas remontam aos restos de um passado que não passa de um remoto passado. Em janeiro, 8 anos.
O barulho dos ônibus supera o dos passarinhos, alguma rádio ecoa ao longe uma música do momento, a luz acesa do meu quarto está em vão. As velharias que revirei não surtiram efeito, embora não houvesse tal pretensão. Recordo da triste constatação que um dia acometeu Marilyn Monroe e aceito que a desesperança tem a cruz da realidade. “Não me falta homem, o que me falta é amor.”
Leva o teu olhar
por Luiz Pedro
Ainda te procuro em cada rosto desse ônibus. As pessoas em pé, com movimentos ensaiados pelo sacolejo da viagem, de olhos vagos para além dos telhados vizinhos à Linha Vermelha. Os olhos, eu procuro apenas os olhos. As sobrancelhas, a cor, o formato e o brilho. Aquele brilho que me fazia buscar motivos para justificar tamanha vividez. Talvez não houvesse nada, mas eu via. Estava lá, tenho certeza, esses sete anos não trouxeram poeira no rastejar que encobrisse o seu retrato em minhas retinas.
Tento lutar contra esse desbotamento de cores. Sua voz não me parece real. Era com essa entonação? Minha memória está cada vez mais enublada. Ou então me revolto e quero esquecer tudo. A vez que me jogou na cama para beijar minha testa é uma pontada que torna minha voz embargada a qualquer hora. Lembra que combinamos de assistir aquele filme? A preguiça bateu, não fomos ao cinema e combinamos de alugar o DVD. Você foi embora antes. Esse acordo não mais era evidente até que se fez presente quando os créditos iniciais surgiam na tela. Aquele era o nosso filme, que tanto queríamos ver juntos, e me senti um traidor por assisti-lo sozinho em casa. Apesar de ser um filme sobre a fé, me levantei descrente e ali se desvanecia minha certeza no happy end. Minha esperança de nascença se tornou uma grande dúvida.
Fui tão alijado do seu convívio que passei a repetir tal ato como um hábito vingativo, sem qualquer motivação, assim como fez comigo. Alguns rancores eu guardo com o maior carinho. Todos deveriam sofrer aquilo que sofri. Uma ridícula pretensão de quem não tem cartas pra blefar e logo se vê fora do jogo. Um vício encoberto por outro vício.
Posso dizer que tentei, que tento ilimitadamente. Mas não consigo, nunca conseguirei. Minhas limitações para chegar lá é que são ilimitadas.
OBS: esse vídeo familiar foi gravado por Tony Villela, um surfista do Guarujá que morreu afogado após salvar outros surfistas.
Dia de consulta
por André Cruz
Hoje acordei cedo. Era dia de consulta no pediatra. Não que eu esteja em idade para tal ou precisando de médico, mas prometi a mim mesmo que acompanharia minha sobrinha ao médico e assim poderia rever o senhor que cuidou da minha saúde durante 15 longos anos.
Confesso que fiquei ansioso. Na espera de ver a reação dele ao me reencontrar. Será que me reconheceria?
A sala de espera de uma clínica de pediatria é um show a parte. Pude me ver em todas as crianças que ali estavam aguardando a sua vez.
Desde as mais pequenas até as maiores.
Do consultório, vinha um choro estrondoso. É impressionante como esse choro é imponente. Capaz de aterrorizar todas as pequenas que estão do outro lado da porta aguardando a sua vez. Qualquer sinal de bagunça é interrompido e o melhor lugar para se proteger são os braços da mãe.
“Que monstro existe lá dentro?”, talvez se perguntassem.
A verdade é que eles ouviam aquilo e choravam calados por dentro. Choravam pelos olhos, mas sem derramar lágrimas. Como eu muitas vezes fiz e ainda faço.
Passei, então, a reparar nos quadros que enfeitavam as paredes. Todos eles se mantinham intactos. Fotos de crianças, de personagens do Sítio, enfim. Fiz um passeio pelos meus 7 anos, quando ia todas as quartas para tomar vacina antialérgica.
Maria Clara, chamou o doutor.
E lá fui eu.
A consulta nem era mais dela, era minha.
Surpresa minha, mas o senhor José me reconheceu.
- Não mudou nada. Tirando a barba, ainda tem o mesmo rosto.
Bondade a dele, que, pra ser sincero, nem reconheci direito.
Conversamos durante bons quinze minutos. Findo o bate-papo e a consulta, me despedi do doutor. Esperei pelo pirulito caramelado do Zorro que sempre ganhei quando terminava uma, mas já era tarde.
Já cresci e o choro desconhecido não me assusta mais. Menos ainda o medo de uma vacina. Meus problemas agora são outros e o pediatra não pode me consultar e menos ainda resolver. Infelizmente
Ato falho
por Luiz Pedro
Mesmo os cegos não possuem olfato mais apurado, a perda da visão apenas os torna mais atentos à forma como percebem os cheiros, diz uma pesquisa de alguma universidade gringa. Fica óbvio que os sentidos, conjuntamente, são os responsáveis pelo apaixonamento. A moça surge, observo cada centímetro do entrelaçado da tez pálida, escuto as elevações e depressões em sua voz, sinto a brisa cheirosa de seus cabelos que varre minha sobriedade. A união desses meios de reconhecer o ambiente nos encaminha para as vielas em que o coração desatinado irá se perder. E se em uma experiência desses pesquisadores de universidades gringas as cobaias ficassem restritas a apenas um sentido na hora de conhecer uma mulher?
Ao vagar pelo Tribunal de Justiça no horário mais atribulado, eu perdi a conta das vezes que cruzei com uma conhecida do acaso que deixava um rastro de perfume no ar. Lembram do desenho do Zé Colméia e Catatau, que eram suspensos no ar pelo cheiro das cestas de guloseimas? Era eu, voltando à cabeça para procurar a dona da onda hipnotizante que tomava os corredores do Fórum. Me apaixonava naquele instante pelo cheiro de uma desconhecida inebriante, mas na virada do corredor já pensava no que tinha que fazer no próximo cartório a ser visitado.
A voz tem um potencial pouco aproveitado. No escritório, eu tratava de uns reembolsos com uma advogada do Rio Grande do Sul. A cada ligação, aquela voz com sotaque sulista bem carregado, me deixava imaginando como ela deveria ser, como estaria sentada na mesa, como estaria segurando o telefone enquanto falava. Nunca soube como ela era, mas é bom manter a ilusão. Hoje mesmo, ouvindo a CBN, a Mara Luquet fazia um dos seus comentários diários sobre economia e fiquei prestando atenção naquela voz, sem tem a menor noção do que ela falava. Falava com a informalidade e tranquilidade de quem comenta o final de semana despretensiosamente com uma amiga. Fiquei instigadíssimo e fui buscar no Google uma foto da dona daquela linda voz. Bem, era preferível ter ficado na ilusão, não havia nada a ver com o que imaginei. Mas continuarei escutando o seu quadro na CBN, “o assunto é dinheiro”, mesmo que eu não entenda nada de economia.
Tratar da visão é óbvio. Mas não falarei da beleza estática, a análise dos traços do rosto. Na época do colégio havia uma menina que sentava de um jeito peculiar quando estava escrevendo. Debruçava-se sobre a mesa, juntava os joelhos e deixava os pés abertos, apoiados pela ponta, junto ao pé da cadeira. Eu esquecia a aula e olhava o conjunto daquele sentar, tendo minha preferência na panturrilha que se pronunciava na ingenuidade daquele postar de pernas. Outro ponto alto é o ritual com que a mulher prende o cabelo em coque: sacode para soltar os fios, começa a juntá-los com as mãos e, num gesto rápido e ágil que apenas a prática proporciona, surge uma espiral de cabelos e o elástico prende rapidamente. Os fios restantes no pescoço agora nu dão o ar da resistência e finalizam o culto ecumênico que acaba de se desdobrar. Já um vestido verde… preciso falar?
Assim como os cegos não tem o olfato mais apurado, não posso esperar que esses momentos de restrição me permitam uma sentido mais apurado na percepção das sutilezas femininas. Mas talvez o caminhar da idade e os seus percalços façam esse trabalho. Talvez.
A origem dos confetes
por Luiz Pedro
Derrubado pelos tropeços do Google, saindo de Eduardo Marciano e chegando na crônica de quarta de cinzas, me encontrei novamente no carnaval de 2008, o melhor carnaval. Lá vai uma retrospectiva não tão breve.
Sexta carnavalesca, lá estava eu no Vem Ni Mim Que Sou Facinha, em Ipanema, com um antigo companheiro de derrotas, o comparsa número 1. Bebíamos sem pretensões, olhando as moças cada vez mais novas com olhos cada vez mais idosos, quando surge a ocasional pessoa que não imaginaria, paixonite tola número 1. Era ela? Só havia encontrado uma vez, porém foi o suficiente para congelar minha espinha.
Foquei de longe, me aproximei na esquiva da multidão a passos de leão na grama alta. Confirmei com meu cúmplice, é ela. Falo com ela? Havia uma história com a sua amiga ainda no frescor de um mês. Mas é carnaval, pensei. Talvez não fosse necessária tal contrapartida, a culpa é minha de não me acostumar ao jeito solto com que as pessoas se desencontram e reencontram.
Voltei a passos mais firmes e falei com ela. Trocamos as boas, combinamos de nos encontrar pelos blocos. O ânimo foi imediato: primeiro dia de carnaval e encontrei a moça perfeita para prender minha atenção. Saí de lá com meu comparsa e rumamos para o Concentra, Mas Não Sai, de Laranjeiras. Bloco entulhado e horrível. Só consegui quase apanhar de um ambulante dois por dois que se apropriou da rua e, embriagado, resolvi tirar satisfação.
Sábado era dia de Bangalafumenga! Desci o Alto Leblon, encontrei o comparsa número 2. Ainda tive breves minutos com uma paixonite tola número 2 – naquele momento comprometida, porém sozinha – e apenas curti a brisa feminina que ela trazia nos cabelos de índia. Bloco ótimo, no caminho de volta desviamos pelas ladeiras do Horto, esbarramos com um mendigo doidão pedindo um baseado para os passantes passistas, uma bola inesperada surge pelo caminho. Era um fruto caído de alguma árvore, entre um coco e um abacate, com a firmeza necessária para transformar em futebol nossa descida. Fomos tabelando por entre os carros e a galera, a cada vinte metros surgia outra dupla para nos desafiar, e ganhávamos todas, beneficiados pela gravidade. Já na Rua Jardim Botânico, seguimos para o Empolga às 9 ainda acompanhados de nossa bola, dando uma caneta vingativa no 592 e chamando o táxi para dançar entre pedaladas.
A Gávea é logo ali, paramos no Bob’s e lá estava a paixonite tola número 3, esta com um toque especial de amor combalido pelas intempéries da chuva que se anunciava. Essa sim, comprometida e não sozinha. Mas eu estava feliz, tanto por aditivos fornecidos pela AmBev quanto pelas serpentinas desenroladas, e pouco me importei. Alcançamos a orla, o bloco já se desfazia, mas encontrei comparsa número 3 reunido com outros amigos. Tentamos mudar a falta de animação que reinava, puxamos sambas antigos na palma da mão e no gogó, ganhamos simpatizantes de cantoria e sainhas tentadoras rodando nas coxas das passistas de ocasião.
Domingo amanhecendo com a chuva anunciada, Empurra que Pega no Leblon, reencontro o comparsa número 1. Bloco fraco, comentam de um bloco na rua da Matriz, partiu. Ônibus circular 584 ainda no Humaitá e começam a entrar foliões desanimados que afirmam que o bloco de Botafogo naufragou. Um grupo de meninas especialmente de Laranjeiras falam do Laranjada, as piadinhas começam, minha camisa do Flamengo vira alvo, as especialmente revelam a faceta carioca da marra despropositada e a viagem fica mais lenta.
O Laranjada já descia a General Glicério, mas deu para curtir uma estendida e animada “vou festejar” entre as lindas e altivas locais. O celular tocava, um grupo de amigas fazia um churrasco numa cobertura em Botafogo, piscina disponível, imperdível. Eu estava de sunga e fiquei agradecido pelo luar nas águas relaxantes da vida vadia.
Na segunda-feira, faleci diante da forte chuva que caía. A paixonite tola número 1, verdadeiro foco do carnaval, acabou ficando entre recados de Orkut, entre combinações de blocos e desencontros na muvuca. Para minha irritação maior, ainda fiquei sabendo depois que, no dia em que pretendi morgar, ela estava no Volta, Alice, linda com anteninhas no país das maravilhas. Para não perder o dia, fui parar em uma rave perdida nas areias de Ipanema até altas horas. Obviamente, nada houve que valesse a pena estender em comentários.
A terça chegou, lá estava no É Tudo ou Nada, o primeiro ano do bloco que o comparsa número 2 ajudou a fundar com seus batuques de caixa. Encontro antigos comparsas de colégio, não espero o desfecho em nostalgia e me despenco para a Lapa, Quizomba estava se aprumando. Animação total, primo-comparsa número 4 fazendo a companhia devida, música pegada, Carnaval ali se encerrava, temporariamente.
Sábado esbarrei com a amiga da paixonite tola número 1, que aqui classificaremos como a paixonite tola número… perdi a conta. Mulheres de Chico, música boa seguida de barzinho na Gávea, ali findou.
Domingo, comparsa número 1 reforçando as trincheiras da derrota iminente “que tu virias numa manhã de domingo”, Monobloco ainda nas areias de Copacabana. Vi um belo banho de mar da paixonite tola número perdi a conta e fomos para o final da festa, Boka de Espuma anunciada por uma roda de samba entre Itaipavas e Stellas. Ainda tive a companhia das amigas do churrasco da cobertura que tentaram dar uma força para o meu carnaval sair do zero, mas o placar era justo, assim quis deixar. Quando o bloco iniciaria os trabalhos, trovões pipocaram sobre os morros de Botafogo, desafiando o esquenta da bateria. A chuva caiu forte, limpou os confetes do rosto e tratou de nos varrer pelas ruas, como dono de bar que começa a lavar o chão mais para expulsar os últimos beberrões do que para manter o estabelecimento asseado.
Assim ficou o saldo: alma lavada, carnaval vivido, mas a paixonite tola número 1 ficou pelo caminho. Fiquei sem saber qual samba puxar, qual bloco seguir, qual história contar, qual sono dormir. Ilusão de carnaval sempre tem sabor de saudade.
Areia e névoa
por Luiz Pedro
Em um determinado momento do meu ápice de inspiração, por volta de meados de 2009, quando brotavam crônicas e poemas de qualquer pensamento tolo, eu pensei em escrever sobre o abraço. Mas de pensar em escrever e efetivamente escrever vai uma longa distância, então deixei o tema maturando em alguma gavetinha de rascunhos mentais.
Com frequência eu me recordo como aprendi a importância do abraço. Aliás, falar em importância parece que quero dar um sentido de utilidade, quando o abraço não tem a menor pretensão de ser útil. Aprendi como sentir um abraço. Assim fica melhor?
Éramos amigos, nos falávamos eventualmente, sem grandes trocas de confidências. Até que um dia, talvez por algum sopro de afetividade dela, talvez pela necessidade de compartilhar uma mera alegria, ela me deu um abraço muito apertado. De início achei engraçado, doeu até um pouquinho, mas o abraço foi apertado na medida do que ela queria me passar. Conseguiu e gostei, passei a praticar, virou até uma brincadeira nossa. Fomos nos aproximando cada vez mais e, como todo adolescente altamente suscetível à descoberta dos encantos femininos, me apaixonei por ela.
Guardei aquele sentimento pra mim. Vidrado nos seus olhos, escrevia poemas que entregava a ela como se apenas quisesse uma mera crítica, quando estava era confessando em segredo meu desejo.
Por fim, ficamos. Sabe aquela história de escutar sinos quando beijamos a mulher da nossa vida? No meu caso tocou “Fly Me To The Moon”. Me deleitava mais ainda nos abraços, mergulhando no perfume dos seus loiros, enlaçando seu corpo para incorporá-lo ao meu. Mas pouco durou. In other words, tive a dolorosa fossa de um amor contrariado, febril, noites insones, travesseiro de lágrimas e por muito tempo bani essa música da minha vida.
O tempo passou, a menina do abraço tomou rumo pelos meandros da vida, mas me deixou aquela lição valiosa e lembranças gostosas de abraços intermináveis.
Até que ganhei uma linda sobrinha, Bia, que me revelou o que era amor numa noite piegas de Natal, quando espontaneamente me abraçou. Agachei meu corpo para receber o abraço de seu pequeno corpo, que mal alcançava meu pescoço. Fiquei sem reação ao descobrir que amava aquela menininha com todas as forças e limitações que me imponho. Se me deixassem levar algo para uma ilha deserta, certamente seria a lembrança desse abraço.
Penso que se eu não prestasse atenção àquelas lições que tive com a garota da minha adolescência, talvez não fosse capaz de sentir o abraço. Será? Lembro da menina e sinto vontade de lhe dizer algumas palavras carinhosas. Por que não?
Acordei velho o suficiente para falar besteiras senis das quais não se espera resposta. Sonhei que você passava aqui para me dar um livro. Eu te abraçava com a costumeira indiferença pelo tempo e a névoa de um faroeste de um bilhão de anos se dissipava. O sol, já até esquecido, surgia, talvez maior, ou talvez eu apenas não me lembrasse que fosse tão brilhante.
Meu lirismo é uma nostalgia de infância.
Ele voltou
por Luiz Pedro
Não vi o Zico jogar. Uma das maiores tristezas que tenho na minha breve vida.
Quando tinha 10 anos, comprei um VHS chamado “Os Mais Belos Gols do Zico”. Quantos gols, quantos lindos gols! Ali conheci o maior ídolo da história dessa paixão louca que me domina. Perguntei para o meu pai se o Zico era isso tudo que falavam. Ele respondia: “ele era mais”. E meu pai é botafoguense. Já fiz inúmeras vezes a mesma pergunta, só pelo prazer de ouvir a opinião de alguém que presenciou o que mais desejei ter visto.
Sonho estar no Maraca na década de 80, bandeira erguida, na arquibancada ainda de concreto, vendo o Galinho comandar o esquadrão sensacional que era o Flamengo. Sonho impossível. Vejo vídeos na internet com depoimentos sobre o Zico, todos incontestavelmente falando bem. Unanimidade! Até aquele jogador do Bangu que acertou o joelho do Mestre e abreviou sua carreira falava com dor sobre o crime que cometeu com o próprio ídolo.
Sonho ainda em encontrá-lo, apertar sua mão e dizer um “obrigado” emocionado pelo o que não vi, pelo o que não vibrei, pela Magia Rubro-Negra que ajudou a criar. Este sonho ainda realizo.
Agora ele voltou. Não como o Mestre em campo, mas no comando do confuso futebol da Gávea. Vai dar certo?
Não tem como dar errado, é o nosso Rei! Lembro do Sebastianismo, movimento místico no qual os portugueses esperavam a ressurreição do rei D. Sebastião, que desapareceu numa batalha. Para eles, não houve morte. Para nós, o Messias estava apenas afastado, aguardando o momento certo para assumir a casa que ajudou a subir as paredes.
20 anos de espera! Valeram a pena… A CASA É SUA, ZICO!
Saudades do Galinho – Moraes Moreira
E agora como é que eu fico
nas tardes de domingo
Sem Zico no Maracanã
Agora como é que eu me vingo
de toda derrota da vida
Se a cada gol do Flamengo
Eu me sentia um vencedor
Como é que ficamos os meninos, essa nova geração?
Arquibaldo, geraldinos,
como é que fica o povão?
Será que tem outro em Quintino?
Será que tem outro menino?
Vai renascer a paixão ou não?
Falou mais alto o destino
e o galinho vai cantar
láiá laiá
vai cantar noutro terreiro
no coração brasileiro
uma esperança
quem sabe o fim dessa história
não seja o V da vitória
o V da volta, volta
volta galinho
que aqui tem mais
carinho e dengo
vai e volta em paz que o Flamengo
já sabe como esperar
você voltar
Sereias
por Luiz Pedro
Voltei, coração desatado, olhos vagueando. Curte-se um caminhar de pernas macias ali, dá-se um sorriso malicioso aqui e o que é de seu lugar um dia irá voltar. Certas paixões são inatas, nascemos com elas, mas demoramos a desabrochá-las. Sabemos da sua existência num despertar epifânico, que nos colocará na perspectiva de um bêbado que toma uma cerveja pensando no quanto a próxima será ainda mais saborosa, gelada e reconfortante. A expectativa quase tátil, o desenrolar da cortejo nas palavras de andar labiríntico. Os cheiros femininos rodeiam e não hesito em aprisioná-los vigorosamente no meu peito, de lá jamais sairão, serão minhas donzelas de trovas, as sílfides que irão inspirar a cada vibração pungente de suas reentrâncias viciantes. Seguindo desvios, traçados fora de rota, me deixarei cair encantado a cada cantar de sereias míticas de longos cabelos de trevas e colos desnudos.
É, é isso mesmo, são as sereias. Serão as sereias. Depois de me guiar com tamanho afinco por bússolas donas da verdade, de seguir traçados em mapas arrogantes, deixarei tudo de lado e me permitirei ser levado por meras notas inebriantes. Eu as seguirei nas tempestades de chumbo, nas ondas intransponíveis, até me rebentar nas pedras de uma ilha fantasma, colocada maldosamente para abalroar minha frágil embarcação. Enfeitiçado nos seus lânguidos cânticos, me largarei na chuva grossa, sentirei a água salgada tocar meus pés e não reagirei. Deixarei que tome meu corpo e invada meus pulmões. Ir a pique pelas paixões é o único sacrifício que permite a vida.

Voltei a cantar
por Luiz Pedro
Papel. Caneta. Mão.
Juntei novamente, quem sabe surge algo legal. Something nice.
Um costume que se perdeu, sabe-se lá em que parte do meu peito.
Papel, caneta, mão. Falta algo.
Alma?
Tento me lembrar se a vendi em alguma feira de usados, no canto das bijuterias, com uns vinis do Yes e talheres de alguma coleção incompleta.
Papel, caneta e alma.
A mão só faz o trabalho sujo. O costume se foi, a prática virou meio gelo derretido. Mas o que é de seu lugar um dia irá voltar, de onde veio, de onde partiu, de onde jamais deveria ser movido.
Alma, dedos… um lápis!
E borracha de qualidade.
Sabe como é, não quero deixar vestígios.
Papo de mulher
por André
Como de costume em todas as terças, subi a Barão da Torre em direção à Vinícius de Moraes para beber no bar da esquina. Era como um ritual anti-stress no meio da semana após um cansativo dia de trabalho.
Chegando lá, Elírio já estava numa mesa bem no centro. O lugar não estava cheio. Eram oito horas da noite e apenas alguns casais e amigos se escondiam atrás das tulipas de chopp.
- Fala, meu jovem. – Me cumprimentou Elírio ainda com a barba suja de espuma da cerveja.
Ele era aproximadamente 15 anos mais velho que eu. Solteiro convicto. Segundo o mesmo, enquanto eu desmamava e começava a vestir cuecas, ele já desfraldava as calcinhas das donzelas. Eu só ria e concordava, afinal era verdade.
Conversávamos, como habitualmente, sobre futebol. Até que uma mulher no canto do bar, perto da máquina de música, me chamou a atenção. Era bonita e usava uma saia que não sei descrever bem. Tinha a cintura alta e subia dois palmos do joelho. Dançava e me pareceu vulgar.
- Olha que safada, Elírio. – Disse esperando a concordância do amigo.
- Onde?
- Ali, cara. Tá cego?
- Puta por quê, garoto?.
- Olha as roupas dela, cara. Olha como dança.
- Garoto, já disse Hamlet: Há mais putas travestidas de meninas santas do que supõe imaginar a nossa vã filosofia. – Concluiu gargalhando.
Elírio se levantou, foi até o balcão e acendeu mais um cigarro. Era fumante ocasional. Quando voltou, disse:
- Não é isso que vai fazer dela vadia, meu jovem. Aquela deve ser uma mulher resolvida. Fica e dá para quem quiser. Com ela não tem historinha. O mal das mulheres modernas é justamente fazer o que os homens fazem e cobrar da gente um comportamento que elas mesmas não têm. Aquilo é um homem de saia, portanto honesta.
Diante disso só consegui rir, mas sem concordar. Elírio e suas catastróficas filosofias. Dei uma olhada randômica no ambiente e vi um casal sorrindo. A moça era linda. Parecia também ter saído do expediente e trajava uma roupa social.
- Olha que gata. Perfeitinha. – Disse.
- Tá maluco, cara? Uma puta! Não sabe que é? É a Lurdinha.
- Hum… é mesmo. Já está saindo com outro.
Lurdinha era uma vizinha de prédio e há menos de duas semanas estava toda chorosa porque terminara com o noivo, que foi estudar na França. Bola fora!
- Como tu vai confiar numa mulher daquelas, garoto? Ela mesma me disse que ia sentir muita falta do noivo, que não vivia sem ele e todas aquelas histórias que as mulheres contam para posar de vítimas. Vida que segue? Claro, mas o luto dela durou pouco.
Agora me responda: quem é mais puta? Lurdinha ou a loirinha que está dançando? A outra, pelo menos, não engana ninguém.
- Olha aquele cara ali no balcão. Que música ele te lembra?
No balcão do bar havia um cara de meia idade. Com o olhar vagante, levava o cigarro até a boca, tragava e logo em seguida dava uma golada no copo de uísque. Parecia perdido.
- Por trás de um homem triste há sempre uma…
- Perfeito! Chico Buarque. Ainda foi melhor que eu, garoto. Eu havia pensado em Black. Esse cara é a personificação da música do Pearl Jam. Enfim, um babaca. – Me interrompeu enquanto cantava.
- Ele está guardando o luto que a Lurdinha não guardou. – Eu disse.
- Aprende rápido, garoto!
- O papo está bom, Elírio, mas eu preciso partir.
- Beleza, meu bom. Até terça que vem.
Peguei minha carteira, deixei alguns trocados e me despedi. Já passava das onze horas e quarta-feira é dia de luta.
Assim que saí do bar meu telefone tocou. Olhei para o nome. Era minha noiva. Guardei o telefone no bolso e não atendi. Hoje não, melhor dormir para não pensar.
Segundo tempo
por André
Lembro-me como se fosse hoje. Era uma quarta-feira, uma quarta-feira especial.
O Flamengo, time do coração, tinha uma partida decisiva pela Copa Libertadores e eu não perderia aquele jogo por nada.
À época havia conhecido uma mulher e ela me convidara para sair justamente naquele dia. Já havíamos saído outras vezes, mas ela insistiu em me rever na decisiva quarta-feira.
Passei o final de semana inteiro pensando em desculpas a dar, mas nenhuma seria suficiente. Nenhuma seria plausível.
Chega a quarta-feira e acuado, me encontro com a coitada. Minha cabeça estava em um só lugar, no jogo.
O time estava bem e eu estava animado praquele jogo.
Amigos e futebol primeiro. Mulheres depois!
Já agoniado com a situação, inventei uma desculpa e logo fui embora pra casa. Correndo. Perder mais um segundo seria perder o jogo inteiro.
Naturalmente e sem esforço, o Flamengo ganhou, mas eu perdi. Ela nunca mais me ligou. Pudera, são escolhas que a gente faz. Eu aceitei a condição e paguei o preço.
Hoje, uma quarta-feira também especial, o Flamengo tem outro jogo decisivo pela Copa Libertadores.
O filme da minha vida parece ter retornado, mas de um modo diferente.
O time nem anda tão bem e não tenho mulheres para dispensar de um casual encontro.
O jogo virou.
Segundo tempo.
E o placar?
Espero o apito final!
Intervalo
por André
Os dicionários definem por intervalo um espaço de tempo entre dois momentos, duas épocas ou uma interrupção passageira.
Que eles estejam certos!
A semana começou como qualquer outra: chata.
Começou corrida, sem vontade de começar. Paradoxalmente preguiçosa.
Apesar de a segunda e a terça serem carrancudas, ao longe podíamos ver a iminência de um grande bem. Um feriado. Pausa pra ser feliz, em meio a tantas tristezas.
A quarta começou linda. Não podia ser diferente! Feriado. Sol a pino, praia, cerveja, churrasco e futebol. Alegria!
Nem tudo é perfeito. A quarta foi curta e logo vinha a quinta. Dia de trabalho.
O dia começou chato. Com o gosto amargo da ressaca na boca. Começou cedo e cinza. O céu chorava gotinhas de tristeza. Correria novamente. Infeliz. Se o dia começou cinza, a noite teve algumas fagulhas de luz no céu. Por mais negra que fosse a noite e por mais que as nuvens tentassem encobrir, as estrelas mostravam que ainda há alguma esperança. A esperança de um dia melhor.
E chega a sexta. Feriado. Dia de ser feliz. Dia de namorar. Dia de sair.
Dia de viver. De sexta a domingo será eterno.
Semana boa é semana com feriado.
Outro assim só em outubro. 6 meses! Demorarão 1 ano!
Enquanto isso, nesse intervalo, a gente vai levando… brincando e se enganando de ser feliz.
João e Maria
por André
João tinha onze anos e morava no subúrbio, onde todas as casas são iguais, mas as pessoas são diferentes. Se as paredes têm a mesma cor de tijolo sem pintura, as pessoas são diversificadas. Cores e histórias diferentes.
Maria tinha nove anos. Morava na parte alta da cidade, onde todas as pessoas são chatamente iguais. Frequentava boas escolas e aos finais de semana ia para a casa de sua avó, que ficava no subúrbio.
Devido à proximidade entre a casa de João e da avó de Maria, quis o destino que os dois se encontrassem.
O amor foi natural e instantâneo. Não esse amor romântico, marcado por miséria e dor. Mas um amor sublime, um amor de criança.
Todos os finais de semana se encontravam para brincar no quintal da casa de João. Montavam uma cabana de sofás velhos com cobertores não usados e estava feita a casa dos dois. Como eram felizes.
As bonecas de Maria eram as suas filhas e João, com as ferramentas do seu pai, era aquele que chegava cansado do trabalho.
Maria, atenciosa, preparava a comida do menino com suas panelas miúdas e delicadas, enquanto João dava atenção às suas filhas.
Repetindo essa rotina todos os finais de semana, os dois brincavam. Até que numa manhã de sábado chuvoso, a menina apareceu. Mal começaram a brincar e os pais dela foram buscá-la. De tão apressada que saiu, só levou as bonecas. Um lenço que servira de fralda para as pequenas acabou por ficar no meio do caminho.
João, pacientemente, pegou a lembrança, guardou no bolso e correu para desenhar um Sol no quintal de casa. Pouco demorou até aparecer um arco-íris no céu, sinalizando o final da chuva. E o menino continuou aguardando o seu par, mas sem sucesso.
Aquela fora uma manhã contraditoriamente muito triste.
Passaram-se duas, três, quatro semanas e nada de Maria. Até que João criou coragem e perguntou à sua mãe pela menina. Foi então que ela disse que a menina não viria mais. O motivo de suas constantes visitas, sua avó, havia falecido.
Como poderia a sua companheira dos finais de semana ter sumido sem avisá-lo? Ficou na sua lembrança aquele último olhar. Um olhar apressado, como quem quisesse dizer algo. João só tinha o pequeno lenço com flores azuis de lembrança da sua querida.
Passaram-se os anos e a menina, que já teria virado moça, não apareceu.
O rapaz ainda lembrava da sua pequena. Será que ela ainda pensa em mim?
Aos 26 anos João recém arrumara um emprego de garçom em um barzinho movimentado lá pelas bandas do centro da cidade.
Numa sexta-feira de tempo pouco amistoso, ele tomou a sua condução para o trabalho e chegou atrasado. Sexta-feira é dia de movimento e naquela ocasião havia uma comemoração dos estudantes de Medicina que haviam acabado de concluir a residência.
Bronca do patrão!
Bar cheio, menos um garçom seria prejuízo na certa.
Atrapalhado por seu primeiro dia de grande movimento no bar, João não dava conta de todas as mesas. Atrasava os pedidos e por vezes até esquecia.
Bronca do patrão!
Caminhando para servir a mesa dos estudantes, o rapaz avista uma menina. Avista a sua Maria. Morram de inveja os anos, mas ela continuava intacta. Linda e intacta. Ainda era a sua menina. Apenas tinha ganhado idade e experiência.
Ele ficou atônito, chocado. Hesitou em servir a mesa e virou para voltar ao balcão ou sair correndo. Desajeitado, esbarra e derruba tudo. Todos olham, inclusive ela.
Bronca do patrão!
Nada mais disso importava. Ele havia encontrado o seu grande amor. Mas o que falaria para ela?
Não estudei, não arrumei um bom emprego, não casei, não tive filhos… sou um garçom.
Não, não e não.
Com muita força de vontade e virando o rosto para não ser conhecido, João serve a mesa de Maria. Eis que a menina lhe pede a conta.
Ele congela.
Ao entregar a conta e receber o dinheiro do pagamento, Maria saca da mão uma nota e lhe dá. Gorjeta. João não aceita de imediato, mas Maria fala que o garçom lhe servia muito bem, se levanta e vai embora.
Um misto de felicidade e tristeza tomam conta de João. Felicidade pela menina não reconhecê-lo, tristeza por ela não reconhecê-lo.
Naquela noite João fora mandado embora.
A volta para casa não poderia ser pior. A chuva castigava o seu bairro.
Ao chegar em casa, a primeira coisa que o menino fez, foi correr para a sua gaveta e pegar o lenço de Maria. Que saudade!
Sentado à mesa e contando as gorjetas que recebera, João se depara com a nota de Maria.
Nota rabiscada com o nome da menina e o seu telefone.
Aquela foi uma noite contraditoriamente muito feliz!
Inefável
por André
Parecia estar num túnel e a escuridão só era interrompida por alguns pontos de luz que passavam pela janela. Uma campainha distante parecia anunciar a próxima estação do metrô: Cinelândia.
Desci do vagão cheio de si e tomei a escadaria em direção à Rio Branco. Marcara em frente ao Museu Nacional de Belas Artes um encontro.
Ao sair da estação, aproveitei um descuido dos carros, que deixaram a pista vazia, e atravessei a larga avenida. Era só andar mais alguns metros e o encontro aconteceria.
A praça e as ruas estavam movimentadas. Pareciam não entender que o sábado foi feito para o descanso. Como típica tarde do Rio de Janeiro, estava quente. Suava pelo calor e pela ansiedade.
Chegando ao Museu, não notei a sua presença. Certamente estava atrasada. Certamente seria compensado pelo resultado do atraso.
Passados alguns minutos, ela desponta de uma esquina ensolarada. O Sol, egoísta, tentou escondê-la da minha visão e ofuscou-a por alguns segundos. Foi só colocar a mão na frente dos olhos e perceber que o astro havia se tornado uma espécie de passarela, ele iluminava a sua estrada e dava um brilho especial aos seus cabelos.
O museu estava com uma exposição sobre esculturas egípcias e aquele seria o único dia. Trocamos um acanhado beijo e entramos. Não nos falamos. Parecia haver uma trava natural de primeiro encontro.
Caminhamos em direção à entrada e passamos a observar as peças em exposição. Não trocamos uma palavra.
Por vezes eu retardava o andar só para observá-la. Como era linda. Cabelos compridos e um andar tímido. Não trocamos uma palavra.
Saímos da exposição e passamos a andar pelas ruas do centro da cidade. A Biblioteca Nacional, invejosa resmungava por nem todos os seus livros poderem explicar aquela beleza.
I-ne-fá-vel!
As ruas, antes agitadas, pareciam ter parado. Atravessar as pistas já não era tarefa tão difícil. A cidade parou para vê-la e eu também.
Bobo e atônito observava o seu jeito de olhar os grandes prédios. Por vezes me aproximava um pouco e encostava minha mão na sua. Parecia o menino e a primeira namorada. Não trocamos uma palavra.
O Teatro Municipal, palco de grandes peças, observava entusiasmado aquela bailarina que parecia voar no tablado da Cinelândia. Não trocamos uma palavra.
Não parecia haver motivo para que não nos falássemos. Não falava porque não conseguia. Não falava porque não podia. Parecia haver uma barreira invisível que impedia a nossa comunicação. As palavras de amor eram faladas com os olhos. Sabíamos do sentimento um do outro, mas não trocamos uma palavra.
Tomamos um táxi em direção à Lapa e decidimos parar na Pizzaria Guanabara. Agora o calor não castigava somente a mim. As divindades também sofrem com ele. Ingênuo não tirou a sua beleza. Apenas realçou. Não trocamos uma palavra.
O relógio já marcava quase dezoito horas e então resolvemos ir para a estação final do nosso encontro. Indo para a Cinelândia, local do ponto de partida, o sino da Catedral Metropolitana anunciava a despedida. Um beijo e um abraço apertado foram suficientes. Não trocamos uma palavra.
Desci a escadaria do metrô e novamente a escuridão tomou conta dos meus olhos. Abro-os e ouço:
- Acorda! Acorda para a vida. Está sonhando? Hoje é segunda-feira. Hora de trabalhar.
Crucifica-o
por André
Crucifica-o! Alguém precisava ser sacrificado. Que não sejamos nós.
Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, por que não desces da cruz?
Crucifica-o! A semente precisa morrer pra germinar.
Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, ressuscitarás. Ao segundo, ao terceiro, ao quinto.
Crucifica-o! Se és verdadeiramente o que dizemos ser, os dias ou os anos não terão importância.
Futuro do Pretérito
por André
- Você é muito cética. Precisa desenhar, pintar, imaginar a sua vida. Do que adianta ganhar uma tela branca, se não quer rabiscá-la?
Ela, misturando risadas de descrença e palavras, retrucava beijando-o:
- Você é muito bobo, precisa parar de ler essas histórias.
- Bobo e apaixonado. O homem é da grandeza do seu sonho, se me permite parafrasear Pessoa.
Se conheciam há tanto tempo que o tempo nem mais importava. Os dez anos juntos tinham o mesmo vigor que três meses de namoro. Podiam citar a vida um do outro de trás para frente.
Monotonia?
Cada vez que se encontravam era como um evento único. Parecia a saudade acumulada de anos.
Se existisse algum livro com exemplos de amor e felicidade, certamente na definição apareceria a foto dos dois, juntos.
Se me permite dar o meu pitaco, ele nem era grande coisa. Mas ela via no seu homem aquilo que sempre procurou. Alguém que pudesse fazê-la feliz. Se ela pensasse em outro homem, certamente era para compará-lo ao seu e chegar à conclusão da felicidade de sua escolha.
Eu disse escolha? Não. A escolha permite troca e no amor não existe troca.
Pode a mãe amar o filho no próprio ventre e ao descobrir que o rebento tem algum problema substituí-lo?
Pode a mãe substituir o amor pelo filho que morre por outro amor?
Se você acha que sim, certamente desconhece o amor.
Ele era o melhor para ela porque era ele. Porque o amava.
E quanto a ela? Seria injusto eu, sabedor de todas as coisas, falar dela.
Nos termos infantis dele, porém engraçados, ela era a arte final do seu quadrinho. Ele se sentia o super-herói da história e via nela a mocinha a quem proteger.
Ingênuo, achava que ele a protegia do mundo. Pobre criatura indefesa. Não vê que a sua força vem dela.
Ela era o melhor para ele porque era ela. Porque a amava.
Não havia por que ter medo. Não existiam vilões nas suas história. Sim, história no singular, porque a deles era singular, única.
O único vilão na história de qualquer homem é o seu próprio destino.
Quis ele que ambos se perdessem. Sem briga e nem choro, somente com dor. E quando o amor dói, é porque valeu a pena.
Mas ainda que essa força supostamente insuperável tentasse separá-los, ambos sabiam que poderiam vencê-la e isso dependeria somente deles.
O homem é do tamanho do seu sonho.
O quadro pintado e emoldurado não pode ser apagado.
A arte final do desenho não pode se converter em rascunho novamente.
O destino só tem grandeza perante as escolhas, perante as horas, os dias.
O destino não manda nos anos. O destino não manda no tempo, o destino não manda no amor…
Pra ficarem juntos novamente deveria ser questão de tempo. Talvez meses, talvez anos, talvez décadas.
Certamente os anos passariam como séculos, mas o encontro será inevitável.
O destino não mais existirá.
Hoje faço com meu braço o meu viver…
31
por Luiz Pedro
É o fim. Que também pode ser entendido como a aproximação de um começo. Diante de tantos ciclos que constantemente nos deparamos durante a vida, a ansiedade das últimas horas que precedem um novo ano é a mais simbólica dessa roda gigante incessante. Lembramos do que aconteceu no ano, fazemos um levantamento se foi bom ou ruim, projetamos mudanças para o futuro e aguardamos. Sentados em casa, diante de uma bela ceia, depois na rua, uniformizados para a paz. Contagem regressiva, fogos pipocando no ar por alguns minutos, abraços, felicitações, espumante, pular ondas e comer uvas.
E dia seguinte, tudo de novo. Não cumpriremos as promessas da meia-noite, não deixaremos de fumar, não passaremos mais tempo com a família, não faremos mais exercícios, não mudaremos nada. Enfim, um ciclo, como assim é, sem grandes alterações. A mudança não ocorre quando o relógio der uma volta completa, os fatores externos de nada servem. Infelizmente as grandes mudanças só emergem nas tragédias, pois a sua real essência surge internamente. Piegas, eu sei, soa como auto-ajuda. É a falta de assunto mesmo.
Quando o blog começou, fiz uma promessa. Pelo menos até o final do ano eu postaria todos os domingos. Assim o fiz, até com certa folga. Foi bom, compartilhei ótimos textos com meus amigos de blog, li comentários carinhosos que me proporcionaram uma alegria enorme, fiquei muito motivado. Mas aos poucos meus companheiros ficaram sem tempo e acabei tocando o barco por conta própria. Só que agora a falta de textos tomou conta e a vontade de escrever anda bem escassa. De vez em quando acontece esse vazio, a tela branca nos domina e criar se torna um parto dos mais complicados. Aquela coisa simples: estou sem saco. E o ciclo se encerra aqui. O meu se encerra, os demais não sei como farão.
Obrigado a quem acompanhou por esse tempo. Silenciosamente ou comentando. A idéia era simplesmente tentar tocar as pessoas de alguma forma, e acho que consegui. Feliz 2010!
Tchau e um forte abraço.
Luiz Pedro
Confetes
por Luiz Pedro
Meu carnaval se fez quando te encontrei desfilando e colorindo a avenida, envolta por foliões ébrios de ilusões, carentes de gratidões efêmeras. Banhada em chuva de confete, jogava sorrisos de menina em aspirais pela ciranda. E como aquele que não mais tem o destino a comandar, só quis cantar teu samba, só quis brincar no teu cordão, só quis me jogar na tua folia. Teu bloco era alegria a rua inteira! Nossos corações, amarrados em serpentina, batiam numa cadência que apenas a gente entendia.
Mas a quarta chegou. Desfez minha fantasia em cinzas e te levou desse baile que não merecia ter fim. Ilusão de carnaval sempre tem sabor de saudade.
Almoço de Domingo
por Luiz Pedro
Eu tenho um anúncio a fazer!
Que os idiotas continuem idiotas o suficiente para persistir! Afinal, sem vocês, o que seria dos pérfidos, sórdidos e canalhas?
O urubu ronda a carniça, batendo suas asas para dispersar qualquer vento de esperança, destroça a carne como se fosse sua insignificante vida, bica os ossos até estilhaços menores que a fé que escoa das minhas mãos.
Errar é humano, insistir no erro é chafurdar na essência da Humanidade.
Maninha
por Luiz Pedro
Querida maninha,
Quanto tempo! Essa longa viagem está cada vez mais próxima do fim, mas parece que a eternidade gosta da brincadeira de se fazer presente. Sete anos já, mas ainda sinto o ralado dos meus joelhos ardendo como se fosse hoje. Tanta coisa passou, tanta vida aconteceu, tanta vida deixou de acontecer. Tanta novidade, boa e ruim. Seu irmão aqui não mudou muito. Minto, mudou, talvez para pior. Deixou de ser sonhador, cansou de imaginar que para tudo há solução. Lembro-me da gente celebrando a vitória do Lula nas eleições de 2003, hoje sinto vergonha. Bobos, acreditávamos, uma mera ilusão. Ainda persisti, em 2004 fui do grêmio do colégio, mas pouco contribui. Em 2005 participei do centro acadêmico da faculdade, e só acentuou minha desilusão. Ah, sim, passei! Direito, na UFRJ, bem pomposo, não é? Acho que você ficaria orgulhosa pela dificuldade superada, mas lamentaria a opção escolhida. Pois é, eu também lamento. Cresci muito nesse ano, conheci pessoas fantásticas, me estabeleci. E esse estabelecimento serviu para ver que não estava pisando no melhor chão, e em 2006 repensei o curso. Mas me acomodei, no ano seguinte acabei voltando. Perdido mesmo. Talvez você fosse a companhia que me ajudaria a achar o caminho mais com a minha cara. Talvez não…
E as mulheres? Mais perdido ainda com o compasso estranho que vocês adotam. Como canta Almir Guineto, “Me dediquei, mas foi tudo em vão”. Sua experiência incomum ia ser uma mão na roda, ia me tirar dessas ilusões, me colocaria no eixo da realidade e as dores talvez sarassem mais depressa. Não me estragaria, não me apaixonaria. Será que teria mais dureza no coração? E será que assim seria melhor? É, seria sim. Sensibilidade só me serviu para escrever textos bonitinhos, lavados em lágrimas que não valeram a pena. Falta afeto, falta companheirismo, falta solidariedade, falta amor. E não digo amor, desses de amorzinho de novela. Mas Amor, começado com maiúscula, incondicional, presente apenas pela vontade de fazer o bem ao próximo. Sim, esse amor existe, mesmo que os tempos modernos estejam encobrindo essa manifestação divina da bondade humana. Cadê?
A família vai bem, mas sua falta é evidente todo dia. Não me estenderei muito, pois se assim fosse fazê-lo para abarcar o que sua ausência provoca, lhe faltaria paciência e seria até desanimador. Resumindo: faz muita falta.
Não tenho como individualizar a falta que cada um sente, mas posso falar da minha saudade. Minha amiga, companheira, irmã, de palavras acolhedoras, beijos, carinhos, abraços e palavras surpreendentes. Eu seria outra pessoa com você aqui. Seria? Mais forte, mais capaz, mais persistente. Aquela noite de 4 de janeiro de 2003 me levou aquilo que eu tinha de melhor, perdi a esperança que eu trazia de nascença. Depois disso, nada mais teve a mesma importância, as derrotas parecem inevitáveis, e assim se concretizam, se sucedendo permanentemente.
Não quero mais falar. As batalhas estão sendo perdidas, e a guerra está cada vez mais próxima da derrota permanente. Será que com você seria diferente? Nunca saberei com certeza. E isso me atormenta mais ainda.
Saudades, maninha…
Luiz Pedro
Sobre o perdão
por Luiz Pedro
Qual a dificuldade em perdoar? Uma resposta simples seria baseada na lógica de que se a pessoa pisou na bola uma vez, o que a impediria de fazê-lo novamente? Mas não há como simplificar dessa maneira. O perdão existe, é claro, pois todos cometem erros. Se fossemos cortar relações com todos que já abalaram uma relação de confiança – seja com um deslize, seja com uma traição – viveríamos condenados a solidão.
Mas não se perdoa incondicionalmente. Não existe entre os mortais o “perdão divino”: amplo, geral e irrestrito. A cada vez que se perdoa, apenas aceitamos que o fato é passado, não há como reverter. Algumas vezes pode-se até corrigir o lapso, mas o lapso jamais deixará de ter ocorrido, de ter tomado espaço no tempo. Ele aconteceu, e isso é imutável. O indulto concedido se limita a criar a expectativa de que o engano não mais se repetirá. Entretanto, como qualquer expectativa, possui uma estrutura frágil, pois haverá a necessidade de ser correspondida para que seu objetivo seja alcançado. E tal correspondência torna-se inviável diante de qualquer tremor.
O perdão pode variar de acordo com o grau de proximidade entre o errante e o que se propõe a perdoar. Havendo uma amizade já cultivada, com um passado de acertos por meio de confiança depositada e retribuída, o errante possui algum “crédito”, pois já se mostrou confiável em outros momentos, o que ratifica o fator acidental do desacerto. Porém, tal “crédito” acaba por reduzido, afrouxando (temporariamente ou não) o laço de confiança. Durante esse período de abrandamento, evitam-se situações que tenham provocado o equívoco, e, conseqüentemente, a intimidade fica confinada a um espaço apequenado. Dependendo do quanto foi debitado, o confinamento pode asfixiar a relação, ocasionando uma crise que, se não for brevemente oxigenada, pode gerar sérias seqüelas.
Outra forma do perdão se pronunciar leva em conta a necessidade que se faz do outro, o grau de dependência que há entre ambos. Tal dependência pode ser financeira, afetiva, social e outras que não me recordo. Um tipo de relação que por muitas vezes conjuga os tipos de dependência supracitados é o casamento. Considerando que a remissão é concedida com mais facilidade quando há uma dependência maior entre os envolvidos, o casamento torna-se um terreno fértil para que se desenvolva o ato de perdoar. O marido pode depender financeiramente do casamento, já que o pagamento das contas adequou-se à combinação de salários. O marido pode ter suas carências supridas por uma esposa afetuosa, sentindo-se seguro e confortável. A esposa pode sucumbir à responsabilidade de gerir um casamento aparentemente saudável perante a sociedade, com medo da opinião alheia quanto ao “fracasso” de um divórcio. Porém, o perdão acaba por não ser desejado, mas sim exigido diante de tal dependência. E aí sim é um longo passo para o verdadeiro fracasso, por meio de uma vida gerida pelo rancor, desgosto, irritação, etc.
Por fim, não há como conviver sem o mais simples pedido de desculpas. Muitas vezes dito da boca pra fora, mas que já funciona como um apaziguador de mágoas. O perdão é um alento necessário para que não caminhemos rumo à infelicidade contida.
Irremediável
por Luiz Pedro
Você se foi há muito tempo. Felizmente não se trata de um eufemismo para morte concreta, daquelas que o corpo perece disfarçadamente no ar já putrefato do calor de novembro. Não gostaria da sua morte, apesar de desejá-la como remédio final nos momentos mais dolorosos que a memória cisma em realçar. Talvez seu desaparecimento de qualquer viela desse chão fosse uma escapatória. Você apenas saiu daqui, não que quisesse. Se naquele momento eu fizesse a proposta insana de casamento, como solução única e covarde em ato de terrorismo romântico, você aceitaria sem pestanejar. Secando confusamente as lágrimas que caíram em enganos do imponderável, esboçaria um sorriso ainda incrédulo, e, por fim, pularia em meu abraço por sentir-se novamente desejada, a mais desejada, simplesmente porque quem a deseja é o homem que ela também tanto quer para si.
Mas de nada adianta criar novas histórias. Eu não segurei firmemente o que restou, seus dedos se destrançaram e se perdeste na tropelia da multidão que o trem descarregava no final da tarde. Para evitar as tais memórias dolorosas, joguei fora cartas febris de confissões, bilhetes apressados pela paixão, pequenos presentes e até minha camisa que você vestia quando dormíamos juntos. Lavei várias vezes, deixei de molho, até impregná-la com incenso de canela eu tentei, mas seu cheiro não arredava, parecia ter entrado em cada volta de costura por teimosia e maldade. Eu poderia simplesmente ignorar, esquecer no fundo do armário, usar de pano, mas eu a olhava amassada, jogada na parede do armário, e não resistia: segurava em concha e aproximava do rosto, lentamente, até enfiar minhas narinas em suas dobras, puxando o ar vigorosamente. Acho até que não havia mais cheiro nenhum. Ia tateando com o nariz, procurando um ponto onde restasse um pouquinho do seu perfume. E não sei se encontrava. Desesperado, eu não conseguia distinguir mais nada, não sabia se aquele era seu aroma ou se as reentrâncias desse confuso passado me atormentavam tanto que eu imaginava seus ares se manifestando no mero cheiro de guardado. Eu era um viciado, buscando em cada respirar mais um instante de sanidade. Não dava para continuar daquele jeito. Desci para a rua com a camisa em punho, caminhei quatro quarteirões e joguei numa lixeira pública, imediatamente dei meia volta e voltei quase correndo, com medo do arrependimento, com pavor de realmente te esquecer.
Pronto, finalmente me sentia livre. Nada mais em casa poderia se tornar desculpa para essa assombração do seu amor retornar a me açoitar. Acreditei nisso, por alguns meses senti que naquele ato louco de querer queimar a camisa havia uma questão maior, havia uma cerimônia de purgação necessária, um ritual mágico de libertação espiritual.
Até o momento em que, arrumando pastas, jogando papel fora, achei um pequeno álbum de fotografias caído atrás de uma gaveta. Busquei com o braço, voltei com aquela poeira e tosse, limpei e abri. Ali estavam fotos de uma viagem a serra, em algum inverno. Viagem que fomos apenas nós dois. Eu pouco aparecia nas fotos, estávamos sós, então alguém tinha que fotografar. Você posava com suas roupas de frio, segurando cálices e mais cálices de vinho, e a cada foto que eu tirava, sentia o orgulho de ter registrado mais um momento raro de uma deusa sorrindo, que poderia mostrar aquela foto a algum poeta e ele responderia em meio a uma epifania nunca antes experimentada: “é a mulher mais linda que já vi, não, não pode ser uma mulher, é um anjo, e você registrou um momento único de um ser divinal, jamais mostre a alguém, é o caminho para a loucura, e não haverá volta.”
Eu bem sabia que era o caminho para a loucura. Assim que abri o álbum, e percebi que eram fotos suas, uma onda de medo percorreu cada fio do meu corpo. Como um alcoólatra recuperado, 20 anos sem beber, que toma um gole de Amaretto por engano. Senti o torpor envolver a língua, uma fagulha queimar o céu da boca, o calor descendo pelo esôfago e o álcool inebriando a mente de imediato. Uma, duas, três doses, até a garrafa secar. Eu passava as fotos rapidamente, tomado pelo seu rosto que percorria minha memória reavivada em diferentes poses e sorrisos, com aquelas melenas castanhas que certamente eram as responsáveis pelo cheiro intacto da camisa amaldiçoada. O sorriso aberto, com um dente levemente raspado, as pintas do seu colo que eu contava toda manhã enquanto você ainda sonhava entre nuvens. Ao chegar ao final, voltei ao começo, agora virava as páginas lentamente, tentando lembrar o momento exato de cada foto, fechava os olhos e tentava viajar no tempo, me transportar para trás daquela câmera no exato momento que em o flash disparava. Você tinha aquele jeito de menina descobrindo ser dona de sua beleza, caminhando com passos ainda incertos, usando as mãos atrapalhadamente. Mas aos poucos se descobria, e eu fazia parte daquele descobrimento, testemunhava seu nascimento como mulher.
Com essas certezas despontando novamente no horizonte das minhas retinas, estava diante de mais um dilema: o que fazer com aquelas fotos? Mantê-las comigo seria mais uma covardia, seria manter um fantasma rondando minhas noites. Nas horas de tristeza, eu buscaria aquele álbum e mergulharia naquele poço de amargura que minha desatinada cabeça foi capaz de criar. Não só deveria jogá-las no lixo como deveria queimá-las, sentir o cheio de papel fotográfico carbonizado, me submeter a uma sessão de nebulização com aquela névoa para purificar meus pulmões e não mais me perder naquela fumaça de nostalgia venenosa.
Não joguei fora. Tinha que aceitar que era uma praga sem fuga. Veria aquelas fotos, me arrependeria de ter jogado a camisa fora, de ter picotado suas cartas e a maldição só aumentaria. Talvez fosse o caminho, me afogar no poço de amargura, onde aquelas melenas castanhas sempre manteriam a recôndita esperança de estar novamente atrás da câmera fotográfica, testemunhando o divino se manifestar nos seus sorrisos. Minha vida estava desgraçada, irremediável.
Caminhos
por Luiz Pedro
Diante da rua, encosto-me num poste. Apoio melhor não existe. Todas as paredes estão tomadas por anúncios, cartazes e obras. Os prédios não mais têm entradas, as grades agora avançam sobre a calçada, como que nos expulsando para o meio dos carros.
Que lugar é esse? Tudo parece incrivelmente estranho, como se uma cidade nova despontasse nos meus olhos recém-nascidos. É a mesma cidade de sempre, mas agora a solidão dá novos tons, dilui cada história mal contada, atormentando a cabeça de cada um que cruza meu caminho olhando para o chão, murmurando pensamentos incompletos.
Onde estão aqueles que entravam nos meus sonhos? Os sonhos agora não mais existem, a noite demora a chegar, o sono demora a pegar. Sonhar para quê? Só resta descansar a cabeça, mas sem fechar os olhos. Pensamentos oníricos se tornaram momentos exclusivos para aqueles que ainda estão em seus uniformes escolares.
Agora cada um veste sua fantasia e sai com a mesma máscara de amaldiçoado. Não deixa de ser um uniforme, não é mesmo? Mas ainda busco arrepios, olhos marejados, mãos trêmulas… Qualquer sinal de que um coração ainda esteja vivo ali dentro.
Conta-gotas
Não sabia que as coisas aconteceriam dessa forma. No começo, acreditei que o tempo transcorreria de maneira muito mais imperceptível, e os dias não pareceriam tão comuns; achava que as lembranças me viriam à mente de quando em quando, mas não poderia imaginar que ocupariam meus pensamentos mesmo em sonho. Agora, vejo que não há nada mais fascinante que o imprevisível…
Hoje, me parece que os minutos se arrastam, enquanto os contabilizo, um a um, na ânsia de excluir mais um dia da contagem de tempo que me levará até onde quero estar. Estranho, e me vejo confusa, ao perceber que a saudade, ao invés de reduzir o que sentia, foi capaz de revelar um sentimento de dimensão muito maior do que o que se pensava existir.
Fosse possível, não hesitaria em correr o máximo que conseguisse até chegar ao seu lado. Fosse possível, há muito já teria chegado, e o hoje, talvez, fosse diferente. Assim fosse, talvez a certeza de nós reduziria o medo das consequências de termos nos lançado na menos convencional da mais clichê das histórias. Mas nos lançamos, e eis o resultado: uma saudade sem fim, uma imensurável ausência e um aparentemente fortalecido, mas há muito já descoberto e a cada minuto alimentado, amor.
Pelo que, apenas por essa incontrolável falta de você, e por essa arrebatadora vontade de estar aí, permaneço contando os minutos.
Só que pra mim não! Geração multifásica.
A vida até pode parecer o que não é, só que pra mim não.
O palhaço até contorce seu nariz quando não agrada a sua platéia, porém não pra mim.
O sábio até finge que sabe quando a sabedoria lhe sabota, mesmo assim seus olhos entregam.
Talvez até o mestre dos espertos tente me enganar em mais uma de suas lorotas, no entanto eu capto sua dissimulação em frações de segundos-luz.
Pode até ser que sua cara de inocente me comova, mas me enganar, jamais.
Nenhuma camuflagem passa por mim despercebida.
Quem sabe eu até te faça pensar que acredito no que me diz, só que meus olhos de águia trabalham com meus ouvidos de morcego.
E juntos ensinam minha mente infantil que nada nem ninguém, por mais perspicaz e profissional que pareça, passará impune ao meu radar penta volt.
De 5 sentidos aguçados e capacidade ilimitada.
E se eu tiver que ir?
por Luiz Pedro
E se eu tiver que ir? Te deixar, me deixar ficar sem você. Viajar por trabalho, estudos, ou qualquer outro infortúnio que não preza pelos casais que são partidos por quilômetros milhares, e passar anos em um lugar qualquer que, por certo, se tornaria um fim de mundo sem você ao meu lado. Ou talvez nem isso, apenas precisar arrumar a vida, a casa, me arrumar. Tentaríamos continuar juntos? Mesmo sem saber quando voltaria, ou mesmo se teria retorno, se teríamos um reencontro cinematográfico, com sinos dobrando incessantemente. Tentaríamos? Prepotência esnobar o oceano que nos divide? Diriam que é loucura, que deveríamos cuidar de nossas vidas, conhecer novas pessoas, que somos novos, que há muita vida lá fora. Mas de que adianta, ainda que nos comprovassem cientificamente, desenrolassem teses infindáveis a nossa frente, de que adiantaria se dissertassem cálculos precisos de que a distância não tardaria em nos separar? Nada, de nada serviria, se a única coisa que realmente importa é o quanto há de amor em nossas mãos, é o calor que eu sinto quando seus olhos pousam nos meus, é o frio na espinha que me corre a cada declaração em sussurros trocados. Seria fácil?
Ou seria o oposto? Tentaríamos nos ferir, soltar farpas para um afastamento inicial visando preparar o terreno da separação permanente. Estancaríamos o sangramento com mais feridas? Machucados recíprocos para que o iminente rompimento não doesse tanto. Um tanto burrice, mas será que a insanidade de romper nossa loucura não seria capaz de tal desatino? Indiferença, desencontros forçados, ciúmes exagerados, acusações desdobradas, até xingamentos? Seria uma separação dura, fria. Mas talvez fosse melhor assim, cada um seguindo seu caminho, sem a dor prolongada no desenrolar da saudade, com sua conseqüente afirmação de sentimentos. É mais fácil odiar do que amar. E levaríamos isso ao pé da letra, nos forçando um ódio que jamais houve e que nem teria como nascer em um campo colorido e repleto como o nosso. Por fim, estaríamos distantes, trocando burocráticas palavras, perseguindo uma fala que não fosse capaz de expor o desejo, o carinho e a falta sentida reciprocamente. Por trás de tamanha dureza nas palavras, teria o temor do reencontro, tão inevitável a desatar sentimentos plácidos, tão óbvio a desguardar margens de águas caudalosas. Não saberíamos como reatar?
Impossível, para tudo há solução, a minha esperança é grande de nascença, é claro que para nosso amor também teria, a solução seria o próprio amor, essa grandeza natural presente nas mais versadas matizes e cheiros, presente nos segundos mais prosaicos da nossa vã existência. Amor esse desbotado pelas outras fraquezas mundanas, mas sempre pronto para vir à tona com a força descomunal que apenas os fenômenos da natureza transbordam. As flores sempre insistem em brotar. “Mas é outono”. Vá você dizer isso a elas. E nessa vertente, num ir e vir descrente, talvez só nos reste o devir.
E, quem sabe, mesmo de volta para casa, eu não me encontre em você. Acontece, o destino tem dessas brincadeiras de mau gosto. Será o fim. Mas será digno daqueles que tentaram, que não permitiram o destino tomar as rédeas, que domaram o tempo na medida em que lhes coube e foram os capitães de seus caminhos. Será o fim, mas olharemos para trás e teremos a recôndita sabedoria dos que jamais desistiram. E buscarei outras vidas, outros caminhos, seguirei, fincarei raízes por outras terras.
Quer saber? Acho que não conseguiria. Me conheço, não morarei mais em mim, terei morada em minhas palavras. E este será o meu lar, entre os versos que falam de você.
Finalmente te escrevi, sua filha da puta.
por Luiz Pedro
E se eu te perdoasse, sua filha da puta? Seria mais fácil aceitar que você me largou aqui, desamparado, com aflições e traumas para toda uma vida e para toda uma morte? Você é culpada, sua filha da puta. Deu-me ambições, me tirou do berço e me pôs a andar antes mesmo de engatinhar. Agora eu fico aqui, rastejando, atrás das migalhas que você possa ter deixado para trás, buscando em restos quaisquer as pistas do seu esconderijo, sinais para desvendar esse abandono que você me deixou. Por quê você me deixou, sua filha da puta? Você não tinha esse direito, você não podia fazer isso comigo. Desde então todas sofreram com a sua sombra, com o rasgo que você deixou no peito e que cisma em sangrar, jorrar pus, em cheirar a carne podre como ferida de cão sarnento. Assim fiquei, aos teus pés, ao teu corpo estirado na Rodolfo Dantas, saindo da calçada, perdendo minhas pernas a cada passada, desabando junto ao meio fio e te xingando pela filha da puta que você é. Não vou te perdoar, não se perdoa a sacanagem que você fez comigo, não se perdoa a crueldade com que você me deixou. Esse rancor que você criou eu quero levar para sempre, cuidadosamente separado das alegrias e sorrisos que tivemos, que de nada valem agora que fiquei aqui, desamparado, fodido, sem você. Esse rancor que tento abafar com cerveja, bebo para te esquecer, mas só consigo me lembrar, e gosto, e sofro gostando, fico bêbado, te xingo, bebo até não aguentar mais, bebo para dormir e te esquecer. Janeiro está chegando, sete anos, e vou beber mais ainda. Não sou metade do homem que já fui, não pude almejar ser parte do homem que sonhei. E você quer perdão? Não dou, não vou aceitar que foi normal, que foi a vida que nos separou, que nem sempre os caminhos vão se encontrar nos sonhos. Sonhos em que você passa meus lisos loiros de criança por entre os dedos, me beija a testa e me coloca para dormir. Sonhos que deveriam me fazer dormir profundamente, mas que sempre me despertam aos prantos, asfixiado em lágrimas, saliva, ódio, vômito. Choro que só vem em sonho, porque não consigo sentir beleza no poente, nas crianças, nos casais nojentos em beijos babados. Não choro mais, sou frio, duro, cruel, egoísta, louco. Meu coração pulsa sem paixão, é constante, não tem sobressaltos, apenas bate, bate contando as batidas que lhe restam para não bater mais, meu coração burocrático, que bate ponto, que não tem amor. Não sinto amor, só aprendi a desamar. Continuo a lembrar repetidamente que você me amava, que só queria o meu bem, me ver feliz, me olhava com a ternura que jamais encontrei novamente, e você ainda quer perdão? Nunca. Te odeio, já te amei, mas agora só consigo te odiar quando lembro do que você fez, sua filha da puta, e nunca vou te perdoar, te odeio, não posso perdoar, te odeio, espero que você morra.
Yasmine
por Luiz Pedro
Minha companheira se foi. Yasmine, gata persa, aos 13 anos e 6 meses de uma vida bem feliz.
Em 30 de março de 1996 ela dava seu primeiro miado de filhote, fomos buscá-la no dia 16 de junho do mesmo ano. Eu queria uma gata, então um amigo da minha mãe indicou um gatil. Fomos lá buscar a Yasmine, fiquei super ansioso. Lembro-me de estar sentado no sofá, com vários gatos ao redor, segurando a caixinha na qual ela seria levada pra casa. Eu estava louco para botá-la pra dentro e sair de lá, queria brincar com ela, curtir os primeiros momentos daquela que me acompanharia por mais de uma década. Ela era miúda, os pelos meio arrepiados, uma cara estranha. Na verdade ela sempre foi feia, parecia uma bruxinha. Mas era doce, carinhosa. Eu arrumava bolas de gude, ping-pong, barbantes, tudo que fosse possível para uma brincadeira. Ela ficava atiçada, corria de um lado para o outro, pulava, se divertia. Pegou uma gripe muito forte, ficou muito debilitada, pensamos que não fosse escapar. Ficou mais feia do que já era, magra, poucos pelos e mais arrepiados ainda. Mas cuidamos, foi tratada devidamente e sarou, para alívio da casa. Sempre comeu muito, crescia vigorosamente, com corpo esguio, patas longas. Até meio desproporcional, a cabeça era pequena, o que a deixava mais estranha ainda.
Levamos para primeira exposição de gatos e, obviamente, foi aquilo já esperado, passou longe de ganhar. Nem pensamos em levá-la uma segunda vez, aceitamos que beleza não era o forte dela. Mas ela esbanjava em outras qualidades. Foi se tornando uma gata forte, saudável, limpíssima e educada. Cruzou a primeira vez, ficou grávida. Com aquele corpo esguio e agora barrigudo, andava com dificuldade, estava mais estranha ainda! Quando seus filhotes estavam para nascer, me procurou no quarto. Sentou a minha frente, miava insistentemente. Quando dei por mim, já estava com um filhote por entre as patas. Vieram outros vários, preparamos um berço no meu quarto e lá ela ficou com seus anjinhos. Muito atenciosa, adorava lambê-los, se refestelava com eles. Teve várias outras crias, cuidava de todas com muita atenção. Me dava até orgulho ter “criado” uma mãe tão boa. Nos mudamos para uma casa no Itanhangá, lá ela dava passeios pela vizinhança, se metia pelo mato, sumia por até dois dias, ficávamos loucos de preocupação. Uma vez voltou grávida, teve uma ninhada de vira-latas. Começamos a tentar segurá-la para não mais acontecer, até porque uma outra gata havia morrido num desses passeios, mas era complicado, ela sempre escapava.
Nos mudamos de novo, agora para Copacabana. Ela já entrou numa idade mais avançada, foi perdendo a visão até ficar cega. Mas não tivemos tempo de lamentar, pois ela aprendeu a se virar rapidamente e vivia muito bem, se guiando pela memória dos caminhos e seus bigodes muito precisos. Foi ficando paradinha, não mais brincava. Continuava muito carinhosa, mas sentiu a idade, dormia boa parte do tempo. Até que notamos alguns caroços em sua barriga. Levamos ao veterinário, que diagnosticou um câncer. Não indicava a operação, pois dizia que ela não sobreviveria. Então assim deixamos. Ela estava bem, não mudou muito. Passava por alguns momentos de magreza, tivemos que ter mais atenção, colocá-la para comer, eventualmente dar uma ração especial. mas sempre carinhosa. Eu chegava em casa, abria a porta do meu quarto e ela imediatamente entrava, subia na cama e sentava no braço da poltrona, para ficar sentada ao meu lado. Pedia colo, eu puxava ela para cima de mim, ela miava carinhosamente. A cada momento desse eu sentia uma pontada no peito, sabendo que eles por certo se aproximavam de ser os últimos. Então chegou o dia em que notamos ela estranhamente deitada, percebemos uma diarréia estranha, que tinha emagrecido além do que às vezes costumava emagrecer. Mantive a fé, pensei ser apenas uma fraqueza momentânea. Mas ela estava piorando rapidamente, tive que aceitar, era derradeiro. Mais alguns dias e ela se foi.
Agora quando eu chego na porta de casa, sinto medo de abrir a porta e me deparar com a saudade que me aguarda. Sinto falta daquela gata que se apressava a tomar seu lugar no braço da poltrona assim que eu abria a porta do meu quarto. Mas é assim, as memórias ficam, junto com a felicidade de ter passado 13 anos muito bem acompanhado. E me resta o consolo das noites. Sei que nos meus sonhos podemos continuar nossas brincadeiras.

Flamengo, a paixão tem suas cores
por Luiz Pedro
Sou muito rubro-negro. É complicado graduar uma paixão, como muito se faz nos fóruns da internet. Torcedor “de verdade”, os “modinhas”, e os vários níveis estabelecidos por aqueles (boa parte da civilização-ocidental-capitalista-selvagem-e-cruel, na qual me incluo) vidrados em comparações nesse tempos modernos de competitividade à flor da pele. Cada um sabe o tamanho da sua paixão, cada um sabe o quanto vibra nas vitórias, o quanto sofre na arquibancada, o quanto lamenta aquela bola caprichosamente tocada na saída do goleiro que esbarra no pé da trave. E ninguém tem nada a ver com isso.
O Flamengo, equilibrando-se na bordinha do G4, viaja para Belo Horizonte onde vai encarar o Atlético-MG, com um Mineirão abarrotado de atleticanos fanáticos ao lado de suas encantadoras mineiras. Amanhã, domingo. Jogo com clima de decisão, quem ganhar afasta o outro do sonhado título e complica até pretensões de chegar à Libertadores. Jogo que será transmitido na televisão, todos tensos aturando as secadas do Luiz Roberto, xingando as morcegadas do Léo Moura e abrindo um largo sorriso diante da facilidade com que o Petkovic cola a redonda nos pés.
Não poderei ver o jogo, sequer escutar no rádio. Estarei trabalhando na aplicação de uma prova, circulando por corredores de um colégio perdido no Jardim Botânico, dando esporro em fiscais preguiçosos, me enrolando para ajudar meu primo-chefe. E nem um fone colado no ouvindo pra sofrer na narração exagerada dos radialistas. Crueldade com aquele que acompanha o campeonato e terá que aguardar a frieza do noticiário para saber da derrota ou da contagiante esperança que surgirá diante de um triunfo em cima da galinhada. Minha torcida será para que tenha um vizinho rubro-negro muito animado para berrar na janela a cada gol do Flamengo. Já quanto aos gols do Atlético, tenho certeza que não faltarão secadores arco-íris se manifestando.
E assim vou acompanhar o jogo mais importante do ano. De longe, imaginando jogadas, querendo expulsar a pontapés os que demorarem demais a finalizar a prova, tentando mandar vibrações positivas para Willians e Airton não brincarem de fazer pênalti ou de arrumar cartão bobo. Tudo bem. Terminada a prova, terei minha grana, mas com certeza fará falta sofrer, xingar o jogador pela tela, convicto de que ele estará me escutando de lá. Até sonhei, Adriano abre o placar, pressão do Atlético forte o jogo inteiro, então, no último minuto, Pet fecha o caixão com um gol de pênalti. Que ansiedade!
Por fim, farei um pedido: aqueles que puderem acompanhar o jogo, sofram por mim, vibrem por mim. Sou muito rubro-negro, assim como toda a Nação que vai suar frio nesse calor infernal. Modinhas, cativos de arquiba, assinantes de pay-per-view: vamos todo pra cima deles! Deixou chegar, sabe como é né…

Meu rico olhar mendigo…
Recentemente li da crônica esportiva uma batida máxima do futebol:
“O medo de perder tira a vontade de ganhar”
Essa frase me perseguiu durante semanas. O que isso, afinal, tinha a ver comigo? Tudo!
Como disse em outros posts, eu era um menino tímido. Imagino até que isso tenha se perdido com o tempo. Aprendi a disfarçá-la com uma risonha cara de pau. Mas a verdade é que a minha timidez – o medo de perder – me privou de ganhar muitas coisas.
A que me recordo para escrever, foi quando tinha lá pros meus doze ou treze anos. Naquela época eu ainda vivia protegido pela redoma dos meus medos. Lembro-me que era apaixonado por uma menina que estudava na turma ao lado. Após o recreio as turmas se enfileiravam na quadra da escola para seguir cada uma para suas respectivas salas.
Ah… aquele era o meu momento de contemplação. Eu ia para o colégio apenas para vê-la na fila do intervalo.
Ela era linda.
Tinha um rosto angelical, delineado pelo corte de seus cabelos louros. Mas aquele não era um louro qualquer. Era um louro cor de aurora que cegava meus olhos e enrubescia a minha face, os outros cabelos eram simplesmente amarelos perto do dela.
Quando se é tímido, é preferível que a sua amada não saiba do seu amor. Ainda que isso te torture eternamente, amar escondido é melhor do que não poder amar.
Com o passar dos dias, comecei a perceber que ela olhava insistentemente para a minha fila. Procurava, bobo, motivos e direções para os olhares. Tinha amigos muito mais bonitos e certamente eu não era o agraciado da vez. Passei semanas procurando motivos, até que as evidencias me seguraram pelo braço e me chacoalharam.
- Sim! Ela estava olhando pra mim!
Quando se é bobo, tímido e, sobretudo, se tem treze anos não se sabe o que fazer.
Quando ela era um amor platônico, o meu sonho era que esse amor um dia fosse correspondido. Só que aquele amor saiu do mundo das ideias e tomou contornos de realidade. Uma realidade palpável e, por isso, assustadora. O amor que seria a minha redenção, acabou por tornar-se o motivo da minha condenação. Por não saber o que fazer, um simples olhar dela fazia com que eu desmoronasse na minha timidez.
Até que os dias foram se passando, os olhares foram cada vez mais intensos e com a proximidade do fim do ano, chegava ao fim o meu amor platônico correspondido. A minha vergonha dava saltos de alegria, enquanto o meu coração atrofiava.
É bem provável que essa história ainda aconteça com meninos de treze anos e até mesmo com caras de vinte e três.
Só que agora o meu problema não é mais a timidez ou querer alguma coisa e nunca tê-la, mas, sim, o medo de perdê-la.
Bolero Blues
Chico Buarque
Quando eu ainda estava moço
Algum pressentimento
Me trazia volta e meia
Por aqui
Talvez à espera da garota
Que naquele tempo
Andava longe,muito longe
De existir
Tantos tristes fados eu compus
Quanto choro em vão, bolero blues
Eis que do nada ela aparece
Com o vestido ao vento
Já tão desejada
Que não cabe em si
Neste crucial momento
Neste cruzamento
Se ela olhar para trás
É bem capaz de num lamento
Acudir ao meu olhar mendigo
Mas aquela ingrata corre
E a Barão da Torre e a Vinícius de Moraes
São de repente estranhas ruas
Sem o seu vestido ficam nuas
E ao vento eu digo
-tarde demais
Quando ela já não mais garota
Der a meia-volta
Claro que não vou estar mais nem aí
Lápide
por Luiz Pedro
No primeiro tropeço, deteu-se por um instante, tombou a nuca e encarou o céu, já enegrecido pela noite. Com as luzes da cidade, os prédios estreitando-se no topo e algumas nuvens, poucas estrelas eram visíveis. Aquilo lhe bateu como um presságio, e a cada novo tropeço estava lá, encarando o céu. Era o mesmo céu, o que lhe trazia alguma intimidade naquele momento de profundo isolamento provocado pelo fracasso. Sentia que podia dividir mais um fardo com a noite que lhe pesava a cabeça, como se o pecado não fosse cometido apenas por ele, mas também pelo céu, pelas estrelas, pelo negro insondável que lhe cobria. Aqueles eram seus cúmplices nas derrotas que não paravam de se suceder e lhe davam a certeza de que não seria incriminado sozinho.
Não seria pelos amores desconstruídos nas camas reviradas, não seria pela desesperança de esbarrar com o destino. Jamais escutariam a voz impúbere dos que não lutaram. Uma história largada no desvão da memória, destronada na desistência de andar em passos firmes e constantes. Certamente não encontrariam motivos na farda carcomida por fracassos embaraçosos, nem na sofreguidão das mãos que cavam a própria cova neste chão duro e intolerante.
Não seria por nada do que jamais fez. Está agora com o rosto virado para o chão, caído sobre o assoalho empoeirado do esquecimento que tanto cultivou. Embaralhado na culpa e no rancor, se deixou dominar pelos vieses tão naturais da batalha. Se recusou a enxergar, se negou ao óbvio.
Seria, sim, por aqueles olhos fundos, escondidos nas rugas semeadas pelo tempo, temerosos do que poderia surgir a frente. Até porque jamais criou algo que fosse digno de se gastar o olhar.
Foi justamente por esses olhos tão fundos que a compreensão de sua vida ficou marcada pelo signo da derrota. Seria essa sua lápide: esquecida, desgastada, rachada, justa.
Abre a Roda
por Luiz Pedro
Não fuja dos gritos, não se esconda em labirintos ditados. Podes contar os segundos, mas não conseguirás guardar o sol no bolso. Palavras fora de órbita se perdem a cada suspiro arrependido. Mas um dia vou encontrá-las, nas gavetas emperradas de cada lar que criei, nessa saudade da pátria restante que rasga onde o sangue não estanca jamais.
Descanso na ingenuidade das madrugadas. Mal sabem elas, o sol anseia seu chamado. Virá queimar minhas areias, escalar suas fachadas, desmanchar meus sonhos. Cores não faltam, mesmo que você mire os olhos além dos meus. Deixe o vento pintar entre seus dedos, não se permita ser mais um exilado da paz. Ainda que tuas guerras não ultrapassem as fronteiras do suor, as prisões te marcarão os ossos.
Por fim, o silêncio se romperá em estilhaços, lancinados por cânticos apassarinhados. E o infiel abismo – antes tão imponente – será desfeito em azul de borboleta. Outrora tímido, quem sabe reticente, agora vai arriscar passarinhices, vai brincar zombeteiro de bem-me-quer.
E a noite adormecerá no ar.

Aquela
por Luiz Pedro
Era a Gabriela, e me provocava um questionamento constante. Eu me perguntava incessantemente, mas não tinha o menor intuito de encontrar respostas. As perguntas paravam no ar, e era assim que eu as queria.
Eu continuava indo ali, no final da tarde, todas as terças e quintas. Se fosse pela manhã, o sol certamente traria uma tonalidade mais calorosa aos seus cabelos. Era a Gabriela: aquela cujo nome transforma todas as outras letras do alfabeto insignificantes; aquela do vestido verde que me revira em angústias; aquela que é alta, mas não muito, apenas o suficiente para se destacar das divinas; aquela da boca babaloo de morango; aquela que torna todas as palavras vãs, inoperantes para transmitir qualquer idéia, sentimento, tese científica; aquela que desliza na ponta dos pés, acima de qualquer irracionalidade terrena. Ela, aquela, Gabriela, minha musa.
Eu podia observar do outro lado da rua, através da porta de vidro da academia, quando ela se apoiava no balcão de entrada para conversar com as recepcionistas. Por cinco, dez minutos, ficava com os cotovelos no balcão, enquanto era possível notar algumas risadas curiosas de suas interlocutoras. Sempre trajando o mesmo estilo de roupa: calça de lycra até logo abaixo do joelho, uma camisa nem apertada nem muito solta, uma grossa meia de algodão e tênis de corrida, azul e branco. Todos os dias era isso, variava apenas nas cores, cores sóbrias, nada muito chamativo. Roupas insossas para uma musa vestir, é verdade, mas ela apenas estava indo à academia e essa vestimenta era padrão. Eventualmente erguia o dorso, apoiava-se com as duas mãos emparelhadas, descansava o pé direito sobre o calcanhar do pé esquerdo, que subia e descia na ponta dos dedos ansiosamente. Se despedia com um rápido levantar da palma da mão e saia para a rua com seu caminhar altivo. O trajeto da porta da academia até a esquina em que virava era uma reta de cinquenta metros percorridos em torno de quarenta segundos. Nesse breve período sempre fazia algo. Ou bebia água de sua garrafa, ás vezes buscava o celular e dava uma rápida olhada, provavelmente esperando alguma ligação. Eventualmente ela que ligava, falava com um leve sorriso. Eu sentia uma ponta de inveja por não receber aquela chamada, queria escutar sua voz. Mas mesmo como um simples terceiro, era uma tarefa impossível. Eu estava sentado no bar do outro lado da rua, ela falava com discrição, e ainda havia o barulho de carros e outras conversas. Impossível. Aqueles quarenta segundos, mais o tempo em que era possível observá-la na recepção, eram suficientes.
Negava-me a segui-la até sua casa, aquilo me faria mal. Eu não era um tarado, não queria me sentir um maníaco! Não tinha a intenção de abordá-la, puxar conversa, saber seu nome, o filme que lhe fazia chorar ou o destino de suas férias na infância. Eu estava ali apenas para vê-la. Ou também havia uma vontade inconsciente de ser notado observando? Será que eu ainda tentava reparar algum detalhe que teria passado despercebido, mesmo após três semanas de constante tocaia? Ainda que não houvesse nenhuma miudeza a ser descoberta, a constante repetição daquele fato trazia um vago sentimento de intimidade, como se a minha rotina, de alguma forma, fizesse parte da rotina dela. E esse hábito era recompensado nas horas seguintes a aparição, quando eu preenchia folhas e mais folhas do meu caderno de anotações, com poemas completos, às vezes apenas versos soltos, crônicas, frases, desenhos garranchosos de perfis femininos, ou apenas suas formas. Olhos amendoados, por vezes com óculos das mais variadas armações, lábios finos, grossos, narizes pequenos ou distintos.
Já não mais conseguia desenvolver qualquer outro assunto. Tornara-se uma obsessão que eu sentia necessidade de alimentar para me alimentar de inspiração, nada mais importava. Só me restava e só me interessava a aura das mulheres briosas que se desencadeavam da visão das terças e quintas, no mesmo horário pelo final da tarde. Mas, talvez, ainda faltasse o sol digno da manhã.
Tédio
por Luiz Pedro
Um Rio sem carros. As pistas da Presidente Vargas singularmente calmas. Na orla, sem motores rugindo nem estridentes buzinas competindo com o som das ondas tocando a areia. Sem fumaça de caminhões obesos. Verde amarelo vermelho?
Sem limpeza urbana. Areia pela rua na ressaca, terra pela casa na chuva, folhas secas cobrindo a calçada, metros de grama no Aterro movendo-se em ondas na brisa marinha, crescimento desenfreado de árvores fazendo noite a qualquer hora.
Sem trancas, sem cadeados. Segredos revelados, cofres peso morto. Portões e janelas ao sabor do vento, presídios tão escancarados quanto a porta daquela esposa de militar combatente. Portarias gradeadas, muros, cercas, paredes, tudo vira uma figura das nossas antigas prisões cotidianas.
Que tal sem gente? Filas dizimadas, a massa compacta desembarcando no Centro seria uma boa memória. Praias desertas esperando novos descobridores, animais retomando seus espaços sem temor. Sem corre-corre, sujeira, assalto, mortes estúpidas. Silêncio. Sem conversas de bar, sem risadas de criança, sem grito de gol. Sem amor platônico, paixão de verão, dor de cotovelo, tristeza, saudade, esperança, angústia, desespero, alegria. A vida lembrada apenas nos portarretratos largados pelas casas.
Os prédios ficariam intactos, como prova inconteste da nossa falha. Edifícios enormes de corredores e salas completamente abandonados. Os únicos inquilinos seriam os antigos, aranhas sem vassourada restringindo teias.
Por fim, ficariam toneladas e quilômetros de concreto inóspito, vago, frio, como em uma maquete envidraçada. Meros criadores de sombra, tão inúteis quanto já eram.
O que houve? Guerra, epidemia, aquecimento global? População evaporada por um cataclismo? Convulsão social? Nada disso.
Talvez seja só o tédio de quem já se cansou de imaginar um futuro de glórias numa sociedade tão predestinada ao passado.
O que é uma crônica?
por Luiz Pedro
Odeio conceituar. Estabelecer limites, delinear fronteiras, elaborar definições. Na verdade, não sei fazê-lo. Não somente em relação à crônica, mas, convenhamos, toda e qualquer singularidade mundana é dolorosa de desnudar em palavras. Logo, recorro a quem sabe. Viro-me para o petulante Houaiss, que garbosamente responde: “texto literário breve, freqüentemente narrativo, de trama quase sempre pouco definida e motivos geralmente extraídos do cotidiano imediato”.
Está certo? Sim, mas longe de ser satisfatório. Amplo demais, sem sal, alma. Qualquer outro poderia assim definir, o Aurélio mesmo é muito solícito, mas dificilmente seria suficiente. Mesmo os mestres apresentarão rachaduras, as ranhuras das imperfeições inerentes a qualquer arrogância de limitar um gênero literário a uma dúzia de palavras. Se eu tentar dar meu parecer, sem a tecnicidade e a precisão dos tijolos supracitados, serei uma criança desenhando hieróglifos antes de sequer saber o alfabeto da língua materna. O que fazer? Nada. Não tenho prazo, não tenho limite de caracteres, não tenho chefe. Pode soar como um tema muito restrito e direcionado, já que assim o título-pergunta pressupõe, contudo trato de ignorar seu caráter inquisitório e me recuso a dar uma resposta que seja propriamente minha.
A crônica não tem gênese firmada em raízes profundas. Pode se alastrar na grama rasteira, pendurar-se nas árvores em trepadeiras, surgir entre as pedras na coragem das orquídeas. Cria-se nas reminiscências da tarde atravessando a janela do trem para Japeri, nas casas de tijolos tortos rapidamente se sobrepondo, nos trabalhadores apertados em bancos duros para assistir a um ambulante e um pastor venderem paçocas e redenção eterna. Pairando no ar, a deriva nas vielas do pensamento descompromissado, perdido nos devaneios da jovem moça. Algo como criança que persegue uma borboleta tentando aprisioná-la nas mãos, sempre sem sucesso – e até sabendo que não terá sucesso – mas se divertindo com o simples borboletear colorido de asinhas tão simpáticas em fuga desengonçada.
Não quero encontrar definição. Não me interessa. Certa vez peguei um livro do Rubem Braga, resolvi ler e passei a conceber aquelas breves confissões como crônicas, já que assim se vendia o livro. Foi o bastante.
Dizem que a melhor maneira de descobrir o que uma história tem por dentro é contando-a inúmeras vezes. Talvez a melhor forma de entender uma crônica, e destrinchar sua concepção, seja lendo repetidamente. Após várias leituras, continuará sem saber conceituá-la em palavras diretas, só que conhecerá seus pormenores com intimidade maior do que o próprio autor supunha ter quando escreveu. Nesse momento bastará uma motivação, bastará uma fagulha pipocar do esfregar incessante de gravetos, e a chama surgirá. O que é uma crônica? Não sei, mas as palavras que entornarás no papel terão a precisão de um dicionário nomeado com uma voz única, a sua voz. Mesmo o Aurélio precisará rever seus conceitos.
Ainda sobre os homens….
Quando completei quinze anos ouvi em alto e bom som:
- Espero que voce tenha aproveitado, porque depois dos quinze passa rápido.
Foi só eu acordar no dia seguinte para descobrir que já tinha a maior idade e aos poucos fui descobrindo que só se e feliz de verdade até os dezoito anos.
“A vida são deveres que nós
trouxemos pra fazer em casa.
Quando se vê já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira…
Quando se vê, já terminou o ano…
Quando se vê, passaram-se 50 anos![...]”
Digo isso porque, se fomos compensados com uma infância sem privações, é na idade adulta que as preocupações aparecem.
Como não fomos treinados, parecem ter todo o peso do mundo. Seremos o Atlas da mitologia contemporânea.
Ainda que a mulher tenha que enfrentar todos esses problemas, a ela não cabe o poder da decisão. Elas têm o dom de gerar, nós o de dar fim. E pra exemplificar, é só lembrar de uma simples compra de um vestido. Se o companheiro não fizer a escolha – a pedido da mulher, claro – e não der um fim na compra, não serão as horas e tampouco o poder de decisão da mulher que se encarregarão.
Estude, trabalhe, case. Seja um bom funcionário, um bom marido, um bom pai. Ainda que a sua vontade seja de voltar a ser aquela criança dos dozes anos, aquela que só brincava.
A saudosa criança que talvez ainda viva na sexagenária alma do meu pai sempre me fala:
- Na próxima encarnação, quero voltar filho.
Portanto, mulheres, não reclamem das nossas atitudes infantis. É só o menino querendo brincar…
Seus olhos…
por Luiz Pedro
Eu os quero olhando para os meus.
Meus olhos…
descobrem seus olhos negros
um olhar que desliza pelo meu colo
e marca meu peito de dor.
Por que eu olhei para você?
Não consigo tirar os olhos,
quero estar junto a ti
para meus olhos terem seus olhos,
nada mais em meu olhar.
Tocar meus dedos em seus pêlos,
respirar o seu ar,
respirar você.
Sentir o suor da sua mão
entrando na minha pele,
arrepiar-me com a sua boca
molhando minha ânsia
de morder o seu calor.
Calar-me do sufoco
de unhas me rasgando,
apertar seu peito junto ao meu
e sentir um coração desesperado,
berrando por entre dentes cravejados.
Ouvir gritos de suspiros,
implorar beijos punitivos
por enlouquecer em seu cheiro.
Nada melhor que seus olhos
para transformar meu corpo
em seu mar de prazer.
Pare de buscar
Finalmente consegui encontrá-los.
Ou seriam eles que teriam me encontrado?!
E, de repente, vi-me feliz.
Algo irradiante, e ao mesmo tempo enérgico e energizante, tomou conta de mim,
Se apossou de todo o meu ser.
E fiquei feliz!
Não porque algo de extraordinário tivesse acontecido na minha, muitas vezes, rotineira, vida,
Mas fiquei feliz porque me descobri viva!
E isso me bastou!
Nada melhor do que estar viva para que, então, possa alcançar todos aqueles “nobres sentimentos”, que tanto ouvimos falar nos contos de fadas.
Passamos, gastamos tempo em busca de coisas grandiosas, sentimentos escaldantes, que, de tão preocupados que estamos em achá-los, acabamos por perdê-los.
Essa tal mania de grandeza do ser – humano que o faz esquecer, apesar de estar careca de saber, que as grandes coisas se materializam nas “pequenas”.
No sorriso.
No abraço.
Na flor.
No gesto singelo.
No olhar afetuoso.
Na palavra de esperança.
Na conchinha.
No beijo estalado.
Nas coisas belas da vida, que, muitas vezes, passam despercebidas na correria, pelos olhos ávidos de grandeza.
Glorioso
por Luiz Pedro
Apesar de descrente das vielas do acaso, dou sorte aos que me cercam. Mas como dizem que sou pé quente – e elogio é sempre agradável, fundamentado ou não – gosto de pensar que sou realmente um amuleto.
Meu pai sempre me convidou para assistir aos jogos do Botafogo no Maracanã. Sou flamenguista chato, dos mais chatos de uma espécie já chata, contudo ele talvez me considere uma boa companhia, já que por certo sou um tipo de superstição, pois todo jogo que o acompanho, o Botafogo vence. E visto que este resultado não é muito recorrente, ele se agarrou a isso.
Fomos assistir a semifinal da Taça Guanabara, contra o Fluminense. Naquele ano, o Maracanã estava sendo reinaugurado mais uma vez, agora com as cadeiras inferiores estalando de novo, e lá resolvemos ir.
Chegamos de metrô, descemos na estação do Maracanã, atravessamos a rampa da UERJ. Como ainda faltavam boas horas para a bola rolar, o movimento era razoavelmente fraco. Algumas entradas estavam diferentes, tudo era meio estranho para meu velho. Eu, já acostumado à rotina de torcedor cativo da arquibancada, não notei grande diferença. Buscávamos uma bilheteria, papai perdido, quem sabe traído pela memória castigada, então o puxei pelo braço colocando-o na direção correta, e me pus a explicar a divisão de preço dos ingressos pelo caminho. Naquele momento, no embalo da andança, percebi que estava levando meu pai ao Maracanã. Ele, que a contragosto me levava na arquibancada rubro-negra quando eu ainda era moleque demais para ir com minhas próprias pernas, agora era guiado por minhas mãos para a torcida alvinegra. Dei-lhe um abraço pelo ombro enquanto caminhávamos e comentei, sorrindo: “Agora quem te leva ao Maracanã é o teu filho.” Ele sorriu de volta, satisfeito por um dever cumprido de pai que agora desfruta de um passeio sem a responsabilidade de cuidar de uma criança.
Existem coisas que só acontecem com o Botafogo, mas quando meu pai está comigo, isso fica esquecido. Pé-quente que sou, o Botafogo ganhou de novo.

Sobre os homens…
Já que se foi falado sobre as mulheres em textos anteriores, nada mais justo do que falar sobre os homens como compensação. Dividirei esse post em outros e por ora, falerei sobre a infância.
Antes de tudo, devo salientar que nós homens não nascemos. Entramos em campo. Não se pode precisar a origem dessa nossa paixão pelo futebol, mas sabe-se que ela começa na barriga – que, coincidentemente, tem o formato semelhante ao de uma bola.
Mal começa a se formar o feto e o pai já conjectura o nosso time.
E os presentes? Passam pela roupinha com o escudo do time do nosso [?] coração até a bola de futebol, que desde pequenos somos doutrinados a chutar.
Talvez isso tudo faça parte de um enredo que somos obrigados a seguir.
Infeliz é você, irmã, que cumpre todas as tarefas domésticas, enquanto nos estamos sendo preparados para nos tornarmos homens. Ainda que esse caminho não seja tão penoso quanto seu. Mas a colheita, que é obrigatória para ambos, parece-nos mais ingrata.
Interessante é reparar, também, como nós homens sabemos aproveitar a infância. Sim, sabemos porque vivemos a melhor idade com toda intensidade possível. Alguns de nós até esquecem que essa época tem prazo de duração.
Nas mulheres batem os doze anos e elas logo pensam em namorar.
Nós?
Nos agrada muito mais, nessa idade, a companhia de bolas, vídeo-games, amigos, pipas, piques…
Tapados ou não – culpem os hormônios de vocês -, só depois de um tempo é que despertamos a nossa sexualidade. E é quando toda brincadeira implica em namorar.
Aos 15 nós não sabemos por que as meninas da nossa idade só gostam dos caras de 18. Aos 18 as interessantes serão as de vinte. Bobos somos joguete do amor e do descaso das mulheres mais velhas.
Vazio
por Luiz Pedro
Li uma reportagem no jornal “O Globo” de três de março de 2009 sobre a exposição “Vazios, uma retrospectiva”, que reúne “vazios” criados por nove artistas ao longo dos últimos cinquenta anos. Mas o que me deixou impressionado não foi a exposição, mas sim a reação das pessoas, na sua maioria, negativa. Não apenas negativa, mas até revoltada, acusando de ser uma gozação, “ridículo” e questionando até o viés artístico da exposição.
Procuramos ser afetados. Esculturas retumbantes no meio de uma salão, quadros impactantes nas paredes iluminadas, sons, cores. Enfim, qualquer coisa que atue, que dê o primeiro passo no processo de reflexão acerca da arte. Então, entramos em uma sala vazia. Sem nada nas paredes, chão, teto. Temos APENAS parede, chão, teto. Pode ser arte? Pode. Pode ser uma gozação? Igualmente.
Como minha professora de literatura definia, “a arte é a transfiguração simbólica da realidade imediata”. Que transfiguração? Quais simbolismos? Quantas realidades? Muito ou pouco imediata? Aí, camarada, é com você. A arte é feita pelo artista e pelo seu crítico, balanceadamente. Uma obra para niguém, sem que qualquer pessoa possa processar seus simbolismos por meio da sua imediata realidade, certamente é uma obra incompleta. Acima de tudo, a arte, antes de provocar críticas lógicas e racionais, provoca emoções.
Diante do elogio ao vazio, a presença da ausência, e principalmente da reação perpelexa de seus espectadores, podemos concluir algo: o vazio incomoda. Incomoda porque nos instiga a buscar algo mais. Muitas vezes, quando não se pode ver nada no exterior, talvez seja um convite a olhar para o interior. Nosso interior. E é possível que não se veja absolutamente nada. Não que não exista algo, mas porque preferimos não procurar temendo que nada exista. Temos medo de ser um retrato do exterior desvirginado. Então é melhor buscar distrações fora da caixa de memórias, experiências, sensações, emoções, dores e angústias que carregamos para todos os lados.
Uma sala vazia tem muito a acrescentar. Aguça outros sentidos. Percebe-se a textura da parede, a altura do teto, o espaço disponível, o silêncio, o calor, o frio, a luz. Talvez a disponibilidade provocada pelo vazio, a parede em branco como um quadro esperando a ser pintado, soe como o infinito. Um sem número de possibilidades a serem imaginadas, desenvolvidas, até destruídas. E nos colocar no papel de atores da realidade, autores da arte, é uma inversão indesejada.
Então, o vazio, como obra de arte, acaba sendo uma gozação mesmo. Faz-se graça com aqueles que não querem procurar. É risível a revolta daqueles que não apenas se recusam a procurar, mas principalmente temem o que podem encontrar. “A vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida”. O vazio pode ser o convite ao novo, como também pode ser um convite simplesmente ao próprio vazio. Quem faz a arte da sua vida é você.
Escrevendo que se vive…
Não planejo nada, escrevo por fruição.
Talvez você se sinta assim, mas sabe aquela sensação de querer fazer alguma coisa, estar angustiado e não conseguir? Senti-a e ainda sinto com freqüência. Há semanas não tenho uma boa ideia para escrever um bom texto. E o pior de tudo é que escrevo histórias verdadeiras, e por isso tenho a nítida impressão de que as coisas só existem ou passam a existir depois que as escrevo.
Já pensei em escrever sobre minhas alegrias, mas seria tão clichê quanto escrever sobre as minhas tristezas que, proporcionalmente, são maiores do que as primeiras.
Já pensei em escrever sobre meus amores platônicos inatingíveis e inalcançáveis, mas ainda assim seria escrever sobre a tristeza e certamente isso me daria um trabalho hercúleo.
Pensei até em escrever sobre um sábado com os amigos, mas sou egoísta e isso eu não compartilho com ninguém.
Acho que escrever está se tornando pouco pra mim e eu não devo me conformar apenas com isso.
Preciso viver com a mesma intensidade que escrevo.
Carta à Professora
por Luiz Pedro
Oi, Silvana!
Já nem sei se lembra de mim, mas você foi minha professora de língua portuguesa e literatura no Colégio Pedro II, unidade Humaitá. Formado em 2003, fui seu aluno em 2001 e 2002, e no último ano participei do “Utopia”, jogral que fizemos juntos no Fazendo Arte.
Semana passada eu estava conversando com alguns familiares sobre a Bienal do Livro, seu potencial entre o público infantil e o objetivo de incentivar a leitura em camadas geralmente não muito atingidas pela literatura. O papo acabou entrando nas obras “chatas” que são passadas aos alunos no período escolar, o que atrapalharia o interesse da garotada pela leitura. Lembrei então de você, e fiz questão de citar que tive uma professora de literatura maravilhosa, que foi essencial para acender o meu interesse não só pela literatura como pelas artes. Lembrei das indicações que mais gostei, Bufo & Spallanzani e Metamorfose, das suas explicações apaixonadas e interpretações elucidativas que jamais encontrei em qualquer professor. Sem contar o dia que entrou na sala de aula recitando “Ó mar salgado, quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal”, com uma força que até hoje me inspira a desatar poemas do Fernando Pessoa e do Ferreira Gullar em voz alta e ninguém nada entende.
Apesar de tamanha admiração, pisei na bola. No final de 2002 – admito que recordo com vergonha – cometi algumas besteirinhas de adolescente tentando ser rebelde. Deixava de ler livros e entregava a prova em branco assim que era entregue. Em seu olhar havia evidente decepção, mas eu o recebia com indiferença. Certo dia, após mais uma dessas mancadas, em tom desalentado, você me pediu seu aluno do 1º ano de volta. Senti-me uma criança ridícula, fiquei envergonhado por ter desapontado uma pessoa que eu tanto estimava. Só que tal percepção da realidade veio um pouco tarde, já que as férias estavam chegando e no ano seguinte você não seria minha professora. Surgiu então o Fazendo Arte como matéria eletiva e entrei motivado a me refazer. Após longos ensaios, confusões com aquele grupo enorme, divergências e os naturais obstáculos do projeto, fizemos três lindas apresentações para o auditório lotado. Na última apresentação, enquanto Fascinação era cantada, olhei para você, sentada na primeira fila, com olhos molhados, e compartilhei das suas lágrimas. Ao final daquele dia ainda escreveu um lindo bilhete em minha caderneta escolar, elogiando minha recuperação e finalizava dizendo que sempre estaria comigo.
Bem agora eu estava procurando uma crônica do Gabriel García Márquez quando achei uma reportagem sobre o apreço que Gabo cultivava por sua professora, a quem dedicava todo seu triunfo literário, sendo citada em diversas obras do escritor colombiano. Apesar de não ter romances publicados, muito menos um prêmio Nobel, resolvi te escrever esse texto como um singelo agradecimento. Eu preferiria abraçá-la com o carinho devido, mas espero que por essas palavras seja possível sentir o calor sincero com que eu agradeço sua promessa cumprida: você está sempre comigo.

Adeus da Partida
Não fala.
Guarda as palavras para uma época em que tenhamos mais tempo.
Agora, só olha,
E sente a minha pele aos poucos aproximar-se da sua,
Entrelaçando-me em seu corpo como se quisesse dele ser parte.
Percebe a respiração ofegante e o bater acelerado do coração:
É muito além do que ansiedade por saber que é o último momento.
Vê que os olhos lacrimejam,
O corpo enfraquece,
A alma sente dor.
Através da janela, nota que desabo sobre os bancos
Para ver que parte, e não sei se volta.
Recorda, ao que vai, o que somos,
E percebe que, ao fim e ao cabo,
Descobriu-se o amor.
Aconchego
Você vai me velar, chorar, vai me cobrir
e me ninar…
Essa dualidade com que as mulheres exercem algumas coisas na vida às vezes chega a ser fascinante. Não estou me metendo agora a puxar saco das mulheres, não é isso. Apenas acho interessante a relação que nós homens temos com o aconchego feminino.
Ainda acho que no quesito companheirismo, cumplicidade, coleguismo nós somos imbatíveis. Não existe amizade feminina que se equipare à amizade masculina.
Dois amigos são eternamente amigos. Duas amigas são possíveis futuras rivais.
Mas quando o assunto é aconchego não há homem que seja capaz dá-lo tão bem quanto uma mulher. É claro que vocês também precisam disso, mas eu sou homem, escrevo coisas de homem e, sobretudo, na ótica do homem.
Quando estamos doentes não há hospital tão sofisticado quanto o colo de nossa mãe. Não há outro lugar no mundo em que gostaríamos de estar. Infelizmente as obrigações e as imposições da vida acabam por nos afastar desse regaço confortador. E se me permite abranger um pouco da minha loucura e até fazer uma confissão, volta e meia, quando estou doente, me pego pedindo para que minha mãe venha dormir comigo.
Fora o colo materno, existe o colo da mulher enquanto companheira. Não como amiga, mas como alguém com que você divide a sua vida. Colo da mulher, colo de mulher… não é colo pra mulher. A relação é diferente, as pessoas são diferentes, mas aconchego é o mesmo, os colos são análogos.
Me nina, menina, me nina, menina, me nina, menina…
A Sunday Smile
por Luiz Pedro
Sempre tive medo de ficar preso a um tema, circundar o mesmo assunto nos textos que escrevo e, consequentemente, ficar chato. Mas é até arrogante pensar que na pretensão de escrever por uma vida – e sobre a vida – não vá ocorrer um déjà vu. Nietzsche muito bem falou sobre a repetição ininterrupta dos fatos no seu conceito filosófico do Eterno Retorno: “A eterna ampulheta da existência será sempre virada outra vez – e tu com ela, poeirinha da poeira!”. Mas depois do “Verde Sacudido”, não só a crônica como também todas as referências já feitas em outros textos, senti-me novamente encantado por essa visão entorpecente do feminino trajando um vestido verde.
Fui ao PercPan (Panorama Percussivo Mundial) na quarta-feira, em um teatro no Leblon. Na verdade, eu estava pouco me lixando para os batuques que lá iam ressoar, só tinha olhos para o Beirut, uma banda por aqui conhecida no mainstream apenas pela música “Elephant Gun”, tema de uma belíssima microssérie da Globo, “Capitu”, do final de 2008. Meu lugar era situado no andar superior, distante do palco. Contudo, surgiu o pensamento entre meus amigos de descermos para a área do público que ficava mais próxima do palco, idéia que se acentuou diante da falta de fiscalização dos ingressos na entrada do respectivo setor. Seguimos para o andar inferior, ficamos no corredor lateral, em pé. Logo pudemos perceber que não fomos os únicos a ter essa idéia, já que se notava claramente uma superlotação, com todos os corredores cheios. Show começa, o vocalista convoca o público a se aproximar do palco e então a invasão dos corredores foi oficializada. A minha frente, na esquina entre o corredor lateral e o corredor que cortava a frente do palco, havia um bom espaço disponível, pois as pessoas se concentravam ou na frente do palco ou nos degraus mais elevados do corredor lateral. Eis que surge aquela visão já familiar, porém capaz de me provocar as sensações mais primitivas.
Uma mulher, cabelos em coque, pequena, delgada. Desfrutava muito bem do tal espaço, iniciando os primeiros passos de uma solitária dança embalada por “Elephant Gun”. Com um leve vestido verde, misturava um pouco as danças tradicionais que o som do Beirut costuma evocar com a alegria dos saltitos de uma criança brincando. Vestido verde, magnético, de olhos de Capitu, que absorve e traga, “como a vaga que se retira da praia, nos dias de ressaca”. Esqueci do show. Na verdade, a música serviu de trilha sonora para o que se pronunciava a minha frente, e me apeguei à idéia de que eu era o único sortudo a ter percepção daquele pequeno espetáculo. Um fio prendia meu olhar àqueles passos e, a cada rodopio, eu me desenrolava feito um carretel, a mercê dos caprichos daquela bailarina de caixinha de jóias. Ela rodava, eu entontecia. Pulava segurando com uma mão a barra do vestido, como que levemente abrindo-o, por vezes soltava e resolvia desatar nas mãos agora erguidas outra dança, que se desenhava na contraluz do palco. E ali estava eu, tal qual um velho sensível às belezas cada vez mais distantes da realidade de outrora, emocionado, sem saber exatamente o motivo, embevecido na teia que aquela jovem havia me enredado.
O show acabou, o meu espetáculo correlato também. Rapidamente, com o escoar das pessoas, perdi de vista minha menina e também acabei por seguir meu caminho. Ainda curtia o regresso daquela emoção: o arrebatamento, a falta de ar, o sensação de vazio dominando o corpo desde a boca do estômago até a tontura que chegava a enublar a visão. E a saudade já dava pontadas de querer se manifestar, apesar de tamanha brevidade. O Eterno Retorno seria a solução que eu abraçaria sem pestanejar. Repetiria tudo: as mais dolorosas paixões, os mais doentios ciúmes, as barreiras mais intransponíveis e as lágrimas mais incontidas. Por mais alguns instantes emaranhado na ciranda da minha sílfide, eu me açoitaria nas eternas intempéries da vida. Valeria a pena.
Único Pedido
por Luiz Pedro
Gosto muito de uma série bem famosa, “Lost”. Para os que chegaram agora de Marte, se trata sobre um grupo de sobreviventes de um desastre aéreo presos à uma misteriosa ilha.
Em um dos episódios, eles estão tentando consertar um rádio de comunicação para tentar algum contato com o continente. Mas conseguem apenas receber sinais de uma rádio distante, rádio de músicas mesmo, que tocava uma música do Glenn Miller, “Moonlight Serenade”. E na cena eles escutavam a canção com uma certa conformidade diante da situação de isolamento. Admiravam o céu estrelado com o olhar perdido e tentavam curtir a canção, pois foi a unica opção que lhes restou.
Ficavam visíveis diversos sentimentos naquele instante, por conta da interação entre música e cena. A tristeza era aparente pelo ar desolado de quem não conquistou o objetivo, juntamente com um toque de saudade provocado pela tênue ligação que aquela canção proporcionou, servindo de elo para o continente e suas vidas anteriores ao desastre. Mas, apesar da tristeza e da saudade, havia espaço para uma recôndita alegria, pois havia a rara possibilidade de escutar uma música diante da situação de escassez a que estavam submetidos, com uma melodia que interage perfeitamente com tais sentimentos. Por ser bem antiga, da década de 30, naturalmente evoca o passado e lembranças distantes, mas que ainda se mantém belas no presente.
Diante de tamanha beleza transmitida, mesmo sendo apenas instrumental, chego a sonhar que essa deveria ser a música com a qual, na minha festa de casamento, eu dançaria com a minha esposa. Sabe aquela primeira música da festa que os recém-casados dançam antes de começar a festa propriamente dita? Então, a minha seria essa. Não faria questão de escolher mais nada na festa do casamento, só queria essa canção, seria meu único pedido. Bastaria e seria minha convicção pessoal de que casei com a pessoa que me acompanharia com todo amor e zelo até o nosso fim. Naquele íntimo momento, eu me sentiria casado com a mulher da minha vida, dançando nos braços daquela que sempre seria meu par, minha amante, minha companheira.
Fé
por Luiz Pedro
Na multidão, entre vozes já perdidas desde os pulmões, torço pelo melhor, temo pelo pior, mas sempre com a certeza de só poder contar com a própria vontade de superação. Já não sinto meu peito, já não acho meus amigos, meus irmãos seguiram seus caminhos. Trabalho a vida com o cuidado de quem restaura um mosaico milenar. Peças perdidas num tempo em que nossos pesares eram perdoados em cantigas de ninar.
Na multidão, só escuto o que quero, só vejo o que me importa. Essa multidão que me sufoca, me dá o ar para continuar seguindo, esbarrando, tropeçando, mas sempre seguindo. Os olhos correm por rostos familiares de outras histórias, entrelaço os dedos por recear o encontro do óbvio. Sempre visito a casa onde nasci, me vejo crescendo nos quintais de poeira, sinto o calor de brincar em paz.
Na multidão, sinto-me sozinho e cada vez mais perto de ti.

Sobre as mulheres
Nos meus eternos questionamentos cheguei à seguinte conclusão:
Há três tipos de mulher: as santas, as putas e as que transitam entre a clareza da primeira e a obscuridade da segunda.
Não, mulher, não pare de ler achando que é pretensão minha tipificar você nesses três tipos. No final, me entenderá e talvez até me dê razão.
Pra exemplificar esses três tipos, eis que recorro a três célebres personagens femininas da Literatura: Madalena, Dona Flor e Capitu.
Madalena, de São Bernardo, é de uma raridade ímpar. Exemplo de mulher quase perfeita – até porque a perfeição é reservada, única e exclusivamente, para as nossas mães. A personagem de Graciliano é culta, altruísta, fiel, trabalhadora, enfim. Reúne uma gama de qualidades que, para nós homens, são infindáveis defeitos. Não somos merecedores do amor e nem capazes de amar essas mulheres. E isso faz com que elas suicidem o próprio sentimento.
Pro leitor desavisado, Dona Flor não tinha nada de puta. Usei-a como exemplo do segundo tipo para classificar a mulher que, se fosse possível, nos trairia até com os mortos. Somos meros joguetes dos seus devaneios. O pior de tudo isso é que gostamos. O saudoso poeta Mário Quintana escreveu que o mais triste de um passarinho engaiolado é que ele se sente bem. Somos engaiolados por elas e cruel e aparentemente nos sentimos bem. Falsa ilusão. Como disse o queridinho de vocês, Chico Buarque: Por trás de um homem triste há sempre uma mulher feliz. E atrás dessa mulher, mil homens sempre tão gentis.
Já o terceiro modo é o que me parece mais comum. Mesclam elementos do primeiro e do segundo tipo. Capitu talvez seja a que melhor retrate essa mistura entre Madalena e Dona Flor, até que se prove o contrário. Não se pode afirmar sobre o seu caráter ou sobre suas atitudes até que flagremos um trejeito de Madalena ou Dona Flor. No entanto, isso não quer dizer que sejam confiáveis.
Como você pode ver, mulher, somos reféns. Reféns de nós mesmos e de nossa eterna dúvida. Essa eterna dúvida que ainda não conseguimos responder.
E se me permitem ir mais além, talvez estivesse enganado. Essa Quimera tem muito mais do que três cabeças. Chamá-las de vilãs ou heroínas seria puro reducionismo romântico. Quem sabe se vocês, assim como nós, só façam agir de acordo com cada situação. Reféns daquilo que nós julgamos achar que conseguimos esconder… os próprios sentimentos.
Lua de Agosto
por Luiz Pedro
Estou ferido. Não consigo mais me mover, apóio as costas na parede, desço o corpo lentamente, já sem forças. Os estilhaços da granada fizeram um bom estrago. O sangue molha minhas roupas em golfadas ritmadas pela minha pulsação, o ar entra em meus pulmões com dificuldade. Felizmente não há dor, meu corpo está cada vez mais dormente. Mas o metal do fuzil encostado na pele fica mais frio a cada instante que passa. Só me serve de apoio, abraçado ao cano como a última bandeira que me resta, o corrimão que me segurará por mais um pouco. O tiroteio lá fora está cada vez menos intenso. As metralhadoras em intervalos longos, estampidos de fuzil rareando, granada não mais, aquela talvez tenha sido a última. Nossa contenção está muito debilitada, a munição está escassa, nossos homens estão mortos. As linhas inimigas avançam, em questão de minutos estarão aqui. Por uma brecha consigo ver uma parte do céu, iluminado por uma lua cheia que eu não me dava ao prazer de admirar desde não me lembro quando. Começo a escutar gritos estrangeiros, ainda distantes, mas se aproximam. Nossa lua. Você está tão distante, lembro-me da promessa de voltar, que de qualquer forma eu voltaria, e falava isso convicto, não pelas suas lágrimas. Mas agora aceito que a morte é iminente. Olho a lua, aceito que minha vida escoará por essa terra, assim como a vida de outros tantos companheiros, fico em paz, estranhamente tranqüilo. Nossa lua de agosto, que nas nossas caminhadas era cúmplice de promessas eternas, dos nossos dedos entrelaçados, dos beijos que teimavam em não acabar. A lua que te fazia virar o rosto para o céu e procurar por entre as árvores. Quando avistava, surpreendia-se, dizia que estava mais brilhante, sempre brilhava mais do que a lua anterior. Apontava, perguntava-me retoricamente se era linda. Mas eu mal olhava a lua, seu rosto brilhava ainda mais, moldado nos cabelos dourados em cachos. Revistam as cercanias, matam os feridos, celebram a batalha vencida. Mas a lua ainda está lá, eu ainda estou aqui, não mais sozinho. Consigo sorrir, minhas forças não me permitem mais segurar o fuzil, minha cabeça tomba, de soslaio ainda olho a lua. As vozes estão além da parede, escuto os passos. Desculpa, minha linda, minha vida, minha lua, desculpa. Busco meu fuzil, empunho arquejante, trêmulo, viro-me para o canto de onde vem os passos, tento focar na pontaria, ainda posso despachar algum deles. De relance vejo a lua rapidamente, tento gravar na memória, buscar forças na partida, evitar despedidas mentais. Estão tentando forçar a entrada.
O Vermelho e o Negro
O apito do trem anunciava a morte. O trem passou pela estação da vida daquelas pessoas, em sua maioria negros, e tingiu de vermelho sangue a paixão daqueles torcedores.
O trem que levou a vida, trouxe lágrimas. O Maracanã não era nada se comparado ao choro que acompanhava o som da corneta do músico da Charanga.
O apito do arrebatamento tinha o mesmo som triste da música do instrumento e das palavras do trovador.
Flamengo até [depois de] morrer…
*Meu pai conta a história de que ao descer na antiga estação Derby, atual Maracanã, torcedores que andavam pela linha foram atropelados por um trem. Entre eles, um menino de aproximadamente 10 anos. Morto e enrolado numa bandeira do Flamengo. Antes do início do jogo o locutor do estádio pediu um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da tragédia. Então ergueu-se o corneteiro da Charanga do Jaime e entoou uma marcha fúnebre. Corria o ano de 1968.
E o 11º mandamento dizia: Não prejudicai o próximo em seu bel prazer ou interesse
Se tua pólvora não queimasse uma vida; tua ambição não esvaziasse um estômago; tua falta de educação não poluísse o chão e o ar; a falsa crença não se aproveitasse da ignorância e carência alheias para fazer seu ‘pé de meia’; o país não fosse feito de analfabetos funcionais e miseráveis; tua esperteza não dobrasse a minha carga horária de trabalho…
Aí então, não me importaria com o baseado “inocente” que você fuma; os milhares de dólares que guardas na cueca; com o lixo que joga nas ruas e o combustível queimado; a religião hipócrita que propagas aos quatro ventos; com o desvio de verbas da educação e saúde diretamente para os cofres na Suíça; não me importaria com o “jeitinho malandro de ser” que você leva a vida.
Mas, infelizmente, é problema meu SIM! Sou obrigada a viver (e conviver) com você, dividir ar, chão, teto, cultura e política, mesmo você não tendo NOÇÃO do que significa “senso de coletividade”, não entendendo que o ser – humano é um animal, sim, mas um animal com polegares e um cérebro altamente desenvolvido, que, normalmente, se contenta em ficar atrofiado em 5% do seu potencial, graças a você… Aí sim, ANIMAL IRRACIONAL!
Vermelho Desbotado
por Luiz Pedro
Ah, memórias de infância. Sempre me arrebatam, embora já de cores desbotadas. Não que eu esteja velho demais. Sim, algumas dores ao acordar e ocasionais pontadas na cansada tristeza que me impedem de deitar. Porém, nada preocupante. Parece que às vezes a alma corre mais que o tempo. Mas os tempos de criança eu busco recordar regularmente e suas formas não sofrem grandes distorções.
Na época do colégio, antes de entrar para a aula, eu passava em frente a uma barraquinha de doces, e lá deixava algumas moedas por pirulitos, balas. Tinha uma predileção especial por Babaloo de morango. Além de docinho e de render belas bolas, sua aparência me apetecia. Havia até um pequeno ritual antes de mascar: abria cuidadosamente sua embalagem e deitava aquela bolinha de vermelho suave no centro de minha mão espalmada. Por alguns instantes, ficava a admirar aquela pequena guloseima, me deliciando com o prazer iminente que iria me proporcionar. Gostava de controlar aquela ânsia que os jovens têm por provar tudo vorazmente, como se do contrário houvesse a ameaça de penosos castigos. Essa agonia era o verdadeiro gosto que aquele chiclete tinha pra mim. Só após me sacrificar por um breve momento que eu o pousava vagarosamente na língua, para então morder de leve, sentindo aquele líquido entornar pelos cantos da boca.
Essa lembrança me açoda rigorosamente nas recentes semanas. São os lábios dela. Incrivelmente semelhantes na suavidade do vermelho, com uma textura reveladora da maciez tênue, assim como se faziam as conversas com amigos agora irreconhecíveis. A mesma angústia por sorver aquela delicadeza de gostosura. Com uma diferença: antes era controlável, justamente por saber que, quando eu bem entendesse, a espera seria cessada e eu desfrutaria sem impedimentos. Só que não está mais ao alcance da minha trêmula mão espalmada. E também não tem mais graça diante da espera sem rédeas.
Agora entendo porque memórias da infância são tão palatáveis diante desse pesado presente. Porque são memórias. Apenas lembramos quando tudo ainda estava tão doce. Mas no presente, sentimos o vigor com que os dias se tornam insossos, uma borracha envelhecida que precisa ser cuspida. Nada como o tempo para desbotar os sabores. Aos poucos, tudo perde seu açúcar.
R.I.P.
Aviso aos navegantes: no Brasil, é proibido viver. Sem espanto, a verdade é essa mesmo que se lê. Você, que já não pode sair de casa quando tem vontade, para ir ao lugar que deseja, agora também não pode mais beber, nem fumar seu cigarro. Mas não se preocupe: carros, bebidas e cigarros continuam sendo vendidos livremente, no local mais perto de você, sem qualquer restrição.
Tudo e qualquer coisa em prol de um suposto bem coletivo que se almeja. A lógica é a simples, somos todos responsáveis pela coletividade, e por ela devemos abrir mão de nossos reprováveis desejos mundanos e superficiais. Nós, que temos nossa liberdade cada vez mais restringida por uma violência urbana induzida, provocada e prevista – a tal ponto que já se impregnou em nossa rotina diária –, passamos, também, a não poder desfrutar de determinados prazeres da vida, que há até pouco tempo eram perfeitamente aceitáveis.
O povo é presumidamente irresponsável e mal-educado. Essa é a premissa de que se parte quando se assevera que a única solução aos acidentes de trânsito por embriaguez é proibir a ingestão de qualquer mínima dose de álcool a quem vá dirigir, afinal, a irresponsabilidade que contamina o povo impede que os motoristas limitem seu consumo de álcool a uma quantidade que não lhes tire a percepção necessária à direção. São todos uns irresponsáveis; logo, estão todos proibidos de ingerir sequer um chopp. Eternos adolescentes!
Sim, o número de acidentes foi significativamente reduzido. Não poderia ser diferente, uma vez que a fiscalização cresceu na mesma proporção – até onde me recordo, antes dessa nova imposição não havia esse frisson de blitzes que hoje existe. Qualquer raciocínio lógico chega à conclusão de que quanto mais blitzes existirem à caça de quem não esteja em condições de dirigir, menor será o número de acidentes. Simples assim.
A novidade do momento é a proibição do fumo em locais públicos fechados. Concordo plenamente que o cigarro é incômodo ao extremo, até mesmo para os fumantes, e que fumar em locais fechados é realmente desagradável. Não há dúvidas, assim como é certo que o cigarro é a porta de entrada de inúmeros problemas de saúde. Quem fuma sabe disso e aceita o risco.
O único problema ocorre quando o que é desagradável se torna proibido em uma sociedade na qual é plena a liberdade de escolha dos lugares que frequentar, e onde quem deseja construir um negócio pode muito bem definir o público que pretende aceitar em seu estabelecimento – vide as casas de swing, um bom exemplo dado por um conhecido meu, fumante inveterado e revoltado com a nova lei do Estado do Rio.
Ou seja: os empresários tem o direito de permitir a entrada de fumantes em seus estabelecimentos, as pessoas tem a liberdade de escolher se desejam ou não frequentá-los, mas, mesmo assim, tome proibição. Mas não vamos proibir a indústria do tabaco, afinal, o lobby político que ela é capaz de iniciar é bem mais forte do que qualquer reivindicação popular.
Estaria mentindo se declarasse que não bebo, mas praticamente não dirijo e consigo muito bem viver sem cigarros. Difícil é, isso sim, viver submetido a lógicas pequenas e desrespeitosas à liberdade individual, pela qual já muito se sacrificou: pouco a pouco, vão sendo assassinados os cidadãos.
Uma colher de chá
Já disse o ditado:
A oportunidade e o cavalo encilhado só passam na nossa frente uma vez.
Quando pequeno não era o moleque mais arteiro do mundo e tampouco o mais comportado: era criança e, posto que criança, fazia coisas de criança.
Isso me rendeu castigos por boa parte da infância.
Um dia sem sair de casa, uma semana sem brincar, um bimestre sem video game. Certo é que não escapava sequer por 7 dias sem uma punição. Talvez se contabilizasse a quantidade de dias que fiquei de castigo, ultrapassaria a quantidade de que tenho de vida.
No entanto, contrariando o ditado gaúcho, pra tudo nessa vida – ou quase tudo – existe uma concessão, uma segunda chance.
Lembro da minha primeira. Veio amarga, sob roupagem diferente.
Meu pai e disse:
- Dessa vez vou te dar uma colher de chá.
Por não saber do que se tratava, neguei. Mas sem saber que a segunda chance, de ruim não tinha nada. Como disse Drummond, o verdadeiro sentido das palavras não está no dicionário; está na vida, no uso que delas fazemos
E é assim que a vida faz. Nos oferece colheres de chá todos os dias. Talvez, não da forma como queremos, não da forma de palavra de dicionário, mas em cada situação que podemos fazer uso no cotidiano.
Escrever que é bom, nada.
por Luiz Pedro
Sábado à tarde, sento-me para escrever, e nada. Branco, esse mal que acomete diante da folha limpa, ou, no meu caso, da tela limpa, com a insistente barrinha do Word piscando “vai logo que eu não tenho o dia todo”. Manuel Bandeira dizia que Rubem Braga era sempre bom, mas “quando não tem assunto então é ótimo”. Só que o Braga de Cachoeiro foi – foi não, é, e sempre será – o Senhor da Crônica. Então, o que fazer? Caminhar. Calço meu par de tênis e meto o pé atrás de algo na rua que instigue qualquer pensamento a sair da minha cabeça oca.
Moro em Copacabana, mas nunca gostei de caminhar no calçadão. Não rende nada, as pessoas estão ali apenas para caminhar, em ritmo apressado puramente para suar, sem rumo, param, marcam no cronômetro qualquer tempo, dão meia volta e caminham apressadamente novamente para lugar nenhum. Pego a Barata Ribeiro e toco para Ipanema.
Agora sim, pessoas verdadeiramente apressadas! Inclusive eu, que não consigo andar num ritmo moderado. Carros, ônibus, sinal fechado, velhinhas lerdas. No trajeto há uma enormidade de botecos, alguns vascaínos sofrem, outros bebem secando, a maioria apenas jogando conversa fora, seja em pé no balcão ou nas cadeiras que tomam as calçadas. Entro na Bolívar, caio na Tonelero (ou seria Toneleiros?) e subo o Corte do Cantagalo em direção a Lagoa. Desemboco de frente para o Dois Irmãos, o sol já desceu. As montanhas que acolhem a Floresta da Tijuca são apenas sombras, a silhueta de um monstro gigantesco que deita beirando o espelho d’água. Acredito que as crianças devem ver assim, é mais divertido. Faço algumas barras, acentuo o suor que já tinha desandado a brotar após subir o Corte e já volto mais apressado para casa, com algumas idéias para jogar no papel. Viu? Andar deu certo. Agora virou até um problema, já que estou longe de qualquer pedaço de papel. Seguro os pensamentos, repito-os várias vezes para que colem na minha testa e nada se perca. No caminho de volta passo em frente ao Copa Azul, o boteco está atolado, algum grupo toca um pagode animado e a galera comprou a idéia. No comando do pandeiro está a figura mais adequada possível: óculos escuros, camisa regata do Flamengo falsificada, sorrisão de quem está abalando e não vai parar tão cedo. Alguém voltando do trabalho, mochila nas costas e calça jeans, pára e curte um pouco; uma cinquentona dança de braços erguidos, copo de cerveja na mão e pelancas braçais ao vento. “Todo mundo erra sempre, todo mundo vai errar”! Ê beleza!
Definitivamente é mais agradável pagodear do que ficar caçando palavras para jogar no papel. Mas cada um na sua, até que minha caçada rendeu bons frutos. Quem sofre, agüenta a Segundona; quem pagodeia, curte o sábado; quem bebe, espanta seus males; quem escreve, caminha.
É, acho justo.

Quis custodiet ipsos custodes?
A lágrima que cai do rosto da criança indefesa é a mesma lágrima que cai do rosto do homem que chora calado.
O medo da criança que teme o escuro é o mesmo medo do homem que teme sozinho.
A mãe afaga a criança que chora e o pai protege a criança que teme.
O homem afaga a mãe que chora enquanto protege o pai que teme.
Só me diga uma coisa:
“Quem guardará o guardião?”
Desiludido na esperança
Meu coração se apossou da desilusão
Desiludido, permanece ativo
À procura do amor – fervor
Mas teme ser dilacerado
Desprezado e esquecido
Como outrora
Ou seria, outroras?!
Coração carente
Guardando todo o seu amor
Pronto para explodir
Já apaixonado
Antes do nascer da paixão
Esperando um outro coraçãozinho perdido
Nesse caos
Chamado mundo
Chamado vida
Chamado normalidade
E, então, poderá viver flutuante
Apenas dos sentidos
Somente na alegria
Na inocência de um amor verdadeiro
Carpe diem do amor
Sem melhor estar.
Até Breve
Já sinto a dor do parto, mas tenho que partir. Partir desta pra melhor. Não farei um discurso de despedida, porque não faz o menor sentido isso. Todavia, achei de bom grado me despedir de todos aqueles ociosos que leram meus rascunhos do que a ciência chama de uma escrita neo-faço-o-que-eu-quero…
Foi legal…e um dia o Luiz me convidará novamente pra eu voltar a escrever aqui. hahaha…
Beijos e Abraços
Companheirismo
por Luiz Pedro
Minha companheira há 13 anos. E a palavra é essa mesmo: companheira. Com essa gatinha que divide o cotidiano comigo desde meus 10 anos aprendi o que significa “ser companheiro”.
Não podemos nos comunicar verbalmente, porém ela sempre está ao meu lado, trazendo um aconchego, mesmo nos momentos em que estou mais arisco. Eu sei que posso contar com ela e ela sabe que pode contar comigo. De forma natural e espontânea. Fico bobo com a confiança que minha felina deposita em mim. Tenho brincadeiras mais brutas, principalmente para uma gata já velhinha como ela. Porém, apenas brincadeiras. E ela, sabendo que não passará disso, que eu não a machucarei, se deixa levar e curte comigo. Respeitamos o espaço um do outro, muitas vezes até nos esquecemos, mas, sempre que nos buscamos, encontro o mesmo afeto de sempre, a mesma receptividade de sempre.
Ser companheiro é estar disposto a ajudar o outro, haja o que houver, e encarar não como uma responsabilidade, mas sim como um prazer, ainda que não haja troca de palavras – e nem é fundamental, basta estar presente. Para minha infelicidade, ela é apenas uma gatinha e não poderá me acompanhar por muito mais. Porém, a lição que ela me trouxe será tão eterna quanto a lembrança dos carinhos que trocamos.
Obrigado, minha companheira.

Eu confesso!
Devo confessar, adoro uma discórdia – ou, para ser mais popular, um barraco. Adoro, e não tenho vergonha de dizer que às vezes sinto até um alívio quando alguém que merece escuta umas verdades ou ganha umas cicatrizes como resultado de muito bem dados tabefes. Essa história toda de buscarmos a conciliação e tratarmos uns aos outros de forma dócil é bonita, bastante “Era de Aquário”, mas não se aplica fora de situações razoáveis, evidentemente. Afinal, é justo esse suposto dever moral de incorporar todo esse espírito “paz e amor” mesmo quando você foi obrigado a ouvir ou aturar poucas e boas? Santificado seja aquele que responder que sim, porque esse sacrifício é digno de canonização!
Levar desaforo para casa pode ser conveniente em determinadas situações, mas quando surge aquele descontrole que chega a elevar a temperatura do corpo, é inteiramente válido revidar – com os devidos limites, claro –, por quê não? Ora, a natureza dos homens é conflituosa, deixá-la de lado é justificável apenas por algum bem maior do que a honra individual, como a paz coletiva ou algo de similar transcendência.
Justamente em virtude dessa visão certamente não-convencional e talvez moralmente questionável para alguns, me deliciei nesta semana: briga feia na novela das oito, discussão acalorada no Senado Federal (sobre a qual, por sorte de quem lê, desisti de escrever)…atire a primeira pedra quem não teve a atenção nem um pouco despertada em alguma dessas situações. Quem tem coragem?
Aí mora a “sementinha do mal”: lá no fundo, você também é barraqueiro!
Às vezes
Uma vez, fui aquele que se entregou de corpo, alma, sangue e mente a uma mulher. Fui tudo o que ela quis e ela pôde, com toda a força do verbo, fazer de mim o que à sua cabeça ocorresse. Cheguei a elevá-la ao posto de santa, onde eu, mero devoto, subjetivei e abdiquei a minhas trivialidades em função de sua satisfação total.Quando no fim, como em muitos outros fins, a dita cuja não merecia. Uma vez.
Duas vezes cri que eu não serviria ao Exército. Meu pai me garantiu, em duas ocasiões distintas, que um capitão amigo dele faria com que meu cabelo Black Power se mantivesse intacto após as três apresentações em Triagem. Dito e nada feito. Uma semana depois, já marchava com desenvoltura e acordar às 4h30min já não era mais problema. Literalmente, “ah, meu pai…” nessas duas vezes.
Três vezes minha mãe foi chamada na minha religiosa escola, Santa Rosa de Lima, durante minha 6ª série. Puts!, eu era O caos. Minha professora de Matemática à época, a irreverente Lêda, me levou à capela do colégio algumas vezes com o intuito de exorcisar-me. Aqui, não minto: frustrada, trocou-me de turma. Lembro bem da expressão facial de minha mãe quando, na derradeira visita à sala da diretora, ouviu: “Carla, querida, não sei bem como dizer, mas esse menino é o Anticristo”. Tadinha de mamãe. A constrangi nas três vezes.
Quatro vezes dezessete, conta a Álgebra, dá sessenta e oito. Mas minha avó, ao partir, deixou à Terra o que nem esse número em anos é capaz de tremular. Beirando a idade da soma inicial, Elizabeth partiu. Nem sessenta e oito anos de vida, vinte ao meu lado, à época, são capazes de suprir dois anos de imenso vazio. Daí, concluo que Matemática -desculpe-me, cara Lêda – não é uma ciência exata. Pra mim, quatro vezes dezessete é dois, porque não quero ter de esperar sessenta e seis anos pra sofrer mais do que já sofri nesse biênio. Esta semana corre à data de dois anos após a morte de minha avó. E já estremeci mais de quatro vezes.
Cinco vezes. Ah! “Eu sou Flamengo de coração! Eu sou do time que é pentacampeão!”. Não há glória maior na minha vida do que fazer parte da Nação. Mengão, meu parceiro. Sempre que me flagro triste, recorro a ele – seus vídeos, fotos, tributos e façanhas sempre me alegram em tempos revoltos. E nada precisa fazer, nem vencer é necessário. Minh’alma pra sempre efervescerá ao timbre da odisséia rubro-negra, ganhando ou perdendo. Te amo, meu Flamengo! Te amo! Te amo! Te amo e te amo! Cinco vezes!
Recordar é, sim, viver. Mas o inverso não se faz verdade. E nenhuma, nenhuma vez mesmo, fui tão sincero ao proferir os seguintes dizeres: dá gosto ver a vida só às vezes!
Bons Tempos
Reuniam-se sempre aos Domingos. Aos meus olhos, aquilo era de uma grandiosidade tamanha. Não faltava nada e nem ninguém. Brincadeiras, bolo, pastel, almoço, doces. Avós, pais, tios, primos, sobrinhos, amigos…
Se eu não conseguia expressar tudo o que sentia naqueles momentos por meio de palavras e nem de gestos, me bastava sorrir. Sorria, sorria com os olhos e isso era o suficiente pra saberem. Meu coração doía de tanta felicidade.
Mas os bons tempos acabam, quando a verdade aparece. A felicidade, por vezes, é inimiga da verdade.
Não se reúnem mais. Hoje, aos meus olhos, aquilo era de uma falsidade tamanha. Faltava a verdade, faltavam os verdadeiros sentimentos. Intrigas, fofocas, mentiras, ostentação. Já não há mais avós, não vejo meus tios, nem primos. Me restaram os pais e os amigos. Se não consigo, hoje, expressar tudo o que sinto por meio de palavras, meus olhos novamente serão meu espelho. Meu espelho de dentro.
Sinto saudade do que não vivi e de quem não conheci. E saudade também não tem tradução. Hoje tenho o coração doendo de tanta saudade.
Sinto muito (homenagem às vítimas do voo Air France 447)
Sinto muito por vocês que se foram, sem nem terem pedido.
E por vocês que ficaram, sem saber o que pensar.
Faltam-me palavras que lhe façam sentido.
Sei que nada que escutares fará essa tristeza passar.
É triste te ter ontem e hoje saber que nunca mais o verei.
É triste não! É terrível, é trágico, é amedrontador.
Diga, agora, como ficarei
Se, nisso tudo, só o que sinto é a dor?!
Não sei o que lhe dizer.
Nem o que fazer.
Quando chegaste pra mim,
Já anunciastes teu fim.
No princípio de tudo, onde o nada passou a ser minha rotina.
O que fazer se seus beijos não mais farão parte da minha sina?!
Eu não pedi pra nascer.
E você não pediu pra morrer.
Tudo que vivemos ficará guardado
No lado esquerdo do peito destroçado.
Com essa faca de gume afiado.
Rompeste a esperança que tinha no ar de te ver ao meu lado.
Cara ou Coroa
Pasta, carteira, chave do carro, telefone, tudo em dia. Entro no elevador e aperto o botão do primeiro andar. Logo na parede eu me olho no espelho do elevador e confiro o nó da gravata. Fez o nó francês, já para causar uma boa impressão. O terno é novo, comprado ontem. A calça, muito bem passada, combina com os sapatos novos de couro italiano. Coisa fina. Tudo ia se encaminhando conforme as expectativas. Aquela era a última de uma série de entrevistas. Esperava por aquele emprego há bastante tempo. Era a chance de ouro, mal podia imaginar. Sentia que em alguns instantes, tudo iria mudar E não deu outra. O elevador parou no meio do caminho. Ficou enguiçado entre o sétimo e o oitavo andar. O porteiro informou que o conserto só viria em algumas horas. Apreensão, nervosismo, desespero, raiva, angústia, tristeza: todos os sentimentos se revezavam naquele momento. Mas um deles se destacou: a curiosidade. Dentro do elevador, parado entre os dois andares, não havia apenas um futuro empresário de sucesso, mas também uma jovem criança. E aquele momento, para ela, não poderia ser melhor. Hoje ela faria prova de ciências. No entanto, o elevador parado significa para ela não apenas o adiamento do inadiável, mas também a conquista de mais algumas horas de Playstation naquele dia, já que não chegaria na escola a tempo. Azar de uns, sorte de outros.
Leilão da virgindade
Após um período curto de férias (inclusive aqui do blog, que aproveitei para postar algumas músicas antigas que eu tinha escrito na época em que achava tolamente que pegava mulher se escrevesse para elas) volto à atividade para comentar de uma situação bastante inusitada, mas que ultimamente já está se tornando rotineira em nossos noticiários. Da última vez que vi, se tratava de uma equatoriana de 28 anos que estava leiloando sua virgindade para pagar o tratamento de saúda da mãe. Há qualquer coisa de errado nisso., senão vejamos: um tratamento de saúde é caro, assim como os estudos na faculdade (caso de uma americana de 23 anos que leiloou sua virgindade nos EUA), assim como qualquer outra justificativa que leve alguma garota a leiloar sua virgindade. Contudo, é de se ponderar que uma virgem de 28 anos não deve ser uma beldade, nenhuma modelo internacional. Aliás, todas as proprietárias de hímens intocáveis que eu li, até então, eram uns grandes barros, e me instiga saber quem são os malucos que resolvem pagar uma baba para comer uma mulher deste nível. De repente, o Markinhos comeria. Há mais. Pode ser que o fulano que resolveu fazer esta caridade seja um altruísta, de espírito generoso e esteja visando apenas ao tratamento de saúde da mãe da pobre equatoriana. Só que se ele for tão bonzinho assim, ele pode simplesmente doar o dinheiro, sem precisar guerrear com o dragão. Resumo da ópera: é algo que eu não entendo. Uma horrorosa guardou sua virgindade até os 28 anos, ou 23 ou 25 ou qualquer idade parecida, para ter uma adversidade e logo leiloá-la por um preço absurdo, como se tivesse leiloando uma obra de Picasso. Bom, Picasso do cara que pagar a fortuna exigida pra encarar uma bosta dessas.
Ainda Gabriela
por Luiz Pedro
Não lhe trarei verbos puros. A imperatividade está longe de nos levar aos lugares que as insondáveis profundezas do nosso inconsciente desejam avidamente. A objetividade vigora pela prisão das correntes escravistas da inaptidão ao novo. O mundo desperto nos restringe aos psicotrópicos para transcender o abandono das concretudes corpóreas. Por isso, trago verbos aliados das imagens, companheiros das transfigurações, cúmplices das divagações, supridos de tangencialidade e circunstancialidade em sofreguidão.
Novidade não há, visto que os mais capacitados escrivães da elevação mundana já o fazem há tanto quanto fincamos nossa existência nas terras do além-mar. Nas mais altas aspirações pela busca de uma morada, encontrei Pasárgada, onde Rei bebe em nosso bar, contando vantagens das enamoradas . Ou em Macondo, onde Remédios, a bela, destronava as mais altas hierarquias do coração com sua frieza desalentadora, que congelava a ponta dos dedos, os dedos, logo a mão inteira, avançada pelo braço e, por fim, arrebatava-lhe por inteiro, com a inescapável força das ressacas trazidas pelo sudoeste das paixões contrafeitas.
Não, em nenhuma dimensão plausível na mais moderna física, em nenhum mundo tão distante que a luz do sol não tenha alcançado, em nenhum sentimento esquecido nas fronteiras do incompreensível. Em nada será possível descrever as múltiplas cores desfraldadas pela tua simples presença. Alguns outros tentaram e tentarão. Tereza, da terceira vez, não mais se via, além dos céus se misturando com a terra. Luiza, que por seus cabelos revelava os sete mil amores guardados apenas para si. Cecília, cujo nome não tinha ao seu alcance nem as mais sutis melodias. E por todas as outras que ainda sublimariam as vidas de homens destinados as desgraças do desamor.
Por nenhuma delas eu teria a certeza de que palavras são palavras. Por mais que eu lhe traga verbos impuros, em nada servirão os pormenores da minha fala. “Na tua presença, palavras são brutas”.
Bom dia por quê?
Detesto gente muito feliz.
Me irritam profundamente aquelas pessoas que parecem transbordar felicidade todos os minutos de todos os dias, desde sempre. Logo que tenho o desprazer de achar-me com um desses tipos, sinto uma incontrolável vontade de fugir imediatamente, e discretamente investigo as saídas de emergência mais próximas – aí incluída qualquer pessoa que esteja oportunamente por perto e da qual eu possa me valer a partir do levantamento de algum assunto aleatório.
Exemplares dessa agonizante situação não são raros. Chegam a você parecendo meros seres humanos razoavelmente bem-humorados, que estão passando por excelente momento, e você, simpático e acolhedor, imagina serem pessoas de ótima convivência. Até o instante em que você percebe que a fase de extrema felicidade simplesmente não tem fim.
Aí, não tem mais jeito: ature-o ou deixe-o. Cada encontro se transforma em um fantástico evento, com risadas ilimitadas e abraços acalorados e empolgação para um evento qualquer e extremo contentamento por qualquer simples fato, enquanto que, para você, cada segundo é sofrível eternidade, ao ponto de sentir enorme aflição e implorar pela exposição de um problema, uma reclamação, ou apenas um olhar um pouco mais preocupado. Não significa desejar mal aos outros, longe disso, significa buscar algum sinal de vida humana dentro daquele protótipo de personagem de comédia romântica. Também não é sinal, e logo tranquilizo o leitor, de rabugem, pessimismo ou tendências suicidas – ou assassinas, apesar dos sinais de incontrolável repúdio.
O que torna insuportáveis pessoas assim são duas coisas: o exagero e a ilusão. Afinal, convenhamos, na vida real ninguém consegue ser tão radiante durante tanto tempo. É justamente isso que nos faz razoavelmente toleráveis e, em conseqüência, evita um número ainda maior de conflitos ainda mais trágicos do que os já existentes.
O mundo de verdade é repleto de surpresas, sobressaltos, obstáculos, desilusões, palavrões em último volume, vontades repentinas de pular pela janela; aquele que não vive isso – ou para isso fecha os olhos -, não vive: existe. Finge viver.
Contigo
Espero que o presente não piore.
Vou tratar de saber-te e cuidar-me;
Farei com que a minh’alma desarme
Os espinhos do passado, a priori.
Se a tristeza já não causa-me alarme,
Quero mesmo que tua vida melhore.
Peço até para morrer nesse folclore
Cujo medo de perder-te é teu charme.
Junto a ti, poesia não é escrita!
Meu amor me inebria e sempre irrita
Os olhos dos que nutrem mero ódio.
Que a vontade de ter-te seja aquela
Da ansiedade d’uma boa novela
Onde chora-se ao último episódio.
No mesmo lugar
Não quero dizer
que não vale a pena arriscar.
Só não quero mais insistir
em ser insistente.
Não quero perder
tudo que lutei pra ganhar.
Apostando no teu olhar novamente.
E esperar
por quem não quer vir pra mim.
Levantar e cair para sempre.
Rodando
e permanecendo no mesmo lugar.
***
Gravei essa música com uns amigos em casa. Entre eles, Wellington Rodrigues e Octávio Augusto.
Sei que ninguém vai pedir, mas caso alguém queira, só deixar o e-mail.
FREEDOM (ou adaptação de “Demorei muito pra te encontrar”)
Demorei muito pra me libertar
Agora eu quero só viver!
Sem repressão, sem medo de ser!
O importante é ser feliz!
Como demorei para enxergar
Que a pessoa mais importante sou eu!
É o meu corpo, minha mente, meu ser!
Ninguém tem que me prender!
Ser o que sou sem medo de ser.
Reprimida por você!
Não entendia porquê sentia assim.
Liberdade existe, sim!
Nem venha me amarrar
Porque nunca mais vou suportar.
Me anular e me desrespeitar.
Essa Paula não dá mais.
Sem economia de emoção.
Sem medo do prazer.
Vou abrir o meu coração
Pra todos que quiserem ver.
Não quero rótulos,
Não quero leis.
A minha lei é ser feliz!
Então nem venha me reprimir
Que dessa vez não vou permitir!
Demorou para a coragem vir
Mas agora ela vai ficar!
Não vou ignorar os meus pensamentos,
Meus desejos,
Meus pressentimentos…
Uma nova pessoa ressurgindo
Após do inferno sair.
Não tenho que me justificar
Não sou robô
Nem sou você!
Viena
Eu havia acabado de chegar. A aula já tinha começado há alguns minutos e na sala restaram apenas os lugares mais distantes do quadro. De longe, pouco enxergava. Com sono, pouco me concentrava. Cansado, pouco entendia. Enfim, era um péssimo dia para ir à aula. Mas lá estava eu, não sei o porquê. Pensei que não precisava estar ali naquele momento.
- Então, para calcularmos a compatibilidade do sistema, devemos verificar a sua nulidade do conjunto de equações através do posto da matriz dos coeficientes e o seu número de incógnitas…
Incógnita era a minha presença na aula. Pensei que poderia estar tranqüilo correndo na praia, ouvindo música, jogando uma altinha e bebendo mate com dois dedos de limão. Depois de matar a sede correria em direção ao mar e…
- O conjunto solução obtido pela eliminação Gaussiana forma uma base vetorial com n graus de liberdade…
Liberdade, eu precisava muito disso. Apesar de ninguém estar me segurando, me sentia preso dentro da sala de aula. Precisava sair de lá, da sala, da faculdade, da cidade, do país! Esquecer tudo e virar hippie em algum país afora. Iria me dedicar à música e viver de gorjetas obtidas tocando violão no metrô de Nova Iorque. Ou me apresentar como músico especializado em Bossa Nova e tocar em cervejarias em Viena. Ou então…
- Através da obtenção dos autovalores do operador linear, será possível identificar os possíveis autovetores que formarão uma base da matriz diagonal que será utilizada nas demais transformações lineares.
Nesse momento me levantei. Não havia nem 15 minutos que eu estava fisicamente na aula, mas decidi ir embora. Arrumei minhas coisas e guardei tudo na mochila, me levantei e fui. O professor, ao me ver passar, parou a aula, olhou para mim e disse:
-Você mal chegou e já vai embora? Assim não vou poder te dar presença
- Professor, não me leve a mal, mas agora eu estou indo à praia. Quem sabe, se eu tiver sorte, semana que vem estarei em alguma cervejaria em Viena. Caso não nos vejamos mais, seja feliz com as matrizes.
Um Passo à Frente (Sessão Música Parte 4 – e última)
Um Passo à Frente
Se a gente não se cuida
Quem irá cuidar da gente?
Se os costumes não mudam
Porque é que a gente mente?
A vida com a faca na mão
Sem coração ela segue
Pedindo perdão estou entregue
Sem sonhos, cuidados e desejos,
Eu nem penso mais nos seus beijos
E mesmo sem ver, sem saber,
Eu te tenho à luz pra acender
Ao topo do mundo, na filosofia dos burros,
Quem te deu moral pra fugir?
Desfilas com pose elegante, modelo,
Morre tentando quebrar o gelo
Assim implacável, chora na escuridão,
Entregado ao amor de um qualquer
Às pressas você me corrompe sem medo
Mas nunca serei igual antes
O justo fim de dois fiéis amantes
Só me diga a desventura que foi viver
Sem rumo, sem motivos pra querer,
A cada fim, um espaço.
Viva a luz da apelação emocional
Salve a saúde mental do erro irracional
Num mísero passo.
Sobre Escrever
por Luiz Pedro
“Bufo & Spallanzani”, um livro do Rubem Fonseca, tem um personagem que ridiculariza o protagonista – um escritor – questionando o talento e o suor necessários para exercer sua profissão, até o momento em que se propõe a fazê-lo, encarando os obstáculos existentes para a construção de um texto interessante. E constata o óbvio: é bem difícil.
Escrever é um bocado de renúncia. Alguém já falou isso antes, mas não me lembro quem. Na verdade, falava que amar era renunciar. Será? Algo assim. Quando se ama, dizem que deixamos de ser plenamente ativos, não mais somos senhores de nossas vidas, doamos nossa existência para o domínio do ser amado, ficamos dependentes. Quando se escreve, abre-se mão da realização do desejo. Se você encontra uma linda mulher e ela te inspira compor lindos versos, você não vai querer conhecê-la, saber seus sonhos, suas manias. Há um limite.
Mas o nome é interessante saber. A menos que ela se chame Josiclécia. Lembro-me da minha reação quando tomei conhecimento do nome de uma musa. Gabriela. Todas as palavras refletiam o seu nome, suas sete letras eram únicas no alfabeto. Era o arco-íris das letras. As outras eram apenas derivações, misturas, combinações. Somente aquelas sete tinham a realeza hierárquica inabalável de seu sangue azul para comandar uma plebe infinita de palavras. Gabriela.
Mas só o nome, sem sobrenome. A humanização da musa não funciona. Deusas não foram feitas para caminhar entre os mortais. Elas deslizam na ponta dos pés, no mínimo um palmo acima do chão, acima de qualquer irracionalidade mundana.
Não se enganem quando o escritor vai atrás de sua musa para conquistá-la. Quem está indo cortejá-la é o Homem, não o Escritor. O Escritor é um castrado, deleita-se apenas com o desejo. Mas, geralmente, o Homem impõe sua vontade, sua virilidade, instinto, e corre atrás, transformando o que era Musa em Mulher, deixando o Escritor resignado, sem inspiração. Essa é a verdadeira castração do escritor, perder sua ânsia por escrever, secar sua pena. A castração sexual do Escritor é necessária, senão seria paradoxal à sua existência.
É, o diagnóstico não é dos melhores.
Novamente, o interstício
Assisto imóvel a sua partida, que de tão certa e irremediável parece irreal. Mergulho nas lembranças que permanecem vivas em minha mente e revivo os olhares carregados de sentimento, as palavras desajeitadas à procura de sentido, os delicados toques repletos de malícia.
Recordo também os inúmeros obstáculos e as incertezas sempre atordoantes, que vez ou outra ou por algumas vezes desaguaram em inflexíveis discussões, após as quais percebia de maneira ainda mais determinante a intensidade do sentimento que nos unia. Reflito: retiraria qualquer das palavras proferidas, submetida ao risco de, ao final, arrepender-me de omitir emoções?
Afasto-me dessas memórias – o momento não é apropriado a reerguer discórdias. Sinto novamente a explosão de felicidade comum aos instantes mais simplórios, ao notar que, de tudo, permanece avassalador o que nos trouxe até aqui. Me pergunto, à essa altura, se algum dos minutos de que desfrutamos poderia ter sido melhor aproveitado. Não há dúvidas de que sim, desde que presentes diversos fatores que à época eram desconhecidos. Qualquer mínima alteração, no entanto, impediria que nos tornássemos o que hoje somos, com as impressões que atualmente temos e as lições que acumulamos.
Chegou a hora de mostrar maturidade, segurança e independência. Sinto sangrar-me o coração e o cair de uma lágrima inaugural, enquanto vejo que se vai, em travessia pelo oceano.
E inicio nova espera.
Marcha Fúnebre
Não agüento mais ir à praia e ver a orla tomada por pessoas vestidas de branco e munidas de cartazes desfilando suas almas penosas. “Justiça! Justiça! Justiça!”. Ok, também concordo que deve haver. Trago na pele, inclusive, tinta que se alia a isso. Mas, convenhamos, que transitar com os olhos embargados de cimento e lágrima não é e nunca será a melhor forma de extirpar a violência.
Como dizia meu antigo professor de Geografia, segundo ele, parafraseando Jack, o Estripador: vamos por partes. Por que, em nome de Deus, as autoridades de segurança trabalhariam com mais afinco após uma manifestação contra a morte de uma criança? Essas pessoas que os passeantes julgam como corruptívies não chorariam nem se fosse com os filhos delas, então, não há razão aparente para apelar pro emocional das mesmas. Em 7 de fevereiro de 2007, morre o menino João Hélio, vítima da barbárie à qual já fomos apresentados. Nesses dois anos e meio, o número de mortes por bala perdida, latrocínio etc diminuiu drasticamente ou, pelo menos, reduziu? Uma coisa é a classe dos siderúrgicos ir protestar por aumento salarial. E, no fim, quase sempre conseguem o objetivo da ação. Afinal, quando mexe com dinheiro, fodeu. Aí, o buraco é lá no topo. Mas quando fazem passeata para reivindicar justiça sobre uma vida que se foi, o peso do apelo é nulo. Corriqueiro adágio é pensar que a união faz a força. No caso exposto, apenas gera ilusão. Uma frase batida, mas que conclui-se desoladamente, é a que o dinheiro tá valendo, literalmente, mais que a vida.
As manifestações são muito úteis para embolar o trânsito na cidade.
Das Hierodulas
Os letreiros vermelhos de neon que piscavam desordenadamente podiam ser convidativos, mas me lembraram os escritos narrados por Dante na sua Divina Comédia.
“Deixai toda esperança, ó vós que entrais!”
Estava lá, não porque queria, mas porque me faltava coragem. Entrar já não era mais mera opção, nem força do acaso. Era obra do embalo. A decisão em conjunto tomada, por mim calada, por mim consentida, por mim omitida.
Dentro, eu não teria mais escolha.
No Inferno, a música que guiava a minha passagem não vinha da lira de Orfeu e tampouco acalmava o Cérbero. Apenas o instigava.
Só vivendo o inferno para se saber que o mesmo não é marcado por terríveis castigos ou por eternas dores. Se para os cristãos o Inferno é a ausência de Deus, meu inferno era a ausência de mim mesmo.
Quem havia me roubado de mim?
Se a imagem mítica do inferno é representada pelo horror, meu inferno era repleto de uma beleza suja e prazerosa, uma beleza epicúrea. Os demônios não castigavam, mas cantavam odes ao prazer. Convidativos vendiam um amor barato e descartável.
Um amor vencido.
Eu, taciturno, novamente calei, consenti, omiti.
Embriagado e sonolento por uma coragem artificial, pelo canto das sereias do mar de solidão.
Eu vivi a eternidade e vos garanto: Não valeu a pena.
Tal como Orfeu, só me resta agora tomar o caminho de volta. Sem ter uma Eurídice, sem olhar para trás.
Vida a um
Sou só eu
Minha caneta
A folha
E minha mente.
Nós todos somos um.
A solidão.
Que não é meu cigarro
Mas é meu ar.
Por vezes, rarefeito,
Se o coração acelera,
Se as mãos suam
Ou o corpo se arrepia.
Então encontro seu ar.
E fazemos de nossa solidão particular
Um encontro
De corpos e almas.
E suor
E desejo
E mãos
E saliva
E boca
E pescoço
E gozo.
E, por um momento, esqueço que estou só.
Nasci só.
Vivo só.
E morrerei só.
Mas enquanto esse ciclo não se finda
Vago pelas ruas
À procura de uma outra
Solitária alma.
E só.

Invasão
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
Levantei da cama assustado. Estava ouvindo um forte barulho no vidro do quarto. Cheguei a pensar que crianças estavam tentando estilhaçar a janela do meu quarto jogando pedras, mas logo me dei conta de que isso era quase impossível, pois moro no oitavo andar. Mal humorado, me levantei para verificar o que era tal barulho na janela. Para minha surpresa, era um pássaro. Eu não fazia a menor idéia do que ele estava fazendo do lado de fora da minha janela, pendurado na grade. Tampouco por que estava bicando o vidro da janela intermitentemente. Pensei que ele poderia estar com fome. Não tenho linhaça em casa, mas tenho algumas frutas. Busquei um pedaço de maçã que estava na geladeira e fui dar para o pássaro. Quando eu abri a janela, ele voou. Acho que assustei o pássaro. Guardei a maçã e voltei a dormir.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
Pus a mão na cabeça e me protegi! Com certeza era bala perdida. Tentei me proteger com o travesseiro da guerra entre traficantes e policiais que acabava com a minha tranqüilidade. Aos poucos, fui reconhecendo o barulho e pensei: será novamente o pássaro? Abri a cortina e lá estava ele, de novo, por algum motivo bicando a janela do meu quarto. Ao cogitar abrir a janela, ele bateu as asas e se foi. Era a segunda manhã seguida que isso acontecia. Eu já estava ficando com raiva do MALDITO PÁSSARO FILHO DA PUTA que perturbou o meu sono. Precisava fazer alguma coisa.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
“TOC, TOC, TOC, TOC…”.
A essa altura, eu não me incomodava mais. Tentei assustar o pássaro, prendê-lo em uma gaiola, envenená-lo, mas nada funcionou. Então, passei a dormir nestes últimos meses na sala. Maldito pássaro filho da puta.
Te Espero (Sessão Música Parte 3)
Te Espero
Esse é o começo de uma nova sensação
Talvez você não queira ter tamanha emoção
Se tranque no seu quarto se esconda no porão
É a hora que o rei não escapa do peão
Te espero em meia hora lá fora
Pra gente resolver
Espero que você seja sincera
Da mesma forma que eu vou ser
Se você mentir pelo menos seja justa
Não queira ser feliz a minha custa
E seja humilde pra reconhecer
Que nossas brigas faziam bem pra você
Se hoje parto sem certeza de voltar
É porque farto já estou de te amar
O mundo me apresenta coisas novas
Que são provas pra adiante te mostrar
Te espero em um segundo
Mas no fundo não torço por você
A sua partida só de ida
Me fez entender
Que uma frase mal dita
É um grito de apuros
Cobrando as dívidas
Que o amor deixou com juros
A máquina de fazer silêncio quebrou nosso pacto
Causando impacto
Ficando a mágoa
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa
Brotando do cacto sem água
Brotando do amor essa mágoa
Brotando do cacto sem água
Acacinado
por Luiz Pedro
Conversando com uma amiga, lembrávamos momentos marcantes de namoros. Contava-me das noites que passava conversando com um ex. A dedo, ele fazia desenhos imaginários nas costas dela, que, por sua vez, tentava adivinhar que figura estaria se formando em sua pele. Pensei em qual momento eu havia guardado com todo esse carinho dos amantes intermináveis, mas nem precisei me alongar muito. É uma lembrança que me ataca constantemente, deixando a pontinha de nostalgia melancólica dos desencontrados amorosos.
Aos 15 anos, tive minha primeira namorada, Marina. A distância era um sufoco. Ela, em Vista Alegre. Eu, no Cosme Velho. Marcávamos de nos encontrar no metrô, na área de embarque da estação de Vicente de Carvalho. Morrendo de saudade e meio perfeccionista, eu era pontual, por vezes chegava até uns 15 minutos mais cedo do horário previsto, e ficava aguardando. Ela era meio atrapalhada e, consequentemente, sempre atrasada, de 15 a 60 minutos. Aguardava encostando-me à parede da área de embarque, sentado no chão. Em duas ocasiões, um funcionário do metrô veio me perguntar se estava tudo bem. Estranhei aquela intervenção e ele me confidenciou que eu estava com um semblante muito abatido, e que algumas pessoas se jogavam na linha do metrô. Não, não, estava abatido, mas não tanto!
Esses minutos de espera se alongavam ruidosamente nas minhas bufadas de impaciência. Cada perna que surgia descendo a escada eu imaginava ser as pernas dela, o que obviamente provocava grandes decepções .
Por fim, ela aparecia, olhava-me com aqueles olhos de quem sabe que fez besteirinha. Entretanto, da mesma forma, transparecia tanto carinho e paixão que aquela angústia desaparecia imediatamente. Parada ao final da escada, inclinava a cabeça e sorria satisfeita. Eu caminhava na sua direção, onde ela juntava às mãos a frente do corpo e embolava os pés, uma menina que aguarda o iminente perdão. Vinha andando na minha direção, fazendo careta, como que desinteressada, enquanto meu peito se enchia de uma forma que transbordava em sorrisos. Por fim, ela notava que aquela minha “raiva” era puro enfeite e acelerava os passos em minha direção, e eu também me apressava em atravessar cada metro em busca do ar que se contaminava da felicidade mais divina já apresentada aos que amam. Aquele ar que tomava meus pulmões com um arrebatamento digno dos romances escritos na mais ardorosa febre amorosa. Abraçava-a com força, os dias distantes tinham que ser compensados naquele único abraço, naquele segundo, naquele breve momento de sentir-me entorpecido, sem saber se estava por viver ou morrer. Mas, caso realmente estivesse deixando nosso mundo, não me incomodaria.
Encaminhado ao mais alto degrau do paraíso, sabendo-me justiçado por dores e desprazeres, eternamente morreria no abraço de Marina.
Utópicas efemeridades
Dos acontecimentos daquela tarde, pouco ainda consigo lembrar. Não importa, na verdade: o que fez valer o dia aconteceu quando estávamos apenas os dois, longe de qualquer pessoa conhecida, e quando a tarde já cedia lugar ao anoitecer.
Procurávamos oportunidades para ficarmos juntos. Para tanto, se pudéssemos, relegávamos a segundo plano compromissos previamente acertados, ou ao menos tentávamos abandoná-los o mais cedo possível, em busca de tempo dedicado exclusivamente a nós. Foi a solução que se apresentou naquele domingo.
Saímos sem nos despedir, para evitar comentários e especulações. O que faríamos e para onde iríamos interessava somente a nós, e a mais ninguém. Rapidamente entramos no carro e partimos, sem rumo – e sem qualquer vontade de fixar algum. Queríamos exatamente aquilo, nada além: um instante especialmente nosso.
E o tivemos. Seduziu-nos o fim da tarde; encostamos em um lugar qualquer da orla e imediatamente retiramos os sapatos, para sentir fixando em nossos pés os gelados grãos de areia. Desabamos sobre o imenso carpete natural que formavam, nos sentando de forma que seus braços envolviam quase todo o meu corpo, e eu apaguei de minha mente tudo o que havia à nossa volta. Lembro que nada, ou muito pouco, falamos.
Sucumbimos à hipnótica força do pôr-do-sol, que nos tornava meros figurantes de um espetáculo de cores sem igual. Por alguns minutos senti apenas seus braços, que me envolviam e afastavam do mundo que nos esperava quando aquele instante tivesse fim; sua descansada respiração, na contramão dos acelerados batimentos de seu coração; o vento frio da noite que estreava; os grãos gelados de areia em nossos pés.
Ali permanecemos, por um curto período de tempo, que mais pareceu uma eternidade, pela força com que se manifestaram nossos sentimentos e impressões. E era justamente essa intensidade, presente em cada segundo de nossos mais ligeiros encontros, que, como que por mágica, compensava o abandono de todos os compromissos, pessoas e obrigações da vida real, completamente ignoradas para que ficássemos juntos.
Elizabeth
Ah, minha querida e amável senhora!
Por que sobes tão depressa, hein?!
Estou atordoado. ‘Vem’, vó, ‘vem’!
‘Vem’ que pra ti a morte não tem hora!
Deixe isso pra lá! Pare de demora!
Todos podem esperar, exceto quem
Te ama, te sente e te quer bem
Como eu, a mãe e a prole agora!
O céu há de receber-te, é certeza.
A chama que levou-te, já não acesa,
Escondeu o amor que não se repete:
Amor de neto que sempre existiu,
Amor da cria que, há pouco, viu
Deixares a Terra, oh, Elizabeth!
Obs: soneto dedicado à minha avó, falecida no dia 3 de agosto de 2007, num incêndio causado por seu cigarro dentro de sua própria casa. Escrevi este soneto algumas horas após ocorrido, depois de arrombar a porta e tentar salvá-la – vê-la inconsciente no chão – e desmaiar no corredor a metros de seu corpo. Bombeiros me tiraram com vida. Fui o único a sair vivo do apartamento onde, hoje, moro.
As três feridas narcísicas
Três grandes acontecimentos marcaram o ego humano de tal forma que foram considerados as três feridas narcísicas da humanidade.
O primeiro grande golpe veio com Copérnico, quando o mesmo afirmou não sermos o centro do Universo. Éramos meros coadjuvantes que brincavam no carrossel do Sol.
Se não estávamos no papel principal da peça universal, nos restava ainda gozar da condição de filhos de Deus. Mas Darwin, ao descobrir o evolucionismo, nos legou a condição de mero produto do acaso. Não somos seres especialmente criados, mas apenas resultado da evolução natural dos seres.
A despeito disso tudo, quisemos reivindicar, como última esperança, a racionalidade exclusiva da nossa espécie. E então, Freud nos deu o derradeiro golpe que nos faz sangrar até hoje. Não somos sequer senhores de nós mesmos. A consciência é a menor parcela de nossa vida psíquica.
Tal qual o homem, a nossa vida – de modo individual – a cada momento sofre feridas que abalam a nossa estrutura e nos fazem repensar o que somos e o que queremos a cada instante.
Lembro-me que a primeira ferida narcísica que sofri foi aos 7 anos. Quando pequeno, pensava ser o meu pai o homem mais alto do mundo. Por ele e por meio de sua altura aspirava às coisas do alto. Foi quando conheci outro maior do que ele…
Restava ainda a condição de super-herói inerente a todo pai. Foi quando aos 13, vi meu pai chorar pela primeira vez. O homem inatingível também sentia medo, também sentida dor, também chorava. O super-herói tinha lá as suas fraquezas.
Depois de feito homem, nada mais poderia me abalar, pensei. Foi aí que me bateu à porta a morte. Nada e nem nínguém é eterno. Mesmo as pessoas mais queridas têm prazo definido de estada na Terra. Eis a ferida que sangra até hoje. Eis a ferida que nunca vai cicatrizar.
E você? Quais as suas feridas?
Uma acumulação de pequenos grandes momentos

Não há, no mundo, momento mais importante do que esse, agora.
Passou.
Viver no futuro e esquecer o momento.
Perde-se, não volta mais.
E perdeu foi vida.
Porque a vida tá aqui,
Em todo, e, especialmente, cada momento transpirando emoções.
Emoções únicas.
Cada momento é único.
Carpe Diem não é coisa dos vadios.
É privilégio dos sábios.
De um ser vivo, consciente da efemeridade de sua existência.
Que procura absorver dela os momentos.
Assim, vive,
E não, somente, existe!
Brincando
Pedrinho mal podia acreditar. Ele ganhou de presente de aniversário de seu tio mais velho um cachorro. Não era um simples cachorro, mas um cachorro adestrado, desses que disputa competições. Só pelo nome, ele já se mostrava imponente: Sagaz.
Sagaz tem inúmeros prêmios em modalidades que ninguém fazia idéia do que fosse, mas os troféus acompanhavam o canino no embrulho do presente. Os cuidados com o cachorro eram de primeiro mundo, tal como a sua ração, importada do Canadá.
Os olhos de Pedrinho brilhavam, mal podia esperar para brincar com o cão. Correu até o quarto, buscou uma bolinha de tênis velha dentro do armário e foi para a rua brincar com cachorro. Conduzindo-o pela coleira, Pedrinho não conseguia esconder a ansiedade para ir brincar com o seu novo presente na praça perto de casa. Já havia contado aos amigos a novidade.
Ao chegar à praça, soltou o Sagaz, pegou a bolinha de tênis no bolso e a arremessou o mais longe possível, quase a perdendo de vista. Em seguida, disse:
- Pega Sagaz!
O cachorro sequer se moveu para ver o que Pedrinho havia arremessado. Pedrinho não entendeu o que havia dado de errado. Foi buscar a bolinha. Enquanto isso, pensava no que poderia ter dado de errado. Concluiu que ele deveria ter mostrado a bolinha de tênis ao cachorro. Assim, ao retornar chamou o cachorro e disse:
- Aqui, Sagaz, olha a bolinha, olha! Agora pega, Sagaz!
Outro longo arremesso, dessa vez na direção do campo aberto, para que o Sagaz pudesse observar onde a bolinha cairia. Ao menos, o cachorro acompanhou a trajetória da bolinha. Após ela cair no chão, ficou olhando para a cara do Pedrinho. E Pedrinho? Bem, mais uma vez, foi buscar a bolinha. Enquanto analisava o que havia dado errado, pensou que talvez devesse colocar a bola perto do focinho do cachorro para que ele pudesse cheirá-la. Aí, então, o cachorro reconheceria o percurso pelo rastro do cheiro da bolinha e a buscaria. Assim, não deu outra:
- Sagaz, cheira a bolinha, cheira! Isso amigão! Agora, pega!!!
Dessa vez, até o Pedrinho perdeu de vista o arremesso. Sagaz, então, se moveu. Estava de pé, passou a ficar deitado no chão. Pedrinho ficou irritado. Decidiu ir para casa, já que o cachorro não queria brincar. Enquanto pegava a coleira, Sagaz correu desesperadamente. Minutos depois, retornava ele, para o alívio de Pedrinho que disse:
- Vamos embora, agora, seu cachorro preguiçoso. Só quer ficar deitado aí no chão e quando é hora de ir embora, some. Na hora de buscar a bolinha, fica parado que nem uma estátua. Você não serve pra nada, mesmo…
Pedrinho pôs a coleira no Sagaz e foi para casa. Ao chegar em casa, soltou Sagaz e foi para o quarto. Curiosamente, encontrou a bolinha de tênis em cima de sua cama.
Que seja pra sempre (Sessão Música Parte 2)
Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Manuela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.
Que seja pra sempre
Essa noite eu sonhei com você
Pensei em tantas coisas
Tentei te agradar
Mas eu percebi que não saí do lugar
Eu espero que seja o melhor
Que nós sejamos felizes
Faremos disso um fato
Que isso não seja mais um drama barato
Pra te encontrar e te contar
O quanto foi difícil achar
Alguém que enfim pudesse amar
E desculpar meus erros que são seus também
Ria como no primeiro dia
Me mostre toda sua alegria
Ao ver que eu sou quem você queria
Faça da minha vida uma avenida pro céu
Me acompanhe nessa minha vida
Essa fase de artista
Se não for pra sempre dessa vez
Talvez eu desista
Mas te carregarei comigo
Como a melhor das lembranças
O nosso canto ao telefone
O nosso amor de criança
Agora quando eu voltar a sonhar
Tentarei dizer o que sinto
De repente não ficar mudo
Já que pra essa prova eu não sei como eu estudo
Ora menina, só tem você por aqui,
Então deixe-me te ver sorrir
Me encare com seus olhos perfeitos
Diga que eu sou suspeito para falar deles
Agora sim estamos fortalecidos
Diante do seu poder
Discussões nos manterão unidos
Você sempre sabe o que deve fazer
Pode contar sempre comigo
Deixa eu te olhar enquanto anda
Decida a hora de partir
Aqui você é quem manda
Entrega
por Luiz Pedro
Entrega
as juras cantadas,
os amores contados,
os beijos roubados.
Entrega
os tolos dissabores,
as estranhas cores,
as velhas dores.
Entrega
os sorrisos largados,
as lágrimas veladas,
os abraços derramados.
Eu sei, não volta mais,
já não passa de história,
acabou.
Mas, por favor, entrega.
Entrega
tudo aquilo que eu te dei,
tudo aquilo que você me deu,
tudo aquilo que eu sou.
Com o perdão da malfadada palavra
A falta de inspiração é um dos maiores problemas com o qual se depara um auto-intitulado escritor, amador ou profissional. Confesso que, na minha humilde condição de rabiscadora de palavras muitas vezes sem sentido, constantemente me acho certeiramente atingida por esse mal. Hoje, por exemplo.
Todo o silencioso ritual que culmina em um texto razoavelmente suportável, fruto de pequenas impressões ou sentimentos acumulados durante certo período, parece não ter gerado qualquer resultado produtivo que pudesse ocupar algum minuto do tempo daqueles que ainda não perceberam que, no fundo, nada mais faço do que inventar historinhas fantasiosas com generosas pitadas de desabafo.
Mas a falta de inspiração, e isso afirmo sem qualquer receio de estar equivocada, não significa necessariamente a ausência de algo sobre o que escrever. Pessoalmente, quase sempre deriva de uma overdose de sensações incongruentes, provocadoras de tamanha confusão a ponto de me impossibilitarem que as reduza a palavras, tão certas e definidas. É a situação em que me encontro. Creio estar poupando os leitores que ainda me restam de escritos muito mais desinteressantes do que essa infeliz confissão.
Garanto, no entanto, que a organização desse turbilhão de emoções que bloqueia uma escrita minimamente inteligível há de vir, e, aí sim, espero que seja capaz de produzir uma ou outra frase carregada de sentidos. Bem distante de um sincero e quase intragável mea culpa.
Centro do Universo
Se encaro a face tua e deposito
Mais esperança e ímpar cumplicidade,
Deveras, não espero atrocidade
Que cometes de modo só e esquisito.
Aguardo que, quando teus olhos fito,
Veja mais que teu amor: veja a verdade
Que é ofuscada pela tua maldade
Onde a dor de te amar é só o que grito.
Preferes ter co’outrem à lua etérea
A ter comigo a mais valsa venérea;
Queres cobrar sem conceder. Desista!
O que vale-me agora é o que almejo!
Sem volúpias, cego e neste ensejo,
A justiça há de vestir-te, Egoísta!
Amar, verbo transitivo
O cogumelo de fumaça, para alguns críticos, marca o fim de uma era de ideologias bem definidas e abre as cortinas para o início de um tempo sem verdades absolutas: a Pós-modernidade.
Um sociólogo polonês chamado Zygmunt Bauman define por líquidas as relações humanas da atualidade. Líquidas porque efêmeras. Ao tentarmos tocá-las se esvaem, escorrem como líquido nas mãos. O próprio amor, sentimento intocável e infalível da moral cristã, já tem seu prazo de validade.
Dura enquanto não dá defeito.
Dura enquanto durar a nossa paciência.
Dura enquanto não encontramos outro melhor.
Trocamos de amor, como trocamos de celular. E é óbvio que para alguns, a frequência com que se troca de amor é bem maior.
O próprio autor é exemplo vivo de liquidez e efemeridade nas relações. Enquanto digita o texto da Quinta-Feira Santa no celular, se apaixona por cada mulher bonita que entra no metrô, um amor a cada estação. Amores que duram por duas ou três estações. Eternos amores de um dia só.
- Que loira linda! [próxima estação: Maracanã]
Acabou o amor.
Canudos
Guerra feia
Guerra burra
Guerra estúpida.
Guerra quente
Guerra do ódio
Odiosa guerra.
Matar para viver
Viver para matar
Pra morrer.
Derramar seu sangue
Sangue de seu filho
Ou de seu amigo.
O que é isso? -1 vivo +1 morto -1 vivo +1 morto…
Deus há de salvar
Sua alma no céu.
E será que há salvação
Pra este monte de carne podre?!
Moinho de mortos.
Feridos
Fedidos
Fudidos
Quantos + poderão vir? +1, 10, 20, 30, 500, 500 mil? 3 milhões? Todos?
Fome
Sujeira
Suor e
Sede.
Abençoai minha alma
Porque meu corpo alcançou o limite.
Insensatez
Afaste-se da cabeça dos homens.
Estes, que arrancam-lhes as cabeças na vitória.
Ó glória
Ó mérito
Vencemos!
Matamos
E morremos
Cada vez que o estouro dispara.
Uma bala. Uma pessoa.
Uma desgraça. Uma família.
Perdoai-me, senhor, pela ingnorância e instinto animal que me possuíram.
E, para que lutávamos mesmo?!
Detalhe…
Para agora e na hora que vierem os mortos...
Amém!

Dedicação
Celso Gomes era um professor universitário muito bem conceituado. Com artigos publicados em revistas acadêmicas do país e do exterior, gozava de muito prestígio entre professores e alunos. Devido ao seu grande prestígio no meio acadêmico, as poucas vagas disponíveis para as suas aulas tornavam-se extremamente disputadas pelos alunos. Seus artigos eram referência obrigatória para qualquer publicação. Suas palavras eram sinônimas de sabedoria, interpretadas como uma verdade absoluta.
Era final período, os alunos precisavam realizar a última avaliação do curso. Muitos, então, se dedicaram ao máximo para realizar um bom trabalho, pois o enxergava como uma possível tese acompanhada de uma carta de recomendação para uma universidade estrangeira, além do prestígio pessoal de ter trabalhado junto ao professor Gomes. E eu era um deles.
Depois de pronto é que percebi o quanto aquele trabalho havia consumido muito do meu tempo. Meses de dedicação e leitura sobre o tema nas principais revistas do Brasil e do exterior. Realizei uma resenha de praticamente tudo o que já foi publicado antes. Depois, fiz inúmeros testes e simulações matemáticas nos computadores do laboratório de análises. Equações, fórmulas, hipóteses, teorias, conseqüências, resultados e, enfim, conclusões. Era um trabalho muito bem feito. Resumo e Abstract no início, índice de siglas, figuras e tabelas, bibliografia. Os gráficos eram renderizados, todos em 3D. Talvez fosse o melhor trabalho já realizado na minha vida. Cheguei a sentir orgulho de mim mesmo, pois acreditava que aquele trabalho poderia ser o meu passaporte para o doutorado no exterior! Afinal, tamanha dedicação deveria valer alguma coisa.
Enfim, chega então o tão aguardado dia da entrega dos trabalhos. Muitos alunos haviam aguardado ansiosamente por esse momento, principalmente eu! Alguns reliam os slides que logo iriam apresentar, outros se apressavam em corrigir alguns poucos detalhes da apresentação, mas ninguém ficava parado. Eu havia me preparado bem para a apresentação na noite anterior, pois costumo ficar nervoso e esquecer detalhes importantes em apresentação de trabalhos. Mas hoje, com certeza vou apresentar um grande trabalho.
Assim, às 10:00 da manhã, a secretária do professor aparece na sala de aula e nos passa o seguinte recado:
- Bom dia, alunos. O professor me ligou ontem de noite e me disse que iria antecipar as férias dele em uma semana para poder participar de um congresso na Europa no final do mês. Assim, estão todos automaticamente aprovados, não precisam entregar os trabalhos. Boas férias!
Paralela (Sessão Música Parte 1)
Paralela
Houve um tempo em que eu era muito feliz e namorava uma garota chamada Letícia, que eu chamava de Lela. Naquela época fiz esta música, que me rendeu bons frutos.
Paralela
As palavras entaladas atravessadas na goela
A verdade já de tarde tão covarde se esfarela
Se ela soubesse o meu nome como eu sei o nome dela
Um presente que não se toca como retas paralelas
Paralela Paralela Paralela Para:Lela
Não houve um só momento
Em que meu pensamento, afastou-se de ti…
Não houve um só dia
Em que eu não queria te fazer sorrir
Não houve um só segundo
Em que o mundo não parou pra te aplaudir
E eu sou o cara mais feliz do mundo
Desde quando te conheci
Foi bom saber que não fui só eu
Quem sentiu saudades
Mas eu não sou seu irmão
Eu quero mais que a sua amizade
Eu devo estar ficando maluco
Com o passar da idade
Mas quero que saiba que te amo mais
Que minha própria liberdade
É por isso que minha vida é paralela a sua
E se encontrar é cair em contradição
É por essas e outras que não ouço meu coração
É por acaso que não tenho qualquer oposição
Ambição ou coisa assim
Mas é pra guardar dentro de mim
Sua imagem tão bela
Paralela Paralela Paralela Para:Lela
Desamor
por Luiz Pedro
Aquilo que parecia o Inferno mostrou-se a mais fria das noites. Não, no Inferno as chamas não tremulam em bandeiras de tempestade. Sente-se apenas o gelo da solidão de quem morreu sem as lágrimas da amada, sem a saideira com os amigos, sem o desespero da mãe abandonada. Descobrir-se inapto ao amor é morrer sem deixar de respirar, puxando o ar cada vez mais forte, sentindo o diafragma comprimir todo nosso peito e machucando de vazio. Talvez uma facada no coração fosse menos dolorida que o desamor. Só que nem há mais batimentos cardíacos para pulsarem sangue nas lâminas de todas essas decepções cortantes e desentranhadoras. Minha fome, meu vigor, minha baixa desesperança, meu grande otimismo de idealista. Tudo desapareceu na utopia que se desfez nas primeiras badaladas do sino da estação, chamando para o trem dos predestinados. Já aceito que a vida é para alguns, e não me sinto mais derrotado, muito menos desprovido de privilégios. Nem todos são para vencer, poucos são os que ainda sobreviverão a todas as estações e irão desembarcar no destino agraciado de eras vindouras desses sonhos que não se perderam nos trilhos cruzados. A torrente é pesada, sem a pureza prometida pelas chuvas despretensiosas. Não me incomodo, encharco, misturo lágrimas às gotas que me caem sem compaixão e molho a ponta da língua na salmoura de pele que me restou. Já caminho sem compasso, já piso sem firmeza, não me importa o rumo que as linhas da minha palma indicam. Resignado, vou aos tropeços em busca de um chão duro e insensível as minhas feridas sem cura. Cuspo seco, ergo a cabeça por breves instantes, minha mente roda, perco o horizonte e fecho os olhos aos males que me açoitam, estalando as varetas que sequer ecoam na parede das ruas desguarnecidas. Ajoelho-me para as penitências restantes, mas o peso dos braços me faz desabar. Encolho, retraio as pernas para junto do corpo, reduzido a insignificância que sempre procurei. Não há mais o que fazer, não há para onde cair, não há mais para quem gritar. Minha voz rouca e débil balbucia uma oração infiel. Meu reino, assim na terra como no céu, será negado por tudo que deixei de santificar. A tentação nunca houve, mas não terei o perdão daqueles que ofendi, nem me livrarei do mal que tanto desejei. Ao Inferno, diga que aqui estou. Amém.

Saudade
Aperta.
Dói, bem no fundo da alma.
E como curar quando não há solução?
Nem ao menos um paliativo…
Dá-me ao menos outra dor!
Que seja mesmo física, em última hipótese…
Talvez distraio enquanto a assisto.
Esqueço o que é,
Como foi,
O que será doravante.
E, quando não mais recordar,
Então voltarei em segundo à realidade.
Sentirei o frio, o terror, vacilante.
Com as cores assim desbotadas,
De cada dia nada mais esperarei
Senão o retorno ao que sempre era.
De tudo, se impossível ao final,
Resta ainda a derradeira opção:
Seguir em frente, largar a espera.
Recomeçar, e ainda que incerta,
Abandonar o cultivo da dor:
Viver sem acreditar em ilusão.
E, quando menos imaginar,
Virá a tua face – de novo.
Oscilo, desconcerto, ressentida.
Mas, como posse tua perdida,
A ti me devolvo.
Soldado Temilton, o arboriglota – Histórias do quartel
Eu era do 3º pelotão, de um total de 4, cada um com 50 soldados e a comando de um tenente e dois sargentos auxiliares. O tenente do meu pelotão era o Barbosa. Tenente Barbosa contava com o auxílio do Sargento Alexandre e do Sargento Santiago. Como todo pelotão tem um soldado que se destaca por seus anormais modos e costumes, o meu não podia ficar fora de tal regra. Já lhes apresentei ao Soldado de Moura, não já? Pois bem. Meu grupamento fora premiado: além dessa raridade de militar, fomos contemplados com a existência do soldado 258. O fabuloso, o extraordinário, o excepcional Temilton!
***
Soldado Temilton, logo à primeira vista, destacou-se: na segunda semana de aquartelamento, quando ainda éramos recrutas, assistíamos a aulas que tratavam de assuntos militares. Aprendíamos hinos, tínhamos instrução armada, noções de primeiros-socorros etc. Um dia, durante uma instrução de Ordem Unida (onde aprendíamos e aperfeiçoávamos técnicas de apresentação militar e de comandos como marchar), o Sargento Santiago nos ensinava a forma correta de apresentação. Ao ouvir seu nome ser chamado pelo sargento, o recruta deveria levantar-se na posição de Sentido, prestar continência, e falar seu número, nome de guerra e pelotão, nesta ordem.
- Soldado 214, Tomé Félix, 3º pelotão!, respondeu, corretamente, o Tomé.
- Muito bom, soldado. Padrão, disse o Sgt. Santiago.
- Soldado 243, Ramon, 3º pelotão!
- Bom, Ramon. Muito bom, elogiou o comandante.
Eis que o sargento aponta para Temilton.
- Soldado Temilton, 258!, brada o soldado.
- O Sr. é surdo, Sr. Temilton? Hein?! É surdo?! Você não tá ouvindo seus companheiros, não, é? De novo!, irritou-se o Sargento Santiago e fez menção pra que Temilton se sentasse e se apresentasse novamente.
Temilton sentou-se e recordou de como seus companheiros tinham se apresentado outrora. Desesperado, levantou-se.
- Temilton, soldado do 3º pelotão, 243!
- O Sr. tá de sacanagem, seu bisonho? Seu nome agora é Ramon?, vociferou o Sargento.
- Não, Sr., gaguejou Temilton.
- Então, por que o Sr. tá se apresentando com o número dele?
- Não sei…, disse, sinceramente, o cabisbaixo soldado.
- Anda, seu monstro! De novo!
E Temilton voltou a sentar-se, aguardando, trêmulo, pelo novo momento. Passados alguns segundos de profunda respiração do Sargento, sua voz de comando fez-se grave aos ouvidos deTemilton, fazendo-o saltar do chão qual grilo.
- Hum…É…Soldado! Dito isso, Temilton sentou-se e pôs o rosto entre as pernas dobradas envoltas pelos braços junto ao peito.
Foi uma explosão de risos na sala de instrução.
- Temilton, vem cá!, disse o Sargento Santiago, querendo controlar a raiva, mas visivelmente falhando na tentativa.
Com os olhos marejados pela vergonha, o recruta obedeceu de pronto. O sargento, então, deixou o militar em evidência, de pé à frente de todo o terceiro pelotão, onde ele encarava a tropa como se fosse um capitão desarmado prestes a enfrentar um exército de lendários espartanos.
- Paes Leme, me diz: o quê que eu faço com essa raro?
- O senhor é quem decide, respondi.
- Alguém aqui é contra Deus?, indagou em voz alta o sargento. Não houve resposta.
- Porque eu acho que Ele não teve amor quando botou esse bisonho na Terra, não. Temilton, o Sr. sabe o que o Sr. vai fazer agora? Tá vendo aquela árvore lá no pátio, perto do infinito? Então. O Sr. vai lá se apresentar pra ela até ela falar que tá bom. Entendido, seu mocorongo?
- Sim, Sr. Sargento!, disse Temilton, aliviado por não ter de mergulhar na Baía de Guanabara fardado e bradando “Temilton não é nome de gente!”, como já tinha feita outras inúmeras vezes.
***
- Soldado 233, Sant’anna, 3º pelotão!
- Tá bom, Sr. Sant’anna, mas pode melhorar. Quero ver vibrando!
A instrução prosseguiu tranqüila por mais cerca de uma hora, a ponto de ninguém mais se dar conta da ausência do Temilton. Agora, entoávamos, em uníssono, a Canção da Infantaria:
- “És a nobre Infantaria
Das armas, a rainha!
Por ti, daria
A vida minha!
És a glória prometida
Nos campos de batalha!
Estar contigo!
Ante o inimigo!
Pelo fogo da metralha!
És a eterna majestade
Das linhas combatentes!
És a entidade
Dos mais valentes!
Quando o toque da vitória
Marcar nossa alegria,
Eu cantarei!
Eu gritarei!
És a nobre Infantaria!”
A porta se abriu no momento e que seguíamos para a segunda parte da canção.
- Permissão para entrar no recinto, Sargento?!
- Tem permissão, seu monstro. O que o Senhor tá fazendo aqui, Temilton?!
- Eu ouvi, respondeu o soldado.
- O quê, seu bisonho?
- A árvore respondeu.
Gargalhadas estrondosas deram lugar ao uníssono que outrora reinava na sala de instrução. Eu, por exemplo, me escorei na parede para não ir ao chão.
- Temilton, pelo amor de Deus, o que o Sr. disse?, respondeu, incrédulo, o Sargento Santiago.
- Ué, Sargento. O Sr. disse pra voltar só quando a árvore respondesse? Então.
- Calma aí. O Sr. tá me dizendo, Sr. Temilton, que a árvore falou com o Sr.?!
- Sim, respondeu o soldado 258.
- Então vamos lá embaixo agora que eu quero ouvir isso!
Descemos todos ao encalço do Sargento. Ao pé da tal árvore, nos posicionamos, ainda com deboche. Temilton pôs-se à frente e apresentou-se:
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
Perfeito. Mas o Sargento não deu-se por satisfeito:
- Tá, Soldado. Muito bom. Mas cadê a porra da voz da árvore?!
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!, repetiu Temilton, exemplarmente.
- Tá, Temilton. Tá! Eu quero ouvir a árvore!
Apenas eram escutadas as vozes do Temilton e do Sargento Santiago. Equanto aguardávamos uma resposta desconcertante do soldado, o silêncio era o palhaço preso na caixa de surpresa prestes a ser aberta.
- Soldado 258, Temilton, 3º pelotão!
- Fiu!, ouviu-se um assobio.
- Aí, não falei?! Viu? O Sr. viu?! A árvore respondeu!
- Ah, eu não acredito!, respondeu, irado, o Sargento Santiago.
- Nem eu, Sargento! Nem eu! A Natureza é mesmo maravilhosa! Cada um se comunica do seu jeito, né?! Deus é grande…, vislumbrou Temilton.
- Ô, seu monstro! Isso é o passarinho ali no galho! Pelo amor de Deus! Puta que pariu! Temilton, na boa, vai pra água, vai. Não tem almoço pro Sr. hoje, não.
Não é possível. O Sr. não existe. Pelo amor de Deus…, disse o Sargento com raiva e pêsame.
- Mas, é que… Eu vou ter de falar que Temilton não é nome de gente?!, perguntou o soldado.
- Não, seu raro. Quando o Sr. mergulhar, eu quero ouvir: “Eu sou o Temilton e falo com árvores!”. Entendido?
- Sim, Sr.
***
Após risadas compartilhadas entre nós, soldados, e o Sargento Santiago – no único momento onde ele permitiu essa relação -, o comandante disse em voz alta:
- Só falta ele voltar dizendo que flertou com a Pequena Sereia!
Festina Lente
Era pontual. Às 17h começou a se arrumar para um encontro que só aconteceria às 19h30. Nada podia dar errado. Passou sua calça e a blusa sistematicamente, tomou banho, fez a barba e às 18h30 estava pronto para sair de casa. O bar ficava a poucas quadras de onde morava. Também era indeciso e levou o tempo da descida do 7° andar até a porta do edifício para escolher como iria.
- Táxi, pensou.
Lhe pouparia lenço. Já bastava o suor da insegurança e da ansiedade.
Também era tímido. Ao longo do caminho rememorava frases prontas que lia em livros ou ouvia em filmes – a timidez, como toda maldição, provê bênçãos. Tinha uma inteligência e uma memória louvável. Só ele sabia o quanto havia sido difícil conseguir aquele encontro. Quase naufragou na sua própria timidez.
Às 19h00 chegou ao bar e a sua primeira atitude foi olhar o relógio. A pontualidade, apesar de uma qualidade, reside num grande defeito: a ansiedade.
Às 19h15 já imaginou um possível atraso e nas possíveis desculpas que ele mesmo dava para si.
- Um drink, por favor.
A bebida é como coragem líquida. Só ela é capaz de tornar o tímido num descontraído e sedutor, tal qual os personagens dos romances que lia e o oposto do Dom Quixote que era.
19h25 e a hora teima em demorar a passar.
19h30
- Até 19h35 não pode ser considerado atraso.
Cada minuto sozinho é eterno.
19h40
- Deve ter perdido o ônibus do horário.
19h50
- O ônibus quebrou.
20h00
-Todos os ônibus da cidade quebraram.
20h30
-Não vem mais.
O que ele havia feito de errado?
Hamlet observara a Horácio que existiam mais coisas entre o céu e a terra do que imagina a nossa vã filosofia. Nada mais importava, não queria saber motivos ou causas. Toda a sua timidez, sua pontualidade e sua insegurança naufragavam agora no fundo de um drink.
-Mais um, por favor. Hoje eu não tenho hora pra chegar.
No fundo da sua alma
Se eu me esforço um pouco, minha sensibilidade aguça e posso enxergar dentro de você, dele ou de qualquer um que passe pela minha vista. Olho no fundo dos seus olhos e vejo tudo o que está sentindo. Posso até arriscar o que está pensando.
Junto aos seus olhos, todo o conjunto te entrega: sua boca, suas expressões, suas rugas e seus gestos, a posição do seu corpo. Sua relação interior com o mundo exterior. 2 mundos. 2 diferentes mundos em constante convivência, muitas vezes, desarmônica.
No fundo da sua alma, eu posso ver uma bela menininha num belo dia de sol, alegre e saltitante, uma menina cheia de sonhos, cheia de amor e alegria, cheia de espontaneidade. Uma menina pura, inocente e inexperiente.
Seus olhos brilham como o sol daquela manhã. São tão esplêndidos e ternos quanto a luz que aquecia os corações gelados.
De repente, seu olhar cai, e vejo que aquela pequena menina cresceu, ela agora tem peito, bunda e um jeito de Lolita. Sinto a sensualidade no ar, sinto o cheiro de sexo transpirando em cada passo seu.
Ela só pensa NAQUILO. Também pudera! Seus hormônios estão à flor da pele, sua respiração constantemente ofegante, mal pode se conter. Vejo tua boca me chamar.
Mas quando fixo um pouco além meu olhar, parece que uma sombra me cobre por inteiro. Fico cega, sem sentidos e sem rumo. O que aconteceu? Quem fechou as cortinas? Não enxergo nada, tudo o que vejo é escuridão. Tudo o que sinto é solidão. Tudo o que vejo me apavora.
Também pudera. Só vejo nada. Meus olhos me iludiram, levaram minhas esperanças, meus sonhos, minhas alegrias, meu gozo. O que sobrou de mim?
Devolvam-me, olhos traíras, o que a mim pertence! Não pense em me negar. Não lubridie a minha inteligência. Os olhos a mim pertencem. Com eles faço o que bem entender!
Posso ver as rugas aumentando. Aquelas velhas rugas. Fruto da preocupação, do medo, do desespero, da infelicidade. Aquela bela menina virou uma velha rancorosa.
Não deixe que os seus olhos fechem de vez.
Amizades
Leblon, 9 da manhã. Era uma manhã de domingo. Ia andando buscar o meu jornal de domingo na banca mais próxima de casa. Chinelo, bermuda, camisa amassada. Carregava meio sem jeito um punhado de moedas que me serviriam para comprar o jornal de domingo e o cigarrinho da manhã. Enquanto caminhava, observava a paisagem. Ciclistas passando, pássaros cantando, crianças brincando, opa! Não acreditei no que estava vendo em um primeiro momento. Era um carro importado. Mas não era um simples carro, era uma autêntica máquina italiana! Aquele modelo sequer existia no país, sua venda era permitida apenas para colecionadores. Potência, design, conforto, tecnologia, enfim, era O Carro. Ele havia parado na minha frente. Eu aproveitei aquele momento curto para dedicar o primeiro trago do dia à minha admiração sobre aquela que seria uma das novas maravilhas do mundo contemporâneo. A combinação entre o metal da carroceria e a luz solar criava o espelho mais nítido que eu já havia visto. Podia ver meu rosto ainda sonolento no reflexo do vidro. Podia. Naquele momento o vidrou do carro foi abaixando e a minha imagem foi dando lugar a uma outra imagem divina no banco do carona. Ainda mais divina que a imagem do próprio veículo. Era uma mulher. Um espetáculo de mulher. Uma morena relativamente alta. Deveria ter 1,80 m. Seu cabelo era ondulado. A pele, morena. Seus seios não eram grandes, tampouco pequenos. Pareciam ser do tamanho ideal: do tamanho da palma da mão. O rosto era fino, de traços fortes. O nariz, pequeno, e os lábios, grandes. Os olhos verdes contrastavam com a pele morena. Enquanto vivia um sonho, uma voz serena, mas convicta, me alçava novamente à realidade:
- Com licença, senhor. Seguindo por essa rua eu chego à Barra da Tijuca, certo?
- Não, minha senhora. Por esse caminho vocês retornam à Lagoa.
- Então como fazemos? – ela perguntou novamente.
Aproveitei a ocasião para me aproximar dos enviados de Deus. Afinal, não poderia abusar da sorte, desastrado que sou. Então, me aproximei do veículo para passar as instruções corretas, quando olhei para o motorista. Ele olhou para mim e disse:
- Fábio?! Lembra de mim, o César Augusto?
- Perdão, senhor. Deve ser algum engano.
- Ah, então me desculpe. É que você é muito parecido com um amigo meu que estudou comigo.
- Ok, tudo bem. Não há problemas. Faça o seguinte. Seguindo por esse caminho mesmo vocês chegam na Barra.
- Mas esse caminho não era o da Lagoa?
- É sim, mas serve também.
- Ah, ok, amigo! Muito obrigado!
- De nada!
Naquela oportunidade, era a única coisa que eu poderia fazer. Os mandei para o lugar errado. Afinal, eu odeio o César Augusto.
No ponto
Deixo preparado, no ponto. Esqueço que deixei coordenadamente maquinado. Tenho um objetivo, olhar fixo, sigo adiante. Mal sei o que me espera, mas está tudo pronto e diversos motivos me impedem de modificar. A ansiedade por vezes me devora, sou engolido pelo caos, mas não ouso ameaçar a precisão da ocasião pela qual me envolvi e me deixei ser levado em intervalos periódicos, de razões inexplicáveis, entretanto sempre com um sentido intrínseco que me fez, em algum momento, supor a perfeita intuição da certeza. É a precisão, acho que já falei. Me falta, todavia deixo no ponto. Sei que não acerto, mas continuo tentando. Parece uma fábula de contraditórios aleatórios matizado pelo erro crasso de estarmos sempre corrigindo o que já estava no ponto. Eu não me atrevo. Somente mudo de idéia, quando sei que estou migrando para o lado perfeito do raciocínio, do contrário fico no erro que imaginei primeiro. Como se tivesse uma quota implícita para acertar, duas e olhe lá. Tudo graças à pressão da necessidade de termos uma questão resolvida, ainda que sem o menor preparo para decidirmos acerca do que parece ser a correta decisão. E não é correto renegar esta pressão, afinal quem se contenta com uma série de erros alheios ou próprios? Até onde eu saiba, a exatidão é unidade de medida, moeda de troca, determinante de capacidade, dentre outras riquezas. Aonde eu estarei quando minha precisão disparar, eu não sei, mas, pelo sim pelo não, eu já deixei no ponto.
Angra
por Luiz Pedro
Angra
Dos Reis, das rainhas!
Peixe-espada, cação, tainha.
Casas curvadas, pés em fila no meio-fio de cal.
Sombra de amendoeira, cama de areia.
Pique-esconde, futebol de lata.
Banho de mangueira, manga-espada.
Teto alto, maré baixa.
Não me deixe, Angra!
Traga-me verdes sacudidos, olhos ardidos, sonhos vividos.
Pescaria de siri, perna ralada, sueca até de madrugada.
Banho de mar com luar, caranguejo no jantar.
Canto de cigarra se alongando no vazio.
Calor de estio, infância sem frio.
Ah, chuvas de verão!
Ainda sinto aqueles pingos caindo em meu rosto nas tardes de domingo.
Se não for pedir muito, só quero fazer um pedido:
Por favor, enterrem meu coração em Angra.

Ruína em prosa
Tentei escrever um poema.
Sujeito às regras da erudita língua portuguesa, vitrine de rítmicos verbos e luxuosa estrutura, rascunhei repetidamente palavras de profundo significado em sua essência, visando conferir melodia às construções melancólicas que rabiscava em crescente frustração.
Forrado por inúmeros bolos de papel amassado, o chão do pequeno quarto servia de único suporte ao peso de toda a decepção contida em cada um dos ensaios fracassados. As costas já me doíam, o sono investia em minhas pálpebras, a vista começava a apelar por descanso, e eu tentava escrever um poema.
Era madrugada e apenas alguns carros contaminavam a paisagem em que eu buscava refugiar a mente, esperando por um clique de inspiração, a partir da concentração no que havia além dos limites da janela. O espaçado e quase imperceptível barulho que faziam os veículos, entretanto, se unia aos gigantes ruídos produzidos pelos menores movimentos, que seriam facilmente ignorados em qualquer outro horário. Eu, inserida naquele mar de fracassos, insistia na ideia de escrever um poema.
A impaciência aos poucos superava a obsessão, e não tardou a desistência. Não bastava o esforço ou a vontade, nada se refletia nas finas folhas do bloco de papel, tendo bastado os imprestáveis ensaios até ali concretizados, adicionais frustrações à enorme coleção.
Assim desisti de escrever um poema.
És
Um amor,
Uma vida,
Uma mulher,
Uma ferida,
Uma perfeição,
Uma superação,
Uma alegria,
Uma energia,
Uma loucura,
Uma gostosura,
Uma fé,
Minha futura mulher,
Uma doença,
Uma crença,
Uma beldade,
Morro de saudade,
Uma fonte,
Minha fonte.
Meu eu,
Meu seu,
Seu meu,
Nosso nosso!
Seu nome
Sinapse do Amor

(Ao som da cachoeira, nenhum outro referencial)
Meu amor é puro e inteiro
Sem truques ou destreza
Ele corre pelo meu sangue
Bombeado do coração
Para todo o corpo
E por isso,
Tudo em mim
Reflete você
Meus órgãos
Meus sentidos
Meus movimentos
Cada sinapse
É feita de você
Para você
Porque não há outro caminho
É o destino da minha existência.
Escolha
Era manhã de uma terça-feira. O barulho que vinha da janela já indicava uma terça-feira bastante chuvosa. O celular tocava mais alto, já pela terceira vez. O despertador fazia a mesa vibrar. Logo a sua música favorita se tornaria na mais desagradável de todo o dia. Enquanto decidia se estenderia ou não a soneca por mais dez minutos, avaliava se valia a pena chegar muito atrasado, ao invés de apenas atrasado. Mas naquela ocasião, não valia. Olhou rapidamente para a janela, que confirmava com a fraca claridade que o dia realmente havia começado. Ao se levantar, ouviu:
- Amor, aonde você vai?
- Tenho que ir.
- Você não pode ficar mais um pouquinho? – ela perguntou enquanto acariciava as suas mãos.
- Hoje não, querida. Infelizmente…
- Ah, amor… queria que você ficasse mais tempo aqui…
- Eu também queria ficar mais tempo, mas infelizmente hoje não dá. Tenho uma reunião marcada com a diretoria, tenho que apresentar o relatório mensal.
- OK, amor… mas quando você voltar, você vai me pagar em dobro.
- Pode ter certeza, minha linda.
Ele se arrumou, mas dessa vez não teve os cuidados habituais. Logo desceu do prédio. Não foi de carro, tomou um taxi. O destino era o aeroporto. Lá encontraria Helena, sua amante. O destino era Natal-RN. Três dias em “reunião”. Depois voltaria para casa e encontraria sua mulher, conforme o plano. Porém, dessa vez, ela não estava mais lá. Havia apenas um recado na cama. Ela fez a sua escolha.
Amor para ninguém
Certos sentimentos nos pegam desprevinidos. É o que acontece com o que por esses dias tomou conta da minha cabeça. Sentimento bom. Não tenho dúvidas, é amor. Não há sentimento melhor que este, amor correspondido. Complexamente retribuído, e ascendente. Não há nada que eu possa comentar sobre este estado de espírito que alguém já não tenha dito anteriormente e com brilhantismo inenarrável. Pelo menos o Chico Buarque jamais deixou passar em branco a variação de humor perante uma situação tão peculiar. E aí pensariam, “está namorando”. Prevendo este indissociável falta de idiossincrasia, já se faz presente o manifesto do “NÃO”. Sonoro não. O amor nem sempre é por alguém, nem por algo concreto e definido. Em certos momentos da nossa passagem pela Terra, podemos notar que o amor pode ser por ninguém. Parece, de fato, uma loucura pensar que um sentimento majoritariamente retribuível possa ser exercido solitariamente. Mas pode. Vejam que incrível. Trata-se de uma paixão de tamanha grandeza, que pode ser para algo que não seja direcionável, nem mensurável, e muito menos explicável. Não há como entender, somente sentir. É o que eu sinto no momento. Sinto que amo, mas amo ninguém. De repente Freud me explicasse, se fosse meu amigo.
Sobre a despedida
por Luiz Pedro
Rubem Braga, em uma das suas memoráveis crônicas, “Despedida”, escreveu que talvez fosse melhor não haver despedida na partida. “Esqueçamos as pequenas coisas mortificantes; o silêncio torna tudo menos penoso.”
A despedida é o último alento. Uma utópica possibilidade de eternizar o abraço derradeiro. Sabemos que aquela pessoa não mais estará em nossa vida – definitivamente, ou, espera-se, temporariamente – mas temos a esperança de que o adeus seja a senha para cristalizar o presente, impedindo que um passado remendado por lembranças desbotadas tome lugar.
A última troca de risos, a última gentileza, última conversa despretensiosa. Ao menos é a última. A despedida traz a consciência imediata da perda e entendemos a irrecorrível necessidade de aprender a se consolar com a solidão. Fugir do adeus é enganar-se de que nada tenha acontecido. Nossa saudade não existirá, pois não houve despedida, ninguém se foi. “Eles não se despediram, a vida é que os despediu, cada um para seu lado — sem glória nem humilhação.”
Em outro trecho, Rubem Braga aceita que a lembrança torna a solidão ainda maior, porém menos triste. Não imagino despedidas felizes. Uma vez eu escutei ou li em algum lugar que a festa de casamento – após a cerimônia, todos bêbados e dançantes – era o jeito de esconder uma despedida. Muita alegria, música alta e álcool para não pensar no nosso “eu” que deixamos para trás. Tanto o casado quanto os amigos estão se despedindo do solteiro irresponsável e farrista de outrora. E funciona. Nós postergamos a solidão e a ficha cairá outro dia, “como um canto de cigarra perdido numa tarde de domingo.”
No final, o que fica é a lembrança. Com ou sem despedida. Devemos nos ater a isso, pois não perdemos nada, a partida não levou todos os momentos vividos. E não devemos esquecer a importância das recordações diante de um doloroso desencontro. Cada lembrança que despertar sem aviso trará uma pontada de sofrimento, mas também trará um leve sorriso e o conforto de saber que todos os pormenores valeram à pena.
Ultraje a Bilac
Como quisesse livre ser, deixando as paragens natais, partiu: caminho livre à frente. Velhas lembranças, persistentes problemas, incômoda vida; tudo esquecido à medida em que as paisagens marginais deixavam de ser familiares e, pouco a pouco, eram substituídas por novo cenário. Era hora de seguir adiante.
Estranhas pessoas, gigantes desafios e a vastidão de um mundo diferente pelo qual percorreu e no qual viveu, tão intensamente como nunca antes havia. A renovação dos votos do compromisso com a vontade de seguir tornou aprazível o que antes destruía, transformou angústia em tranquilidade e revirou o desgosto pelo hoje e o desalento do amanhã. Mas hoje, em falta do aconchego da mesmice, chora lembrando o antes vivido.
E logo, o olhar volvendo compungido, pede que volte o lar abandonado à inquietude que lhe consome, e que agora lhe faz desejar o calor da sóbria tranquilidade ao longe. Pelo que respira, pensa e vive, desde que a saudade é presente.
Assim por largo tempo andei perdido: felicidade desmesurada a volta ao mesmo, na ânsia do recomeço do velho – cálido, confortável e agasalhador.
Soneto à Transformação
N’alma ingrata que geraste em véu ligeiro,
Sou mais solto, mais sangrento, e balbucio
Umas preces, minha dama, e em terno cio
Sou capaz de deflagrar-te: sou faceiro.
De algum modo, se me pego por inteiro
Foragido a perecer, já renuncio
A este cargo de domínio, e num cicio
Auxílio teu conclamo ao travesseiro.
Pelas vidas várias que me forneceste,
Serei sempre grato a ti, Rainha, e neste
Carrossel de amor quero sempre estar!
Dando voltas nas curvas do teu destino
Onde há um ano renasceu o menino
Que se afoga e vive no teu peito-mar!
Obs: soneto dedicado a um ano de união à minha namorada.
Compreensão
Quem ama – ama
Ama muito sem pensar
Quem ama se doa
Quem ama se dá
Quem ama aceita
Renuncia e ama
Quem ama solta
Permite entrar
E não há um mundo
Que seja capaz
De tirar um amor
Quando este está
Para aquele que ama
A porta é aberta
É ferida na certa
E alívio no ar
Quem ama não pede
Apenas entende
Aquilo que tem, cada um dá.
Reflexões na calada da noite.
E essa angústia que me corta a garganta há de me consumir até que saia vomitada na cara de quem quer que seja. Um nó por tudo que não foi dito, por tudo sonhado que não foi realizado, por tudo que não passou de uma ilusão ou por tudo que ainda está para ser.
O rock expurga tudo aquilo em mim que fica retido, raivosamente retido nesse cotidiano de falsas morais, aparências e hipocrisia. O rock é o meu eu – autêntico, o meu eu – destemido, o meu eu – ousado.
Se feliz ou triste, sei que assim sou, e insisto em viver nessa tragicomédia chamada `livro da vida`, que tantas vezes me dói, mas muitas outras me arranca sorrisos das mais escandalosas óperas.
Rebelde de nascença. Não tente segurar uma alma livre, a rebeldia está no sangue e não na cara. Não se engane, meu caro. As aparências enganam. Muitas vezes é preciso chocar para ser ouvido, para ser visto, para ser COMPREENDIDO. Abra os olhos. O ser humano necessita de aprovação, de compreensão, necessita ser visto. Veja.
E se escrevo é porque necessito mostrar em palavras o que pulsa no peito, o que não me é concedido dizer em voz. Culpa da timidez. Culpa do medo. Culpa minha, só minha. E para reverter minha culpa, rabisco folhas e folhas em branco, até que não sobre um só espaço sem um risco de sentimento.
Minha liberdade é meu bem mais precioso, é ela quem me diz o que fazer com meu corpo, que me permite tudo, que me faz ser eu. Se encurralada a sinto, sou como um pássaro que teve suas asas cortadas. É preciso voar por aí. Jogue-se.
Em corpo de mulher, essas teclas que por anos tocaram a sinfonia da minha vida. Inevitável. Impossível não amá-las, não tê – las como parte de meu corpo. A mulher que tocada suave e firmemente se transforma num belo movimento de tantas sinfonias…
Deixe-me aqui só, quieta no meu canto. Hoje não quero falar. Nua, linda, sendo eu, numa tempestade de beleza e tristeza.
Toda aberta para ti. De corpo e alma, e coração na mão. Da minha maior abertura, nasce meu maior medo. Danço nua para ser livre. Que meus pés alcancem o infinito do céu. Um beijo na perna para provar que era ela.
Essa louca trança de sentimentos e amor. São tantas as melodias que inspiram a minha alma. Da minha boca sai a música que colore os meus passos. Misturam-se cores, amor, notas e viagens. Toque aquela música que beija o meu corpo, mas me deixe livre pra voar, preciso de cores, som e ar.
Meu estado natural de ser… Meu eu-interior; meu eu-lírico; meu eu-sátiro; meu eu-alter ego. Loucura? Loucura é aceitar a ‘normalidade’; loucura é viver sem aventura; loucura é ser previsível; loucura é não usar o coração; loucura é aceitar o ‘estado natural das coisas’; loucura é não se indignar ao ver uma criança na rua; loucura é cooptar com a pobreza, com a miséria, com a maldade, com a doença; loucura é ver o errado e nada fazer; loucura é não ter ambição em melhorar; loucura é viver no tédio; loucura é viver sozinho; loucura é não se amar, é não amar ao próximo; loucura é não ter caráter; loucura é praticar a corrupção cotidianamente; loucura é jogar lixo na rua; loucura é molestar crianças; loucura é maltratar idosos; loucura é se achar no direito de restringir a liberdade de outro ser humano; loucura é a cadeia brasileira; loucura é encher a cara e atropelar pedestre; loucura é poluir o meio-ambiente; loucura é ser infeliz. Isso pra mim é loucura… O resto é escolha, é seu, é único, e por isso, belo.
Ciclos
- Então, eu acho que é isso. Acabou.
Era o fim de um relacionamento de 8 anos. As lágrimas no rosto traduziam a tristeza daquele momento. Afinal, eles foram muito felizes durante muito tempo. Festas, jantares, viagens, sorrisos, risadas, abraços, beijos, nada mais ocorria. A novidade foi trocada pela rotina e os elogios pela educação. O desejo não era mais vontade. A excitação virou sonho e o sonho acabou.
Porém, apesar de tanto tempo, eles ainda eram jovens. Havia caminhos diferentes para uma nova vida. Novas atividades, novas amizades, novas paixões. A vida continuaria enquanto a triste lembrança seria aos poucos substituída por outras novas, mas não menos interessantes. Novas fotos substituiam aquelas do porta-retrato. Logo, já havia um novo álbum de fotos montado. Tudo era novo. Exceto os desejos. Esses sim, ainda eram antigos.
As novas piadas não tinham tanta graça. As piadas sem graça não tinham graça nenhuma. As fotos eram formais. Os sorrisos não eram espontâneos. Os beijos, sem sincronia. O abraço não encaixava com o corpo. Os corpos não se encaixavam. A vida não era a mesma. Eles eram felizes, mas não sabiam.
- Vamos voltar?
- E se não der certo? Talvez essa não seja a melhor saída para nós.
- Vamos tentar de novo.
- Já tentamos de novo, inúmeras vezes… e cada vez que voltamos, terminamos mais tristes.
- Mas ainda estamos tristes.
- É porque ainda não acabou.
Agora acabou. Era o fim.
Língua solta
Não fazia nem idéia de como seria ruim saber daquele segredo. Infelizmente, não são todos os assuntos do mundo que você pode se comprometer a mantê-los em absoluto sigilo. O problema é que geralmente nos comprometemos a ficarmos de bico calado antes de saber do que se trata a fofoca, e daquela vez não foi diferente. Matheus não gostava de segredinhos, pois não aturava olhares enviesados para sua pessoa, caso vazassem informações. Pois é. José foi traído. Aquele amor de pessoa que era sua mulher, acima de qualquer suspeita Quem diria? Ficou sabendo por acaso, mesmo, até desconfiou de carocha na hora. Logo em seguida veio a intimidação: “Se falares, te mato”! Fulminante. Matheus tinha uma informação valiosa em seu poder, sem saber como me aproveitá-la, e o pior, se deixasse escapulir por descuido estava arruinada sua confiança entre a turma. O declarante foi convicto no que dissera, não titubeou e nem deixou margem para outras interpretações. Era aquilo mesmo. A mulher de José que, outrora, lhe jurara amores eternos, agora era promíscua. O fura-olho não era desconhecido, era da galera também, e com a cara mais lavada possível sequer pronunciava-se acerca do casal. Não que o instigasse contar abertamente os problemas conjugais de cada um, expondo ao ridículo publicamente alguém conhecido e bem-quisto. Na verdade, o que lhe preocupava era o fato de ser espontâneo e suas opiniões saírem como água, sem um filtro, uma censura. Batata, não deu outra. Reunião de conhecidos na mesa do bar, cerveja aqui, caipirinha acolá e saiu, na lata. Melhor solteiro do que CORNO. Todos ao redor sabiam, mas simularam uma cara de surpresa que quase o convenceu do espanto coletivo. O que é a amizade pós-moderna. Fascinante. O escroto mais uma vez foi Matheus, mesmo não querendo saber, mesmo não se aproveitando da história, e mesmo sendo o cara que por bem ou por mal expôs o problema ao real prejudicado. Mas há quem prefira a tese de que “o que os olhos não veem, o coração não sente”.
Desencontro
por Luiz Pedro
Deixa pra lá.
Não quis dizer isso,
não quis sentir aquilo.
Perdi o tempo certo,
me atrapalhei com as palavras,
blefei quando não tinha nada,
percebi quando já era óbvio.
Já não havia mais do que tirar,
não havia mais onde procurar,
não havia mais pelo o que lutar.
Parece até que era outra língua,
que nossos sinais não batiam,
que nossos olhares se perdiam,
que seu telefone tinha mudado,
que nossos horários foram trocados,
que nossos medos eram os mesmos.
Parece até que…
não era pra ser.
Revolução
Eu levava uma vidinha bastante normal, sem muita emoção e definitivamente sem qualquer adrenalina, e gostava disso. Diversamente do que muitas pessoas sentem, não me fazia falta o surgimento de alguém surpreendente ou de um momento revolucionário: minha rotina me bastava. Me tranquilizava descansar minha cabeça no travesseiro ao final do dia com a certeza do que aconteceria no dia seguinte. Até aquela noite.
Olhava para o relógio e me preparava para despedir-me do amigo que comemorava seu aniversário, afinal, àquela hora eu já havia atingido meu objetivo de comparecer à comemoração e parabenizar o rapaz. Meus planos eram os mesmos de sempre; eu desceria até a rua principal e pegaria um táxi até minha casa, onde, após tomar um banho bem quente e mergulhar em meu pijama de flanela, desfrutaria de mais uma noite de sono profundo.
Direcionei meu corpo por entre as pequenas aglomerações de pessoas, buscando o rapaz orgulhoso de si – vai entender essa felicidade toda apenas pelo fato de ter dado mais um passo no caminho até a velhice… -, mas o resumido espaço do local impedia uma movimentação ágil. Como não aguentava mais ficar naquele lugar, comecei a me utilizar da má-educação e parei de pedir licença e de andar educadamente; naquele cenário, as pessoas não percebiam a diferença entre um empurrão mais forte e um mero tapinha no ombro. Quando já estava desistindo e pensando se valeria mais a pena continuar o pequeno e tortuoso trajeto ou voltar ao ponto de partida para simplesmente ir para casa, todos os meus planos para aquela noite foram embora. Eu o vi pela primeira vez.
Confesso que nenhum de nós dois estava sóbrio o suficiente para responder de forma plena por suas atitudes, muito menos por seus pensamentos, nos instantes que sucederam. Minhas impressões desse momento, alerto, estão contaminadas pelo efeito do álcool misturado àquele sentimento novo que todos, menos eu, gostavam de sentir. Olhei para aquele homem e tive vontade de esquecer onde estávamos e que fazíamos, mais ainda quem estava ao nosso redor, e até ele chegar da maneira mais rápida, para acabar de vez com aquela ansiedade à qual eu não estava nem um pouco habituada.
Ele chegou até mim primeiro, quando duvido ter conseguido elaborar uma frase inteligível para a banal pergunta que me havia feito:
- Tudo bem? Você está sozinha?
Não consigo me lembrar da íntegra do diálogo e nem mesmo de alguma parte significativa dele, apenas me recordo de como cada porção do meu corpo tremia em ritmos diferentes e descompassados e de como eu tentava disfarçar esse nervosismo, receosa de que parecesse uma menina adolescente no lance precedente ao seu primeiro beijo. Acho que não consegui, e suspeito que isso tenha conferido a ele a segurança necessária a que fizesse a proposta de me deixar em casa, depois de uma conversa em que soubemos apenas os principais dados da vida um do outro: solteiros, bem-empregados, inteligentes e grandes amigos do aniversariante do dia.
Eu, pela primeira vez em muitos anos, simplesmente não pensei. Sabendo que ali quebrava toda a programação rotineira que tanto me agradava todos os dias, sucumbi ao desconhecido sentimento que surgia e deixei que ele me conduzisse até minha casa. Deixei também, mais tarde, que aquele olhar penetrante que me fulminava desde o segundo em que o avistei me convencesse a propor que ele subisse.
Não houve constrangimento algum. Parecia que nos conhecíamos há anos e sabíamos exatamente o que deveríamos fazer, mas, ao mesmo tempo, não sabíamos o que esperar. Optei por parar de pensar mais uma vez. E dormi, naquela noite, certa de que a partir daquele dia abandonaria toda a minha até então segura rotina.
Nota zero pra mim – Desventuras no Alasca
Eu contava 16 anos e ela, no mínimo, 60. Tudo começou em uma fila de supermercado no Alasca. Não, não se trata de uma intensa e linda história de amor. Estou falando de um crime. Vou explicar, mas tenha calma: é uma história um tanto quanto triste (pra mim) e hilária (pra você).
Estava eu no Wal-Mart da Child’s Road com meus humildes dez dólares pra comprar o mais novo cd do Ja Rule. À seção de cd’s, procurei pelo tal disco até achá-lo na última prateleira, a mais próxima do chão. Para alcançá-lo, tive que inclinar-me à frente e, infelizmente, deixar à mostra minhas partes posteriores carnudas e globosas (é, leitor, tive que deixar a bunda pro alto mesmo). Meu maior desejo no momento era tirar logo aquele cd dali, mas ele tinha, para a minha infelicidade, emperrado nas armações de ferro da prateleira. Minha agonia só aumentava. Eu voltava a ficar de pé e depois me inclinava de novo para tentar pegar aquilo que, em breve, me pertenceria. Alternava para, obviamente, não passar mais tempo em posição tão constragedora, próxima àquela que, segundo boatos, Napoleão perdeu a guerra. Minhas tentativas, que se repetiram periodicamente quatro vezes, foram frustradas. Quase desistindo e pedindo ajuda a um funcionário da loja, resolvi tentar mais uma vez: inclinei o tronco à frente e expus, mais uma vez, meu ‘popozão’. Dessa vez, demorei mais tempo, porque acreditei que, determinado do jeito que eu estava, o Ja Rule não tardaria a estar sob meu poder. Foi quando, para o meu total desespero, vi se aproximar de mim um ser do sexo masculino (não digo homem porque tenho lá minhas dúvidas quanto à opção sexual daquela pessoa). Entrei em pânico: não poderia abandonar minha busca àquela altura do campeonato quando eu já tinha tirado praticamente todo o cd da prateleira e erguer-me eretamente para encarar aquele ser nos olhos com o olhar mais másculo que eu seria capaz de produzir. Resolvi, então, apressar-me na missão antes que aquele que eu pré-julguei como homossexual se aproximasse de mim e viesse a…! Prefiro não dizer. Já me sinto invadido (física e mentalmente) só de pensar em pensar tão impuras coisas. Bom, o que aconteceu foi o seguinte: o cara parou atrás de mim num ponto cego meu onde eu não conseguia ver seu rosto, ou seja, não sabia para onde ele estava olhando. Eu vi, alucinadamente e em câmera lenta, a mão dele adejar o ar e aproximar-se do meu patrimônio traseiro. Que susto! Suas falanges passaram direto, mostrando-me, com o indicador, uma outra cópia do cd que se encontrava em local de bem mais fácil acesso do que esse que me submetera a essa napoleônica posição. Agradeci, peguei o disco na prateleira sugerida por aquele que usava uma camisa com a gravura de um arco-íris e fui para a fila pagar pelo tão almejado objeto.
A fila não estava muito grande. No máximo, 4 pessoas na minha frente. Estava tudo tranqüilo, se excluirmos o fato de uma senhora na minha frente olhar, de minuto em minuto, pra minha cara e, quando percebia que eu a encarava de volta, tornava a virar-se pra frente num susto. Ela fez isso algumas vezes e eu, obviamente, estranhava, mas não falava nada: ainda estava atordoado diante do risco que corri minutos antes na prateleira. A idosa devia ter uns 60 anos e usava um pano na cabeça, uma saia longa, sapatos de gafieira e uma blusa de seda larga e estampada. A certo momento, não me contive: ela olhou pra minha cara e eu disse, em alto e bom inglês: “que foi?”. Sim, pareci grosseiro, mas aqueles olhares cheios de rugas já estavam fazendo com que meus nervos dessem nós. “Nada, não”, respondeu ela. “É que você se parece muito com meu filho, mas ele morreu já faz tempo…”, e, com o semblante triste, abaixou a cabeça. Senti todo o peso do mundo nas minhas costas por ter falado de forma tão mal educada com aquela pobre senhora. Minha vontade era de que ela pudesse me bater pra eu criar vergonha na cara. Ela prosseguiu: “será que quando eu for embora, você pode falar ‘tchau, mãe’ pra mim?”. Eu, capaz de tudo pra me redimir com ela naquele momento, disse que sim com o sorriso mais afetado que eu pude mostrar. A mulher tinha o aspecto de uma santa, era imaculada ao meu ver. Tão frágil, pequena e velha, que agradá-la seria algo prazeroso. Pelo que percebi, ela era uma senhora solitária que não tinha felicidade há anos. Felicitá-la seria muito gratificante. Pois bem. Nota zero pra minha ingenuidade. A coroa passou pelo caixa, pôs suas compras nas mãos, virou pra trás e acenou. Eu disse: “tchau, mãe”, e ela, com sincero sorriso na face, acenou com fervor. Me senti puro, alvo. Andei pra frente, cumprimentei o moço do caixa e ofereci-lhe o cd. “É dez dólares, né?”. “Não, oitenta.” E, com um olhar de completa incompreensão na face, interroguei-o: “oitenta?”. E ele, para a completa destruição da minha alma e intelecto, respondeu: “é. sua mãe disse que você ia pagar pelas compras dela”. “Tá maluco? Ela não é a minha mãe, não! Peraí!”. Disse isso a plenos pulmões e saí correndo em direção à senhora que, há 5 segundos, acabava de passar pela porta da saída. Foi então que o fato ainda mais extraordinário aconteceu: não satisfeita em me aplicar esse golpe, a velha corria pra cacete! Eu estava a uma distância de uns dez metros, inicialmente. Quando cheguei à porta do estabelecimento, correndo muito – e olha que não sou nem um pouco lento -, ela já tinha ampliado a vantagem para algo em torno de quarenta metros! Corri, corri, corri atrás daquela coroa maldita… e ela só se distanciava. Eu ia correndo e pensando num jeito daquela, desculpe o termo, filha-da-puta correr mais do que eu. Eis que ela entra no carro e leva consigo muito mais do que meu dinheiro: ela levou minha ‘carioquice’. Como eu, carioca da gema, saio do Rio de Janeiro e vou tomar um golpe aplicado por uma velha no Alasca? Cabisbaixo, segui andando em direção ao Wal-Mart. Àquela hora, percebi que o alarme do supermercado estava soando, pois o cd ainda estava na minha mão. Eu estava no meio do estacionamento. Pensei: “eu não posso voltar. Não tenho dinheiro pra pagar por isso”. Pelo menos meu objetivo já estava cumprido, uma vez que o Ja Rule já estava comigo. Dei meia-volta e apressei-me a correr antes que os seguranças do local viessem procurar pelo crioulo baderneiro que estava roubando a loja e querendo bater numa pobre, indefesa e branca senhora.
Caminhando, minutos depois, revivi meus momentos no Wal-Mart: o perrengue pra tirar o cd da prateleira; o semi-assédio sexual daquele ser; o inacreditável golpe da velhinha. Desolado, concluí: “tô no Alasca, tô (a)lascado!”
Ela e o gigante
Ninguém sabia o quanto era grande
Ninguém suspeitava
Ninguém suspeitou
Até o dia que aquele gigante
Aquele gigante do sonho acordou
Ela pequena e aquele gigante
Ela gigante ela chorou
Ninguém suspeitava que era tão grande
Ela e o gigante
O gigante que amou
E o amor era lindo… todo de cor
Colorido de tela com cheiro e sabor
Ela pintava todo o gigante
Que triste ganhava e dava sua dor
A dor do gigante, o gigante de dor
Que ela pequena no peito guardou
E amor colorido que era tão grande
Hoje são telas que ela deixou.
Ensaiando a cegueira da alma
Todos os dias ensaiamos a nossa cegueira.
A cada vez que um clarão toma conta da vista e não vemos.
Não vemos a pobreza, a miséria, não vemos a fome, o abandono e nem a doença.
E, quando na escuridão, nos damos conta de que, agora, o olfato começa a falhar.
Não sentimos mais nada.
Não sentimos o fedor da tristeza, não sentimos dó, nem sequer sentimos a poeira que entra por nossos pulmões.
E como é de se esperar numa falência múltipla, começamos a perder, agora, a audição.
E não mais ouvimos os gritos de desespero, os choros infantis não mais chegam aos ouvidos.
Agora, abafados, tampados, surdos.
Não mais o gosto amargo da morte afeta nosso paladar, porque ele, como os outros sentidos, não existe mais.
Não sentimos o gosto de sangue na boca.
Comemos frutas estragadas porque tanto faz.
Não vemos o estrago, não sentimos o gosto ruim e nem sentimos a textura podre, porque o tato não mais nos pertence.
Tocamos na ferida e nada sentimos, então, continuamos a empurrá-la até que se estourem todas as bolhas de sangue.
Mas pouco nos importa, não vemos o sofredor, muito menos escutamos seus gritos de agonia.
Nada mais nos toca.
Nada mais toca nossa alma, que perdeu todos os sentidos.
Perdeu sua forma.
Perdeu-se no inferno astral.
E lá ficou presa.
Para sempre.
Protegida pelos muros que ela mesma construiu.
Intocáveis.
Informação
Ana Carolina Strauss-Kahn é uma médica bem-sucedida. Dona de uma das principais clínicas médicas da cidade do Rio de Janeiro, ela tem o perfil da mulher moderna. Pós-graduada em Berkeley, é a principal referência em seu meio profissional. Vive sempre bem informada e se recusa a depender de ajuda de qualquer pessoa para qualquer tarefa. Ana Carolina queria mostrar que poderia superar qualquer pessoa em suas tarefas, principalmente os homens.
Assim, decidiu levar por conta-própria o seu carro no mecânico. O carro possuía apenas duas semanas de uso. Ainda com cheiro de novo, o banco do carro tinha o saco plástico que o protege o estofado. Ela havia percebido um barulho estranho no interior do veículo que começou a incomodá-la desde o final da tarde de sábado, quando voltava de uma viagem rápida de Búzios. Então, ela decidiu procurar um mecânico para verificar o problema.
Sem ajuda de ninguém, apenas com algumas poucas referências do Google, levou o carro ao mecânico mais próximo de seu trabalho na hora do almoço. A oficina mecânica se situava na Tijuca, a poucos minutos da Praça da Bandeira. Após alguns sinais de trânsito, ela encontrou a rua que procurava sem dificuldades. Bastava agora achar a oficina. Esse era o problema. Oficinas, ela contou ao menos uma dúzia, todas enfileiradas uma ao lado da outra. Após conferir o número da oficina correta em seu BlackBerry, ela estacionou o carro ao lado da sua referência.
Ao abrir a porta, estranha o comportamento das pessoas ao redor. Todos olhavam paralisados para ela. Afinal, por aquelas bandas não se via carro como aquele. E nem mulheres como aquela. A conjugação dos dois foi um choque para a rua toda.
O mecânico da oficina, atento ao fato se apresenta:
- Boa tarde, senhora. Posso Ajudá-la?
- Boa tarde, senhor. Meu carro está com um barulho estranho no motor, mas não sei bem do que é, gostaria que você tentasse descobrir o que é esse barulho.
O mecânico mal ouve o barulho e logo diz:
- Olha minha senhora. Com esse barulho, vou ter que mandar fazer uma revisão em toda a suspensão, e dar uma olhada também nos pivôs que sustentam a roda, pois se eles quebrarem a roda sai. Aí, minha senhora, é um perigo…
Ela se assusta de início. Não imaginava que um carro novo já tivesse tantos problemas. Mas, logo veio a desconfiança. Achava que estavam passando a perna nela. Então, ela pergunta:
- E quanto você acha que vai sair isso?
- Olha, minha senhora… eu ainda não sei, pois também vou ter que dar uma esticada nas correias, passar parafina na vela e verificar o rolamento do alternador. Depois vou limpar o motor com descarbonizador e, se precisar, trocar o óleo. Vou dar uma regulagem nas válvulas e verificar os freios. Deixa eu pegar a calculadora para fazer as contas, mas não deve ser menos de 3 mil reais.
Após ouvir o valor, ela achou que poderia estar sendo enganada. Estava praticamente decidida a sair dali e procurar outro lugar. Enquanto ela decidia o que fazer, o mecânico foi buscar a calculadora na gaveta de baixo de sua mesa. Em seu movimento, sentiu uma leve dor nas costas que o obrigou a fazer uma cara feia. Então, ela disse:
- Você está com dor nas costas?
- Estou, mas é algo passageiro… já estou tomando remédio, logo ela vai passar.
- Bom… eu conheço pacientes que sofreram de dores terríveis por causa de doenças da coluna, reumatismos, artrite. E se você não estiver tomando a medicação correta, você vai ter efeitos colaterais gravíssimos como torcicolo, dorsalgias, lombalgias e doenças da coluna cervical. Você poderá sentir para sempre a dor de uma contusão muscular, distensão ou mesmo estiramento. Contraturas, rigidez articular, entorses e limitação dos movimentos da coluna serão constantes na sua vida. Mas se você quiser, eu posso encomendar o remédio correto para você.
O mecânico olhou para ela assustado. Achava que poderia ser um problema relativo ao esforço físico repetitivo feito ao longo da sua vida no seu trabalho de mecânico. Então, ele perguntou:
Você é médica, senhora?
- Sou sim – respondeu ela.
- Então, o que a senhora acha que eu devo fazer?
- Vamos fazer um trato: você dá um jeito no meu carro que eu vou receitar um tratamento para você. Enquanto você resolve o problema, eu vou comprar o seu medicamento.
Prontamente, ele aceitou. Achou melhor não desconfiar do trabalho sério de uma médica. Já ela, deixou o carro com o mecânico, foi à esquina, comprou alguns comprimidos anti-inflamatórios, e os colocou dentro de um pequeno vasilhame, também comprado na farmácia. Esperou 40 minutos, entregou os remédios a ele e pegou o carro. Sem mais ruídos. Achou que fez um grande negócio. Ele também.
Não há amanhã
Não me agrada esse espírito de equipe que rege a presente geração. Não quero pensar no meu próximo, também não exijo que pensem em mim. Sou egoísta e sozinho e não poupo água visando ao bem estar dos meus bisnetos. Seis da matina, um frio caralho e eu tenho que tomar banho quente rápido, para que tenha água em 2300? Ah, me desculpe, mas não. Usar produtos reciclados ou recicláveis de pior qualidade pela satisfação de estar contribuindo para um futuro sustentável no ano de sabe-deus-quando? Também não. Não há sentimento coletivo que me faça privar de certos prazeres da vida em troca de uma incerteza condicional que eu nem sei se existirá um dia. Não posso com isso, é demais. A todo momento nos deparamos com impasses e nos questionamos se fizemos o certo ou o errado, e como se já não bastasse as inúmeras possibilidades reais de risco que assumimos quando escolhemos um determinado lado, ainda temos que pensar em como será o dia em que meu neto vai ser avô. Ah não. Quero viver e aproveitar o planeta que é um só, assim como a minha vida. Não me venha com restrições de conciência social, que o último lutador altruísta morreu de aids. É cruel pensar que estamos sozinhos, mas é ilusão pensar que não estamos. Não há decepção quando não há espera por algum ato alheio. Portanto, não me apego e não confio em ninguém. E não concordo com quem se diz preocupado com o futuro do planeta. Ninguém dos que lerão este texto deixará de respirar porque a amazônia é devastada. Que se foda o macaquinho amarelo do pantanal que vai deixar de existir. Tá com pena leva pra casa. O que se faz com um macaquinho escroto desses? Ninguém tá nem aí se matam esses animais para fazem um campão de plantação de maconha. Animalzinho de cu é rola, e SUIPA é o caralho. Um bando de animal doente e fedorento que na China teriam uma utilidade alimentar muito mais bem aproveitada. UFA! Meu eu-lírico histérico e mal educado se manifestou. Já posso ir reciclar o lixo aqui de casa e apagar a luz do corredor pra evitar o gasto.
O lenhador
por Luiz Pedro
E desce o machado da realidade. Com seu fio já castigado pelas madeiras invernais, já cansado de tornar as copas de alto prumo em lenha para aquecer sonos tão pesados que não se sonham, tão escuros quanto a noite de chumbo sem pesar. A lâmina mastigada pelo vigor da vida partida não mais quer cortar, não mais quer se valer do seu destino. Mas a mão calejada do homem rude está ali, ignora a dificuldade crescente, bate com mais raiva, maltrata a si, maltrata aos seus. E o machado da realidade desce, corta, lenha. Prende-se a farpas, descasca anos de vigor, resiste à tudo, nega-se ao reencontro.
Deita o machado ao lado da montanha morta. A mão grossa, sem tato, áspera, corre a testa, seca o suor que brota em rios e margens. Os braços ardem, a circulação retoma aos dedos, o ar frio queima o peito e refresca. Pensa na sombra das lenhas ainda árvores, pensa no branco que abre-se a cada batida, relembra o nome dos pássaros que piam pausadamente, dispensa a memória das negações ainda vivas. Recobre-se de raiva, prepara a madeira, aperta as mãos ao redor do cabo da fragilidade. Não mais pensa, não mais vive, não mais respira.
E o machado desce. Cada vez mais cego.
Fraternidade
Meu irmão nasceu lindo. Era uma criança que exibia por aí todas as características que qualquer mãe desejaria que seu filho possuísse: olhinhos enormes, de cor clara indefinida; cabelos sedosos em que se formavam caracóis perfeitamente delineados; nariz torneado; lábios de contorno imaculável, tão rosados quanto as faces. Nas palavras da minha avó, Deus deveria estar bem-humorado no momento em que resolveu criar o Théo.
Eu, por outro lado, nada tinha de especial. Nasci munido de um par de olhos de formato e cor bastante comuns, cabelos secos e crespos e um nariz que, digamos, atraía a atenção das pessoas pela, digamos, ausência de proporcionalidade. Deus deveria estar puto quando resolveu me criar.
As pessoas só tinham olhos para o Théo, que, paparicado e elogiado incansavelmente, adorava isso. E eu, um menino completamente dentro da média – até mesmo um pouco abaixo dela –, buscava atrair a atenção geral fazendo todas as travessuras necessárias a tanto, com o que transformei a vida de meus pais em um verdadeiro purgatório durante toda a minha infância. A ele, eram atribuídos adjetivos como “lindo” e “anjinho”, e nossos pais eram constantemente parabenizados pela formosura da criança; a mim cabia, na melhor das hipóteses, a qualidade de “gracinha”, acompanhada de um sorriso amarelo e olhares de repreensão em virtude do meu comportamento.
Assim crescemos até a adolescência, época em que o trauma poderia ter sido bem pior, se eu ainda não estivesse habituado a não ser o preferido de nem mesmo uma pessoa que nos conhecesse. Nesse período, já havia abandonado as travessuras infantis por considerá-las sem efeito, mas meu irmão permanecia lindo, simpático, educado, comportado e, agora, excelente aluno. Seu boletim escolar era sempre o extremo oposto do meu, e mesmo não integrando qualquer das turminhas mais populares do colégio, o Théo tinha um sucesso invejável com as meninas. Suas várias namoradas eram sempre muito mais bonitas do que minhas poucas companhias femininas; às vezes eu sentia até que minha família controlava algum constrangimento em solidariedade às minhas namoradinhas, quando estávamos todos reunidos.
O Théo cursou uma excelente faculdade de Direito e se graduou com louvor, tendo sido aprovado quase que instantaneamente em um dos concursos públicos mais concorridos da área, e hoje é um jovem rapaz muito bem-sucedido. Eu, depois de duas tentativas, consegui cursar História em uma instituição não muito conceituada, e ocupo o pouco tempo livre que me resta calculando como pagar todas as contas com o parco somatório dos salários pagos pelos três colégios em que leciono. Estou casado há cinco anos com a última das três namoradas que tive.
Nunca entendi porque o Théo ainda não casou, sendo tão bom partido e tendo desfilado com uma enorme quantidade de meninas, tão deslumbrantes e com tantas qualidades quanto ele. Não estou entendendo, também, porque na noite da última sexta-feira, no restaurante onde eu e minha esposa gastamos algumas economias para comemorar nosso aniversário de casamento, ele estava acompanhado de uma garrafa de vinho português e de um rapaz muito simpático, de quem carinhosamente segurava a mão sobre a mesa na qual se posicionava uma delicada vela.
Aliteração Criminosa
Pragas presas para polir.
Pedaços pisados, pratos, pinos;
Pressa pútrida, podres pepinos
Proezas, pilhérias podem punir.
Pesadas pegadas, pagode político.
Pacatas putas, prazeres praianos;
Preço pequeno; por podres panos,
Padeça, procure, peão paralítico!
Poetas piratas, possíveis prisões.
Prosa, pândega, patuscada: pó;
Pragas polidas para prender!
Pretos, porcos pilham – porões.
Práticas punidas, pobre pataxó;
Prole provida: pornográfico prazer!
Explique-se
Antes mal acompanhado de dor, do que só de amor.

Entre a razão e a emoção.
Não tem perdão,
Eu sei.
Porque por mais benevolente que possa ser a razão,
O coração não pensa.
Ele só sente.
E ele sente o que ele é estimulado a sentir.
Se ele é ferido, ele simplesmente sangra.
Independente da razão.
Porque ele não tem olhos,
Não tem boca,
Nem ouvidos.
Ele não tem olfato,
E nem tato.
Mas ele sente.
Ele somente sente!
E sentir dói!
Sempre dói!
Uma hora, doerá…
E por mais que a razão queira perdoar
(e insista nisso),
O coração só sente
(e não quer dialogar com a razão)!
Ele sangra se sente dor
E aquece se sente amor!
Sabe-se lá porquê,
Depois de um dia quente,
Formam-se bolhas de amor.
E bolhas sempre estouram!
Se não sozinhas, com a ajuda de alguém!
E depois que se abrem,
As bolhas sangram e dóem.
Ardem, pinicam e incomodam.
E, então…
Um longo período gelado as adormece, fechando-as.
Porém, elas se eternizam marcadas.
Como uma tatuagem.
Na superfície de um órgão tão frágil,
Tão sensível.
E, paradoxalmente, tão mal-tratado!
E depois querem nos convencer de que o homem não gosta de sofrer.
A dor está no homem.
O homem nasceu com a dor.
E viver sem ela seria como assumir-se só.
E sozinho ninguém quer ficar.
Então, carrega tua dor de estimação
No lado mais vazio do peito.
E quando a solidão bater,
Cultive-a.
Ao menos, só não estarás.
Crença vacilante (melhor conceito de dúvida que encontrei no dicionário)
Quando eu estava no início da vida, bem no início, me falaram que ter dúvidas é saudável. O fundamento desta tese era alicerçado numa premissa que, quanto mais se questiona, mais se procura saber, e num silogismo banal, chegaríamos a melhor das conclusões, que seria: quanto mais se procura saber, mais se sabe. Devo dizer que ainda não sou atrevido o bastante para contrariar este provérbio rifão. Me falta atitude e capacidade, por enquanto. Todavia, demonstro aos poucos minha insurgência em face deste adágio que classifico como “consolo” para nós, humanos, limitados. Tenho muitas dúvidas, e apesar de procurar purgá-las, não encontro respostas satisfatórias, ficando na mesma, senão quando não dou um passo atrás e volto à estaca negativa. É bem verdade que já se foi o tempo de questionar a existência de Deus, de onde vim e para onde irei (pelo menos o meu). Mas não me refiro a estas complexas divagações próprias de uma mente perturbada, que invadiria “campus” universitários com intuito de celebrar uma chacina qualquer. Na verdade, estou me referindo a questões infinitamente mais singelas. O “Por que?”, o “Qua?”, o “Que?”, o “Quanto?” jamais me deixaram saciar minha vontade de simplesmente aceitar a existência de qualquer coisa. E digo mais. Não que estas respostas fariam grandes diferenças na minha vida, pelo contrário, na maioria das vezes são perguntas que me faço pelo puro prazer da indagação descomedida. O que me deixa menos insatisfeito é saber que não sou o único a questionar um algo de um todo. Posso exemplificar uma dúvida que tenho, para tornar concreta a situação interrogatória na qual constantemente eu me encontro. Se me fosse perguntado qual seria o mal do século, eu não sei o que responderia. Não de primeira, sem alguns instantes de reflexão. Do homossexualismo à rinite, passariam pela minha massa cinzenta uma penca de mazelas que se fossem utilizadas como resposta jamais me constrangeria, por se tratar de algum absurdo. Por que as pessoas tem gostos musicais diversos? Por que tem times de futebol diversos? Como alguém pode não gostar de futebol? Como alguém pode achar interessante ver BBB? Como alguém pode não achar a Maria Sharapova bonita? Por que se convencionou que pra cima liga e pra baixo desliga? Por que a torneira direita é quente e a esquerda é fria? Por que o mundo não é todo feito de convenções? Por que preferem a teoria à prática? Whatever. São infinitas crenças vacilantes que me fazem correr atrás de sabedoria, e ainda que essas buscas não sejam frutuosas, eu ainda sou incapaz de discordar da idéia de que quanto mais dúvidas se tem, mais sabedoria se tem.
Santa Rosa
por Luiz Pedro
Quero te escrever um livro.
Poesia em prosa,
sem começo, muito menos fim,
até meus dedos definharem.
Preencher paredes de páginas,
assinando com a febre que me deixaste,
suar em palavras todo o desatino que me provocas.
Pintar em cada muro,
em toda calçada,
nas portas da cidade,
desentranhar minha angústia em tintas gritantes,
inventar cores pra te dizer tuas.
Quero seus passos cruzando minha calçada,
desfazendo a impureza do meu peito,
percorrendo aquilo que já chamei de meus dias.
Não temas, minha pequena.
Com fé, nosso porto será a rede de nossos sonhos.
Querido diário
Certas coisas se revestem de tamanha simplicidade que ficamos com medo de acreditar que são de verdade. Que são possíveis. Talvez por receio de depositar demasiada confiança em algo que, por parecer descomplicado, pode dar errado, e, nesse momento, entrar na realidade e ver que nem tudo é como gostaríamos que fosse. Aliás, quase tudo é bem diferente do que idealizamos.
O fato é que temos reservas quando nos deparamos com coisas simples. Buscamos complicá-las, sob a justificativa de que quanto mais complicadas, maiores as chances de que dêem certo; procuramos pequenos obstáculos em cada etapa, em cada situação essencialmente simplória, iludidos de que ultrapassar barreiras garante alguma certeza de vitória, de que devemos ter segurança para tentar algo além do que vem sendo vivido. Questiono, não poucas vezes, se as grandes transformações do homem se verificam depois de muita ponderação e do intenso emprego da razoabilidade, e quase sempre chego à conclusão de que elas são resultado do mero impulso, da explosão de sentimento e de vontade.
O medo da incerteza paralisa. Impede de viver. Pode parecer conversa de livro de auto-ajuda – e é -, mas é a verdade, nua e crua. O abandono da falsa certeza de que há coisas eternas e pessoas insubstituíveis dói, frustra, aterroriza, e essa é a vida fora dos contos de fada: sujeita a dores, frustrações e medo. Ignorá-la, definitivamente, não é a solução adequada, sob pena de dar início a uma vida fantasiosa, verdadeira fábula, que se torna intragável sem maior esforço.
Sabemos quando chega a hora de ultrapassar as barreiras; sentimos a exata ocasião, de alguma forma que as restrições da linguagem não permitem descrever à perfeição, mas que somos capazes de identificar precisamente. Dar as costas a essa capacidade não significa que a sensação desaparecerá; ao contrário, proporciona o impulso necessário a que produza uma tormenta ainda mais intensa, sendo apenas uma atitude propulsora de um verdadeiro atraso de vida.
Arriscar, sim. Talvez diretamente ao encontro da felicidade, possivelmente rumo a uma nova frustração. E por que não? Em último caso, algo de produtivo sempre poderá ser extraído da dor: no mínimo, ela resulta em escritos sem sentido, porém francamente sinceros, sobre a folha de um velho caderno escolar reutilizado.
de Moura, o imortal – Histórias do quartel
Foi na época em que meu primeiro nome era soldado quando conheci de Moura. Ele, um militar recém-incorporado ao Exército assim como eu naquele tempo, era um recruta de bem curiosos traços peculiares: em apenas dois meses de aquartelamento, o dito cujo já havia posto terra nos ouvidos com o intuito de protegê-los do estrondo dos tiros de fuzil e costumava banhar-se à fragrância de aloé puro, sem o uso de água, convicto de que desta forma, segundo crença chinesa, estaria imune a todo e qualquer tipo de mal terrestre. Porém, o fato mais inesperado da leviana saga do meu amigo soldado em meses militares ainda estava por vir.
***
Durante uma sessão de instrução sobre fuzis, estávamos sentados no chão de uma sala ampla com janelas grandes e esteiras com nossos armamentos no segundo andar do Palácio Duque de Caxias. Todos os soldados, salvo algumas exceções, estavam excitadíssimos com a singular oportunindade de aprender a desmontar e montar seus fuzis com notável agilidade de manejo do armamento. O instrutor, o Tenente Ferreira, haveria de se lembrar pra sempre da tarde em que quase matou um recruta, acidentalmente.
***
Ainda não éramos soldados efetivados. Todos nós, que, juntos, contávamos duzentos, éramos estranhos à arte centenar de armar e desarmar nossa “namorada”, como assim nos obrigava a chamar nosso fuzil o Tenente Ferreira, um oficial que impunha respeito e fazia muitos de nós passar a noite só piscando. De Moura, com sua capacidade esplêndida de obedecer todas as ordens e aterrorizado pela imagem do tenente, mal podia fitá-lo que já queria satisfazê-lo antes que o mesmo proferisse uma palavra sequer. A instrução teve seu início após o cessar de um conversa entre o Tenente Ferreira e o Capitão Estrela.
- “Todo mundo põe o fuzil na posição vertical, com a chapa da soleira pra baixo, e senta de frente pra ele”, ordenou o tenente. “Presta atenção porque eu só vou explicar uma vez, seu bando de bisonho!”.
Todos o olhavam. Os cinqüenta que estavam na sala, uma vez que fomos divididos em quatro grupos devido à capacidade espacial da mesma, prestavam bastante atenção às instruções do Tenente Ferreira. De Moura, temendo seu constante esquecimento repentino, era o que mais se esforçava para armazenar todas as informações dadas durante quase 15 minutos. Periodicamente, notava-se a mão dele adejando o ar para questionar e esclarecer suas dúvidas. Era o único.
- “Essa peça é pra que mesmo, senhor?”, perguntou de Moura.
- “Ah!, seu bisonho! Acabei de falar! É pra armazenar os gases que propulsionam o projéctil! O obturador de cilindro de gases é uma peça que requer cuidados: quando a gente tira ela, a mola do êmbolo impulsiona ela pra fora e arremessa ela longe. Então, cuidado pra não deixar ela voar e quebrar. Se o obturador cair, cai junto!”.
Após essa afirmação, que era uma espécie de bordão no quartel (como “se o fuzil cair, cai junto!”), algumas risadas abafadas foram ouvidas.
***
O obturador de cilindro de gases localiza-se próximo ao cano do fuzil e é apontado para frente. Na posição vertical na qual encontrava-se o FAL – Fuzil Automático Leve que, diga-se de passagem, de leve só tem o nome -, qualquer descuido com a peça poderia fazer com que ela fosse lançada verticalmente para longe. Assim sendo, após explicar as funções dos demais compartimentos do fuzil e de montar e desmontar lentamente para que todos entendessem o processo, o Tenente Ferreira nos informou que era a nossa vez. Nervoso, como todos os outros estavam, comecei a desmontar quando o Tenente disse “Valendo!”. O objetivo inical era desmontar e montar o FAL em menos de um minuto . Todos estávamos concentradíssimos na nossa tarefa e o esforço mútuo nos remetia a um estado de transe, um devaneio, como se o fuzil fosse mesmo a nossa namorada, tendo em vista o zelo que tínhamos para com o mesmo. De Moura, sentado ao meu lado na última fileira logo abaixo da janela, estava igualmente compenetrado, com a sua língua à vista sendo prensada pelos dentes. Pereira, na outra ponta, já apresentava sinais de desespero. R. Morais, ao centro, parecia tranqüilo e começava a montagem, com sua notável habilidade com o armamento. Eu, não portador dessa faculdade, alucinava-me vendo todos os outros em ação enquanto esforçava-me para tirar o retém do ferrolho que insistia em prender na culatra. Quando, por fim, consegui tirar a maldita peça, vi, numa questão de segundos, uma peça voar ao meu lado. Um momento mágico, salvo a tragédia que o sucederia. O obturador de cilindro de gases do fuzil do de Moura quicou no parapeito da janela e caiu para o lado de fora da sala. Algumas pessoas notaram quando De Moura se levantou, ciente do seu destino. Sem entender, o Tenente Ferreira o chamou, em voz baixa. De Moura ignorou o chamado e fitou-me. Vi em seus olhos a inocência de um garoto e a coragem de um guerreiro que sabia a hora de enfrentar a morte. Incrédulo, o tenente chamou-o de novo. “De Moura!”. De moura olhou para a janela, deu dois passos largos rapidamente em direção à mesma e mergulhou de cabeça, passando por cima do parapeito. “De Moura!”, gritou o perplexo Tenente Ferreira, sem acreditar no que acabara de presenciar. Eu, atônito assim como todos os outros soldados, levantei para ir ver o que tinha acontecido com o De Moura, mas o tenente me advertiu. “Mandei levantar, porra?!”. Nos sentamos. O Tenente Ferreira debruçou-se sobre o peitoril da janela e soltou um “Caralho!” tão sonoro que nos fez reféns do medo da morte do nosso amigo. O tentente deixou o Sargento Santiago tomando conta do pelotão e pôs-se aceleradamente porta afora.
***
Permanecemos sentados, apreensivos. Uns já esboçavam lágrimas, ao passo que outros, indignação, afinal, de Moura havia se atirado pela janela seguindo as ordens do tenente. Algumas vozes eram ouvidas, mas nada de extraordinário. Parecia que eu tinha sido abruptamente interrompido de um pesadelo e este se tornara realidade. Nunca imaginaria uma atitude tão insensata como a vivida há minutos antes. Nunca ousaria pensar em presenciar um suicídio desta forma. Inconformado, abstraí a situação e embarquei numa viagem sem rumo, as pálpebras fechando. A cena se repetiu: de Moura jogava-se pela janela em busca do obturador de cilindro de gases. Abri os olhos, interrompido pelo ranger da porta que se abria. Por ela, inexplicavelmente, entrava um pálido Tenente Ferreira e um intacto Soldado de Moura. Aturdido pela visão, não sabia o que dizer. Aliás, assim como os demais, não tinha o que dizer. O que iria falar? “Então você tá vivo, de Moura?!” ou “Você não morreu?”? O silêncio falou por si só. O tentente voltou ao seu lugar original, à frente do grupamento. de Moura também voltou à sua posição outrora ocupada, ao meu lado. Boquiaberto, fitei-o nos olhos enquanto sentava-se. Espantado, como se ele tivesse visto outrem indo embora pela janela, me perguntou o motivo de eu o olhar tanto e com tanto pavor. Permaneci mudo.
- “Por que você tá me olhando com essa cara?”, perguntou de Moura. “Tá maluco? Parece que nunca me viu! Eu, hein!”.
- “De Moura, como?”, finalmente falei.
- “Ah, sim! Fui pegar a peça, ué. Aqui ela, ó! Desgraçada quase me matou!”. E encerrando o assunto com um sorriso sincero, me mostrou o obturador de cilindro de gases.
***
Após o episódio, num outro dia qualquer enquanto eu descascava batatas, de Moura me chamou:
- “Paes Leme, chega aqui.”
- “Fala, de Moura.”
- “Lembra do dia da instrução com o FAL?”, disse ele, envergonhado.
- “Como eu vou me esquecer disso?”
- “Você sabe que foi um acidente, né? Poderia ter acontecido com qualquer um, ué! Se põe no meu lugar! Sacanagem vocês ficarem me zoando por isso!”
Abismado, abobalhado, aparvalhado e puto, eu disse:
- “Você é muito estranho, moleque.”
Esboço
Eu sou rosa sou verde vermelho
Sou branco e preto
Amarelo e azul
Sou roxo, lilás, sou marrom
Sou laranja e sou batom
Sou saia e unhas pintadas
Sou cafona e desbocada
Pequena flor
Delicada.
Que pinta e cospe e chora
Que cobre esconde adora
Sou assim.
Um esboço de mim.
Sou sua filha
Capoeira.
Sou sim mandingueira.
Perdão.
Mas o batuque não sai da minha mão.
E eu gosto.
Do cheiro da vela da cor
Toda brincadeira de ator
Que resisto
Insisto
Que não cabe na minha mão
Sou gota lua e coração
Madrugada.
Eu já nasci apaixonada
E em cada passo de tinta
Escorre estampada
O quanto eu amo
E como amo
O simples fato
de sentir.

Confesso: eu pequei!

Abracei-me em minha cama e de lá só sai quando expulsa por Morpheus.
Bom dia, Belphegor!
O sol na janela iluminava o meu quarto, e quando me deparei com o reflexo, não foi narciso que vi.
Num salto assustado, peguei minha carteira, mas no caminho da salvação, encontrei aquela velha rameira!
Maldita desocupada! Só sol, ferro e mar!
Praguejei e segui.
Salve Leviatã!
Agora, volto a sorrir: pele de uma índia, cabelos de uma japonesa e colorido de uma americana!
Moça globalizada!
Um abraço para Lucifer!
Nas ruas, indigentes no papelão manchavam minha presença esbelta.
Guardo o dinheiro, viro a cara e sigo com Olhos Cegos de um gigante.
Bem-vindo, Mammon!
Mas que bela notícia!
Pizza e coca-cola.
Encho minha pança (e a deles também).
E faço uma oração à Belzebu!
Nada poderia estragar minha alegria!
Não fosse esse caos nas ruas.
PQP-um gesto, um palavrão e Satã!
Mas nada me abala (por muito tempo…)!
Champagne, lingerie e massagem.
E me deleito nos braços de Asmodeus!
Terá essa alma salvação?!
Difícil…
Amém!
O Efeito Dinâmico das Cotas Sociais
Mãe, Pai! Passei no vestibular!!!
Os pais abraçaram orgulhosos o pequeno Joãozinho! O pai logo correu para o quarto para abrir a garrafa de whisky que ele ganhara certa vez do seu chefe de brinde no Natal. Já o sorriso da mãe estampava o rosto e atravessava as duas orelhas. Ela já se imagina contando a novidade para as amigas do salão de beleza em que trabalha. Afinal, nenhum deles jamais havia sonhado entrar em uma universidade, uma vez que apenas a mãe terminou o ensino médio e o pai abandonou os estudos para poder trabalhar e sustentar os custos do nascimento do primeiro de três filhos do casal. Apesar de sempre desejarem um bom futuro aos seus filhos, jamais cogitaram que seus filhos fossem cursar uma universidade. Parecia um sonho para eles.
Joãozinho tem 18 anos, é morador do Méier e terminou o terceiro ano no CIEP próximo ao sambódromo. Ele havia decidido fazer a prova do ENEM apenas por fazer e obteve apenas um resultado modesto garantido pela boa nota na redação, nada extraordinário. Porém, ele foi beneficiado pela política de cotas universitárias, que lhe proporcionou uma bolsa de estudos do PROUNI. Ele deverá cursar uma universidade privada no próximo ano e receberá uma pequena ajuda de custo para transporte e xerox. Vai cursar informática.
Para cursar a faculdade, João terá dificuldades, já que terá de conciliar seu emprego na Lan House próxima à Praça da Bandeira com o horário da aula. Porém, maior dificuldade ainda será a de aprender o que não aprendeu. O seu ensino médio foi marcado pelas poucas aulas, ausência de professores e baixa qualidade de educação, além da ausência de valiações periódicas recorrentes. Terá que estudar muitose quiser se formar. Mesmo que o faça, talvez não seja suficiente. Talvez seja.
João é de alguma forma relativamente qualificado. Muitos outros sequer conseguiram entrar. Muitos mesmo. João sabe muito pouco. Mas muitos não sabem absolutamente nada. João não teve uma base educacional mínima necessária para ingressar no curso superior, mas vai cursá-lo. Talvez o termine. Mas para isso, terá que contar agora mais com esforço próprio do que com ajuda de terceiros. Principalmente com o esforço próprio. Até porquê já teve “muita” ajuda de terceiros, se forem comparadas as suas oportunidades com as que seus pais tiveram. Ele perceberá que está muito à frente deles, graças ao “empurrãozinho” do governo.
Certamente ele não será o melhor aluno da faculdade, nem mesmo de sua turma. Será candidato a aluno de mais baixo desempenho da faculdade e favorito a encabeçar as estatísticas de evasão escolar. Mas se o Joãozinho se formar, será então merecido, apesar de ser a sua obrigação. Só dependia dele e ele fez por onde. Ainda, ele terá chegado a um patamar no qual ninguém da sua família jamais chegou.
Agora Joãozinho se forma e consegue um emprego. Ele trabalha no setor de processamento de dados em uma média empresa que presta serviços a uma afiliada da Petrobrás. É um trabalho técnico, burocrático e sem grandes desafios. Vez ou outra faz hora extra, o que o faz chegar atrasado em seu curso preparatório para o concurso de técnico da Eletrobrás. Tem planos mais ambiciosos e uma qualidade de vida inquestionavelmente superior à de seus pais.
Então fica a pergunta: se Joãozinho tiver filhos, eles serão também alvos da política de cotas para universidades?
Brincadeira de mau gosto
Tratava-se de uma criatura aparentemente inabalável, que reunia a figura paterna e materna em um só corpo castigado, apesar de belo. Maria era uma mulher forte, e não poderia ser diferente com um nome desses. Fazia jus às alcunhas de brava e guerreira, e tudo de graça, sem pensar em reconhecimento, muito menos em favores que se compensassem. Era uma boa vontade livre que jamais existira, e de acordo com minhas singelas convicções, entendo ser pouco provável que haverá outra igual. Parecia que só sucumbiria aos efeitos naturais da vida, e seu ordinário perecimento. Era só impressão. Havia algo maior que não perdoaria o organismo daquela senhora septuagenária. E quem diria, o causador deste desastre emocional seria a pessoa que mais a queria bem, e a recíproca ultrapassa as barreiras da veracidade. Um ser humano que sequer poderia se entender por gente e ter pleno raciocínio do que faria, com tamanha ousadia, e desdém total. Foi uma brincadeira de mau gosto. Uma ligação anônima noticiando o falecimento de um ente querido, muito querido. Com o tom do saudoso Gil Gomes, do “Aqui e Agora”. Naquela noite, bem como nas três ou quatro madrugadas subseqüentes, a moça forte e valente se esgueirava em prantos infinitos e, outrossim, mal sabia o infeliz criador do trote, que D. Maria encontrava-se em petição de miséria, refugiada no seu quarto, que mais bem definido seria pela palavra “canto”. Observar aquela fortaleza desmoronando foi a cena mais cruel e trágica que um fúfio, apedeuta, sacripantas daquela natureza poderia sentir no âmago de suas obsoletas cretinices. Tamanha frivolidade fez com que um incidente, de autoria digna de um acéfalo, se tornasse um marco da valoração sentimental que se pode estipular entre a aberração infantil, da fase precoce de nossas vidas, e o respeito pela noção, principalmente diante de princípios tão comezinhos de civilidade familiar. Foi um susto, apenas um susto, que serviu de lição. É o que eu espero.
Ancorado
por Luiz Pedro
Se das tormentas não consigo aportar, ir a pique é apenas juntar-se as outras corajosas embarcações.
Combatemos contra o insone vento de lugar nenhum, mas não há força que resista a garganta de um mar faminto, ávido por descansar naus de longas jornadas. Senhor dos Mares, que paz encontrarei senão em seu estômago inóspito? Chega de perder meus homens nesse inferno de ondas, alagando nosso convés com o sangue de uma luta sem vencedor. Capitães de bravias rugas, oficiais incansáveis por caminhos distantes, tenentes obstinados em atravessar paredes de água revolta sem destino. Não é porque foram tragados para o âmago desse oceano, aos pés de sua imensidão, que perderiam seus rumos.
Longe de suas amadas, órfãos de suas moradas, pele rasgada pelo sol e curada pelo salgado atlântico. Guerreiros de remos empunhados, mãos calejadas por cordas tão firmes quanto o vigor do além-mar. O horizonte limita a visão da nossa solidão e o infinito torna-se nítido. Entoamos canções de saudade, apontamos a proa para promessas de águas plácidas, praia de areia fina, céu de brigadeiro. Não irei desapontá-los, mesmo que tenha que agarrar-me ao topo do mastro e cuspir sangue na tempestade que me arremessa aos 5 horizontes.
Se assim quiseres, hei de afundar lutando! Lutando até o casco rebentar-se no fundo de pedras, e, enrolado na vela que antes estufava o peito para puxar avante nossos corações, dormirei em seus braços, com a certeza de jamais ter zarpado.
Como andar de bicicleta
Me lembro de acordar pela manhã sem medo do que poderia acontecer ao longo do dia, e de me levantar com toda a disposição intrínseca a uma criança. Naquele dia, havia deixado devidamente preparado tudo o que iríamos precisar; meus tênis e roupas já haviam sido escolhidos, os sanduíches de queijo haviam sido preparados por minha mãe na noite anterior e estavam na geladeira ao lado da garrafa de suco de morango, e – o principal! – os pneus da bicicleta haviam sido avaliados e aprovados pelo frentista do posto de gasolina que desde sempre existiu à esquina da rua.
Meus pais ainda não estavam despertos. Assim que percebi que meu pai roncava profundamente e minha mãe não ameaçava qualquer movimento voluntário, voei sobre os dois e comecei a saltar sobre a cama, ao que meu pai acordou com um último ronco mais profundo e minha mãe apenas se deu ao trabalho de jogar as pernas para fora da cama.
Em vinte minutos estavam prontos, menos por disposição própria e mais por minha inquietação e insistência. Então, lá fomos os três em direção ao parque que ficava a poucas quadras de minha casa, e que propositalmente dispunha de largas pistas asfaltadas ora utilizadas como ciclovias, ora feitas de pistas de corrida. As rodas de apoio da diminuta bicicleta cor-de-rosa tinham sido extraídas por meu pai antes de deixarmos o apartamento, e ali estava eu, diante de minha ornamentada bicicleta, já sem qualquer suporte técnico, depositando toda a minha incalculável empolgação na inexplicável confiança de que não, eu não cairia.
Pulei ansiosamente na garupa, encostei meus pés nos pedais. Senti o empurrão gentilmente provido por meu pai e, sem dar importância para aquele frio na barriga que buscava dominar todo o resto do meu corpo, mirei em um ponto fixo mais adiante e segui em frente. Descobri que o segredo para o equilíbrio era não desviar daquele ponto, e esquecer todas as sensações sobre as quais poderia se espalhar minha concentração; apontava especificamente para lá e apenas me permitia sentir o vento que batia em meu rosto e fazia meus cabelos voarem. O que experimentei ao alcançar o fim do percurso que eu mesma havia definido foi indescritível, sem possível comparação a qualquer combinação de sentimentos.
Essa manhã invade, hoje, meus pensamentos, e eu me pergunto onde foi parar toda aquela empolgação anterior ao desafio tido por impossível? Em que momento abandonei a avassaladora coragem de enfrentar o desconhecido e esquecer a preocupação com as prováveis conseqüências? Quando esgotei a confiança na minha própria capacidade de ir além?
Parece que ainda tenho muito a aprender comigo mesma.
Corações Errantes
Cantes aos deuses tua cólera! Cantes
De forma que não lhes reste suspeita!
Cantes! Exponhas a fúria da desfeita
Que fizeste teu amor em teu peito antes!
Cantes alto! Faças cordas vibrantes!
Mostres o que teu corpo não aceita:
Ser aliciado para esta seita
Onde sagram-se os corações errantes!
Ponhas um fim ao que te seduziu!
Faças jus ao que tua alma viu
Ser maléfico desde o início!
Não mais deixes o teu peito revolto
A vagar sem direção e envolto
Na mantilha desse disforme vício!
Descongelando

Acabou. Aqui dentro.
Não quero mais. Eu quero mais. Eu quero brilho de mim pra mim pros lados.
Quero começo e enredo. Não quero fim.
Acabou. Você é fim. Dentro de mim não mora mais.
Não mora mais saudade, não dói mais seu nome.
Mora apenas a lembrança. Sem trança, sem água.
Lembrança de lembrar.
Sem esperança, sem esperar.
Acabou.
Hoje você acabou em mim.
Se acabou. Finalmente. Muito bem. Conseguiu.
Não quero mais. Não te quero mais.Eu quero mais.
Pra mim.
No more fears

A bela e a beleza dela num luar tão nobre e fulgaz, iluminada a sua áurea, libertai tua alma.
Eu não temo.
Eu não temo a falta de beleza exterior.
Porque a minha beleza interior é maior.
É maior do que qualquer par de olhos azuis, lábios carnudos e corpo perfeito.
Ela, sim, é uma beleza real.
Naturalmente bela.
Não precisa se enfeitar.
Ela simplesmente é.
E essa beleza
Invisível aos olhos nus
Tem suas formas e trejeitos de se mostrar.
E sempre que ela vem
Não tem pra ninguém.
Ela acaba com qualquer beleza meia-tijela
Qualquer beleza padrão comprada…
Beleza silicone, beleza bisturi, beleza bronzeamento, beleza plastificada.
Que não sabe que, no fundo, não conhece o significado real da beleza.
Beleza na superfície, você compra na drogaria.
Beleza real você deixa brotar.
E quando isso ocorre, é como uma tempestade avassaladora.
Abala qualquer pilar feito de areia.
Nem tente comparar.
Gaste o tempo na sua procura.
E um dia poderá esquecer dessa beleza fordista idealizada pelos outdoors e pelas meninas que assistem aos comerciais de cerveja.
Não se deixe levar.
Quem bebe cerveja a rodo, não tem barriga tanquinho nem bunda lisinha.
Acorda e vai buscar tua beleza.
Tua real beleza.
É tempo de deixá-la.
Esse eterno karma que lhe persegue.
Deixe-o.
E sinta-se livre para ser bela.
Bela acordada.
Adormece tua máscara.
“Amanhã tudo volta ao normal”.
E a Cinderela virará abóbora.
Teu príncipe, um sapo-verde.
Saberás, então, enxergar tua beleza por detrás desta corcunda de Notre Dame?
Ao menos, tente, bela princesa!!
Risco e Recompensa
A teoria econômica é fundamentada na avaliação feita pelos agentes econômicos entre o risco e a recompensa de cada decisão tomada. Como é de se esperar, para se obter maiores recompensas é necessários correr maiores riscos. Qualquer que seja a decisão que um indivíduo toma, ele sempre espera ficar em uma posição melhor do que a que ele atualmente está. Aliás, ele espera. Mas ele jamais terá certeza de que vai ficar, pois ele não é capaz de prever o futuro. Assim, ele avalia os riscos, as recompensas e toma a sua decisão.
Desse modo, a experiência de vida que o indivíduo carrega acaba servindo como suporte para formar as suas expectativas sobre um futuro próximo, porém incerto. Para qualquer situação, ele sempre lembrará do seu passado e com base nele tomará a melhor decisão para o seu futuro.
Entretanto, o indivíduo não é capaz de avaliar as conseqüências, riscos e recompensas de uma novidade, de uma surpresa em sua vida. Em um ambiente completamente novo, não há passado para orientar as suas decisões. Diante a tantas mudanças, é difícil tomar uma decisão com tão pouco conhecimento sobre o caminho a ser trilhado. Logo, não há um comportamento esperado por ele para essa situação inédita. Neste caso, só resta uma coisa a se fazer: ALL IN!
Gestos Modestos
Pequenos gestos fazem toda a diferença. Ai de quem negar essa verdade absoluta. Principalmente, se comentar algo parecido com “guerras são grandes atos e fazem a diferença”, ou qualquer exemplo escroto que o valha. Está atestando sua total incompatibilidade com a dinâmica da vida, sendo ela um complexo de pequenos atos. Não se trata de algo que esteja sob nosso controle, nem que possamos escolher. Já há um movimento preordenado ou não de pequenas “algumas coisas” que se agigantam em função de uma idéia em movimento, para tudo que se possa imaginar. Talvez por isso não saibamos explicar muitas coisas. Tentamos ver o superficial, na ilusão de que a resposta para tudo se encontra no amontoado de consequências sobre as quais fixam-se nossos olhares. Tudo tem um começo. E raras das vezes tal início se dá de forma a chamar nossa atenção por seu tamanho ou intensidade. Embriões costumam ser, de fato, desprezíveis. Mas como prestar atenção em tudo que é pequeno com a perspectiva de que aquilo poderá eventualmente se tornar algo de proporções inimagináveis? Seria humanamente impossível exigir a integração de tudo que acontece ao nosso redor com a verdadeira causa de resultados expressivos que o mundo nos proporciona. Devemos enraizar nossas atitudes, no sentido de torná-las supremas desde o seu nascedouro. Não acho que o contrário seja a banalização dos nossos ascenos irrisórios, principalmente se ponderarmos e entendermos que somos limitados e não podemos prever nada além de um palmo do nosso nariz. O que no meu caso, já é bastante coisa. Ora, se então valorarmos com mais cautela as nuances de uma pequena idéia, poderemos ter um panorama mais influente do que se tornará com o desenvolver da cadeia lógica que está entrelaçada imediatamente com o fato precedente. É a famigerada bola de neve. De repente, os provérbios que tentam dizer isso não são contundentes o bastante para provocar em nosso âmago uma profunda reflexão acerca dos nossos gestos pioneiros. Isso se reflete diretamente na total falta de consequência que geram quando poderiam ser evitadas as primeiras atitudes. Dar o primeiro passo pode não ser o mais importante, mas é de igual relevância cotejado com os demais. Demos todos, portanto, nossos primeiros passos.
Centroavante rompedor
por Luiz Pedro
Pestana, Teleco, Pedrão, Beto Mordomia; Celso Cachacinha e Tirolim. Assim era formado meio-campo e ataque daquele time que ganhava todas as peladas de Campo Grande. Na década de 70, só deu eles. Mas agora surge o desfalque do Tirolim.
Após alguns anos daquelas peladas memoráveis, Tirolim sofreu um acidente que lhe deixou seriamente debilitado, passando a ter várias complicações em sua saúde. Soma-se o avançar da idade e o resultado só poderia ser pior: entrou na faca várias vezes. Nos últimos meses, mal saía de casa. Nas últimas semanas, ficou confinado a cama. Uma hora tinha que acabar, acabou esta noite.
O time todo está reunido na abafada capelinha para se despedir do seu centroavante. O padre diz algumas palavras de alento, lá fora o coveiro espera para levar Tirolim. Os amigos se pronunciam a retirar o caixão da capelinha. Visivelmente consternados, se posicionam, erguem o ataúde de madeira simples e levam lentamente. Ainda sobra força naquele meio-campo de muitos anos e poucos cabelos.
Na arrastada procissão até o túmulo, o cemitério fica evidente. Não é dos maiores, tem um corredor principal que leva até um portal com os dizeres “ecce locus in quo habitamus”. Há simplicidade, poucos túmulos suntuosos, diversas cruzes brancas com números mal pintados. Aos poucos, vamos subindo uma leve colina. Alguém comenta que o pai do Tirolim havia comprado um singelo espaço no alto do cemitério por ser um local ventilado, de onde seria possível ver a roça. Todos reconhecem o espírito galhofeiro marcante daquela família.
Chegando ao jazigo, alguns se aproximam, outros se mantém distantes, descem o caixão. Eu poderia falar que, nesse exato momento, caiu uma fina chuva, apenas nesse momento, por breves 30 segundos. Uma breve homenagem. Mas seria piegas, batido, e vocês não acreditariam em mim. Então, só para constar, o sol pegava um pouco de lado, poucas nuvens pairavam. Tirolim, botafoguense, não ficaria nem um pouco satisfeito com a ironia que se dava: o coveiro cimentava seu túmulo, posando com um surrado boné do Flamengo. Algumas velas foram acesas, preces sussurradas. Todos foram se retirando, com uma tristeza já mais leve, cedendo espaço a conversas amenas.
Já de volta a entrada do cemitério, a procissão para, mas os assuntos continuam. Surgem sorrisos, lembranças queridas são revividas. Eu – que ali estava como ente recolhido, um pouco distante do burburinho descontraído que se tornava dominante – sou interpelado por uma senhora:
- Eles estão voltando de um enterro?
Respondo com uma sintética confirmação de cabeça. A intrometida, um pouco assustada, completa:
- Nossa, você é o único que está triste.
Viro-me para a conversa animada do meio-campo. Eles gesticulam recordações de alguma jogada, algum gol, alguma vitória. Como eles ficariam tristes com esse centroavante? Santo Tirolim.

Equilíbrio à ausência
Bati a porta e fui andando a passos firmes, descontando todo o ódio que tentei trancafiar no apartamento sobre o velho assoalho que se mantinha firme ao longo de décadas no terceiro andar daquele antigo prédio. Era uma manhã de domingo que, chuvosa e sem-graça, insistia em passar a impressão de que, na verdade, era a segunda-feira de uma daquelas semanas que prometem ser insuportáveis.
Mas ainda era domingo. Por sorte, como que premeditadamente, a chave do carro havia sido deixada sobre a arca herdada das gerações anteriores, que ocupava boa parte de um dos cantos da sala do pequeno apartamento há poucos meses redecorado. A chave pendia de um urso de pelúcia multicolorido de exageradas dimensões para um chaveiro normal, no qual se penduraram algumas peças de metal que marcavam incessantemente o ritmo do furioso caminhar.
Não havia mais o que conversar. As palavras proferidas até ali já tinham sido capazes de apagar boa parte dos momentos uma vez inesquecíveis que vivemos. Abri a porta da garagem, depois de um hercúleo esforço para não chorar novamente, resistência que, mais uma vez, foi inteiramente inútil. Via, ali, pra mim, a rua se abrindo, bastante molhada pela fina chuva que ainda incomodava os moradores menos preguiçosos, frequentadores matinais das muitas bancas de jornal e das algumas padarias que se alastravam pelos quarteirões mais próximos. Acelerei, sem saber que sentido tomar e, muito menos, meu destino final. Minha única vontade era ir embora dali, e com isso afrouxar o arame que vinha apertando meu coração nos últimos tempos.
Ainda me doíam as mágoas provocadas pelo que foi dito nas inúmeras brigas anteriores. Latejavam, derrotando qualquer possibilidade de esquecê-las. Me obrigavam a pisar no acelerador com toda a força, e eu trocava de marcha com tamanha dificuldade que o carro emitia barulhos irreconhecíveis a um bom motorista. Já não bastava o amor nem a vontade de fazer dar certo, não mais era suficiente querer estar junto, pois estar junto, ultimamente, significava estar longe; olhar nos olhos parecia uma tortura sem fim – talvez pelo medo de assim perceber que a melhor solução era, simplesmente, não achar solução. Ir embora.
Foi assim que, em uma chuvosa manhã de domingo, admitimos a nossa última discussão. Bati a porta. Peguei o carro e acelerei, para qualquer lugar ou para lugar nenhum, deixando tudo para trás. Alguns quilômetros depois, a chuva parecia dar trégua, e as nuvens iam clareando e se separando umas das outras. O sol ainda não aparecia, mas os sinais de que o tempo iria melhorar aumentavam a cada minuto. Resolvi parar o carro, ir até o bar mais vazio às margens da estrada e pedir uma água – há muito beber uns goles de água não era tão prazeroso. E vi o sol se pôr.
Um ato selvagem – Desventuras no Alasca
O cursor do Word piscava à sua frente. O jovem estudante de Jornalismo, com 20 verões vividos, não sabia como imprimir ao papel a sensação exata da cena presenciada por ele quatro anos antes. Martírio eterno, pensava Marcos. Seu cérebro se atrofiava em imagens contundentes e sem fim – Jô Soares, Jornal da Globo, Bradesco, Assolan…a TV se pronunciava às suas costas, dando-lhe palavras suficientes para que ele se abstraísse da missão de relatar o crime em questão. Eis que, de súbito, as cenas surgiram em sua frente, ordenadamente e em forma de palavras, fazendo com que o rapaz esfolasse seus dedos ao atacar o teclado.
“Dois mil e três, mês que não recordo, dia irrelevante. A manhã mais clara do Alasca acabara de raiar, às 8h45. Marcos, brasileiro estudante de intercâmbio, contava 16 anos e se dirigia para a terceira aula do dia na Ninilchik High School. Ninilchik, uma cidadezinha ao sul de Anchorage, principal centro referencial do Alasca, tinha 400 habitantes. Marcos se destacava não só por ser o único negro na região, mas também por usar uma camisa com um nome de um animal, com listras vermelhas e pretas dispostas horizontalmente. Por motivo óbvio, o seu time, Flamengo, virara motivo de chacota entre os demais alunos que, em alto e bom inglês, diziam pelos corredores da escola com seus sotaques acentuados “ei, flamingo!”, posto que o encontro das letras “e” e “n” soavam como “i” e “n”. Enfim. Marcos, ao contrário do nome do seu time, era bem respeitado e popular na cidade onde todos se conheciam e todos queriam conhecê-lo. Um brasileiro no Alasca? Em Ninilchik? Atípico.
O dia irrelevante correu tranqüilo paro o garoto. Como de costume, ele ficou até mais tarde vendo seu “irmão” Adam, de 14 anos, treinar luta. Adam era irmão de Molly, filho de Jerry e Susie Byrne – eram a família que se dispusera, com todo carinho e afeto tal para com um filho/irmão, a hospedar Marcos. Às 16h30, ele foi beber água e, no caminho, viu as cheerleaders praticando no ginásio da escola. Distraiu-se por mais tempo do que pensara: ao ver a última perna ser erguida à altura da cabeça, olhou para o relógio e surpreendeu-se vendo o ponteiro menor na casa cinco. Saiu em disparada pelo corredor em direção ao salão de luta, mas já não havia ninguém lá. Pela janela, procurando Adam, viu o ônibus amarelo da Ninilchik High School sair. Já estava escuro e quase não havia iluminação no trajeto de volta para seu lar na cidade onde só existiam casas. Pôs-se, então, a encarar o frio de vinte e sete graus Celsius negativos e virou à direita, depois à esquerda, até chegar ao pé da ladeira, onde só se via a luz da lavanderia quase sumindo no horizonte formado pelo pico da rua. O frio gelava-lhe as juntas. Martírio eterno, pensava Marcos. Mesmo sem lata d’água na cabeça, subir a ladeira com neve na venta era ralação. Ele foi subindo, subindo, subindo a ladeira sem fim. No meio do caminho, de repente, ouviu um barulho vindo de perto. Olhou para os lados, mas nada viu além do que pudesse ver com as pálpebras cerradas. O barulho se repetiu. Assombrado, Marcos não sabia o que fazer. Tentou apertar o passo, mas uma sombra irrompeu da escuridão, tapando a fraca luz proveniente da lavanderia. Ficou parado, sem luz, sem visão, sem esperanças, na verdade. O vulto lhe atacou . Marcos não voltou pra casa no dia irrelevante.
O enigma sobre o que atacou o rapaz permaneceu por alguns dias. Marcos não soube explicar o que havia lhe abordado, uma vez que ficara completamente sem visão no momento. Só sentiu duas mãos muito pesadas empurrarem seu peito e uma pisada forte na perna. Todos da cidade ficaram mobilizados com o fato ocorrido. Até onde se sabia, Marcos não tinha nenhuma inimizade em Ninilchik. Algumas pequenas investigações eram feitas no local onde o rapaz fora encontrado pelo motorista do ônibus da escola, no dia seguinte ao irrelevante, estirado no chão gélido da ladeira, sem a mochila. Fora conduzido direto para casa após ser achado. O xerife local, Mr. Wolf, apresentou-se a Marcos durante o intervalo das aulas. Colheu algumas informações e jurou encontrar o responsável pelo primeiro ato de violência em 13 anos na pequena cidade de Ninilchik.
O mistério resolveu-se no domingo seguinte ao ataque. Voltando da igreja com a família, o garoto viu um alce andando na rua. Para sua infelicidade e completa vergonha, Marcos notou, pendurado na boca do animal, um pedaço de papel que reconheceu na hora, devido à forma: era uma folha do seu bloco de anotações no formato do escudo do Flamengo.”
Prisão domiciliar
Não aguento mais
Não aguento essas paredes brancas sem vida sem cor
Não aguento esse silêncio, essa educação
Não quero não
Quero poder subir pular gritar
Quero correr
Sorrir falar
Palavrão
Ou um não
Eu quero ar
Só um suspiro
Uma canção
Quero comunicação
A minha educação
A sua não.
Quero dançar livre
Quando quiser
E beber o sabor de ser mulher
Andar na corda bamba até o equilíbrio chegar
Saber que dependeu de mim aquele lugar
Crescer.
Até virar gigante… Tocar o céu
Tirar todos os sonhos do papel
Subir no palco da vida
Sem pedir aplausos
Mas respeitar o respeito
Conquistar o direito
E olhar os olhos de quem tanto amei.
E sentir que nenhuma mágoa eu levei
Viver por inteiro com a casa no mundo
E saber que tudo valeu cada segundo.
Assim… Com as asas no ar…
Assim. Como o passarinho.

O que é, o que é?
Não custa nada, só faz bem, é de graça, não tem porquê economizar.
Não gasta, não envelhece e nem suja.
Quanto mais se dá, mais se tem.
E não é preciso muito esforço para tê-lo.
Basta dar, que ele volta.
Basta se abrir para ele, que ele vem até você.
Ele não é ingrato, ele não é mesquinho, ele não economiza.
Chega de migalhas!
Ele vem quentinho e recheado.
Ele é gostoso e faz bem.
Ele é bom, ele quer o bem.
Ele é puro, ele não necessita de nada.
Só dele mesmo.
Ele é auto-suficiente.
Ele não precisa de justificativa, nem de razão.
Ele é.
Pura e simplesmente.
E essa é a graça toda.
Ele ser de graça.
Não pede troco nem promissória.
Ele é inteiro e completo.
Tudo que ele precisa é de um espaço.
De um peito aberto.
De uma chance para acontecer.
Ele só precisa das portas abertas.
E mais nada.
Ele… É o amor!
O Papel da Imprensa
Imprensa e Democracia estão intimamente associadas. Este é o chavão dos jornalistas. Afinal, a própria Constituição garante a livre expressão da atividade de comunicação. Após a abertura política no Brasil, jamais se questionou o papel da imprensa no país. Ela não permite o seu questionamento. Quando se tenta, afirma-se que questionar a imprensa é como questionar a democracia, um ato de censura.
Porém, desde que a Constituição Cidadã foi promulgada há mais de 20 anos, inúmeros problemas sociais que deveriam ter sido resolvidos há muito tempo ainda não o foram. Pobreza, desigualdades regionais e violência, apenas para citar alguns poucos. Logo, ou a Democracia não funciona ou a imprensa não funciona (ou ambos). Quem são os responsáveis pelo insucesso (fracasso)? A imprensa diz que são os políticos, responsáveis pela gestão pública no país.
Assim, questiono: qual é o papel da imprensa?
Como instrumento da democracia, a imprensa tem o papel de informar à sociedade o que ocorre no país.
Mas como uma empresa privada, seu objetivo é o lucro através da venda de informação para quem a compra.
Logo, a imprensa é eficiente apenas economicamente, pois consegue lucrar e o seu business se sustenta ao longo do tempo. Caso contrário, já teria falido e fechado as portas. Já como instrumento da democracia, ela não tem sido eficiente, pois os mesmos problemas sociais persistem há mais de 20 anos.
Não se consegue trazer à opinião pública informações de modo a pressionar a sociedade brasileira a cobrar as mudanças esperadas. Mas quem sempre comprou informação continua comprando. Parece satisfeito com o produto que compra. Parece satisfeito com a sociedade em que vive.

Só confio no livro
Não confio no que me dizem. Só no que leio. Estar escrito pra mim é uma verdade que supre qualquer desconfiança barata. Escrever é uma responsabilidade e uma pressão que os fracos não aguentam. Por isso, não tenho dúvidas quanto à veracidade de algum escrito. Exceto os malucos, daqueles que rasgam dinheiro, não vejo como uma pessoa pode atribuir a si uma função que não seja capaz de desempenhá-la, e a troco de nada, pelo simples fato de exercer a milenar arte da escrita. Se eu escrever alguma coisa bêbado, no dia seguinte eu retifico se me convier, ao contrário do que acontece nas mesas de bar onde proferimos expressões destruidoras de lares. Se eu escrever e ficar ruim, eu apago e escrevo novamente. Impossível fazer isso com a fala. Pra escrever eu tenho tempo pra pensar, eu tenho fontes pra procurar,eu tenho momentos de inspiração e fraqueza. Na dicção eu simplesmente me aproveito da prerrogativa de nascer com o dom da fala. Para falar eu posso me valer de sinais e gestos, e não preciso, além de tudo, me preocupar com pontuações, acentos e outras questões gramaticais. Na escrita eu me envolvo em um compromisso que custará a minha reputação, se não sair da forma que eu pretendo. Muito mais difícil, se fazer entender pelo texto, mas quando isso acontece, não tenho dúvidas que a recompensa é maior, é um prazer. O livro sempre é melhor que o filme. O livro sempre é melhor do que a aula. O livro move o país. O livro pode ser lido a qualquer momento, e desde sempre. Imagina como deveria ser a voz de Machado de Assis. O livro é silencioso e não atrapalha quem não gosta da sua leitura. É um instrument conveniente que te torna mais forte. Há quem, igual a mim, prefira malhar o cérebro do que o braço ou o abdome. O livro te traz benefícios que poderão ser usados para sempre. Assim, acho que consigo justificar minha devoção pelo texto, pelo livro, pela escrita e formas de comunicações através de símbolos. Tenho a pretensão de muitos: um dia conseguir me eternizar com algum livro interessante, e poderei, então, ser lembrado daqui a seis, sete gerações. Por enquanto, vou apenas exercitando minha limitada capacidade de escrever neste aconchegante blog.
Li uma crônica
por Luiz Pedro
Uma crônica bonita, bem escrita. Não era sobre verões vividos, sutilezas bucólicas, muito menos de languidas moças. Na verdade, pouco importa entrar em detalhes. Mas tinha a capacidade de, a cada palavra, fincar suas vírgulas em minhas retinas. Prendeu minha atenção. Pude ler ininterruptamente, com o prazer de continuar calmamente após cada período pontuado.
Impressionava o vigor constante que o autor imprimiu ao texto. Frases se alinhando com fluidez e veemência. Como um homem nadando no mar: acima da arrebentação, em braçadas lentas, mas traçando o seu caminho nas ondas com uma firmeza irrefutável. E me solidarizei com o escritor, em sua silenciosa missão de desbravar a folha em branco. Resolvi acompanhá-lo, tal qual um torcedor acompanha o nadador em seu recluso encargo de pavimentar os altos e baixos do oceano.
Não me decepcionei. Cheguei ao final com a satisfação de uma vitória, como o homem no mar, que toca os pés na areia em maré rasa. A crônica tinha um desfecho esperado, mas ainda assim sua reação provocada era de estranhamento. Só que um estranhamento de admiração, pela beleza que um final previsível ainda era capaz de desvendar. E então, tudo vira uma inquietação injustificável.
Fecho o livro, estico o corpo na poltrona, cerro os olhos para não deixar escapar aquelas imagens tão evidentes. Desperto e ergo-me. Arrastando os chinelos, caminho pausadamente em direção à cozinha. Encho um copo d’água e bebo com longos goles, desejando que assim me fosse permitido mais tempo para entender o que fazer com tal inquietação. Não há como guardá-la, já que tomaria muito espaço em meio ao meu arquivo já entulhado de desassossegos mundanos. De súbito, substituo os longos goles por longos e firmes passos de volta ao meu quarto. Sento-me em frente ao computador, abro o editor de textos.
E escrevo esta crônica.
De volta à natureza humana
A fidelidade é um assunto permeado de tabus e ideais de moral que, é bem verdade, podem contaminar qualquer conclusão teoricamente imparcial quando o que está em jogo é a possibilidade de traição. Sempre que me deparo com a mais inocente consideração a respeito dos relacionamentos modernos e a relativização da fidelidade, e as causas que acabam por conduzir a isso, procuro mergulhar numa reflexão livre de qualquer preconceito para conseguir entender minimamente esse – novo? – universo. Afinal, a moral doutrinada desde os primeiros anos de vida logo nos mostra que a atitude mais leal a ser tomada quando sentimos, além da vontade, a necessidade de estar com outra pessoa que não aquela com a qual estamos, é, simplesmente, não mentir. É abrir o jogo, cartas na mesa; é se expor mesmo, dar a cara a tapa, se sujeitar a repreensões pelo fato de ter se deixado levar por um qualquer…por óbvio, isso não é confortável. Ao contrário, o mais reconfortante é evitar o desgaste de um embate que pode nem mesmo vir a existir, bastando para isso uma pequena quantia de boas mentiras e alguma sorte, o suficiente para viver uma ou outra aventura fora de um relacionamento estável. Falta coragem para deixar para trás a certeza e investir na dúvida, o que, convenhamos, é natural a todo ser humano. Mas será que a covardia pode superar a lealdade quando o assunto é traição? O amor pode não ser eterno; a paixão, definitivamente não é. Não é apenas por amor que um relacionamento sobrevive. Ele ultrapassa essa barreira, e envolve sentimentos bem mais profundos e muito menos egoístas do que aquele que achamos ser amor. No entanto, a maioria das pessoas, sem perceber, sacrifica tudo isso em prol de um prazer muitas vezes momentâneo e vazio, que na hora, muitas vezes, não parece momentâneo e vazio. Mas que quase sempre é, e apesar de fingirmos que ignoramos isso, sabemos muito bem no que estamos nos envolvendo. Porém, temos medo dos efeitos das nossas próprias decisões, que alguns colocam em prática de maneira oculta justamente com o intuito de evitar os estragos e afastar a frustração de perceber que não, não são as fortalezas morais que os ensinaram a ser; e que não, não se importam com o que os outros, com quem tem uma vida em comum, podem vir a sentir. E que são humanos, e, quase sempre, covardes. E é isso que, cedo ou tarde, parciais ou não, acabamos por concluir.
Fogo ao Falaz
Grito, sim! Motivos já não me pecam!
Cólera presa em olhos de rubor!
Abomino quem, na vida, é ator
E os que n’outros corações defecam!
Roda, Mundo! Roda, pois que não secam
As dores da mentira em esplendor
Que vertem no meu rosto com sabor
De justiça! Vida e rancor não brecam!
Deixai, Senhor, fluir todo meu ódio,
Posto que, à frente, brindarei no pódio
Reservado aos homens de Palavra!
Lúcifer, permitas que injustos entrem
Em teu reino de Trevas, e os que mentem,
Tostes-lhes os ossos em rica lava!
Aos dezesseis
Ela acordou, foi para a escola, entrou na sala de aula, sentou. Olhava o quadro, a matéria estava correndo. O caderno ainda na mochila, nada na mesa a não ser suas mãos. Olhava os lados, não agüentava os mesmos rostos, as mesmas vozes, nenhum amigo. Nenhum objetivo, nenhuma atenção especial, todos iguais. Começou a dedilhar na mesa, queria fazer alguma coisa, uma música, um poema, uma mágica que a tirasse de lá. Olhou o teto, as paredes, um pequeno crucifixo em cima do quadro negro. Fixou os olhos num ponto. Será que ele vem? Será que vou gostar? Isso já perdeu a graça! O tempo é feroz… Come tudo que vê, não deixa nada… Será? Eram idéias que a cercavam, pensamentos que a tomavam de tudo a mais que estava ali. Resolveu pegar o caderno. Passou o dia todo assim. Disfarçava sorrisos ou entrava em assuntos bobos para que a hora chegasse mais depressa. Acabou! Hora de ir embora, hora de voltar pra casa. Mas, hoje, ela sabia que não iria voltar. Não sem antes encontrá-lo e perder seus medos.
Foi descendo a rua. Sabia que o encontraria no meio do caminho. E se não gostar? E se ele virou um chato, se ele estiver feio? E se for alto demais, sensível demais ou cansativo demais? E se quiser ir embora e não souber como? E se ele quiser beijá-la?!
Não, isso ele não iria fazer… Querer não é fazer. Tranqüilizou-se. Por instantes ficou ansiosa para encontrá-lo logo. E se ele não estiver no meio do caminho? Continuou a andar. Seu coração estava disparado, frio na barriga, apertava as alças da mochila, andava em passos retos e pequenos. Que maluquice! Depois de tanto tempo! Parecia coisa de filme, novela mexicana em “O reencontro”. Ai, quanta bobeira! Continuou a andar. Aquele era o tipo de coisa que não acontecia todo dia, ou que simplesmente não acontecia. Só em filme bem piegas. Ela não queria ser piegas. Riu de si mesma, olhando para baixo, balançando a cabeça. Levantou os olhos e viu… Abaixou rápido de novo! Que criancice! Levantou os olhos e sorriu, continuou a andar até onde ele estava. Parado, encostado no muro da rua, bem no meio do caminho, esperando por ela, com um sorriso, olhando pra baixo, rindo de si mesmo, tentando se distrair.
Onde eu estava com a cabeça?!
Quando resolvi ir para a faculdade, em plena segunda-feira?!
Quando achei melhor assistir aula à noite na terça-feira?!
Quando enchi a cara, numa habitual quarta-feira?!
Quando, quinta, não reservei tempo nem para respirar?!
Quando, sexta, fiquei em casa vendo TV?!
Onde estava com a cabeça no fim de semana, que quando pisquei os olhos, já era segunda de novo?!
Onde estava com a cabeça quando nasci, quando minha mãe me concebeu e me deixou estar aqui, viva, perdendo a cabeça por esses dias?!
Como consigo fazer com que minha cabeça se perca tanto se ela está no mesmo lugar em que sempre esteve?!
Como o fixo pode ser instável?!
Eu não sei.
Não sei nem o que estou escrevendo.
Pra falar a verdade, pouca coisa sei.
E isso me deixa desesperada.
Então, eu perco a cabeça para ver se, um dia, alguém irá achá-la.
Numa folha, num movimento, num texto, ou, simplesmente, numa esquina de bar qualquer.
Eu queria ser um pássaro.
Porque, assim, minha cabeça voaria por onde ela quisesse.
Com as próprias asas.
Mas nasci humana, então tenho que, diariamente, conviver com essa frustração de querer voar, mas não conseguir levantar vôo.
De ter pernas no lugar de asas.
De querer achar uma cabeça que nunca se perdeu.
Ser humano, tão inteligente, mas tão burro.
Ser paradoxal.
Começa no princípio da vida.
Que besteira de geração!
Que besteira de tradição!
Que besteira de genética!
Pra que gerar uma vida que morre a cada instante?!
Quanto mais vida, menos vida.
Passa hora, passa dia.
E o que fazemos?
Pra que (m) fazemos?
Que vida é essa em que não se pode, nem ao menos, ser quem é , fazer o que se quer, nesse lapso de vida que ainda nos resta?!
Agora, menos ainda…
E ainda menos…
Acabou.
Passou.
Viver.
Morrer.
Sempre paradoxo.
Sempre contraditório.
Sempre opostos.
Nunca sempre.
Fico muda, calada.
Quero falar, não consigo.
Quero dançar, não tem palco.
Quero cantar, não tem microfone.
Quero amar, não tenho coragem.
Esse silêncio todo me angustia, me leva à loucura, me revolta.
Me dá uma vontade de sair gritando, de falar nesse silencioso ônibus.
Ouço todos os dias o que sonho, mas a estrada que pego me leva para o caminho da razão, e não da emoção.
Eu gosto dos dois.
Pra mim, os dois são essenciais, imprescindíveis e insubstituíveis.
Completam-se, necessitam um do outro, se ajudam.
Mas minhas veias pedem coração.
Minhas artérias pulsam no ritmo do estímulo carnal.
Sou mais emoção do que razão.
Necessito ser.
Mesmo se escondo, não sai daqui.
Vive aqui.
Bate aqui.
E morre aqui.
É tudo tão simples, mas tão complexo.
Na prática, a teoria é outra.
No fundo, é tudo muito claro.
Para o subconsciente, tudo é cabal.
Mas a consciência quer sempre mascarar, quer sempre confundir, distorcer essa realidade tão bem traçada, que vive dentro de cada ser.
Humano, ou não.
Pra que ser humano e matar a si mesmo?
Na guerra, na escola, no trabalho ou na vida, mata e morre
SEMPRE – que se reprime.
- Que se faz acreditar numa mentira.
- Que se deixa de dar amor.
- Que se cobra perfeição.
- Que se chateia.
- Que se quer mais do que se consegue ter.
- Que se insatisfaz.
- Que não se contenta.
- Que se humilha.
- Que se inferioriza.
- Que se acha melhor.
- Que tem certeza que é melhor.
- Que tem certeza.
- Que tem, e não é.
- Que sempre.
- Sempre.
Vida, Liberdade e Sociedade: a questão do aborto
Cedo ou tarde, muitas pessoas têm filhos. Algumas delas passam boa parte da vida planejando como será sua vida a partir de então. Com apenas 10 anos de idade as meninas já sabem quantos eles serão, o sexo de cada um e o nome deles. Os homens só querem escolher o time que eles vão torcer e não escondem o desejo de que sejam “pegadores” na escola, mesmo que o pai não tenha sido propriamente um. E também esperam que a mulher não ponha um nome esdrúxulo em seus filhos. Pedro Thiago, por exemplo.
Ter filhos é uma necessidade biológica do ser humano, bem como a nutrição. A primeira necessidade é a de perpetuação da espécie enquanto a segunda indica a necessidade dos indivíduos prolongarem sua existência. E a gravidez é um dos principais indicativos de que a perpetuação da espécie humana está para acontecer.
Quando a gravidez é proposital, não há maiores conseqüências, pois a gravidez foi fruto do planejamento familiar. Houve um preparo psicológico da mãe/pai para poder receber um filho e também o preparo de uma estrutura que permita garantir à criança boas condições de crescimento e desenvolvimento.
Entretanto, a gravidez pode ocorrer acidentalmente, e não da forma como foi desejada. Qual a diferença? Se quando a gravidez é planejada a criança tem a melhor estrutura possível para o seu crescimento, quando a gravidez é acidental a sua estrutura não será a melhor possível. Assim, a qualidade de vida da criança não será a desejada pela mãe.
E quais as conseqüências nesse caso? Elas podem ser muito pequenas, quase imperceptíveis. Mas isso apenas quando as condições sócio-econômicas da família forem favoráveis. Caso contrário, pode ocorrer o amadurecimento precoce de uma mãe jovem, até mesmo com o seu abandono escolar, um grande impacto financeiro para a família e baixa assistência à criança recém-nascida.
Em alguns casos, tais conseqüências podem afetar o desenvolvimento da criança e o problema, que antes era familiar, tornar-se social. Imagine o caso de uma mãe cujo filho não foi reconhecido pelo seu pai. Então, o impacto financeiro é tamanho que essa mãe se vê forçada a abandonar seus estudos para sustentar seu filho. Ainda há o agravamento de que sem escolaridade, o seu salário é menor. Seu filho cresce sem a companhia do pai, que não o reconheceu, e da mãe, que trabalha para poder sustentar a família. Se o futuro dessa criança for a marginalidade, o problema deixa de ser familiar e passa a ser social. É claro que o exemplo não é a regra geral, mas é um caso bastante freqüente na atualidade.
Assim, a interrupção da gravidez passa a ser uma possibilidade dentro das opções da mãe. Não pela sua preocupação social, mas também pela sua preocupação com as condições de vida dada ao seu filho, por vezes, bastante diferente das de seus sonhos de infância. Porém, muitas vezes se questiona o direito da criança à vida, já que ela não pode se defender. Ainda, desde os tempos de Freud já se observava que a interrupção pode causar problemas psicológicos à mãe.
Certamente, até antes do ato sexual não há vida. Certamente também, há vida após o parto da criança. Logo, pode-se concluir que a vida começa em algum momento entre o ato sexual e o parto. Assim, resta a questão: quando exatamente começa a vida?
Há quem diga que seja no momento da fecundação. Mas o fato de haver fecundação não quer dizer que a mulher, autônoma sobre o seu corpo, está preparada para ser mãe. Logo, não há preparo para haver vida. Assim, a definição de vida pode ser também psicológica, além de biológica. Se a mãe não estiver preparada para ser mãe e as mudanças sobre o seu corpo comuns na gravidez não a convenceram do contrário, a interrupção, sim, pode ser uma opção real. Um bem para ela, seu filho e para a sociedade.
Nada como uma japonesa de óculos…
Eu podia jurar que não conseguiria ser capaz de trair minha mulher, e olha que me mantive firme nesta crença por muitos anos. Foram bons tempos em que se evocavam princípios basilares de um caráter exemplar. Era a mulher mais perfeita de todas, pelo menos em minha opinião. Era japonesa, usava óculos, bochechuda, com os pés muito bem feitos, vinte e poucos anos, apesar de ser quase fechado, seu olhar era fulminante e instigava minha obsoleta existência monogâmica. Por muitos dias eu me pus a pensar o que me fazia sucumbir a este charme exótico (este foi o adjetivo que meus amigos utilizaram para resumir sua feiúra – nada como ter grandes amigos para te apoiar independente do tamanho e do momento da sua aventura). Cheguei a conclusão de que o desafio que me impulsionava era o simples prazer da traição, banditismo puro. Fiquei, por muitos anos, retraído num mundo melancólico, cuja fidelidade se tornou o ponto nevrálgico da minha agonia. Já não sabia explicar o porquê de trocar a minha esposa de traços primorosos por uma oriental uns oito quilos acima do normal, e a verdade é que, apesar de tentar forçosamente, não consigo até hoje achar a plausibilidade desta conduta adúltera. Isto seria só mais um deslize que cometi durante anos de matrimônio. Talvez o pior, por ter traído não somente a minha parceira afetiva-sexual, mas também por ter deixado me enganar que eu estava imune às tentações das garotas que me circundavam. Ocorre que o pior não foi a traição, e sim a vontade desembestada que me deu de conhecer novas pessoas durante a tarde, e ao calar da noite chegar com o sorriso mais amarelo possível para dar um beijo de “eu te amo” na minha mulher. O que foi um desvio de conduta eventual acabou se tornando um vício. E da japonesa bochechuda até a ruiva australiana, foram muitas que desvirtuaram minha lealdade abstrata. Eu que era uma autoridade respeitada por mim mesmo, já me sentia um filho da puta da pior qualidade. Mas era maior do que eu. Já disse que era um vício. Se não conseguia sentir a felicidade plena fingindo uma fidelidade cretina e medíocre, muito menos, me confortava saber que enquanto uma pessoa me esperava em casa eu fingia reuniões para comer as mais diferentes espécies de mulher que me apareciam bêbada e drogada em qualquer festa. Era uma sensação que passou a me corroer e confundir minha sanidade conjugal. No final das contas, como não poderia ser diferente, cabeças rolaram. Figurativamente, é claro. Aos poucos foi ficando cada vez mais claro meu desinteresse pelo tesão do casamento. Todas as mentiras vieram à tona. O matrimônio terminou e com ele o fetiche pela traição, a vontade de substituir o bom pelo mau sem justificativa razoável.Foi então que me perguntei: Valeu a pena ter feito tudo isso? A resposta é inevitavelmente positiva. Ao contrário do que pode pretender a sociedade, o ser humano é obrigatoriamente poligâmico e carente, e se um dia quiser tentar a sorte, se limitando ao acaso do casamento, terminará de uma forma ou de outra aprisionado em sentimentos negativos. Nosso instinto não nos deixa mentir.
Está tudo acabado, foi o que ela me disse. E eu acho justo que seja assim.
Verde Sacudido
por Luiz Pedro
Para Gabriela.
Lá estava eu, sonhando novamente com meus seis anos, correndo pelo píer de tábuas corridas e tostadas pelo sol de verão. Corria saltitando para não queimar os pés e mergulhava naquele verde mar de Angra. Aquele verde manchado por pedras submersas me amedrontava terrivelmente, tanto por sua tonalidade sombria quanto pelo pavor do desconhecido. A água distorcia os rochedos profundos, tornando-os ainda maiores. Era o esconderijo perfeito para o monstro que me espreitava. Mas pulava, pensando que se o fizesse com muita força, o monstro se assustaria. Corria saltitando, queria uma pirueta bem impulsionada para sacudir vorazmente aquele verde mar de Angra. Mal sabia que o verde, outrora sacudido por mergulhos infantis, viria a revirar meus sentimentos adultos após quinze anos.
Demoro a perceber que meu sono é interrompido por sinos estridentes: o alarme do meu celular reclama que já passa das seis da manhã. Chafurdo no travesseiro por um instante e levanto-me. Tomo um banho semidesperto e enfio umas roupas quaisquer. Saio de casa apressado, apesar da meia hora de folga. Ponho os pés ainda cambaleantes na rua também sonolenta e encosto num poste, ao lado do ponto de ônibus.
A viagem para a faculdade é um dos momentos mais agradáveis da manhã. Aproveito para contemplar o meu Rio de Janeiro em seus primeiros bocejos. O trajeto traz a praia de Botafogo, com o sol ainda desvencilhando-se de Niterói. Na seqüência, tenho as árvores do Aterro do Flamengo. Tenho até uma predileta: copa esparsa, densa, beira-mar, fazendo pose manhosa e dobrando seus galhos em cartão-postal.
Chegando ao Centro, desço em frente ao Panteão de Duque de Caxias. Atravesso as tantas Avenidas Presidente Vargas, prestando atenção nos ainda poucos carros e na Candelária que reflete uma quase luz própria. Cruzar o Campo de Santana é entrar num novo mundo. Ou melhor, num mundo tão antigo que não seria absurdo imaginá-lo pré-histórico. O sol ainda baixo, cortando os galhos das árvores. Árvores enormes, onde sua grandeza revela séculos de lento e paciente crescimento. O silêncio precede o estorvo.
Deixo o Campo de Santana. Esquerda, um bar; direita, a porta da faculdade, já com carros tomando toda sua entrada. Olho para ambos, busco qualquer porto. Nada. Finjo estar focado nos passos medidos, ando depressa como que atrasado. Não desvio o olhar para qualquer lado. Entro em sala, aquele amontoado de pessoas e cadeiras. Mais do primeiro do que do último. Outras pessoas entrando, se esgueirando pelo pouco chão que resta. Cada um trazendo sua cadeira na cabeça, como que exilados trazendo suas vidas nas costas. O calor parece não querer deixar a sala, quer testemunhar. O suor brota, qualquer movimento torna-se incômodo.
Aos poucos, sem aparente motivo, o tempo transcorre como que sem pressa. Busco meu relógio, o ponteiro dos segundos se ressente da minha desconfiança e trava. Ergo a cabeça. Demoro a perceber que aquela visão não tinha nada familiar com qualquer momento que eu já tivesse vivido. Pode parecer piegas, mas acho que os sentimentos mais fortes não se diferenciam em várias nuances. Pode parecer piegas, mas é a mulher mais bela que já passou pelos meus olhos. Não consigo dizer que era um anjo, nem que eu me sentia no paraíso, menos ainda que ela era a presença divina na minha vida. Muito pelo contrário. Era tão linda que me amedrontou, feito o monstro do mar. Não tive a impressão de ser uma presença divina, tive a impressão de ser uma presença diabólica. Aquela mulher havia sido feita num ateliê do inferno, onde todos os detalhes foram cuidadosamente pensados e moldados apenas para me atormentar, para me tentar. Ou talvez aquela tentação fosse o próprio demônio encarnado. Sim, por tamanha perfeição, só poderia ser o próprio. Ele descobriu até o que eu não sabia gostar, até o que eu desconhecia me ser tentador.
Alta, mas não muito. Alta o suficiente para se destacar das divinas. Cabelos pretos, lisos, levemente ondulados nas pontas. Ali, naqueles malignos negros, era por onde o espírito do mal deixava transparecer sua sombra. Talvez também nos olhos, mas não pude olhá-los fixamente. Acredito que também negros. Mas certamente olhar diretamente naqueles olhos – mesmo que por um breve instante – seria a entrada para a eternidade nas profundezas. Não me arrisquei. Deveria. Valeria o risco.
Dando o contraste de precisão artesanal, a pele alva me desesperava. Desesperava pelo quão tentador era desejar saber a textura de cada entrelaçado de sua tez. Era como estar numa exposição, onde haveria uma jóia de inestimável valor. Entre a jóia e a mão, nenhuma separação, barreira, impedimento, nada. Você pode tocar, mas não deve. Quais seriam as conseqüências de tal ousadia? Deveria. Valeria o risco.
Entretanto, tais descrições físicas não valeriam o rótulo de tentação diabólica se não houvesse aquele vestido verde. Ali, achei o elo com a realidade. Com o verde no qual eu me enfiava, temendo o monstro da minha cabeça. Era a assinatura de que não poderia ser uma manifestação divina. Era o verde em que eu mergulhava, sabendo que o monstro estaria a minha espera.
Essa visão durou pouco. Durou o tempo suficiente para não respirar, mas não sentir necessidade de fazê-lo. Logo ela se foi, deixando apenas o rastro da mudança. De que nada seria como antes, de que minha vida se dividia agora em duas. Uma nova parte de mim estava nascendo ali, naquele momento.
E então, tudo ficou claro. As rugas da minha fronte dissiparam-se. A vida se debatia à minha frente, como um peixe fisgado já no chão do barco. Não havia mais volta. Tudo se chocava e desfalecia. Eram ondas desencontradas no sacudido mar de Angra.
Morango com champanhe
A situação, vista de um modo geral, era um dos clichês mais antigos de que se tem notícia. Relacionamentos ocultos entre pessoas de diferentes níveis de hierarquia no ambiente de trabalho, afinal, já são corriqueiros a ponto de não terem a capacidade de permanecer por muito tempo no elenco geral de fofocas, qualquer que seja o lugar de que estejamos falando.
Ele, no entanto, se negava a entender aquilo como mais um exemplo de passatempo montado durante o expediente, apesar de tudo para isso indicar. Vamos e venhamos, ele era mais novo, mais inexperiente; ela, por sua vez, era uma mulher já na casa dos 30 anos, quase 40, muito bem-sucedida e casada há pouco menos de uma década – e assim parecia muito feliz. Ah, e linda. Mas não fisicamente; longe disso, sua aparência dificilmente era assunto nas mesas de chopp, nos dias em que os homens se reuniam para assistir os jogos do Flamengo no botequim à esquina do prédio da empresa e falar dos atributos das mulheres. Ela era linda no conjunto, e como só ele enxergava todo o conjunto, era o único a inclinar o pescoço quando ela passava, perfumada e impecavelmente alinhada em um tailleur feito sob encomenda.
Em que ponto, então, essa história se distanciava do clichê, qual a característica que a tornava diferente? Ele gostava dela. Às vezes, chegava até mesmo à conclusão de que a amava, uma vez que não sabia muito bem como era isso, pois seus infantis namoros iniciavam-se na madrugada bêbada de uma boate e não chegavam a durar mais de um semestre. Todas as vezes que seu telefone tocava e ele era chamado à sala dela, o caminho era uma eternidade, enquanto ele sentia algo próximo de uma mistura de nervosismo, ansiedade, inquietação, animação e expectativa. E, ao entrar no gabinete, permeado por dezenas de livros distribuídos alfabeticamente em uma estante de madeira escura, minuciosamente organizado, exceto pela muda de roupa pendurada atrás da porta, e sempre com um leve aroma de morango com champanhe no ar, ele só era capaz de reparar naquela figura poderosa que tinha os olhos fixos na tela do laptop. Para sua decepção, a sequência posterior era sempre a mesma; ele entrava, recebia uma pilha de papéis para analisar e algumas instruções sobre o que fazer com eles, saía da sala ainda transtornado pelo cheiro de morango com champanhe que insistia em permanecer nas suas narinas ao longo de todo o dia, executava as tarefas, entregava o resultado final e recebia um “muito obrigada” e, algumas vezes, um seco elogio. Todas essas etapas para ele se resumiam em um período no qual incessantemente só pensava nela e naquele cheiro que não parava de sentir.
E assim se passaram alguns anos, enquanto ela ficava cada vez mais bem-sucedida e ele se revoltava com a crescente covardia que o impedia de tomar uma atitude que o fizesse ter aquela mulher para si algum dia. Se considerava um fraco, um moleque, incapaz de arriscar ouvir uma negativa após importunar uma mulher tão admirável com um assunto de tamanha insignificância como aquela paixão platonicamente desenvolvida.
Não conseguindo pensar em outra coisa senão aquele aroma que lhe perseguia, decidiu ir tomar um vinho em um restaurante do bairro depois do expediente e, esvaziada uma garrafa do malbec chileno que havia escolhido sem qualquer critério, resolveu tomar uma atitude definitiva. Era um homem, afinal de contas, e deveria agir como tal. Pagou a conta, vestiu o paletó, lavou o rosto e foi andando a passos largos até o edifício onde ficava a empresa; àquela hora, ela ainda deveria estar trabalhando, como de costume. Passou pela portaria como um furacão, acordando o sonolento e assustado funcionário da guarita, entrou no elevador parado no térreo e apertou o botão que indicava o vigésimo primeiro andar. A única luz ainda acesa iluminava aquela sala que ele bem conhecia; não parou, abriu a porta. Fechou.
Ela, com a camisa de linho parcialmente aberta e o penteado desfeito, sentada sobre a mesa antes organizada, agarrada a um de seus companheiros de trabalho, presença certa nos dias de transmissão dos jogos do Flamengo no botequim e um dos maiores enaltecedores das formas físicas de todas as demais mulheres da empresa. A última coisa que conseguiu identificar foi um delicado pacote rosa aberto sobre a mesa, caído, com um hidratante corporal de morango com champanhe já quase ao chão.
Que Missa do Galo, que nada!
Pude sim entender a conversação que tive com uma coroa, em 2004, quando eu tinha dezessete anos e ela, trinta. Maria era a tia do Thiago, meu amigo de infância, e, também, a dona da casa onde nós íamos passar os próximos quatro dias, em Tiradentes. Maria, ou D. Maria, como inicialmente a chamei, transmitia a límpida impressão de uma santa, posto que cedera a casa e seus aposentos, sem parcimônia, a mim e a Thiago, pondo-se sempre à disposição e demonstrando um alto grau de solicitude. Me senti envergonhado logo à primeira vista: assim que cheguei, Maria se prontificou a preparar-nos um lanche e, após a refeição e lhe desejar uma boa noite, encontrei meu quarto de hóspede divinamente arrumado com um bilhete contendo os seguintes dizeres: “Meu quarto é o último do corredor. Qualquer coisa que precisar, não hesite em bater à porta. Maria.”.
O evento em questão seria o Axé Tiradentes, onde aconteceriam diversos shows de axé (micareta, sabe?) no centro da cidade histórica de Minas Gerais. As atividades iniciar-se-iam naquela mesma noite, contando com a presença de uma banda, até o momento desconhecida, chamada Babado Novo. A previsão para o início do show era à meia-noite e eu e Thiago já estávamos contando as horas: lembro que, logo após ler o bilhete de Maria, olhei para o relógio e apertei duas vezes o botão da esquerda para checar o cronômetro regressivo e ver que só faltavam duas horas, quarenta e três minutos e vinte, dezenove, dezoito segundos. Deixei minha mala num canto, encostei a porta e larguei-me sobre a macia cama do quarto de hospédes. E já estava na terceira música do show, todos indo ao delírio ao som do axé. Thiago já estava sem camisa, se confundindo com uma menina de uns poucos anos, talvez quinze. Eu pulava e junto vinha todo o saculejo da massa formada por pretos, pardos, mulatos, brancos, gays, lésbicas e todos as outras opções sexuais da modernidade. O palco estava meio distante, mas os telões não me deixavam escapar nenhum detalhe daquelas pernas grossas da cantora. A imagem ia subindo e a saia parecia encurtar. Disseram que ela já tinha parido dois, mas com aquela barriga era difícil de acreditar. A câmera subiu mais um pouco e deixou à vista a imagem de seios fartos, lindos. Agora, víamos o queixo e o rosto era reveleado. Num susto, percebo Maria com o microfone na mão e Thiago ao pé da cama me sacudindo pra me acordar.
- Acorda, maluco! Bora tomar um café pra agüentar a noite inteira! Troca de roupa logo, anda! Só não faça barulho, porque minha tia já tá dormindo.
Não tive como me levantar e não ficar com aquela visão da tia do Thiago na cabeça.
Ele fora descendo na frente, pude ouvir seus passos pelo ranger dos degraus. Olhei novamente o relógio e apertei o mesmo botão da esquerda, duas vezes: faltavam duas horas, trinta e quatro minutos e cinqüenta e cinco, cinqüenta e quatro, cinqüenta e três segundos. Não acreditava. Só tinham se passado oito minutos? Naquele instante passei a achar que era possível morrer de ansiedade. Abri minha mala e tirei de lá a roupa que eu já havia escolhido para a ocasião havia meses: uma bermuda jeans, minha cueca preta da sorte e meus tênis nike. A camisa era o abadá, obviamente. Mas eu não ia me vestir sem antes tomar um bom banho. Precisava, no entanto, de uma toalha. Thiago me dissera que não precisava levar nada que não fossem vestes ou material de higiene pessoal. Desci para chamá-lo, mas foi só descer alguns degraus que o avistei na porta de casa conversando com uma menina de uns poucos anos. Preferi não incomodá-lo:se bem conheço Thiago, era capaz de brigar comigo se eu atrapalhasse uma conversa dele com uma garota. Voltei pra minha cama e já sabia da única opção que me restara. E essa opção estava no último quarto do corredor. Caminhei até a porta do santuário de Maria (sim, santuário! Já não disse que era uma santa?) e ergui a mão à frente, pronto para dar leves batidas na madeira escura que me separava dela. Hesitei, porém. Eu sabia que ela dissera que não havia problema em bater à sua porta, mas achei abuso. Pensei no que fazer. Bom, ela não tinha ido se deitar há muito tempo. Resolvi bater bem de leve, mas antes ensaiei na parede ao lado. Foram duas batidas bem sutis e me vi pronto para a prova final. Cerrei os punhos, pus a mão à frente e eu estava quase dando socos no alvo rosto de Maria.
- Boa noite, Maria, eu disse, como quem fora apanhado em flagrante.
- Boa noite, Marcos. Você tá precisando de alguma coisa?
- É, eu ia chamar a senhora, mas pensei que talvez pudesse acordá-la e…
- Ah, Marcos! Que bobagem! Achei que você entenderia a minha letra. E eu não sou nenhuma senhora! O que você quer de mim?
“Para falar a verdade, só um beijo de boa noite, por ora”, pensei eu.
- É que eu quero tomar um banho mas eu não tenho toalha. Será que você poderia me emprestar uma?
- Claro, claro! Como pude me esquecer? Venha. As toalhas ficam lá embaixo.
Fui seguindo Maria até a dispensa. Eu não havia reparado em sua roupa até o momento: ela vestia uma camisola amarela bem simples, parecendo um vestido de pano. Estava muito bonita. Media algo em torno de 1,60m, 1,65m e seu peso era bastante proporcional à sua altura; tinha cabelos bem longos e ondulados que quase lhe tocavam a cintura; seus olhos eram compridos e castanhos; os lábios grossos e bem desenhados. Era muito bonita.
- Esta serve? Ou você não gosta da cor laranja?
- Tá ótima, Maria. Obrigado.
- Você aceita um café?
- Seu sobrinho tinha me oferecido isso, mas se eu for depender dele, durmo esperando.
Lá foi Maria pra cozinha. Enquanto fazia o café, me perguntava se eu costumava viajar, se meus pais eram divorciados, se eu gostava de ler…
-Atualmente, tô lendo São Bernardo. Eu gosto muito de literatura nacional, sabe?
- Que legal! Eu também gosto. Tô lendo O Cortiço, ela respondeu.
- Eu já li. Muito maneiro.
Durante os dez minutos de conversa que se sucederam, discutimos alguns clássicos literários e também estilos musicais. Descobri que Maria era muito eclética. Seu gosto ia de blues a samba. Agora, ela já havia servido o café e estava de pé, do lado oposto da mesa, os cotovelos apoiados sobre a superfície desta e o rosto enfiado entre as mãos espalmadas, me contemplando a três palmos de distância.
- Tá gostoso?
- Uma delícia, respondi a ela, sinceramente. Pode ir deitar se quiser, Maria. Desculpa todo esse incômodo a essa hora.
- Incômodo nenhum! Fico todos os dias tão sozinha aqui nessa casa e quando tenho companhia não posso desfrutar? Que idéia!
Fiquei envergonhado e surpreso. Eu já não era um mero hóspede: Maria me elevara à posição de companhia.
Passados dois minutos de um silêncio que só era quebrado periodicamente com o barulho da colher batendo na xícara, Thiago despediu-se da garota, entrou na sala e me perguntou que horas eram.
- Dez e vinte, respondi.
- Vou tomar banho logo, então. Quero tirar uma soneca depois.
- Beleza.
Durante o diálogo breve entre eu e meu amigo, percebi que a santa não tirava os olhos de mim. Ao perceber isso, me senti poderoso e frágil ao mesmo tempo. Não me pergunte a razão.
- Tava ótimo, Maria. Muito obrigado.
- Se tem alguém aqui que precisa agradecer, esse alguém sou eu.
Maria estava tão próxima de mim que eu conseguia me ver nos grandes olhos dela. Ela era muito bonita. Certa hora, Maria passou a língua nos lábios para umedecê-los. Eu preferi não crer num ato sedutor. Deduzi que, como estava frio, sua boca deveria estar ressecada.
Continuamos conversando durante um bom tempo, sempre com modos e respeitando os limites ideológicos de cada um, até eu repetir a ação de apertar duas vezes o botão esquerdo do meu relógio e ver que faltavam apenas quarenta e dois minutos e quarenta e dois, quarenta e um, quarenta segundos.
Comecei a achar graça: agora, eu queria que o tempo passasse mais devagar. Eu estava gostando dos minutos gastos com a tia do Thiago. Ela parecia ter muita coisa interessante a me contar. Me encheu de histórias dizendo da vez que viajou pro Nordeste, de quando foi pra Moçambique, falando da época da juventude…Eram coisas divertidas de se ouvir. E o jeito como ela contava era muito excitante, quase como se revivesse os momentos passados. Ofereceu-me um vinho assim, de pronto. Não entendi nada. Mas não é porque não entendi que recusei: mal disse que sim e ela já fazia minha taça transbordar. Agora, depois de alguns pares de doses, falava com uma magia e uma desenvoltura impressionantes. Fora, aos poucos, abandonando seu aspecto imaculado e tornando-se mais humana, ao passo que ria, me dava tapas no ombro, chamava-me de “Marquinho”…vez ou outra ajeitava a manga da camisola que tendia a revelar-me sua nudez.
A conversa foi fluindo assim, divertida. Nós parecíamos grandes amigos que não se viam há tempos e estavam colocando a conversa em dia. Estava sentada na cadeira ao meu lado, com as mãos sobre a mesa, próximas às minhas. Eu já não me sentia tímido e a achava cada vez mais linda. E tinha a impressão que minha taça de vinho nunca esvaziava, por mais que eu bebesse. Olhei pro cronômetro, após apertar duas vezes o botão da esquerda e me surpreendi: faltavam treze minutos e trinta e um, trinta, vinte e nove segundos. Quando olhei para Maria para dizê-la que era melhor eu ir acordar Thiago, seu rosto estava a um palmo do meu, seus olhos inibindo-me novamente. Segundos de apreensão. O coração não sabia por onde iria sair. Eis que ela pergunta:
- O que você quer fazer agora? Acordar o Thiago?
Fico sem resposta.
- Hein, Marquinho?, ela insiste.
- Não é melhor?, respondo.
- Não. É melhor?
- Parece.
Sua respiração doce e com aroma de uva me desnorteia. Ela se aproxima. Eu bebi muito, eu acho. Preciso ter calma. Ela pode estar mais distante do que parece. Tudo muito rápido. Pisco e a imagino em cima do palco, dançando e apontando pra mim no meio da multidão. Abro os olhos, após alguns supostos segundos. Maria já não está mais lá. No lugar dela, Thiago me contempla ao pé da cama. Pergunto o que houve. Ele ri, constrangido.
- Você bebeu muito.
É… não sei se entendi realmente aquela conversação.
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